Teologia em tempos de crise: lições de Jeremias na ‘crise das crises’

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Parto da relação etimológica entre os termos principais do título: ‘teologia’ e ‘crise’. A palavra ‘teologia’ é composta de ‘theo’ (Deus) e ‘logos’ (‘estudo’), do v. grego ‘legein’ (‘dizer’), que indica ‘dispor’, ‘organizar’ dados de ‘Deus’ de modo inteligível (inte-log[o]vel). Já a palavra ‘crise’ deriva de ‘krisis’, do v. grego ‘krinô’ (‘julgar’) e indica uma situação ‘crítica’, que pode evoluir tanto para a ‘ordem’, como para o ‘caos’, a depender da seleção, discernimento e disposição lógica dos dados. A partir dessa breve análise, podemos deduzir o seguinte: a krisis desafia o logos, uma vez que desorganiza os dados, causa ‘desconforto’ intelectual e psicológico e demanda a busca de novo sentido. No caso da ‘teologia’, a ‘crise’ obriga o teólogo a transcender em direção ao Theós para reorganizar os dados e elaborar o ‘logos’, o sentido ‘na’ crise. 

À luz desse desafio, o objetivo desse artigo é propor formas de elaborar teologia em tempos de crise, partindo de uma experiência dramática do Antigo Testamento: ‘a crise das crises’ — a destruição de Jerusalém e o exílio na Babilônia. Para tanto, vamos comparar os erros e acertos e colher lições para o enfrentamento da crise atual. 

A crise das crises

Nos dias de Jeremias (640-570 a.C.), a aliança de Yavé e o povo de Israel entrou em colapso. Os judeus perderam a posse da ‘terra prometida’, a dinastia de Davi foi afastada do poder e o sacerdócio levítico praticamente extinto com a destruição do templo. A nação perdeu autonomia política e todos os referenciais étnicos e religiosos. 

Esta crise atingiu todos os pilares da aliança — terra, trono e templo — e desorganizou o sentido da nação. Tudo e todos foram colocados sob suspeita: Deus, o rei, os sacerdotes, os profetas, a Torá, os patriarcas. Como interpretar a crise à luz da fé dos patriarcas? Como confiar nos guias da nação?  O rei saberá o que fazer? Os sacerdotes poderão garantir a bênção de Yavé? Qual profeta fala por Yavé: Jeremias ou Ananias? 

Todos os membros da nação tinham acesso à mesma fonte: a memória da fé (passado), os eventos críticos (presente) e as promessas de Yavé (futuro). A partir desses dados, como cada parte reagiu à crise? Como interpretar a situação? Como dar sentido (logos) aos eventos críticos? Vamos analisar a reação do povo e do profeta Jeremias. 

O povo representa o erro de interpretação dos dados. Eles negaram a gravidade da situação e expressaram confiança nos ritos e no templo: “Deus está conosco”, “o templo não será destruído”. Essa reação pode ser colocada em termos de “é só uma guerrazinha” ou “o exílio vai passar logo e nós vamos voltar para Judá.” Ao errarem a interpretação da crise, o povo negligenciou as advertências e os riscos. A crise ‘julgou’ a teologia do povo.

O profeta Jeremias, por outro lado, representa a leitura correta da crise. A partir dos mesmos dados, ele analisou a movimentação dos impérios, a iminência da guerra, a conduta do povo, as reivindicações de Yavé. Ele acusou o povo de pecado, advertindo-os ao arrependimento. Quando percebeu que a situação era irreversível, aconselhou seus conterrâneos a se renderem aos babilônios e enviou mensagens de calma aos exilados. A teologia do profeta também foi julgada pela crise. 

Note-se ainda que, mesmo acertando na interpretação da crise, Jeremias vivenciou solidariamente todas as consequências dos erros do povo. Ele profetizou a partir de dentro da crise e depois ajudou o povo a superar o caos. Lamentações, atribuído a Jeremias, é expressão franca de um homem que dá livre curso à tristeza, mas também cobra esperança nas promessas de Deus para dar sentido à crise. Assim, a crise produziu teologia. 

Provocações 

Respondendo ao desafio de fazer ‘teologia em tempos de crise’, aprendemos com Jeremias que o teólogo deve acolher honestamente suas próprias perguntas, mesmo correndo o risco de não obter respostas. Deve acolher também as interpelações da sociedade, se é que ela nos considera relevantes para o enfrentamento das crises. O teólogo deve submeter sua teologia a julgamento, acolher os dados ‘críticos’ e buscar ‘inte-log[o]-ência’ no Theos que a tudo transcende. 

A crise interpela a teologia e abre novas oportunidade de revelação.  A crise abala as certezas teológicas e expõe o teólogo à agonia da não-resposta. A teologia dialoga com as crises à luz do Theos e experimenta novos caminhos e olhares. A teologia não foge, nem nega a crise, mas avança em meio a ela e a ilumina. Assim, em vez de ‘teologia de crise’, podemos aventar uma ‘teologia da resiliência’. Resiliente como a teologia de Jeremias que, décadas mais tarde, serviu de fundamento de esperança e fé aos judeus que voltaram do exílio e reconstruíram a nação.