Desigrejamento nos tempos do Novo Testamento

Photo by Nikko from Pexels

Em princípio, ficamos pensando sobre aqueles que poderiam sair, os que, de fato, saíram da igreja, nos tempos do NT. Ou seja, aquelas pessoas que, uma vez ingressas na igreja, ou numa comunidade cristã, corriam o risco de se desviarem da fé cristã, bem como aqueles que, de fato, o fizeram. Na sequência, pensamos nos vários motivos que podiam levar um cristão a abandonar a comunidade e sua fé em Cristo. Por último, nos perguntamos se no NT havia desigrejados, do modo como o são os desigrejados nos dias de hoje.

Em termos de terminologia, vou emprestar o termo desigrejado, usado nos nossos dias, e, no final deste texto, faremos uma comparação entre os desigrejados do NT, e os desigrejados de hoje, com o fito de estabelecer diferenças e desafios para estes e para a igreja da atualidade.

Riscos de desigrejamento no Novo Testamento

Quanto ao risco de se desviarem da fé cristã, e abandonarem a comunidade, isso era perfeitamente passível de acontecer, tendo em vista os vários avisos e exortações do NT quanto a essa possibilidade. Exortações desde os tempos de Jesus, em seus próprios ensinos, até aqueles mais tardios, no decorrer do 1º século, nos dão conta desse risco.

Jesus, por exemplo, já advertia: “[…] Ninguém que tendo posto a mão no arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lc 9.61, RA). Numa de suas parábolas, a do Semeador, tanto em relação àqueles simbolizados pela semente que caiu entre pedregulhos, como a que caiu entre espinhos, são tidos como pessoas que não levariam adiante sua primeira profissão de fé, vindo a se desviarem, por razões diferentes (Mt 13.20,21, RA).

Quando consultamos as cartas de Paulo, as cartas gerais, e também o Apocalipse, a mesma advertência é feita aos fiéis sobre o perigo e as consequências de se desviarem da fé cristã, e o abandono da comunidade dos crentes (1 Co 10.1-14; 2 Co 11.3; Gl 3.1-3; 5.4,7; Cl 1.21-23; Hb 2.1; 10.25, RA).

Além das advertências quanto ao risco, a perseverança na fé cristã é constantemente trazida a lume pelos escritores do NT. Não faltam passagens bíblicas encorajando os cristãos a permanecerem firmes na fé em Cristo, junto às suas comunidades (Mt 10.22; 24.13; Mc 13.13; Cl 1.21-23; Hb 12.1,7; Tg 5.11; 1 Pe 2.19; Ap 3.11, RA).

Portanto, o risco, tanto do desigrejamento quanto ao desvio da fé cristã, sempre existiu, desde o princípio, o que ensejou da parte dos escritores do NT emitir não somente exortações e avisos quanto a esse desvio, quanto encorajamentos, a fim dos fiéis permanecerem fiéis a fé e às suas comunidades cristãs.

Motivos de desigrejamento no NT

No que diz respeito aos motivos que poderiam, e, em alguns casos, ensejaram que pessoas se desviaram da fé cristã, abandonando a comunidade dos salvos, esses são os mais variados: o sofrimento por causa do evangelho (Mt 13.21; 24.9,10); as más influências dos falsos mestres, que enganariam a muitos (Mt 24.11); amor ao dinheiro e riquezas deste mundo (Mt 13.22; 2 Tm 9.10); ações aparentemente honrosas, mas com motivações erradas (At 5.1-11); membros com comportamento moralmente inaceitável (1 Co 5.1-8); amor ao presente século (2 Tm 4.10); há também aqueles que fisicamente frequentavam uma determinada comunidade, mas saíram da comunidade por motivos de heresia (1 Jo 1.18-26).

Tipos de desigrejados no Novo Testamento

Quando pensamos no fenômeno de desigrejamento no NT, como um processo, poderíamos imaginar um espectro. Dentro das comunidades cristãs havia desde uma situação de negligência (Hb 5.11-6.3), desânimo (Hb 12.12,13), esfriamento na fé, decepção, dúvidas (Jd 23), até aquela de abandono tanto da fé quanto da comunidade.

Entre os que abandonaram a fé cristã e a comunidade dos salvos, é possível que houvesse vários tipos de desigrejados. Uma das formas de categorizá-los é bem nítido nas páginas do NT: a) havia aqueles que abandonaram a fé e a comunidade, e eram passíveis de serem recuperados; e, b) havia aqueles que abandonaram a fé cristã e a comunidade, sem muitas chances de serem recuperados. Alguns, não somente abandonaram a fé e a comunidade cristã, mas se tornavam seus inimigos (cf. Hb 6.4-8; 1 Tm 4.1-4; 1 Pe 2; 3.18). A esses últimos, o NT os coloca na categoria de apóstatas.

