Quero trazer à memória o que me pode dar esperança

Foto de Jackson David no Pexels

Estava eu meditando sobre o tumulto dos dias atuais: pandemia, medos, incertezas, crise financeira, crise política, rumores de guerras, violência e tantas coisas mais, a inevitável pergunta logo veio à mente: O que será do amanhã? Me lembrei também das palavras do patriarca Jó, quando exclamou: “porque há esperança para a árvore, pois, mesmo depois de cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus rebentos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e no chão morrer o seu tronco, ao cheiro das águas brotará e dará ramos como planta nova. O homem, porém, morre e fica prostrado; expira o homem e onde está?” (JÓ 14: 7,8,9,10). Parece que as árvores têm melhor sorte que os homens…!

Prosseguindo na reflexão, também me lembrei das palavras do antigo sábio quando disse: “vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?” (Eclesiastes 1:2,3). Um raio de luz, porém ,rompeu em meio às nuvens densas e escuras das indagações nas quais estava imerso, um fio de entusiasmo brotou diante do abatimento de minha alma inquieta, pois recordei as palavras que são o título desta reflexão: “quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lamentações 3:21). Trazer à memória, segundo o texto, é recordar, é relembrar fatos passados, é munir a mente de convicções de algo concreto e histórico. Percebi que este é um excelente conselho para dissipar os medos e as sombras que tentam tomar o controle da mente humana em certos momentos.

O pequeno livro de Lamentações (se de Jeremias ou não), não sei, sei apenas que tais poemas, que provavelmente foram compostos na Palestina após a ruína de Jerusalém no ano de 587, segundo a bíblia de Jerusalém, trouxe refrigério e descanso diante da minha crise particular que se avolumavam. Me chama a atenção, que desses cantos fúnebres, surge no autor tais versos que expressam sentimentos de esperança e alento no Deus eterno, de cujo os olhos nada se esconde; uma fé viva que mostra o seu valor, brota, ao conduzir de maneira certa e objetiva aquela pessoa que em meio ao caos mantém surpreendente confiança.

A crise está posta? É fato que sim! Há quem diga que a partir de agora um “novo normal” se estabelece, nada será como antes, o mundo como o conhecíamos não existe mais, de agora para a frente é uma nova realidade, um novo contexto. Jerusalém estava destruída, o saldo de mortos era horrivelmente grande, famílias destroçadas, o povo restante que poderia reerguer a nação estava sendo levado cativo para a Babilônia, uma terra estranha e distante. O que esperar de tal contexto? O que fazer frente a tão cruenta realidade? O momento era de dor e luto, de olhos vermelhos e choro incontido, tudo tinha se convertido num mar de lágrimas e tristeza indizível.

Percebendo aquele cenário e contextualizando, quero me aliar com o pensamento poético do escritor e afirmar: “não ficarei prostrado e entregue a desilusão, não me afogarei em lágrimas de desesperança ou turbado pela dor, não permitirei que meu coração, que está saturado de más notícias, me engane, não morrerei com os desiludidos e vencidos pelo medo”. Exclamo, pois, como o salmista: “…ainda que a terra se mude, ainda que os montes se transportem para o meio dos mares, ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza, há um rio cujas corrente alegram a cidade de Deus. Deus está no meio dela não será abalada, Deus a ajudará ao romper da manhã” (SALMOS 46:2 a 5).

Estou sempre preocupado com o amanhã, e isso é pecado. Também estou preocupado com minha saúde, e isso também é pecado. O certo seria não andarmos preocupados, mas nos preocupamos com aquilo que nos causa dor ou com bens que podemos perder. Porém, até as nossas doenças e perdas neste mundo estão devidamente sob a providência divina, que afinal, é excelente providência (SPROUL, 2017 p. 127). É imprescindível rememorar as benesses do Senhor no curso de nossas vidas, os livramentos e provisões, a orações respondidas, e mesmo aquelas que ainda não foram, certamente a seu tempo! Portanto, não é tempo de ficar prostrado contando prejuízos; mas, sim, de rememorar as benesses do Senhor e a grandeza de seu auxílio certo e oportuno. É tempo de olhar com a visão da fé, de enxergar além das aparências e do espaço geográfico, para finalmente se encher da verdade atemporal que é a santa palavra de Deus; infalível, imutável que garante a chegada ao porto seguro. Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (LAMENTAÇÕES 3:21). Exercite sua memória e lembre-se que “…até aqui nos ajudou o Senhor” (I SAMUEL 7:12). Pense nisso!

Bibliografia: BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. La Bible de Jérusalem, nova edição revista e ampliada. 1º ed. São Paulo: Paulus, 2002.BÍBLIA. Português. Bíblia Shedd .João Ferreira de Almeida, revista e atualizada. 2º ed. Barueri-SP: Vida Nova, 1997.SPROUL, R.C. Somos Todos Teólogos, Uma Introdução à Teologia Sistemática. Tradução Francisco Wellington Ferreira.1ª ed. São José dos Campos, SP: Fiel, 2017.