O Equilibrista Perfeito

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Há inúmeros versículos nas Escrituras que nos contam sobre a liberdade em Cristo. Na carta de João (8.31-32) Jesus diz: “…Se vocês permanecerem na minha palavra, são verdadeiramente meus discípulos, conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”. Ao ler atenciosamente o contexto dessa passagem fica claro que a liberdade que o Mestre ensina é a da libertação do pecado, “em verdade lhes digo que todo o que comete pecado é escravo do pecado (versículo 34)”.

Eu fui criado dentro de uma família com irmã e pais cristãos. Minha infância foi regrada a histórias bíblicas. O convívio no ambiente da igreja sempre foi algo orgânico para mim. Mas tinha uma coisa que me incomodava e fazia refletir: “se Cristo nos libertou, então por que há tantas regras a serem obedecidas?”. Não conseguia sentir muito bem essa “liberdade” que era pregada na igreja. Aos meus pequenos olhos, tinha que abrir mão de ficar brincando para ir à igreja; de ficar assistindo televisão no domingo pela manhã; de participar das festinhas de Halloween. Na minha perspectiva de criança não tinha liberdade alguma nessa vida cheia de “nãos”.

Crescendo, o conceito de pecado foi fazendo mais sentido para mim, e quando lia que “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou (Gálatas 5.1)” as coisas tinham mais lógica, pois, como humanidade, o pecado nos escravizava, e foi disso que Jesus nos libertou. Ele se fez maldito por nós e morreu em uma cruz para salvar os seus. Ele tomou o nosso lugar. Porém, embora compreendendo o poder que o pecado tem sobre as pessoas, e mesmo entendendo também que Cristo nos libertou, eu, ainda assim, não me sentia livre.

Não possuía inveja dos amigos que frequentavam festas e se embebedavam, mas ao olhar para minha vida, para o meu cristianismo, a sensação que tinha era a de que vivia em constante risco por causa de todas as regras que deviam ser seguidas para ser salvo, ou para quem sabe, não deixar de ser salvo.

Imagine que chegou um novo circo na cidade. Havia uma grande expectativa em função da propaganda de que um equilibrista atravessava uma corda suspensa a 30 metros de altura, e sem proteção alguma embaixo. Nada o estava segurando. Tudo o que ele tinha era uma barra que o auxiliava no equilíbrio. Um erro e estaria morto. Assistindo ao espetáculo você ficava em constante tensão, “será que ele vai cair!?”, “ele tem que conseguir!”, e isso não terminava até ao final da sua travessia. Assim eu me sentia. Da mesma forma que para ele o perigo de cair estava bem perto, a qualquer deslize ou tropeço eu estaria de fora. E uma queda poderia ser fatal.

Foi então que me deparei com a verdadeira Graça de Deus. Muitas vezes se ouve sobre a graça como a morte de Cristo na cruz por nós, e fim. Um conceito um pouco deixado de lado, embora importante. Porém, é quase como se alguém dissesse: “Jesus morreu por você há 2 mil anos. Agora é sua responsabilidade fazer valer a pena esse sacrifício”. É como se Jesus fizesse 50% do caminho e você tivesse que fazer os outros 50%. Talvez eu até tenha ouvido essas mesmas palavras, quem sabe você as tenha ouvido. Que baita responsabilidade, não é mesmo? E se falharmos? Um mínimo deslize?

Se fosse o caso de carregarmos a responsabilidade pela nossa salvação, ainda que parte dela, se nossas atitudes a determinassem, que grande poder teria a Cruz? Se Cristo completou metade do caminho por todos nós, e cabe a cada um terminá-lo por seu esforço e dedicação, não há diferença alguma entre nós. Assim, se partimos do mesmo ponto, e alguém alcança, logo, o mérito não seria deste que se dedicou mais? A salvação não seria delicada e frágil, se concretizando pelas obras de mãos humanas? Se eu alcanço a salvação por mim, partindo de uma base comum a todos, a glória é minha. Há mérito. Todavia, Paulo diz em Efésios 2.8-9 “Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” Para que ninguém se glorie é a expressão do autor. “Isto não vem de vocês, é dom de Deus”, Ele é quem entrega, pois é um dom, um presente. Se metade do caminho dependesse de nossa perfeição, sejamos francos, ninguém cumpriria esta metade.

Aprendi que no evangelho de Jesus você não alcança a salvação por ser bonzinho, por obedecer aos 10 mandamentos, por seguir todas as ordens do seu líder religioso, por comer ou deixar de comer algo ou por guardar um dia específico como sagrado. Você é salvo única e exclusivamente pela Graça, por meio da fé em Jesus, que encarnou, viveu, morreu e ressuscitou. Todo o mérito é dele. Toda a glória é dele. “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre. (Romanos 11:36)”. Tire esse peso dos seus ombros, a obra é de Cristo! Seja verdadeiramente livre em Deus! Ele é o equilibrista perfeito.