Uma Catástrofe que não podemos Ignorar

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Em minha primeira visita a um acampamento de refugiados sírios, no Oriente Médio, tive a oportunidade de conhecer o Mohammad, um jovem da cidade de Homs, na Síria. Em conversa com seu pai, tive conhecimento de que o Mohammad sofre de problemas psicológicos causados pela guerra civil. Segundo os relatos, durante a adolescência, ele foi consumido pelo medo dos constantes bombardeios que destruíram a sua cidade e dizimaram o seu povo (três tios morreram em consequência dos conflitos). Hoje, ele tem 20 anos, está deprimido e vive isolado. Tudo indica que ele sofre de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

O campo de batalha é impiedoso. Além de produzir destruição e morte, as consequências da guerra na vida dos sobreviventes são profundas. Por isso, os campos e assentamentos de refugiados, ao redor do mundo, estão repletos de pessoas mutiladas no corpo e na alma.

Uma catástrofe humanitária

Lamentavelmente, vivemos em um momento dramático no que diz respeito à crise migratória. Os números que contabilizam pessoas deslocadas em todo o mundo revelam uma crise sem precedentes. De acordo com os dados mais recentes publicado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a dispersão de pessoas já superou a marca dos 70 milhões de indivíduos em todo o mundo[1]. A organização cristã World Relief descreve a atual crise migratória como “a maior e mais complexa crise humanitária da nossa geração” [2].

É preciso compreendermos que estamos diante de uma catástrofe humanitária. Lamentavelmente, os sinais indicam que a crise migratória não será resolvida com facilidade ou rapidez. A tendência é que o drama envolvendo milhões de refugiados continue afetando milhões de vidas nos próximos anos e décadas. O que reforça esta análise é que o número de pessoas deslocadas à força é crescente. Segundo os relatórios do ACNUR: “Ao longo das duas últimas décadas, a população global de pessoas deslocadas forçosamente cresceu substancialmente, de 33,9 milhões em 1997 para 65,6 milhões em 2016, e permanece em um nível recorde”[3].

O que ensinam as Escrituras

Por mais desconforto que a crise migratória possa nos causar, seja por perplexidade, desconfiança ou medo, como cristãos encontramos nas Escrituras Sagradas uma base bíblica sólida para oferecermos acolhimento ao refugiado.

A Bíblia ensina que Deus ama o estrangeiro (Deuteronômio 10.18) e, como consequência, prescreve ao Seu povo um tratamento amoroso ao que peregrina em sua terra, “Portanto, amareis o estrangeiro” (Deuteronômio 10.19). De maneira prática, no Antigo Testamento, o povo era instruído a tratar o estrangeiro da mesma forma que tratava os seus compatriotas: “Tratem o estrangeiro que peregrina entre vocês como tratam quem é natural da terra; amem o estrangeiro como amam a vocês mesmos” (Levítico 19.34).

Deus ama o estrangeiro porque Ele é imparcial em relação às pessoas, não é preconceituoso e ama todo ser humano sem distinção (Deuteronômio 10.17). Deus ensinou este aspecto de Sua natureza a Pedro através da visão ocorrida na cidade de Jope. Assim, Deus estava ensinando ao apóstolo que ele ama indistintamente o judeu, bem como o gentio. Consequentemente, Pedro declarou: “Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas” (Atos 10.34-35).

Na leitura do Pentateuco, fica bem claro que os israelitas deveriam lembrar de sua histórica condição de peregrinos a fim de demonstrarem empatia com os estrangeiros vivendo entre eles: “Também não oprimirás o forasteiro; pois vós conheceis o coração do forasteiro, visto que fostes forasteiros na terra do Egito.” (Êxodo 23.9).

É importante lembrar que os israelitas não foram deslocados apenas quando se tornaram escravos no Egito. Em diferentes épocas de sua história, eles tiveram a triste experiência de deixar a própria terra tornando-se peregrinos em outra nação, como na ocasião em que foram levados cativos para a Babilônia e lá permaneceram por 70 anos: “Os que escaparam da espada, a esses levou ele para a Babilônia, onde se tornaram seus servos e de seus filhos, até ao tempo do reino da Pérsia” (2Crônicas 36.20). Enquanto estavam espalhados, eles experimentaram constante opressão e intensa saudade de sua terra natal: “Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião.” (Salmo 137.1).

Instrumentos de transformação

Curiosamente, as Escrituras descrevem o cristão como um peregrino e forasteiro neste mundo (1Pedro 2.11). Esta figura de linguagem é utilizada para ilustrar a nossa condição de temporariedade nesta vida. Deste modo, como peregrinos e forasteiros, o desejo de Deus é que enquanto aguardamos a nossa morada definitiva, tenhamos compaixão daqueles que peregrinam entre nós e necessitam das nossas manifestações de amor em obras e palavras (Lucas 24.19).

Que Deus nos use para amar, alcançar, acolher e sarar gente sofrida, deslocada e vulnerável, como o jovem Mohammed. Eles são milhares. Alguns estão longe. Todavia, outros estão bem perto de nós.


[1] The United Nations High Commission for Refugees, “Figures at a Glance,” acesso em 3 de janeiro, 2020, https://www.unhcr.org/figures-at-a-glance.html

[2] World Relief,“The Refugee Crisis,” acesso em 4 de abril, 2019, https://www.worldrelief.org/refugee-crisis.

[3] The United Nations High Commission for Refugees,“Global Trend,” acesso em 4 de abril, 2019, http://www.unhcr.org/5943e8a34.pdf.