Crise e respostas da Teologia

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A crise é algo inerente à existência humana. Sempre que algo tira a tranquilidade ou foge à regra daquilo que a humanidade considera cotidiano surge uma crise. Se a origem da crise pode ser bastante diversa, e nem sempre ter a possibilidade de ser evitada pelo ser humano, sua resolução depende da habilidade de lidar com ela e transformar as circunstâncias em novas oportunidades. Neste material teremos como objetivo observar as diversas respostas que teólogos deram em meio a estas crises.

As crises estiveram presentes desde os primórdios da humanidade. Os seres humanos não teriam se desenvolvido tecnologicamente sem a existência de crises. Foi a necessidade de caçar que obrigou o homem a desenvolver os primeiros instrumentos de pedra. “De um ponto de vista puramente natural, o homem é o mais inadequado dos seres vivos existentes em nosso planeta” (PINSKY, 2011, p.10). Foi a falta de alimento que fez ele se deslocar pelas planícies da África e Ásia chegando à Europa e Américas. Por este mesmo motivo a crise denota uma “etapa crucial ou ponto de viragem no decurso de qualquer coisa” (RATO, 2008, p. 175).

Embora existam vários tipos de crises de âmbito mundial, neste material gostaria de apresentar quatro tipos. Eles auxiliam a compreensão das dimensões que uma crise pode atingir. Será discorrido a respeito de crise bélica, econômica, sanitária e migratória. Para cada uma delas, várias respostas foram dadas por teólogos que viveram neste tempo.

Durante o século XX ocorreram duas grandes guerras mundiais. A primeira delas entre 1914 e 1918, intitulada I Guerra Mundial, e a outra entre 1939 e 1945, conhecida como II Guerra Mundial. O palco principal das duas guerras foi a Europa, mas os conflitos atingiram várias regiões do planeta. Soldados de terras muito distantes da Europa foram arrastados para lá com o objetivo de lutar por uma das partes em conflito (HOBSBAWM, 1995). Bailey (1984) indica que os cristão evangélicos tiveram que lidar com algo bastante diverso, uma guerra contra a terra de onde veio a reforma protestante. Em meio à confusão, alguns chegaram a afirmar que a culpa era da própria mensagem de Lutero, mais afeita à agressão do que a arminiana. Outros seguiram para a direção de que se tratava de um castigo divino por conta do desvio da fé dos cristãos locais. Outros ainda perceberam, como na maioria das crises da humanidade, que é um prenúncio da volta de Jesus que se aproximava. Nesta linha não demorou para que figuras fossem identificadas como o anticristo: na primeira guerra eram o Kaiser e Oman Otomano; na segunda guerra cada lado encontraria o anticristo no seu oponente. Poucos líderes viram nestas guerras a oportunidade divina para a construção de uma outra forma de sociedade.

Com o término da Primeira Guerra, os Estados Unidos se tornaram o grande credor do mundo. Todas as dívidas contraídas por conta da guerra tinham que ser pagas, com juros, aos cofres americanos. Soma-se a isso a ausência de empresas capazes de suprir as necessidades europeias que haviam sido destruídas pela guerra. Todas estas contingências, somadas à inventividade de homens como Henry Ford, levaram a um crescimento econômico sem precedentes. Tudo parecia perfeito, até que em 24 de outubro de 1929, a bolsa de nova York sofre uma quebra sem precedentes. Rapidamente o enriquecimento é substituído pela falta de empregos, as indústrias quebram juntamente com os bancos. Numa economia em processo de integração transnacional, vários países do mundo acabam por sofrer as consequências. Mesmo o Brasil viu sua produção de café ser queimada por falta de compradores (HOBSBAWM, 1995).

Handy (1960) indica que durante a prosperidade, as igrejas americanas começaram a sofrer uma evasão. O suprimento financeiro acabou por diminuir o desejo de investimento em missões. Os cultos começaram a esvaziar no mesmo momento em que novas seitas começaram a aflorar em solo americano. Se de um lado, a lei seca parecia demonstrar uma igreja atuante, na verdade denotava uma religiosidade crescente, destituída de uma espiritualidade marcante. Uma apostasia que só não era sentida pelos primeiros pregadores que usavam o rádio para espalhar sua mensagens, muitas vezes sem o conteúdo adequado. Logo, não é de se espantar que vários líderes indicavam a crise como uma punição divina, resultado da ira divina. Outros olharam para este momento como sendo o fim do mundo. O olhar escatológico era facilmente chancelado pela imagem de imensos batalhões de empobrecidos perambulando nas ruas. Mais uma vez foram poucos os que perceberam nisso a oportunidade de um evangelho mais atuante e atento à necessidade humana.

