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Desigrejamento nos tempos do Novo Testamento

José Godoi Filho
José Godoi Filho
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20 de outubro de 2021 • 11 min. de leitura

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Em princípio, ficamos pensando sobre aqueles que poderiam sair, os que, de fato, saíram da igreja, nos tempos do NT. Ou seja, aquelas pessoas que, uma vez ingressas na igreja, ou numa comunidade cristã, corriam o risco de se desviarem da fé cristã, bem como aqueles que, de fato, o fizeram. Na sequência, pensamos nos vários motivos que podiam levar um cristão a abandonar a comunidade e sua fé em Cristo. Por último, nos perguntamos se no NT havia desigrejados, do modo como o são os desigrejados nos dias de hoje.

Em termos de terminologia, vou emprestar o termo desigrejado, usado nos nossos dias, e, no final deste texto, faremos uma comparação entre os desigrejados do NT, e os desigrejados de hoje, com o fito de estabelecer diferenças e desafios para estes e para a igreja da atualidade.

Riscos de desigrejamento no Novo Testamento

Quanto ao risco de se desviarem da fé cristã, e abandonarem a comunidade, isso era perfeitamente passível de acontecer, tendo em vista os vários avisos e exortações do NT quanto a essa possibilidade. Exortações desde os tempos de Jesus, em seus próprios ensinos, até aqueles mais tardios, no decorrer do 1º século, nos dão conta desse risco.

Jesus, por exemplo, já advertia: “[…] Ninguém que tendo posto a mão no arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lc 9.61, RA). Numa de suas parábolas, a do Semeador, tanto em relação àqueles simbolizados pela semente que caiu entre pedregulhos, como a que caiu entre espinhos, são tidos como pessoas que não levariam adiante sua primeira profissão de fé, vindo a se desviarem, por razões diferentes (Mt 13.20,21, RA).

Quando consultamos as cartas de Paulo, as cartas gerais, e também o Apocalipse, a mesma advertência é feita aos fiéis sobre o perigo e as consequências de se desviarem da fé cristã, e o abandono da comunidade dos crentes (1 Co 10.1-14; 2 Co 11.3; Gl 3.1-3; 5.4,7; Cl 1.21-23; Hb 2.1; 10.25, RA).

Além das advertências quanto ao risco, a perseverança na fé cristã é constantemente trazida a lume pelos escritores do NT. Não faltam passagens bíblicas encorajando os cristãos a permanecerem firmes na fé em Cristo, junto às suas comunidades (Mt 10.22; 24.13; Mc 13.13; Cl 1.21-23; Hb 12.1,7; Tg 5.11; 1 Pe 2.19; Ap 3.11, RA).

Portanto, o risco, tanto do desigrejamento quanto ao desvio da fé cristã, sempre existiu, desde o princípio, o que ensejou da parte dos escritores do NT emitir não somente exortações e avisos quanto a esse desvio, quanto encorajamentos, a fim dos fiéis permanecerem fiéis a fé e às suas comunidades cristãs.

Motivos de desigrejamento no NT

No que diz respeito aos motivos que poderiam, e, em alguns casos, ensejaram que pessoas se desviaram da fé cristã, abandonando a comunidade dos salvos, esses são os mais variados: o sofrimento por causa do evangelho (Mt 13.21; 24.9,10); as más influências dos falsos mestres, que enganariam a muitos (Mt 24.11); amor ao dinheiro e riquezas deste mundo (Mt 13.22; 2 Tm 9.10); ações aparentemente honrosas, mas com motivações erradas (At 5.1-11); membros com comportamento moralmente inaceitável (1 Co 5.1-8); amor ao presente século (2 Tm 4.10); há também aqueles que fisicamente frequentavam uma determinada comunidade, mas saíram da comunidade por motivos de heresia (1 Jo 1.18-26).