A apostasia era um desvio gravíssimo da fé, com poucas chances ou nenhuma chance de recuperação. Segundo Mark W. Karlberg, a palavra “apostasia” é a tradução de várias palavras bíblicas, tanto do hebraico quando do texto grego: Heb. mĕsûbâ, e Gr. parapiptō e aphistēmi, e apostasia. Assim sendo, de acordo com o autor, a apostasia é a: “Deserção da fé, um ato de imperdoável rebelião contra Deus e sua verdade. O pecado de apostasia resulta no abandono da doutrina cristã e conduta”. [1]

Recuperação de desigrejados no Novo Testamento

Como já assinalado, o NT parece nos apontar dois tipos de comportamento em relação aos que se desviam da fé cristã: a) Havia os recuperáveis; e, b) Aqueles dificilmente recuperáveis, ou impossíveis de serem recuperados, sendo esses últimos, como aludidos anteriormente, apóstatas.

Mesmo antes de membros abdicarem de sua fé e comunidades, vários autores de epístolas do NT, não somente por si só encorajam os membros das igrejas a perseverarem na fé em Cristo, mas aconselhava as próprias igrejas e seus líderes a exortar, encorajar e a fortalecerem os membros mais displicentes e vulneráveis, a fim de que não abandonassem a fé em Cristo (Gl 6.1-10; 1 Ts 5.4.18; 5.11,14; 2 Ts 2.3; 2 Tm 2.24-26; Hb 10.24,35; Tg 1.19,20; 1 Jo 5.16a; Jd 22,23, RA).

O segundo grupo de desigrejados, parece receber um tratamento diferente daqueles que simplesmente se desviaram da fé, e eram tidos como irrecuperáveis. Desde os tempos de Jesus existe um entendimento de pecados que eram passíveis de serem perdoados, e aqueles que não o eram (Mt 12.31-32; Mc 3.28,29; 1 Jo 5.16-17, RA).

O NT parece repercutir esse entendimento, em relação aos que se desviam da fé e conduta cristã. Os falsos mestres e apóstolos, bem como irmãos que seguiam os ensinamentos daqueles, eram tratados de uma maneira diferenciada. Ou seja, não há muito empenho em recuperá-los do seu desvio. Talvez porque o seu desvio tenha se tornado numa obstinação difícil de ser revertida, não que Deus não pudesse perdoá-los.

João, por exemplo, em sua primeira epístola, diz que não é para orar pelo irmão que tenha pecado para a morte (1 Jo 5.16, RA). Esse pecado para a morte, dentro do contexto de João, parece ser um pecado relacionado à heresia gnóstica, que negava a encarnação de Jesus (1 Jo 1.22, RA) [2]. Na mesma carta, o apóstolo se refere aos falsos mestres, como anticristos, os quais saíram da igreja porque não eram cristãos como os demais, e porque tinham um outro entendimento sobre Jesus (1 Jo 2.18,19, RA).

Em relação aos apóstatas, o autor aos Hebreus, por sua vez, chega a dizer que: “É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que de novo estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e expondo-o à ignomínia” (Hb 6.4-6; 10.26, RA).

Parece-nos que a apostasia, no NT, seja praticada por membros da igreja, ou por falsos mestres que tentavam deturpar a fé cristã com heresias a ponto de  colocarem em dúvida as doutrinas fundamentais e também as práticas cristãs, era considerada um tipo de desvio mais grave do que aqueles outros tipos de desvios por motivos menos graves. E, para esse tipo de desvio, como já foi dito, os autores bíblicos tinham dificuldade de pensar na possibilidade de uma recuperação. Assim, a apostasia sempre foi um perigo, um risco, a que os cristãos estavam expostos nos tempos do NT. 

Com isso, o NT mantém um equilíbrio entre uma situação de desvio que pode ser revertida e outra que não pode ser revertida.

Desigrejados dos tempos do NT e os desigrejados de hoje

Duas perguntas nos ocorrem quando pensamos em desigrejados do NT, e naqueles de agora: a) os tipos e motivos dos desigrejados do NT são os mesmos dos de hoje? b) quais as diferenças entre os desigrejados do NT, e os chamados desigrejados de hoje, se houver?

Quando comparamos os desigrejados dos tempos do NT, com os de agora, diríamos que todas as situações e tipos de desigrejados naqueles dias são passíveis de acontecer, e acontecem nos dias de hoje.