A terceira crise apresentada era a sanitária. Com a gripe espanhola cerca de 50.000.000 de pessoas perderam a vida em todo o planeta. Se ela foi mais letal na Europa e Estados Unidos, não poupou vidas nos demais continentes (HOBSBAWM, 1995). Ao estudar a questão do discurso adotado por teólogos e religiosos na África do Sul, Phillips (1987) chegou a refletir o racismo existente, acusando pessoas más (normalmente negras) como as responsáveis pela difusão da infecção. Esta interpretação acabou por fornecer combustível para o apartheid já praticado nesta nação. Outros grupos negaram a existência de uma pandemia, afirmando que os números estavam sendo superdimensionados e que não passava de uma enfermidade passageira. A negação é uma das formas humanas de lidar com a frustração causada pela impotência diante da dor. A grande novidade das interpretações será a compreensão de que a Igreja deve demandar do Estado o cuidado humanitário com o ser humano. 

A última forma de crise indicada é resultado, quase sempre, de conflitos armados. Trata-se da crise migratória. Quase a totalidade dos migrantes estão em busca de uma condição melhor de vida em relação à sua origem. As guerras sempre deslocam pessoas. No caso das guerras que varreram a Europa nos séculos XIX e XX acabaram por produzir um contingente de quase 40.000.000 de imigrantes somente para os Estados Unidos, Argentina e Brasil. Este tipo de crise ainda se faz presente hoje com os conflitos que arrasam o Oriente Médio. As interpretações na época carregavam a ideia de oportunidade divina (REINKE, 2010). A oportunidade de ocupar terras onde não existiriam as guerras da sua origem. Muitos letos vieram para o Brasil com esta esperança. Neste momento tudo era visto como sendo a vontade do próprio Deus. Ainda hoje temos que lidar com esta crise, porém hoje muitos teólogos vêm tentando caracterizar estes elementos migratórios como sendo de origem meramente religiosa. Se existe o elemento religioso, devemos compreender que as guerras custam muito dinheiro e, se existem pessoas capazes de gastar é porque alguém está lucrando muito com isso (HOBSBAWN, 1998).

Se não podemos evitar que as crises, sistematicamente, possam se aproximar de nossas vidas, podemos nos prevenir e buscar interpretações teológicas capazes de gerar crescimento e fortalecimento com vistas à superação delas. O teólogo precisa interpretar de forma profunda a realidade que o cerca, buscando responder de forma profética e profunda aos problemas. É preciso vermos o todo, logo, além da bíblia, devemos portar o conhecimento da atualidade. Sociologia, história, psicologia, entre outras ciências são essenciais para que o teólogo veja além e enxergue a oportunidade do encontro pessoal entre o Deus criador e a sua criatura numa experiência de fé e comunhão.


Referências Bibliográficas

BAILEY, C. The brotishprotestant theologians in the first world war: guermophobia unleashed. Harvard Theologycal Review, [s.l.], v. 77, no 2, p. 195–221, 1984.

HANDY, R. T. THE AMERICAN RELIGIOUS DEPRESSION , 1925-1935. Church history, [s.l.], v. 29, no 1, p. 3–16, 1960.

HOBSBAWM, E. Era dos Extremos: o breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das letras, 1995.

HOBSBAWN, E. sobre história. São Paulo: Companhia das letras, 1998.

PHILLIPS, H. Why did it happen? Religious and lay explanations of spanish flu epidemic of 1918 in South Africa. Kronos, [s.l.], v. 12, no 1, p. 72–92, 1987.

PINSKY, J. As Primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2011. 125 p.

RATO, H. Crise e democracia: resolução da crise e aprofundamento da democracia. In: FERREIRA, E.; OLIVEIRA, J. P.; MORTÁGUA, M. joão (Orgs.). Investigação e prática em economia. 1 ed. Parede: Princípia Editora, 2008. p. 175–194.

REINKE, A. D. Os pioneiros 1910-2010: 100 anos de história da Covenção Batista Pioneira do sul do Brasil. 1 ed. Curitiba: Convenção Batista Pioneira do sul do Brasil, 2010.