Tipos de desigrejados no Novo Testamento

Quando pensamos no fenômeno de desigrejamento no NT, como um processo, poderíamos imaginar um espectro. Dentro das comunidades cristãs havia desde uma situação de negligência (Hb 5.11-6.3), desânimo (Hb 12.12,13), esfriamento na fé, decepção, dúvidas (Jd 23), até aquela de abandono tanto da fé quanto da comunidade.

Entre os que abandonaram a fé cristã e a comunidade dos salvos, é possível que houvesse vários tipos de desigrejados. Uma das formas de categorizá-los é bem nítido nas páginas do NT: a) havia aqueles que abandonaram a fé e a comunidade, e eram passíveis de serem recuperados; e, b) havia aqueles que abandonaram a fé cristã e a comunidade, sem muitas chances de serem recuperados. Alguns, não somente abandonaram a fé e a comunidade cristã, mas se tornavam seus inimigos (cf. Hb 6.4-8; 1 Tm 4.1-4; 1 Pe 2; 3.18). A esses últimos, o NT os coloca na categoria de apóstatas.

A apostasia era um desvio gravíssimo da fé, com poucas chances ou nenhuma chance de recuperação. Segundo Mark W. Karlberg, a palavra “apostasia” é a tradução de várias palavras bíblicas, tanto do hebraico quando do texto grego: Heb. mĕsûbâ, e Gr. parapiptō e aphistēmi, e apostasia. Assim sendo, de acordo com o autor, a apostasia é a: “Deserção da fé, um ato de imperdoável rebelião contra Deus e sua verdade. O pecado de apostasia resulta no abandono da doutrina cristã e conduta”. [1]

Recuperação de desigrejados no Novo Testamento

Como já assinalado, o NT parece nos apontar dois tipos de comportamento em relação aos que se desviam da fé cristã: a) Havia os recuperáveis; e, b) Aqueles dificilmente recuperáveis, ou impossíveis de serem recuperados, sendo esses últimos, como aludidos anteriormente, apóstatas.

Mesmo antes de membros abdicarem de sua fé e comunidades, vários autores de epístolas do NT, não somente por si só encorajam os membros das igrejas a perseverarem na fé em Cristo, mas aconselhava as próprias igrejas e seus líderes a exortar, encorajar e a fortalecerem os membros mais displicentes e vulneráveis, a fim de que não abandonassem a fé em Cristo (Gl 6.1-10; 1 Ts 5.4.18; 5.11,14; 2 Ts 2.3; 2 Tm 2.24-26; Hb 10.24,35; Tg 1.19,20; 1 Jo 5.16a; Jd 22,23, RA).

O segundo grupo de desigrejados, parece receber um tratamento diferente daqueles que simplesmente se desviaram da fé, e eram tidos como irrecuperáveis. Desde os tempos de Jesus existe um entendimento de pecados que eram passíveis de serem perdoados, e aqueles que não o eram (Mt 12.31-32; Mc 3.28,29; 1 Jo 5.16-17, RA).

O NT parece repercutir esse entendimento, em relação aos que se desviam da fé e conduta cristã. Os falsos mestres e apóstolos, bem como irmãos que seguiam os ensinamentos daqueles, eram tratados de uma maneira diferenciada. Ou seja, não há muito empenho em recuperá-los do seu desvio. Talvez porque o seu desvio tenha se tornado numa obstinação difícil de ser revertida, não que Deus não pudesse perdoá-los.

João, por exemplo, em sua primeira epístola, diz que não é para orar pelo irmão que tenha pecado para a morte (1 Jo 5.16, RA). Esse pecado para a morte, dentro do contexto de João, parece ser um pecado relacionado à heresia gnóstica, que negava a encarnação de Jesus (1 Jo 1.22, RA) [2]. Na mesma carta, o apóstolo se refere aos falsos mestres, como anticristos, os quais saíram da igreja porque não eram cristãos como os demais, e porque tinham um outro entendimento sobre Jesus (1 Jo 2.18,19, RA).