No entanto, com certeza, os motivos pelos quais pessoas saem da igreja, nos dias de hoje, são muitos, e muito mais variados do que aqueles mencionados no NT. Alan Corrêa, em seu livro, Dissidentes da igreja: entendendo e defendendo a igreja, menciona sete motivos pelos quais pessoas abandonam a igreja hoje. São eles: decepção, abuso religioso, individualismo, cultura de descartabilidade, balança injusta, antinomismo, descredibilidade dos de dentro. [3]

Luiz Alexandre Ribeiro Branco, autor de “Perguntas Pós-Modernas”, por sua vez, ao escrever sobre os desigrejados de hoje, faz uma diferenciação entre desigrejados e descritianizados. Segundo o articulista: 

O desigrejado é aquele que por motivos de adaptação litúrgico-teológica não consegue encontrar-se nesse emaranhado de igrejas com suas esquisitices, contudo é crente e sinceramente busca um ambiente cristão e saudável para pertencer, mas lhe é uma tarefa difícil, devido às suas frustrações anteriores. Ele busca a Deus, lê e obedece as Escrituras e procura com sinceridade um aprisco onde possa finalmente descansar com segurança. [4]

Quanto ao descristianizado, Branco o descreve como: 

[…] aquele que por motivo teológico-doutrinário afasta-se do meio cristão, movido por intenções equivocadas, não mantém comunhão com os outros crentes, a não ser para reclamar, não busca a Deus, não lê as Escrituras, vive de forma leviana e contrária ao evangelho”.

Ainda, para Branco, “[…] o número de descristianizados seja superior ao número de desigrejados. O primeiro seria um pecador perdido, e o outro, um pecador salvo”.

Recentemente tivemos a oportunidade de ler um interessante e bem pesquisado TCC, intitulado “Os desigrejados no contexto evangélico brasileiro”, de Rogério de Souza Guimarães, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Segundo Guimarães, sendo ele também um desigrejado, considera os desigrejados de hoje como um movimento religioso cristão, recente, da pós-modernidade, à semelhança de tantos outros movimentos de fracionamento ao longo da história da igreja, o qual propõe respostas religiosas inovadoras para condições do mundo moderno (sobretudo em relação à forma de viver a fé cristã e a comunhão com outros que professam a mesma fé, sem perda total e irremediavelmente com as raízes de tradição evangélica. Não deixam de ser, a seu modo, uma espécie de contracultura (ao que chamam de sistema religioso evangélico e sua cultura). [5]

De acordo com Guimarães, os desigrejados são contra a igreja institucionalizada, e têm as seguintes características: a) não submissão a uma liderança carismática; b) não mais templos; c) desnecessidades de reuniões e rituais regulares; d) não seguir um conjunto de regras (confissões, credos etc); e) não dízimos e ofertas.

Guimarães ainda acrescenta que entre os desigrejados de hoje há discordâncias e várias maneiras de ser desigrejado.

Considerações Finais

Parece-nos que, algumas das reivindicações dos desigrejados de hoje, concernentes a igrejas institucionalizadas, fazem todo sentido. Enquanto seja impossível à igreja fugir à institucionalização, esta quando exacerbada pode, sem dúvida, perder de vista, o indivíduo e passar por cima de suas necessidades, deixando de atendê-las.

Por outro lado, algumas das posições de parte dos desigrejados são questionáveis (ser contra templos, deixar de celebrar a ceia, praticar o batismo, ser contra dízimos e ofertas), além do fato de imaginar que a igreja pode fugir à institucionalização.

Cremos que ambos os lados têm muito que ponderar, seja da igreja institucionalizada para reconsiderar toda a sua forma de ser igreja, a fim de recuperar e não continuar perdendo adeptos, seja dos desigrejados, se quiserem se firmar como mais um movimento fracionário da história da igreja, sem abdicar dos essenciais da fé cristã.

REFERÊNCIAS

[1] ELWELL, Walter A. Evangelical Dictionary of Biblical Theology. Grand Rapids, Michigan : Baker House Company, 1996, p. 33.

[2] CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado : versículo por versículo. São Paulo : Milenium Distribuidora Cultural Ltda, 1979, vol. 6, p. 300.

[3] CORRÊA, Alan. Dissidentes da igreja: entendendo e defendendo a igreja. São Paulo: Editora Reflexão, 2014.

[4] Disponível em: https://www.ultimato.com.br/revista/artigos/361/os-desigrejados-e-os-descristianizados.

[5] GUIMARÃES, R. S. Os desigrejados no contexto evangélico brasileiro. TCC – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Antropologia, Bacharelado em Ciências Sociais. Bacharelado em Ciências Sociais. Porto Alegre, RS : 2021.