Pentecostais, Reformados e a Obra Espírito Santo: Uma breve reflexão

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Não temos a pretensão de avaliar qual das duas posições teológicas está correta, ou mesmo nos pronunciarmos em favor de qualquer uma delas. Nosso objetivo, no entanto, é fazer uma breve reflexão sobre o que consideramos pontos positivos, desafios e perigos que decorrem de cada uma delas, tanto pentecostal quanto reformada

Pentecostais:

Sem dúvida o ponto mais forte e admirável na teologia pentecostal é a ênfase dada a obra do Espírito Santo. Isso tem despertado maior interesse em trazer à tona novos debates e discussões a respeito desta pessoa da Trindade: sua personalidade, atuação na vida cristã, e principalmente o seu envolvimento com a missão da igreja.

Buscar na pessoa do Espírito Santo a força motriz e capacitadora para o cumprimento mais eficaz da missão delegada por Cristo é, sem dúvida, uma prática sadia e bíblica, e que deve servir de paradigma para a igreja em qualquer tempo, especialmente para a igreja hodierna. Ressalta-se ainda, o desejo de evidenciar o poder dinâmico do Espírito Santo retratado nas páginas do livro de Atos, que deveria ser almejado por todo cristão.

Porém, o grande risco que correm os pentecostais é o de caírem em alguns extremos e interpretações errôneas das Escrituras, como por exemplo julgar que aqueles que não tiveram uma experiência como a que se padroniza ser o batismo no Espírito Santo sejam menos crentes ou espirituais do que os demais. Outro grande perigo nos meios pentecostais, embora em tese isto não deva acontecer, é o fato de pensar-se que pessoas que não são capazes de descrever uma experiência extraordinária e distinta com o Espírito Santo, não o possuam, no sentido de tê-lo presente, habitando em sua vida.

E por último, corre-se o risco de padronizar o agir do Espírito Santo, assim como seus dons. Por exemplo o fato de achar que todo cristão deve falar em línguas estranhas, ou profetizar, etc…, quando Paulo ao tratar a questão dos dons espirituais na igreja de Corinto deixa muito claro:

“Porque a um é dada, mediante o Espírito (…) dons de curar, a outros operação de milagres; a outro profecia; a um variedade de línguas; e a outros capacidade para interpretá-las. Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as conforme lhe apraz, a cada um, individualmente” (1 Co 12: 8-11).

Portanto, concluir que todo cristão para ser cheio do Espírito Santo deve falar em línguas estranhas, ou se comportar de determinada maneira, é um erro que pode ocorrer principalmente nos meios pentecostais mais tradicionais, o que poderá acarretar uma série de distorções e problemas.

Reformados:

Passemos então a analisar a perspectiva reformada, que por entender o batismo no Espírito como uma experiência inicial e real na vida de todo cristão, não corre o risco de fazer distinção ou criar uma hierarquia de espiritualidade dentro da igreja. E o fato de entender este relacionamento de plenitude e enchimento do Espírito como um processo torna mais fácil para o cristão a compreensão de que o viver no Espírito não constitui-se de experiências eventuais, mas de um processo diário de esvaziar-se de si mesmo e entregar-se à direção do E s p í r i t o.

Devemos ressaltar que, quando abordamos a busca de capacitação e força motriz para a missão da igreja na pessoa do Espírito como uma característica positiva dos pentecostais, não estamos com isso sugerindo que no meio reformado isto também não seja uma realidade. No entanto, nas igrejas de tradição reformada, parece não ser dada a mesma ênfase nesta questão da obra do Espírito e suas manifestações.

E isto sem falar que, da mesma maneira que os pentecostais correm o risco de cair em alguns extremos ao enfatizar as manifestações do Espírito Santo, os reformados também correm, ao meu ver, ao tentar corrigir os abusos e distorções buscando coibir o agir e manifestações do Espírito na igreja. Alguns chegam a abrir mão dos dons sobrenaturais do Espírito – como algumas pessoas denominam os dons alistados em 1 Co 12 – que, como a Bíblia deixa claro, foram dados para a edificação da igreja. Com certeza essa não é uma maneira sadia de lidar com os problemas.

Considerações finais:

Diante de tantos conceitos e opiniões diferentes, uma coisa deve ficar muito clara para nós cristãos que estamos interessados em cumprir a missão delegada pelo Mestre: “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura (Mc. 16:15)”. A receita é muito simples: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra”(At. 1:8). Não existe missão sem poder do Espírito. Independente do termo usado, se no momento da conversão ou depois, o fato é que precisamos da capacitação do Espírito Santo para viver a vida abundante proposta pelo evangelho.

Indiferente se consideramos o livro de Atos válido ou não para formulação de doutrinas, é fato que Lucas não o escreveu em vão, relatos tão vívidos e preciosos, de experiências tão belas vivenciadas pelos primeiros cristãos com a pessoa bendita do Espírito Santo, devem no mínimo nos desafiar profundamente a vivermos com a ousadia e paixão que eles viveram em função disto.

O encher-se do Espírito não é uma opção, mas uma ordem; “e não vos embriagueis com vinho, em que há dissolução, mas enchei-vos do Espírito Santo”(Ef 5:18). Portanto, cabe a cada um de nós examinarmos a nossa vida e questionarmos se isto é uma realidade para nós. Será que temos produzido os frutos do Espírito? Será que temos experimentado este poder dinâmico em nossas vidas?