Em relação aos apóstatas, o autor aos Hebreus, por sua vez, chega a dizer que: “É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que de novo estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e expondo-o à ignomínia” (Hb 6.4-6; 10.26, RA).

Parece-nos que a apostasia, no NT, seja praticada por membros da igreja, ou por falsos mestres que tentavam deturpar a fé cristã com heresias a ponto de colocarem em dúvida as doutrinas fundamentais e também as práticas cristãs, era considerada um tipo de desvio mais grave do que aqueles outros tipos de desvios por motivos menos graves. E, para esse tipo de desvio, como já foi dito, os autores bíblicos tinham dificuldade de pensar na possibilidade de uma recuperação. Assim, a apostasia sempre foi um perigo, um risco, a que os cristãos estavam expostos nos tempos do NT.

Com isso, o NT mantém um equilíbrio entre uma situação de desvio que pode ser revertida e outra que não pode ser revertida.

Desigrejados dos tempos do NT e os desigrejados de hoje

Duas perguntas nos ocorrem quando pensamos em desigrejados do NT, e naqueles de agora: a) os tipos e motivos dos desigrejados do NT são os mesmos dos de hoje? b) quais as diferenças entre os desigrejados do NT, e os chamados desigrejados de hoje, se houver?

Quando comparamos os desigrejados dos tempos do NT, com os de agora, diríamos que todas as situações e tipos de desigrejados naqueles dias são passíveis de acontecer, e acontecem nos dias de hoje.

No entanto, com certeza, os motivos pelos quais pessoas saem da igreja, nos dias de hoje, são muitos, e muito mais variados do que aqueles mencionados no NT. Alan Corrêa, em seu livro, Dissidentes da igreja: entendendo e defendendo a igreja, menciona sete motivos pelos quais pessoas abandonam a igreja hoje. São eles: decepção, abuso religioso, individualismo, cultura de descartabilidade, balança injusta, antinomismo, descredibilidade dos de dentro. [3]

Luiz Alexandre Ribeiro Branco, autor de “Perguntas Pós-Modernas”, por sua vez, ao escrever sobre os desigrejados de hoje, faz uma diferenciação entre desigrejados e descritianizados. Segundo o articulista:

O desigrejado é aquele que por motivos de adaptação litúrgico-teológica não consegue encontrar-se nesse emaranhado de igrejas com suas esquisitices, contudo é crente e sinceramente busca um ambiente cristão e saudável para pertencer, mas lhe é uma tarefa difícil, devido às suas frustrações anteriores. Ele busca a Deus, lê e obedece as Escrituras e procura com sinceridade um aprisco onde possa finalmente descansar com segurança. [4]

Quanto ao descristianizado, Branco o descreve como:

[…] aquele que por motivo teológico-doutrinário afasta-se do meio cristão, movido por intenções equivocadas, não mantém comunhão com os outros crentes, a não ser para reclamar, não busca a Deus, não lê as Escrituras, vive de forma leviana e contrária ao evangelho”.

Ainda, para Branco, “[…] o número de descristianizados seja superior ao número de desigrejados. O primeiro seria um pecador perdido, e o outro, um pecador salvo”.

Recentemente tivemos a oportunidade de ler um interessante e bem pesquisado TCC, intitulado “Os desigrejados no contexto evangélico brasileiro”, de Rogério de Souza Guimarães, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Segundo Guimarães, sendo ele também um desigrejado, considera os desigrejados de hoje como um movimento religioso cristão, recente, da pós-modernidade, à semelhança de tantos outros movimentos de fracionamento ao longo da história da igreja, o qual propõe respostas religiosas inovadoras para condições do mundo moderno (sobretudo em relação à forma de viver a fé cristã e a comunhão com outros que professam a mesma fé, sem perda total e irremediavelmente com as raízes de tradição evangélica. Não deixam de ser, a seu modo, uma espécie de contracultura (ao que chamam de sistema religioso evangélico e sua cultura). [5]

De acordo com Guimarães, os desigrejados são contra a igreja institucionalizada, e têm as seguintes características: a) não submissão a uma liderança carismática; b) não mais templos; c) desnecessidades de reuniões e rituais regulares; d) não seguir um conjunto de regras (confissões, credos etc); e) não dízimos e ofertas.

