A crise no contexto missionário: um panorama

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A partir da análise de eventos relacionados ao cristianismo dos primeiros séculos, em especial as epidemias sucessivas até meados do século terceiro e a chamada conversão do imperador romano Constantino, no início do século quarto, propomos um paralelo com a conjuntura de 2020. Este paralelo tem como objetivo, através da leitura destes eventos, compartilhar oportunidades e alertas para o comportamento da igreja cristã durante a recente crise que se abateu sobre o mundo com o advento da manifestação da COVID-19, que se materializa em múltiplas crises, seja ela sanitária, econômica e, no caso do Brasil, uma crise política sem paralelos na história da república brasileira. 

O Movimento Missionário na Igreja Antiga

Em seus primeiros séculos, o cristianismo apresenta um movimento descentralizado de evangelismo, partindo dos apóstolos e de seus discípulos diretos. Neste “cristianismo embrionário”, o processo de evangelização e transmissão das boas novas de Cristo acontecia a partir do contato pessoal entre o convertido e o “pagão”, compreendido como o fiel das religiões politeístas tradicionais dos limites do império romano, mas não só. Os territórios “bárbaros” (não romanizados), também contavam com a presença de cristãos, na medida em que este processo acompanhava o avanço de soldados, comerciantes e outras funções que demandassem o deslocamento geográfico por parte destes convertidos.

Neste sentido, a pessoalidade estava muito presente neste processo, através do contato pessoal com aquele que conhecia o Evangelho. Neste sentido, as mulheres eram uma grande força missionária, no sentido de serem as primeiras em seus núcleos a conhecerem e propagarem a mensagem de Cristo.

Até a segunda metade do século três, diversas epidemias se abateram sobre os territórios mediterrânicos e os cristãos cresceram neste ambiente por duas razões principais. Em primeiro lugar, o senso de comunidade gerado desde o período apostólico fez com que os cristãos cuidassem mais de si mesmos, ao mesmo tempo em que cuidavam dos doentes, que eram descartados pela sociedade romana. Este contato direto com os infectados, levou muitos cristãos à morte e isso trouxe simpatia de camadas mais simples da população romana, desprotegidas pela estrutura oficial imperial.

Em contrapartida, a declaração de conversão do imperador Constantino no início do século IV trouxe desafios adicionais, até o momento inéditos para a Igreja Cristã. Se por um lado, o fim das perseguições melhorou a produção teológica que floresce após este período, notoriamente marcada pelos escritos de Atanásio, Jerônimo, Agostinho, entre outros, por outro, a institucionalização do cristianismo pelo império trouxe diversos antagonismos, dos quais destacamos dois de maneira especial. Em primeiro lugar, uma divisão interna entre aqueles que viam com bons olhos a chegada da fé cristã à estrutura imperial e aqueles que viam este novo momento como um desvirtuamento dos ensinos de Cristo com esta aproximação da fé com o império. Em segundo lugar, a associação dos cristãos de maneira direta com o governo imperial, trouxe a hostilização para aqueles que estavam em territórios “bárbaros”, por serem considerados simpatizantes dos romanos.

Possibilidades

Partindo do exposto até o momento, analisando os feitos da igreja em sua gênese, é possível destacar possíveis oportunidades, além de um alerta para a igreja contemporânea.

A pandemia da COVID-19 pode oferecer uma grande oportunidade de aproximação com a sociedade pós-moderna, caso ela ofereça empatia e auxílio para aqueles que estão necessitados. Na medida em que a crise sanitária gera uma crise econômica, o papel da igreja como agente ativo de auxílio e instrumento social de integralidade do evangelho que atinja o indivíduo em todas as suas necessidades será cada vez mais necessário. 

Como alerta, usando o evento da conversão de Constantino como base de análise, é preciso verificar o papel de parte da liderança protestante brasileira, como elemento ativo no quadro político presente. Quando a igreja demonstra publicamente seu apoio a determinado governo, qualquer que ele seja, automaticamente gerará os efeitos apontados neste artigo: a divisão interna entre os que apoiam e os que desaprovam este apoio, e a hostilidade entre o grupo maior da sociedade que não se identifica ao governo vigente. 

A reflexão é válida, na medida em que a igreja precisa atentar para seu papel fundamental de fazer discípulos de todas as nações. A igreja tem prevalecido diante dos governos ao longo dos últimos dois milênios.  Por esta razão, é condição essencial analisar sua longa história e aprender com ela para direcionar suas ações em nosso presente.