Saúde Emocional em Tempos de Crise

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Nas últimas décadas, as emoções vêm ganhando um destaque cada vez maior sobre sua importância e o quanto podem ser sensivelmente impactadas pelas crises, afetando a saúde mental e física das pessoas.

Entendendo o que é crise

Entender o que é crise é o primeiro passo para sabermos o quanto ela afeta a vida das pessoas. A palavra “crise” vem da palavra grega “κρίσις”, que significa: decisão, julgamento. Isso significa que toda crise exige uma resposta das pessoas, e estas normalmente respondem, de uma maneira ou de outra. Não há como não responder a uma crise, do ponto de vista da psicologia, mesmo que seja inconscientemente.

O termo “crise” também tem uma gama de aplicações, pois é usado no campo da sociologia, da política, da economia, da medicina, da psicopatologia, e em outras áreas do conhecimento humano. Poderíamos, assim, definir a crise como qualquer situação, seja de que ordem for, que cause: alterações (para melhor ou para pior), estranheza, desconforto, e até a sensação de ameaça, de perda para uma pessoa, povo, nação, entidade, etc, e que exija uma resposta da parte afetada.

A classificação das crises pode ser feita de várias maneiras. Por exemplo, elas podem ser classificadas por sua natureza, frequência e também por sua gravidade. Quanto à natureza, existem crises oriundas de desastres naturais, de situações econômicas, sanitárias, crises evolutivas do ciclo de vida do ser humano, crises existenciais, crises emocionais, imaginárias, subjetivas de cada indivíduo, etc. Com relação à frequência, as crises podem ser únicas, episódicas, recorrentes, intermitentes, ou mesmo, crônicas. No que diz respeito à gravidade, elas podem chegar a ponto de serem muito graves, como é o caso do surgimento de uma pandemia.

Diga-se de passagem que as crises fazem parte da nossa vida, desde que nascemos até a morte. É impossível viver sem crises. Algumas dessas crises não somente são inevitáveis, mas necessárias para o desenvolvimento humano. Um exemplo disso são as crises próprias do ciclo de vida das pessoas (infância, adolescência, vida adulta e velhice). Cada fase tem suas crises, assim como na transição de uma para outra.

Algumas crises não resultam necessariamente em maiores prejuízos ao ser humano, mas podem sim significar crescimento e desenvolvimento, dependendo de como reagimos ou agimos diante dessas crises. Outras, no entanto, têm um impacto muito grande na vida emocional das pessoas, as quais podem resultar em danos à sua saúde mental, e também trazer prejuízos imprevisíveis a outras dimensões da vida da pessoa. 

Como nos diz Collins (2007), com uma certa poesia, ao discorrer sobre o impacto das crises: 

[…] a crise é um ponto de virada que normalmente não pode ser evitado. As crises podem ser esperadas ou inesperadas, reais ou imaginárias, real (como a morte de um ente querido) ou potencial (como o prospecto de que aquele ente querido morrerá logo). Na maioria das vezes, elas chegam rapidamente, e depois vão embora, deixando uma devastação para trás. Às vezes, elas colidem contra nossas vidas como gigantes ondas contra as rochas – de novo e de novo, vagarosamente nos deixando para baixo (p. 746).

A crise emocional, normalmente, está associada a outras crises. Ela dificilmente existe por si só, atingindo a pessoa como um todo, e não apenas a dimensão emocional. Ela afeta o corpo, a parte cognitiva, o comportamento, o trabalho, a vida social da pessoa, etc. É por isso que em um acompanhamento psicológico não se trata apenas a dimensão emocional do paciente, mas também o efeito que isso tem no seu organismo, na sua maneira pensar, e também em outros aspectos e áreas da sua vida.

Segundo Thase e Lange (2005, p. 32), a saúde emocional de uma pessoa envolve vários elementos, tais como: equilíbrio (sob várias sortes); sensação de bem estar, na maior parte do tempo; bom humor; sensação de controle da própria vida; relacionamentos satisfatórios; ser produtivo; suportar perdas, contratempos e frustrações; autoconfiança; dedicar-se a vários interesses; sentido de vida. Numa crise, seja de que ordem for, esses vários aspectos da saúde emocional de uma pessoa são colocados em cheque.

Um exemplo da associação entre as crises, citamos a atual pandemia do coronavírus, a qual tem impactado a vida das pessoas sob vários aspectos. A Revista Veja, de maio deste ano de 2020, publicou uma edição especial sobre saúde. Dentre os artigos, havia um que tratava do impacto da pandemia na vida dos brasileiros (“A pandemia oculta”). Nele, o jornalista André Biernath reporta uma pesquisa feita pela Área de Inteligência de Mercado do Grupo Abril, em parceria com a MindMiners, com 4.693 brasileiros, evidenciando o impacto da pandemia em nosso país. Dentre as consequências para a saúde mental, cita: crises de ansiedade, depressão, aumento de suicídios, violência doméstica (aumento de 30% em março/2020), aumento de divórcios (E.g. China), problemas relacionados ao luto, visto que muitas famílias estão sendo impedidas de enterrarem os seus entes queridos.