Guimarães ainda acrescenta que entre os desigrejados de hoje há discordâncias e várias maneiras de ser desigrejado.

Considerações Finais

Parece-nos que, algumas das reivindicações dos desigrejados de hoje, concernentes a igrejas institucionalizadas, fazem todo sentido. Enquanto seja impossível à igreja fugir à institucionalização, esta quando exacerbada pode, sem dúvida, perder de vista, o indivíduo e passar por cima de suas necessidades, deixando de atendê-las.

Por outro lado, algumas das posições de parte dos desigrejados são questionáveis (ser contra templos, deixar de celebrar a ceia, praticar o batismo, ser contra dízimos e ofertas), além do fato de imaginar que a igreja pode fugir à institucionalização.

Cremos que ambos os lados têm muito que ponderar, seja da igreja institucionalizada para reconsiderar toda a sua forma de ser igreja, a fim de recuperar e não continuar perdendo adeptos, seja dos desigrejados, se quiserem se firmar como mais um movimento fracionário da história da igreja, sem abdicar dos essenciais da fé cristã.

REFERÊNCIAS

[1] ELWELL, Walter A. Evangelical Dictionary of Biblical Theology. Grand Rapids, Michigan : Baker House Company, 1996, p. 33.

[2] CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado : versículo por versículo. São Paulo : Milenium Distribuidora Cultural Ltda, 1979, vol. 6, p. 300.

[3] CORRÊA, Alan. Dissidentes da igreja: entendendo e defendendo a igreja. São Paulo: Editora Reflexão, 2014.

[4] Disponível em: https://www.ultimato.com.br/revista/artigos/361/os-desigrejados-e-os-descristianizados.

[5] GUIMARÃES, R. S. Os desigrejados no contexto evangélico brasileiro. TCC – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Antropologia, Bacharelado em Ciências Sociais. Bacharelado em Ciências Sociais. Porto Alegre, RS : 2021.

José Godoi Filho
José Godoi Filho
Psicólogo, teólogo e escritor. Pós-graduação em Psicologia Clínica pela Universidade Tuiuti do Paraná, em Novo Testamento e Grego pelo Spurgeon’s College – Londres/Inglaterra, em Psicodrama Terapêutica - Associação Paranaense de Psicodrama. FEP. E em Aconselhamento Pastoral, pelo Wheaton College – Wheaton/EUA. Graduado em Psicologia e Teologia e professor da FATEBE.
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18 de abril de 2019 • 2 min. de leitura

Como manter a paixão no que você faz?

Muitos em determinado momento de sua caminhada em busca de seus projetos, acabam se perdendo, não encontram motivação para continuar… o fogo, a paixão, o impulso, perdem a força… Mais importante que o começo é o fim das coisas! Ele de fato revelará quão convictos e perseverantes realmente somos. Chegar ao fim da jornada com êxito fará com que cada sacrifício do caminho tenha valido a pena! O “fim” pode estar bem distante, por isso, manter-se motivado é essencial para quem deseja ter sucesso. Mas como conservar-se firme apesar das dificuldades? Lembrando sempre do porquê e para quem você está fazendo o que faz! Ou seja, lembrar-se constantemente do seu PROPÓSITO! Ao fazer isso: As circunstâncias não poderão abalar sua paixão e sua fé! Deixe que sua convicção mova você e lhe impulsione acima dos desafios! As circunstâncias mudam, mas o propósito permanece sempre! Guarde o coração para conseguir cumprir sua missão! Lembrar que seu propósito o protegerá! Você não tomará decisões erradas, não se encantará pelos atalhos duvidosos, nem agirá no impulso, pois buscará conservar a essência e a pureza de suas ações. Lembrar que seu propósito lhe permitirá avaliar o que realmente vale a pena! Você saberá o que precisa perder, reter, ganhar, dar… pois terá um padrão, uma medida para avaliar as ações necessárias para que o propósito se cumpra. Lembrar que seu propósito lhe fará valorizar as pequenas coisas, as tímidas conquistas, e serão elas mesmas que te manterão humilde, dependente, e com o coração no lugar certo. Lembrar que seu propósito lhe fará respeitar o fator TEMPO! Nenhuma colheita saudável ou resultados permanentes vem em velocidade de fast-food. Quem conserva o propósito, desenvolve perseverança. Lembrar que seu propósito lhe manterá vivo e capaz de enfrentar a realidade de que as coisas nem sempre acontecem como planejamos ou desejamos. A vida não é controlada por uma planilha ou uma lista de tarefas imutáveis e de fácil realização. Ela é dinâmica, e se não estivermos dispostos a nos reinventar e recomeçar, não permaneceremos!

