A imagem da mulher na cristandade medieval: entre o sagrado e a demonização

Foto de cottonbro no Pexels

Discutir e apontar elementos que auxiliem na compreensão da construção de uma imagem feminina a partir da cristandade Ocidental ou Mediterrânica durante a baixa Idade Média, em especial os séculos XII e XIII, é o objetivo deste texto.

O primeiro elemento importante para esta análise, tem relação com o silêncio da própria produção acadêmica no que diz respeito à uma escrita da história das mulheres. Este silêncio por parte dos historiadores dura até a década de 30 do século XX, a partir da influência da escola francesa dos Annales e, posteriormente do movimento da Nova História. A partir da adesão de novos elementos que passam a ser utilizados como fontes históricas, através do uso de elementos de outras ciências humanas na pesquisa histórica. A partir desta mudança acadêmica, personagens que, historicamente não tinham nenhuma voz, passaram a ser conhecidos. Entre os diversos grupos que, começaram a ganhar pesquisas a partir de teses e dissertações, as mulheres desta cristandade medieval, passaram a ser estudadas e melhor conhecidas. Esta atenção recente por parte da historiografia ocidental, revela de que maneira a própria cultura e os elementos de permanência destas sociedades influenciam na escolha dos objetos de estudo. Não será coincidência que, a partir da segunda metade do século passado, o interesse neste tipo de tema tenha aumentado de maneira substancial.

O segundo elemento, tem relação direta com a construção, por parte de uma sociedade que está pautada pelos dizeres da instituição eclesiástica cristã. No que concerne às mulheres, existe uma imagem dúbia e paradoxal pois ela oscila entre uma associação direta às tentações produzidas por satanás, sendo então neste sentido, a mulher um arauto do demônio que tinha como intuito desvirtuar o homem de seu caminho.  

O terceiro e último elemento desta análise, tem uma relação direta com a ascensão do culto a figura de Maria, que se intensifica de maneira especial durante a chamada Reforma da Idade Média entre os séculos XII e XIII. Neste sentido, uma imagem sacralizada da mãe de Cristo, será transferida para as mulheres, com ênfase em um grupo determinado delas: as religiosas.

A associação da mulher com Eva foi uma constante por parte das lideranças eclesiásticas ao longo dos séculos de história da Igreja. Podemos sugerir diversas razões para esta analogia persistente no seio da igreja cristã, entre elas, os modelos disponíveis de sociedade, como a judaica, a  grega e a romana, todas bastante conhecidas por não oferecerem espaço para as mulheres, seja para participar da vida pública, seja para poder se expressar no âmbito do espaço de poder. Seu raio de atuação tolerado era o ambiente privado, pois era a responsável pelo cuidado dos filhos e da vida doméstica. O entendimento comum acerca de seu papel com relação à Eva, correspondia a uma compreensão de que a mulher era inferior, por ter sido criada depois, a partir de uma costela do homem. Segundo alguns pensadores do período, o fato do osso da costela ser curvo, comprovaria de certa maneira o caráter desviante gravado em seu DNA feminino desde o início. 

O aumento do contato com os povos “bárbaros” após a romanização da igreja cristã a partir do século IV, apresenta um novo elemento que será introduzido nesta discussão. O desconhecimento da cultura, das práticas e da estrutura destas sociedades distintas, com uma cosmovisão própria no contato com a natureza, por exemplo, leva a novas interpretações por parte da igreja, associando estas mulheres que estavam fora do ambiente proposto para elas nesta sociedade cristã, ao vínculo demoníaco. Além disso, momentos históricos pautados por grandes crises, internas ou externas, seja por doenças que matavam milhares de pessoas, ameaças à soberania eclesiástica, associada às heresias medievais, resultavam em um recrudescimento por parte da igreja na penalização de mulheres que eram associadas à bruxaria e responsabilizadas por parte dos acontecimentos.

Por outro lado, a imagem sacralizada da mulher, que é intensificada em meados do século XIII, a partir do culto a Maria, tem como objetivo, exaltar a religiosidade de um grupo de  mulheres que pertencem, de maneira geral à nobreza, e terão uma vida voltada à pureza e à luta contra os desejos da carne. O dominicano Jacopo Varezze, elaborou o primeiro compilado hagiográfico da igreja, intitulado a posteriori, Legenda Aurea. Nele existe o registro de trinta santas, das quais vinte são apresentadas como virgens, cinco delas abandonaram a vida comum para viver em penitência no claustro e as demais tiveram filhos ou foram casadas. É notório destacar o elevado número de santas que sofreram o martírio, fomentando o papel religioso e de inspiração que teriam no futuro.