A mulher pregadora: uma análise do cenário brasileiro na atualidade

Nas últimas décadas, embora ainda haja resistência da parte de algumas igrejas evangélicas quanto à ordenação feminina, têm havido um crescimento significativo de pregadoras em todo território brasileiro, em muitas denominações. 

Um dos sites evangélicos, o verbo news, discorrendo sobre seis pregadoras evangélicas, que hoje impactam o Brasil, tem a seguinte sinapse, no início de sua matéria: 

Enquanto os debates teológicos tentam dizer se mulheres podem ou não pregar para multidões, o Brasil segue sendo um celeiro de ministros e as mulheres estão se destacando cada vez mais no ministério pastoral. Com conhecimento da Palavra e um jeito especial para falar aos corações, essas pregadoras ganham cada vez mais destaque nas redes sociais e viajam por todo o país espalhando a mensagem do Evangelho.

Somente a partir do séc. XX as igrejas começaram a reconhecer e ordenar mulheres ao ministério. Não sem resistências, discussões teológicas, até mesmo oposição.  Wanda Deifelt, num artigo intitulado Mulheres pregadoras – uma tradição da igreja, conta a história da trajetória da atuação da mulher desde o primeiro século até os nossos dias, momento este em que o ministério pastoral feminino, finalmente, tem sido reconhecido num crescente cada vez maior entre as denominações evangélicas, incluindo o Brasil. 

Enquanto a aceitação das mulheres no ministério pastoral está se tornando inevitavelmente um caminho sem volta, na atualidade, parece-nos que, na ordem dos papéis religiosos o ministério da pregação se encontra mais acelerado. Pois, na comparação com o ministério pastoral reconhecido, a pregação, o ensino e palestras, conduzidos por mulheres, têm tido menos resistência. 

Esse breve artigo objetiva refletir sobre o ministério feminino de pregação nas últimas décadas, no âmbito brasileiro, contextualizando o cenário dessas pregadoras, analisando semelhanças, diferenças, peculiaridades e suas competências.

Para tanto, algumas pregadoras de destaque no cenário nacional foram selecionadas, sendo que o autor deste artigo ouviu, nas mídias sociais, pelo menos uma pregação de cada uma dessas pregadoras. As pregadoras ouvidas foram as seguintes: Valnice Milhomens Coelho, apóstola da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo; Dra Edméia Williams, missionária da Igreja Anglicana; pastora Talitha Pereira, Igreja do Amor; pastora Helena Tannure, Igreja Batista da Lagoinha; Alexandra Abrantes, Ministério MEVAM (Missões Evangelísticas “Vinde, amados meus”); Dra Rosana Alves, preletora, Igreja Adventista do 7º Dia; as pastoras Isa Reis, Camila Barros e Helena Raquel, da Igreja Assembléia de Deus.

Ouvidas as pregações dessas impressionantes pregadoras, algumas características chamam a atenção. A primeira delas trata-se de experiências de conversão impactantes, como é o caso da Dra Edméia Williams, da Igreja Anglicana. Sua experiência de conversão e chamada, como de outras pregadoras, já são em si poderosos sermões de vida.

A forte convicção de chamada para pregar, ensinar e ministrar é outra característica observada nessas pregadoras. Exemplo disso é o caso da Apóstola Valnice Milhomens Coelho, uma das pioneiras da pregação feminina em nosso país. Ela foi a primeira líder evangélica a usar a televisão como instrumento de evangelização, na década de 80.

A formação acadêmica de algumas dessas pregadoras se reflete na grande capacidade de abordarem temas teológicos, em conjugação com temas atuais, o que lhes confere grande credibilidade. É o caso da Dra Edméia Williams Coelho, da Igreja Anglicana, que é formada em Pedagogia, Filosofia, Psicologia e Música, além de falar vários idiomas. Também é o caso da Dra Rosana Alves, preletora, da Igreja Adventista do 7º Dia, que é Phd em Neurociência. Além disso, várias dessas pregadoras têm livros publicados, sobre vários temas populares e atuais, alcançando grande parcela do público feminino.

