A Queda da Mulher e o início da dominação masculina sobre a mulher

Em todas as sociedades, de todas as épocas, há um traço comum de supremacia masculina e controle das mulheres. Isso ocorre principalmente na esfera das religiões, incluindo aí todos os ramos do cristianismo. É nesse escopo que devemos nos perguntar pela ordenação feminina ao pastorado.  

Para elucidar essa disposição, podemos considerar duas hipóteses: é da ordem natural, ou seja, é da natureza humana; ou é de ordem divina, ou seja, é assim porque Deus quer. O objetivo deste texto é contestar essas duas hipóteses e demonstrar que a submissão da mulher é da ordem da decadência.

A pergunta da serpente à mulher altera intencionalmente a ordem de Deus: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (3.1). Para responder, a mulher é obrigada a analisar as possíveis interpretações à ordem de Deus e corrigir a pergunta (3.2-3). Então a serpente incita a mulher a pensar livre da ordem, mentindo-lhe: “É certo que não morrereis” (3.4). A serpente introduz a imagem de um ‘deus’ mesquinho, que inveja o humano e nega-lhe o bem: “sereis como Deus” (3.5). 

A mulher vê que a árvore é “boa para comer, agradável aos olhos” e “desejável para dar entendimento”, come do fruto, dá ao seu marido e “ele come” (3.6). Assim, o humano morre como ‘imago Dei’ e decai para um estado de ‘humano-como-Deus’ (3.5). Como resultado, o homem e a mulher percebem que estavam nus, sentem vergonha e providenciam um modo de cobrir a nudez (3.7). Essa é a narrativa da Queda.

Então Deus chama pelo casal, que foge com medo e se escondem. Deus os encontra (3.8-9) e inicia a inquirição das responsabilidades. Deus questiona o homem (3.9-11), que acusa a mulher (3.12), que por sua vez acusa a serpente (3.13). O homem e a mulher, criados à ‘imago Dei’ e unidos em “uma só carne” (Gn 2.24), agora decaídos em ‘humano-como-deus’, afastam-se do Criador e um do outro. A seguir, Deus enuncia o julgamento da serpente, da mulher e do homem (3.14-19). 

A fala de Deus à mulher (3.16) pode ser considerada a etiologia da dominação do homem sobre a mulher e da consequente divisão desproporcional de poder e tarefas, além de fundamento da culpabilização da mulher. 

Primeiro, Deus diz à mulher que o sofrimento da gravidez e as dores de parto seriam acrescentadas, em contraste com “sejam fecundos e multipliquem-se” (Gn 1.28a). Essas dores estão em paralelo com as dores do homem na produção de alimento na terra inóspita (3.17), que, por sua vez, contrastam com o “dominem a terra” (Gn 1.28-30; 2.15). 

Segundo, Deus diz a mulher que seu desejo (heb. teshûqâh) pelo marido seria respondido com dominação (heb. mâshal). O humano-como-deus não reconhece limites. Assim como havia desejado o fruto (3.6), a ‘mulher-como-deus’ busca seu marido, mas o ‘homem-como-deus’ reage com dominação sobre ela. Não é uma ordem divina, mas uma constatação.

Retomando a pergunta introdutória quanto à razão da dominação do homem sobre a mulher, ficou demonstrado que não decorre nem de ordem natural — porque Deus criou homem e mulher igualmente à sua imagem e semelhança (Gn 1.26s) — nem de ordem divina — porque Deus deu ao homem e à mulher o mesmo mandato e abençoou sua união como “uma só carne” (Gn 1.28-30; 2.24). 

O relato da Queda demonstra que a superioridade masculina é da ordem da decadência, que causou alienação, ruptura, inimizade, ódio, medo, vergonha, desconfiança, culpa e profunda frustração.

Mas a ordem de decadência não é a palavra final para homens e mulheres, porque Jesus, a semente da mulher (3.15), instaurou a ordem da salvação, na qual todos são reconciliados com Deus, consigo mesmos e uns com os outros. Desde então, não há mais hierarquia entre homens ‘dominadores’ e mulheres ‘subordinadas’, mas são todos e todas elevados à mesma dignidade em Jesus. 

Ora, se Jesus encarnou nossa humanidade decaída e elevou homens e mulheres a mesma dignidade, com que justificativa se poderá excluir as mulheres de certos ofícios, reservando-os exclusivamente a homens, sem atentar contra a perfeita salvação provida por Jesus?