A desumanização do ser

Era um dia normal de trabalho, aparentemente tudo transcorria de acordo com a rotina. Às 8 horas bater cartão, conversas, processos, atendimentos e às 16 horas uma pausa para o café. 

Contudo, existia algo diferente naquele dia, percebi que a secretária não era a mesma de sempre, era nova no trabalho. Isso tirou a monotonia do ambiente, saímos do automático. Conhecer pessoas novas desperta em nós curiosidade sobre o que sonham, como vivem e o que pensam sobre o mundo – acho isso fascinante! Todos nos sentamos para aproveitar nossa pausa.

A pauta da conversa, entretanto, não foi agradável como de costume. A notícia recente nos jornais era de tal modo alarmante, mesmo que de certo modo habitual. Afinal, “só” era alguém que havia tirado a vida de outro alguém. Neste caso eram jovens estudantes e havia um vídeo do crime cometido pelos alunos. Saber de tudo isso e a conversa que se seguiu me fez pensar. 

Todos estavam por dentro do assunto, já haviam ouvido a notícia e ponderado suas opiniões. Eu estava de fora, é claro, aquilo ainda era novo para mim. Então se seguiu o que chamaria de método de resolução para tais atos, uma síntese das ideias dos participantes do café sobre esse e outros assassinatos, com uma única resolução: a morte do assassino. Ouvi isso e me questionei, mas essa pessoa não perderia a chance de redenção? Para minha infelicidade, meus pensamentos foram altos demais e se expressaram em palavras. Em seguida, um silêncio atônito. 

O silêncio foi quebrado por uma série de justificativas. Argumentei dizendo que a morte é uma pena excessivamente dura que exclui até mesmo a mínima chance de arrependimento. Será que eu teria a coragem de negar a possibilidade de redenção de alguém? Eu sei, o assunto é complexo. A conversa não desenvolveu muito a partir disso, mas como falei, me fez pensar.

Nada justifica o crime. Nada exime a culpa de quem o comete. Contudo, longe do martelo do juiz, a sentença em nossos corações não pune ou corrige, mas vai desumanizando o ser e isso não combina com o evangelho de Cristo!

O mestre da Lei, na parábola do Bom samaritano, não conseguiu discernir o outro como seu próximo, e mesmo sendo conhecedor das Escrituras não soube agir com misericórdia sobre aquele que morria à beira da estrada. De igual modo o Levita e o Sacerdote passaram de largo pelo moribundo. Apenas um se compadeceu e resgatou aquele que estava largado para morrer, o único nessa história que viu no outro o seu próximo. 

Que a nossa fome por justiça não se confunda com a sede por sangue, mas dê lugar a caridade e a misericórdia. Que você e eu possamos enxergar no outro o nosso próximo e que possamos entregá-los a Deus em oração, não para a morte, mas para a vida.