Alvo da Graça

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Lembro-me da minha infância, criado em um contexto católico, no período da Páscoa, a festa começava na sexta-feira santa, e terminava no domingo. Alguns de meus familiares encerravam o período da Quaresma, bebiam, e comiam muito. Mas minha família não deixava de ir às missas todos os três dias. No sábado era um dia em que eu notava que nos postes (de rede elétrica) havia um boneco vestido de pano, onde as pessoas batiam e alguns ateavam fogo. Em um certo ano, perguntei ao meu pai o que significava, e ele me disse que era um boneco de Judas, era dia de “malhar Judas”, minha família nunca praticou essa tradição, mas eu sempre quis, só por ter o prazer de atear fogo no boneco – coisa de criança.

Ao passar o tempo, após minha conversão, notei que a palavra Graça, era e é muito utilizada no contexto evangélico, muito mais que no católico. Meu primeiro contato com a palavra Graça, foi em um livro de Max Lucado, “A Graça bate à sua porta”, um presente que ganhei no dia de meu batismo. O livro contava fatos da vida do autor, de como o Espírito Santo através da Graça o surpreendeu com situações de milagres, até mesmo de bênçãos, e ele falava como a Graça do Senhor era boa. Confesso que até aquele momento eu acreditava que a Graça era como uma “vibe positiva”. Ouvi certa vez de um amigo não convertido ao evangelho, de como ele gostaria que a Graça que os evangélicos falavam e criam cercasse a vida dele para que ele recebesse recompensas e presentes do universo, como se o cosmos convergisse a favor dele.  Naquele momento eu o exortei com muito respeito, e disse a ele que a Graça era o amor de Deus manifesto em Jesus Cristo para a salvação das pessoas, mas que depois ela poderia ser um meio de benção na vida dos homens. Acredito que algumas das falas de Max Lucado me influenciaram na época, ou eu interpretei mal o conteúdo de seu livro.

Num outro momento em que a palavra Graça ficou martelando em minha mente, foi quando comecei a ouvir sobre a tal da “hiper-graça”, algo como se o pecado estivesse liberado, os erros tolerados e nada de ruim poderia acontecer às pessoas que viviam sua vida por ela, pois, uma vez salvo, sempre salvo. Pastores e líderes começaram a se preocupar com essa pregação, pois muitos jovens saiam de suas igrejas para irem às igrejas daqueles que testemunhavam a fé por meio dessa hiper-graça. Naquele momento levantei uma bandeira, de “caça às bruxas” contra aqueles que pregavam assim, mas o detalhe é que novamente estava sendo influenciado por algo que eu não compreendia em sua totalidade, mas mesmo assim desejava discutir e me posicionar sobre isso.  Vale a pena destacar que não estou aqui entrando no mérito ou não, sobre alguém perder ou não sua salvação, mas sim, de que mais uma vez, a palavra Graça estava em voga na minha mente e em meus discursos, sem entender exatamente o que era.

Ao longo do tempo, o querer entender a Graça sempre foi um de meus objetivos, e acredito que até o fim da minha vida será, mas recentemente lendo o evangelho de João em meu período devocional diário, eu me deparo com o seguinte texto: “Jesus respondeu: é aquele a quem eu der o bocado molhado. E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão” (João 13:26). E por algum motivo estranho resolvi ler e entender o que era bocado, e assim fui para os comentários bíblicos para compreender. Para minha surpresa, a circunstância em torno deste acontecimento conjuntamente com a ceia e a palavra bocado, possuem um grande significado e de extrema relevância. Naquele momento pude acrescentar mais uma pequena parte de instrução sobre a Graça de Jesus, uma fração da Graça que minha mente limitada e humana poderia entender até ali.

O bocado, segundo Champlin (1995, p. 512) era o pedaço de pão molhado em uma terrina, um objeto onde o molho pascal era colocado dentro, com carne de cordeiro pascal, um pouco de pão sem levedo, e ervas amargas. Cada pessoa ali na mesa provavelmente tinha sua terrina para mergulhar o pão. Mas o hóspede servia um bocado para um convidado de honra e a pessoa que recebeu esse bocado, foi nada mais nada menos que Judas lscariotes. Mas por que?, eu me perguntei, sendo que Jesus sabia que ele era o traidor, ou será que Jesus só fez isso para mostrar quem iria traí-lo, como um sinal? Acredito que não. Prefiro supor que Jesus honrou a vida de seu discípulo até o último minuto, até o fim Judas foi o alvo da Graça de Jesus, assim como, um pouco antes no mesmo capítulo 13 de João, Jesus lavou os pés de Judas, junto com os de seus discípulos como forma de servi-los. Jesus serviu a Judas lavando seus pés e dando o bocado para aquele que o trairia logo.

Me pergunto como foi aquela noite para Judas, olhar para os olhos de Jesus, sabendo que ele seria o vassalo de seu Mestre, o Filho de Deus. Judas olhou para o cordeiro indo ao matadouro, o cordeiro que lavou seus pés, que o amava, o cordeiro que serviu-lhe o bocado, que o honrou, naquele momento ao seu lado, prestes a ser sacrificado. Penso que para Jesus, em seu coração misericordioso e cheio de compaixão, era como se através de suas atitudes para com Judas, seu discípulo pudesse voltar atrás e se arrepender, e deixar tudo para lá e voltar à comunhão. Talvez para Judas se tornou tarde demais, o que tinha que ser foi, mas de uma coisa eu sei, Judas até o fim foi alvo da Graça de Jesus. Nós somos alvo dessa Graça, não importa o momento, não importa nossos erros, não importa o pecado que venhamos a cometer, sempre há volta para um coração quebrantado e arrependido retornar à comunhão de Jesus e desfrutar de sua infinita Graça.

REFERÊNCIA
CHAMPLIN, Russel Norman. O novo testamento interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Editora e Distribuidora Candeia, 1995. 661 p. 2 v.