Eternidade – um dilema humano

Imagem de  annca  por Pixabay

Tendo em vista que o homem mantém mais contato e aproximação com as coisas materiais, visíveis e finitas, ainda que essas demonstrem a grandeza do Deus que as criou e as sustenta, ao primeiro lampejo da necessidade de definição das características únicas de Deus, o estudante tende a sentir-se frustrado por não ser possível alcançar algo que satisfaça de fato seus questionamentos sobre tão grande mistério.

Afinal, no que consiste a eternidade de Deus? Como é possível fazer com que caiba dentro de um relógio ou de um calendário toda a assombrosa e inimaginável distância entre os pontos inicial e final que mensuram o suposto começo e fim daquele que sempre foi?

Pensarmos apenas na eternidade já se constitui uma tarefa bem pouco frutífera se nosso intuito for o de elaborar uma precisa definição sobre ela. Pensarmos em Deus, que contém a eternidade em si (e está sendo apenas mais uma dentre seus inúmeros atributos únicos), e tentarmos definir Deus e eternidade conjugados, significa que estamos ousando decifrar um dos mais profundos mistérios da divindade. 

Afim de não nos ufanarmos por presumir que alguma definição satisfatória foi por nós elaborada sobre a eternidade de Deus, é necessário que nos resignemos única e exclusivamente àquilo que a Escritura Sagrada nos revela. Coisas reveladas são para o homem, as ocultas são para o Senhor (Dt.29:29).

Nenhuma outra palavra nos remete a uma melhor reflexão sobre tal conceito como a que encontramos no livro do Êxodo, quando da revelação de Deus a Moisés. Ao arguir o Senhor a respeito de seu nome, a resposta foi concisa e ao mesmo tempo instigante: diga que o EU SOU te enviou. EU SOU O QUE SOU (Ex.3:14).

Notemos que na ocasião, Deus não ordena a Moisés para que ele mencionasse Seu nome pautado nas obras que Ele faria. A primeira “amostra” da fotografia de Deus a seu povo constituía em um de seus maiores e mais intrigantes atributos: o SER. Aquele que não tinha princípio nem fim. O que sempre foi e jamais deixará de ser. O Eterno. 

Tal definição soava no Egito como uma verdadeira fábula. Qual dos deuses do Egito trazia consigo tamanho peso de grandeza? Os deuses do Egito morriam ou eram filhos de outros deuses, e o Deus de Israel? De onde procedia? Quem era seu pai, seu criador?

É importante observarmos que Deus não está sujeito à eternidade. Em meio às divagações que adentramos por conta do assunto, corremos o risco de deduzirmos que Deus “resvalou e caiu dentro da eternidade”, como se fosse um buraco negro, e que se encontra sujeito a ela, como se, de alguma maneira, tivesse sido tragado pela mesma. Ao contrário disso, faz-se importante elucidarmos que Deus “contém” a eternidade e que não está “contido nela”. Ele a domina. Ele a subjuga. Sem Ele a eternidade não teria razão de ser. A eternidade é parte de Deus e não é maior que Ele.

Outro ponto fundamental que nos esclarece, como uma partícula dessa imensurável maravilha, é entendermos que eternidade não é sinônimo de tempo, em sua essência. Para marcar o tempo podemos usar medidas e técnicas, estabelecendo limites de começo e fim. Jamais podemos estabelecer uma medida para algo que não sabemos que tamanho tem. Seria como tentar medir o universo com uma régua de 20 centímetros.

Em suma, tempo é algo que pode ser medido baseado em fatos passados, presentes ou futuros. É uma forma de mensurar aquilo que a mente humana é capaz de processar dentro de sua realidade. O tempo é algo que pode ser colocado em relógios ou calendários. O tempo é uma medida utilizada para as coisas que “acontecem”. A eternidade é a forma de definir as coisas que “são”. Logo, as coisas espirituais (que são indestrutíveis) não podem ser formatadas pelo tempo. Sua real existência está no plano da eternidade, coisa que o humano, material e finito jamais poderá adentrar.

Isaías 9:6 define o Cristo de Deus como “Pai da Eternidade”. O mistério (Deus) que contém o mistério (eternidade). O mistério que Se revelou para nos mostrar que tudo o que é invisível foi por Ele criado. Sendo Ele o Pai dos Espíritos (Hb.12:9), anela que seus herdeiros, que já possuem a eternidade em seus corações (Ec.3:11), possam desfrutá-la com ele, para todo o sempre!  

A Eternidade separa a criação do Criador e o coloca acima dela. Somente Ele pode ver o quadro geral do tempo, enquanto temos apenas um pequeno vislumbre do que está por vir. Assim como um recém-nascido possui um conhecimento limitado, quando comparado com seus avôs, muito mais os seres humanos, que são limitados e não chegam aos pés da imensa sabedoria de Deus. Já que a Eternidade não pode ser compreendida no tempo, então ela não pode ser compreendida por criaturas limitadas ao tempo. O silêncio, ao invés da crítica, é o que nos convém quando tratamos com as coisas pertencentes a Deus, e que estão acima da nossa compreensão. Jó permaneceu em silêncio quando Deus lhe perguntou: “Onde Você estava, quando Eu lancei os fundamentos da terra? Responda, se você tem entendimento”. (Jó 38: 4 RA). 

Na vida, a certeza que temos é do momento existente, que está sempre indo, sempre passando e sempre morrendo. E assim mesmo é a única coisa que temos de seguro na existência, como seres físicos e limitados. A nossa vida é assim, drasticamente breve em sua existência muito frágil, pois o que chamamos de futuro gera incertezas e vislumbres. Mas isso parece contrário com a existência de um ser perfeito, como Deus é. 

A eternidade intriga tanto o ser humano mais do que qualquer outro atributo incomunicável de Deus, pois no limite do raciocínio humano há o reconhecimento que jamais poderão ser onipresentes, onipotentes e oniscientes. Porém, a eternidade é algo no ser humano que está intrínseco na sua natureza. Ou seja, parte da eternidade está plantada. 

Como seres limitados ao raciocínio lógico tentamos entender algo que pertence à essência do ser humano, essa imortalidade que clama por estar perto do Eterno… para sempre.