É Possível a Mulher no Ministério Ordenado à Luz da Hermenêutica Paulina?

A hermenêutica é a ciência que coordena outros saberes afins para interpretação de um texto. O Direito, a Teologia bíblica e a literatura, provavelmente sejam as áreas de saberes que mais se valem da ciência hermenêutica na atualidade. Não se pode dizer que se trata de uma ciência objetiva, pois os arranjos de interpretação podem ser contaminados pelas preconcepções do intérprete.

As correntes hermenêuticas são muitas, desde as tradições de fé e interpretação dessa fé para os fiéis no AT, entrando na história adentro. Nos dias atuais, três fortes escolas de interpretação disputam as atenções dos leitores e intérpretes: Histórico-gramatical, Histórico Crítico e o Método Semio-discursivo ou Hermenêutica Discursiva.

O método Histórico-gramatical vai para o texto, visando encontrar o primeiro sentido do texto, o que o autor tinha em mente para os seus primeiros leitores e auxilia na transposição cultural; o método Histórico Crítico pressupõe a libertação de premissas dogmáticas e  adota a razão como principal critério de avaliação do texto bíblico, tendo forte influência dos movimentos culturais, chamados historicismo e racionalismo; já o método Semio-discursivo aponta para tratar o texto bíblico como discurso, que recebe um tratamento pelas vias da semiótica. Darei um tratamento na minha leitura do texto, na perspectiva do método Histórico-gramatical. Uma lei da hermenêutica que quero me valer neste paper diz: “A bíblica interpreta a própria Bíblia”.

Uma variação do método Histórico-gramatical é a hermenêutica canônica, muito trabalhado atualmente pelo teólogo bíblico, o professor de Trinity, Kevin Vanhoozen.

O texto que fundamenta a problematização da nossa breve reflexão é 

1 Tm 2.8-15

8 Quero que em todos os lugares os homens orem, homens dedicados a Deus; e que, ao orarem, eles levantem as mãos, sem ódio e sem brigas.

9 Quero também que as mulheres sejam sensatas e usem roupas decentes e simples. Que elas se enfeitem, mas não com penteados complicados, nem com jóias de ouro ou de pérolas, nem com roupas caras! 10 Que se enfeitem com boas ações, como devem fazer as mulheres que dizem que são dedicadas a Deus!

11 As mulheres devem aprender em silêncio e com toda a humildade. 12 Não permito que as mulheres ensinem ou tenham autoridade sobre os homens; elas devem ficar em silêncio. 13 Pois Adão foi criado primeiro, e depois Eva. 14 E não foi Adão quem foi enganado; a mulher é que foi enganada e desobedeceu à lei de Deus. 15 Mas a mulher será salva tendo filhos se ela, com pureza, continuar na fé, no amor e na dedicação a Deus.

Nesta perspectiva, se trabalha uma teologia bíblica da possibilidade ou não da ordenação pastoral canonicamente.

Entendo que os ofícios de Cristo são manifestados no ministério pastoral: Sacerdote, Rei e Profeta. Deus diz em Ezequiel 34, 12-15 que estaria sendo pastor de Israel, conduzindo, cuidando e reunindo o seu rebanho para perto de si. A pessoa e a obra de Jesus, materializado no seu ministério realiza esse trabalho pastoral e vocaciona pastores para a continuação desse serviço.

No AT – o trabalho de pastorear está focado nas três figuras: sacerdote, Rei e Profeta. Para o ofício de Sacerdote e Rei, fazia necessário a unção com azeite, no caso do terceiro ofício, o profeta, não há uma exigência universal.

Numa teologia que considera a igreja do AT, como sendo a igreja que se segue no NT, o seu ofício pastoral segue a mesma linha de tradição canônica: Deus ordena sacerdotes, reis e profetas para conduzir o seu povo, que se realiza plenamente na Pessoa de Jesus Cristo, que segue no pastoreio pelos apóstolos, presbíteros (pastores).

O Apóstolo Paulo se vale dessa linha de tradição canônica para entender a relação de homens e mulheres com os ofícios materializados no culto público: a ordem da criação, as funções na criação, a queda da criação.