As estatísticas, veiculadas pela reportagem, retratam o impacto emocional na vida dos brasileiros: 54% se sentem preocupados com a situação da Covid-19; 76% temem a superlotação dos hospitais, de modo que não seja possível atender todos os doentes; 70% estão com medo do desemprego e da segurança de amigos e familiares; 70% estão encucados com a possibilidade de sofrer cortes de salário ou perder direitos trabalhistas; 59% dizem que a palavra “insegurança” é o que mais define seus sentimentos com relação à Covid-19;  47% afirmam que têm dificuldade para relaxar; 23% não conseguem dormir.

Propostas para enfrentar as crises

As propostas para enfrentar as crises são muitas, felizmente. A psicologia não somente trabalha essencialmente na(s) crises(s) como também faz diversas intervenções para ajudar os seus clientes/pacientes para enfrentar e, se possível, superar as crises.

Vários especialistas da área da saúde entrevistados na reportagem anteriormente citada, sobre o que fazer nesse momento de crise pandêmica, recomendam às pessoas: praticar meditação, fazer dieta de notícias, ou seja, não ver reportagens sobre o assunto mais do que duas vezes por dia; usar os meios disponíveis para o contato social; procurar fazer algo para relaxar – jogar, ver TV, ler um livro etc. A pesquisa constatou que 64% acessam a internet para tentar preservar a saúde durante a quarentena; 50% preferem ver TV, enquanto que 48% leem, 31% praticam exercícios e 18% meditam.

Além das recomendações acima, o artigo enfatiza aquilo que é a recomendação praxe da área da saúde para todas as pessoas, o que também ajuda na esfera emocional: o descanso noturno, tomar sol todos os dias (para liberação da serotonina, o hormônio do bem-estar), praticar exercícios físicos regularmente, ter uma dieta saudável e praticar a solidariedade. 

Existem muitas outras intervenções específicas para ajudar as pessoas a enfrentarem as suas crises, dependendo da abordagem do profissional e também do tipo de crise vivida pela pessoa. Apenas para citar duas dessas intervenções, muitas vezes, paradoxais da psicologia, vale até a recomendação para que a pessoa fique na crise, ou mesmo provoque uma crise, para resolver outras questões na sua vida.

Conclusão

Mesmo numa situação grave de pandemia, pela qual passamos, podemos aproveitar o momento para nos reinventar, aprendermos muitas coisas, aprendizados estes que poderão enriquecer a nossa vida, nos preparando para uma qualidade de vida melhor depois que a crise passar, e para enfrentarmos outras crises que, com certeza, aparecerão. 

O psicólogo canadense, Steven Taylor, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Columbia, no Canadá, escreveu um livro sobre a pandemia, em dezembro de 2019, um pouco antes do Coronavírus aparecer, antecipando algumas previsões sobre a pandemia seguinte, que assolaria a humanidade. Disse em tom profético: 

Em pandemias anteriores, as pessoas também foram solicitadas a se isolar […]. Nós temos precedentes. A boa notícia é que os humanos sobreviveram a muitas pandemias no passado. Muitas, muitas outras mais sérias que esta, então vamos sobreviver. As pessoas costumam esquecer, mas é importante saber, perceber ou lembrar que os seres humanos são resilientes. Nenhum de nós gosta de ficar socialmente isolado, não gostamos do fato de não podermos continuar com nossa vida, achamos estressante, mas vamos sobreviver. Nós vamos lidar com isso. Assim como as pessoas no passado lidaram com pragas e outras pandemias. Fonte: https://apublica.org/2020/03/a-historia-nos-ensinou-que-as-pessoas-sao-resilientes-diz-autor-do-livro-a-psicologia-da-pandemia/

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

COLLINS, G. R. Christian counseling : a comprehensive guide. 3ª ed. USA: Thomas Nelson, 2007.

GERRIG, R. J.; ZIMBARDO, P. G. A psicologia e a vida. 16ª ed. Porto Alegre : Artmed, 2005.

TAYLOR, Steven. The psychology of pandemics : preparing for the next global outbreak of infections disease. 2009.

THASE, Michael E. Sair da depressão: novos métodos para superar a distimia e a depressão branda crônica. Rio de Janeiro: Imago, 2005.

REVISTA VEJA, No 455, Maio/2020.