Cíntia Stürmer
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8 de outubro de 2019 • 4 min. de leitura

O Ciberespaço e a Cibercultura e seu impacto sobre o ser humano

Nós vivemos hoje uma realidade única na história. A invenção e o desenvolvimento da internet criou uma realidade que engloba a todas as pessoas de uma forma ou de outra. Pela rede mundial de computadores o mundo tornou-se uma aldeia global. Na história nós temos vários momentos chaves que impactaram a humanidade pelo desenvolvimento da comunicação, da informação, pelo desenvolvimento da cultura e da ciência. Tivemos a invenção da escrita, a imprensa, o telégrafo, o rádio, a televisão. Mas estas conquistas da tecnologia foram apenas prelúdios do grande impacto causado pela internet. A invenção da internet e a disseminação dos conteúdos, das ideias, dos textos e imagens, do conhecimento, por meio da rede mundial de computadores causou e causa um impacto que é difícil de mensurar. A internet é um oceano de profundezas abissais divulgando notícias, informações, canalizando o comércio a nível global, conectando pessoas, espalhando a cultura e o conhecimento. Um extraordinário cabedal de informações está à disposição das pessoas por meio da internet com todos os seus afluentes e ramificações, como as redes sociais. Ao falar da internet duas expressões se destacam: O ciberespaço e a cibercultura. O Ciberespaço A Internet é um planeta. Este planeta não é uniforme. Está dividido em “continentes, países, estados”. Estas áreas dentro da internet agregando, de forma bastante solta, assuntos afins, são chamados de ciberespaços. Não são espaços físicos, mas virtuais. Os ambientes do ciberespaço são incontáveis: Há os espaços culturais, as áreas destinadas às artes, lá se encontram setores educacionais, os esportivos. O comércio mundial é impensável sem as redes de computadores. Imenso é o ciberespaço religioso e, também, o político. Toda e qualquer área da cultura, do conhecimento, das realidades humanas, encontra sua expressão neste ciberuniverso. O ciberespaço do lazer e do entretenimento é algo poderoso. Seu poder de atração é muito grande. Pode ter um poder viciante. Há pessoas que se perdem neste ambiente. Perdem a noção do tempo, dos valores, da vida, do trabalho. Dentro do ciberespaço do entretenimento há áreas sombrias e perniciosas, como uma das maiores, que é a área da pornografia. Existe o ciberespaço educacional, que agrega universidades, temas educacionais e setores voltados à divulgação de ideias as mais variadas. Há também o onipresente e dominador ciberespaço dos relacionamentos e da comunicação. As redes sociais são onipresentes, os contatos são exigentes e os interlocutores exigem respostas imediatas. A Cibercultura De dentro do ciberespaço brota a cibercultura. Podemos dizer que a cibercultura é o conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes, valores que permeiam grupos sociais a partir da vivência das mesmas no ciberespaço¹. Pierre Lévy afirma que “a cibercultura supera ciência e religião porque envolve todos os seres humanos”.² A cibercultura “criou novas formas de trabalho e de lazer, de comunicação e relacionamento social, influenciando hábitos, escolhas de consumo, ritmos produtivos e compartilhamento da informação³. Portanto a forma como nós usamos a internet ou nos movemos no ciberespaço pode nos influenciar naquilo que cremos, nos valores que assumimos, nos hábitos que cultivamos, nos alvos que buscamos, nas necessidades que procuramos suprir, na ética que adotamos. O apóstolo Paulo disse o seguinte: “Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Cor 6.12). É válido, é lícito, é até necessário mergulhar no oceano da internet, mas, pergunto, usando a linguagem simbólica de Deuteronômio 28.13 (“O Senhor te porá por cabeça e não por cauda”) em relação à internet, você é “cabeça ou cauda” se em relação à internet somos dominantes ou dominados? Numa atitude de autoavaliação podemos perguntar em que ciberespaços temos navegado? De que forma os conteúdos da internet e das mídias sociais tem influenciado nossas convicções e atitudes? Como temos nos posicionado diante das mídias sociais? Sucumbimos à compulsão de consultar de forma incessante as redes sociais? Conseguimos simplesmente ler um livro, desligando o celular? Temos a capacidade de ficar a sós sem as interrupções das mensagens? A internet é uma realidade. Não podemos dispensá-la, mas ela deve estar debaixo da autoridade do Senhor Jesus. O Espírito de Deus deve encher o nosso coração e determinar os conteúdos de nossas mentes e corações e não os conteúdos das mídias sociais. Devemos declarar Jesus como Senhor também desta área de nossas vidas. Senhor do Ciberespaço no qual nos movemos e Senhor daquilo que buscamos na internet. ¹(cf. dic. Houaiss) ²(https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs180104.htm; 27.8.2019) ³(cf. LEMOS, 2004, APUD LEMOS; LÉVY, 2010 http://tiny.cc/djm3cz, 27.8.2019)

