Relações Possíveis entre a Cibercultura e a Leitura Bíblica

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Introdução 

O objetivo desse artigo é apresentar as possíveis relações entre a ‘cultura da internet’ e a cultura do Antigo Testamento. A ‘cultura da internet’ é atualíssima e muda rapidamente, enquanto que a cultura do AT é antiga e estável. Sendo assim, qual a contribuição das disciplinas do AT para a cultura cibernética? Qual o diálogo possível entre a cultura do AT e cibercultura? 

Para abordar essa interrelação, propomos dois casos de choque cultural no mundo Antigo Testamento para, a partir deles, extrair, por analogia, algumas reflexões e orientações para lidar com a cibercultura. Esses dois casos são a passagem da tradição oral para a escrita e a globalização greco-romana. 

Da oralidade à escrita

A tradição oral gera uma cultura própria, cujo principal suporte de preservação da informação é a “memória”. Nessa cultura, a tradição era emitida e recebida no mesmo contexto. 

A invenção da escrita não substitui a tradição oral, mas coexistem por muitos séculos. A escrita permite adotar outros suportes, como pedra, cerâmica, papiro (2500 a.C.), velino (Jr 36.26), pergaminho (séc. IV d.C.) até chegar ao papel (séc. XV). Além disso, a escrita permite a fixação do texto de modo que a mensagem saia do contexto sem perder o sentido original, dando importância às ciências hermenêuticas.

A globalização greco-romana

A primeira grande globalização da cultura greco-romana representou um choque grave para os judeus, impondo-lhes o dilema: resistência ou assimilação. A nosso ver, o cristianismo primitivo soube aproveitar as vantagens, como integração cultural, idiomática, maior segurança nos transportes, interligação das regiões do Império, a ampla circulação de escritos e de pessoas, ao mesmo tempo resiste aos costumes, como, por exemplo, o culto ao imperador. 

O processo de globalização foi acelerado pelos avanços tecnológicos, especialmente no setor de comunicações. A interconexão supriu um desejo do ser humano. Com isso, chegamos a uma nova Babel: a cibercultura venceu ‘Babel’ ou a cibercultura se tornou uma super-Babel? 

A Cibercultura e o estudo da Bíblia: aspectos positivos e negativos 

a) Aspectos positivos: 

– Acesso ao acervo de obras digitais: dicionários, comentários, obras não traduzidas para o português. 

– Pesquisa e estatística: maior capacidade de cruzamento de dados e de análise de textos; 

– Leitura da Bíblia: diversas versões da Bíblia e diversos idiomas e línguas originais; democratização do conhecimento.

– Ciberteologia: a reflexão teológica das novas tecnologias (cibernética); a inteligência da fé em tempos de internet (SPADARO, 2011). 

b) Aspectos negativos  e preocupantes

– Dilúvio de informações: dispersão: dificuldade de seleção de fontes; superficialidade: efeito do excesso de informação;

– Comunicação de massa: propaganda ideológica/comercial (mercado gospel); igrejas virtuais x fraternidade comunitária; frustração: fracasso em produzir os resultados prometidos; 

– Teologia fake: sensacionalismo: as novas tecnologias como ‘sinais’ da escatologia (controle mundial, chips, numerologia etc.); a rapidez da informação joga contra a verificação da verdade teológica. 

Considerações finais:

A cibercultura, como todas as culturas da humanidade, tem aspectos positivos e negativos. Ela não é parte do desenvolvimento retilíneo e necessário da humanidade, pois, outro mundo é possível. A cibercultura reflete desejos de interconexão, de superação de limites. A teologia oferece base para a crítica permanente das obras humanas.