A grande capacidade de comunicação dessas pregadoras é outra característica que impressiona, embora cada qual com o seu estilo peculiar. Umas pregadoras empregam um estilo de pregação mais clássico, característico de pregadores masculinos, com impostação de voz, palavras de ordem. Outras, num estilo mais feminino de falar. Algumas outras, em tom de conversa falam ao seu público, não sem menos impacto. Extenso vocabulário, senso de humor, interação com o público, dramaticidade são alguns dos recursos poderosos de comunicação usados por essas pregadoras. 

A contemporaneidade dos temas abordados, sem deixar de lado a essência do Evangelho, atinge em cheio o público que, nessa pós-modernidade, valoriza temas como: ansiedade, autoestima, como lidar com as emoções, a neurociência e a fé etc.

O grande alcance de suas ministrações coincide com o momento midiático em que estamos vivendo. Elas usam largamente as redes sociais. Todas elas estão nas mídias, e atingem milhares de pessoas, e milhares as seguem.

Essas consagradas pregadoras também atingem públicos diferenciados. Grande parte dessas pregadoras alcançam, de maneira especial, os seus pares quanto ao gênero, ou seja, o público feminino, que é uma grande parcela das igrejas. Sendo do gênero feminino, sentem-se mais habilitadas para ministrar às mulheres no que lhes diz respeito, pelo que são muito requisitadas para conferências, retiros e congressos de mulheres. Além disso, algumas pastoras, como Alexandra Abrantes, esposa do cantor Rodolfo Abrantes, ex-integrante dos Raimundos, usando tatuagem nos braços e linguagem dos jovens, atinge um público que dificilmente participaria de uma igreja evangélica tradicional.

Todas essas características, acima citadas, contradizem o alegado argumento que era outrora colocado para que mulheres não assumissem ministérios públicos, como os dos homens. Exemplo disso é o que Lutero pensava do ministério feminino. Usando o argumento cultural, em favor dos pregadores masculinos, disse: “Os homens têm mais desenvoltura para expressar-se em público; tem boa voz, eloquência, memória, além de outros dons; é mais apropriado para homem, para manter o respeito e a disciplina”.

Waldyr Carvalho Luz, professor aposentado da Unicamp e doutor em Filosofia do NT, pelo Princeton Theological Seminary, que exerceu um longo magistério no Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas, SP, e que traduziu As Institutas, de João Calvino, declarou o seguinte, à Revista Ultimato, numa entrevista sobre ministério feminino: “É provável que o maior obstáculo à ordenação de pastoras, presbíteras e diaconisas não seja a Palavra de Deus, mas o machismo” (p. 44).

Em relação à capacidade das mulheres, que atualmente exercem o ministério de liderança e pregação, em nosso país, Waldyr Carvalho declarou: 

Mulheres superdotadas, de notório espírito de liderança e notável capacidade de ação, não são raridade em nossas igrejas. Normativamente, elas desenvolvem seus talentos e dons espontaneamente, sem chancela oficial ou entendimento formal com a direção da igreja. Gozam de larga influência e são cercadas de admiração incontestável e o apoio de numeroso círculo de simpatizantes (p. 48).

No que se refere à importância do ministério feminino, em paridade com os homens, o renomado prof. Waldyr Carvalho Luz é taxativo ao afirmar:

A participação de mulheres em funções eclesiásticas, inclusive no ministério pastoral, nos últimos cinquenta anos, em não poucas denominações, em absoluta paridade com os homens, na Igreja de Cristo, ou o chamado mundo evangélico, é um fato de excepcional relevância e indizível alcance. Não paira dúvida, a equiparação das mulheres aos homens nas funções eclesiásticas não apenas enriquece o quadro operacional da igreja, dinamiza-o e amplia significativamente o alcance de sua bendita operação (p. 48).

Ao final desse breve artigo, fica evidente que o Brasil, na atualidade, é um celeiro de pregadoras altamente dotadas, e que a atuação feminina em todos os papéis, tradicionalmente alocados aos homens, é um caminho que não tem volta. Com isso, quem ganha é o próprio reino de Deus.