Paulo não argumenta por fatores sociais, por princípio de importância, de sabedoria, mas pela tradição revelada canonicamente. As diferentes leituras hermeneuticas aplicadas a este texto nos dirão coisas diferentes:

Uma hermneutica literalista extrema – O mulher usa véu, os homens orem de mãos levantadas, as mulheres não usem tranças, nem enfeites nos cabelos…

Uma hermenutica puramente cultural – nada é de valor objetivo para a igreja de hoje, foi apenas para a igreja de Éfeso.

Uma hermenutica de transposição cultural – o texto é normativo. Quais verdades essenciais foram reveladas para a igreja de Éfeso e são reveladas para nós hoje?

Para Stott precisamos encontrar no texto o que é universal e o que é cultural. O que se repete canonicamente? O que é particulamente de Éfesios? (Submissão/autoridade hupotagê/autheteo – permanente e universal – Base canônica – v 13, 1 Co 11.12.

Silêncio/ensino – expressão cultural – necessidade de se fazer a transposição culturar e afirmar o ensino local e universal. É bom dizer que lliderança não implica em hierarquia – A relação da Trindade é um exemplo – O homem a cabeça da mulher, o Deus Pai o cabeça de Cristo – não pressupõe hierarquia, nem quebra o princípio da unidade.

A pesquisa deste texto teve um impacto com a pesquisa de Richard Clark Kroeger e Catherine Clark Kroeger, que com razão veem a necessidade de deixar o ensino do texto limpo. Porém, no intento de fazerem isso, foram para um extremo, deixando o texto sem ensino universal. Deixaram apenas possibilidades de aplicações éticas indiretas. Fazendo o contexto de 1 Timóteo ser reduzido às relações da influência da teologia pagã, focada na deusa Diana e suas aplicações nas relações de liderança, sacerdócio, maternidade, entre outras acepções. Se lermos o capítulo primeiro de 1 Timóteo, já será suficiente que o contexto histórico da Carta, está muito mais relacionado à presença e influência dos judeus e seus cultos do que da deusa Diana dos Efésios.

Quando a interpretação de uma epístola, faz, quase que, um capítulo inteiro não dizer nada objetivamente para a igreja universal, é de se pensar nos desdobramentos possíveis para o estudo das Escrituras na linha de interpretação.

A universalidade do ensino desta perícope não está focando na autoridade civil que a mulher possa exercer, pois neste caso não teríamos sustentação canônica, pois Débora e outras mulheres exerceram autoridade civil; não está dizendo universalmente que a mulher não deveria ensinar, pois, também não teríamos sustentação canônica para essa afirmação; mas a afirmação universal é que, no que tange ao culto público a mulher não deveria exercer autoridade sobre os homens, o que apontaria para isto que estamos chamando de ordenação, as razões que o Apóstolo Paulo elenca são canônicas.

Tentar focar esta interpretação, a partir de vocábulos, será um equivoca, acabaríamos por não elaborar uma teologia bíblica sobre o tema. Não tendo uma teologia bíblica sobre o tema, fundaremos a prática por princípios das ciências sociais, deduziremos e faremos essas deduções virarem verdades bíblicas.

Deus concedeu dons à sua igreja, o pastoreio é universal, tanto para homens como para mulheres, pois trata-se de uma ação de cuidado, porém dizer que isso é a mesma coisa que ordenação, é seguirmos alargando o entendimento das Escrituras para atender à agenda humanista. A agenda humanista impõe a negação a todas as afirmações que contraria a força humana de viver sem o confronto de Deus. É lamentável que as bases hermenêuticas utilizadas por muitos intérpretes vão desde considerar a ausência de distinção de gênero universal até considerar os textos normativos como demonstração de força política de quem construiu aquele ensino, que essas vertentes chamam de discursos ideológicos.

Sei que existe lado do estudo desse tema carregado de preconceito e discurso ideológico, o que pode ser visto nos dois lados da discussão, mas o assunto bíblico é de uma arquitetura canônica, que Deus estabeleceu, sem dar grau de importância, mas de funções. O mundo e seu apelo humanista desconsidera os princípios de Deus em organizar as coisas – se o ensinamento é normativo a igreja deve se colocar na contramão da agenda humanista, como “ainda” faz com a exclusividade de Cristo na salvação.

Soli Deo Glori