Fred R. Bornschein
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22 de maio de 2019 • 8 min. de leitura

O monstro de Frankenstein: a criatura em busca de seu criador

O livro Frankenstein (ou O Prometeu Moderno) escrito por Mary Shelley em 1826 é uma obra literária de romance de ficção científica e responsável pelo estilo literatura gótica. O livro narra a história de Victor Frankenstein, um cientista em busca do elixir da vida que através de diversos estudos em Química, da vida a um monstro horrendo construído a partir de membros de corpos humanos. Victor Frankenstein sendo cientista, criou a partir de matéria pronta (restos humanos) um ser monstruoso. Devido a sua horrenda aparência em seus 2 metros de altura é rejeitado por seu criador (Victor) que ao contemplar a criatura com vida foge, deixando a criatura viva sem rumo, vagando em meio a sociedade. A criatura uma vez confusa e desorientada se refugia nas florestas, onde inicia-se os primeiros sinais de consciência de sua existência a partir de observações feitas do mundo a sua volta. “CONHECE A TI MESMO (NOSCE TE IPSUM)” Sócrates foi um filósofo grego que dizia que o homem deveria conhecer a si mesmo e foi um dos responsáveis pela Maiêutica, alegando que o conhecimento das coisas se encontrava dentro do próprio homem. O monstro de Frankenstein recém-criado em laboratório passou do estado instintivo para o estado de ser pensante onde começou a observar o mundo e a formular pensamentos, conhecimento e a duvidar de quem era, de onde veio e quem o criou. “[…] E que era eu? Nada sabia sobre minha criação e meu criador, mas sabia que não possuía a menor parcela disso a que chamavam dinheiro, nem amigos, nem a mais insignificante propriedade. Além disso, era dotado de um físico hediondo e repelente. Eu nem sequer era da mesma natureza que o homem […] “ Não é de se esperar de uma criatura quase humana venha a querer saber de sua origem. Em uma ocasião onde se encontrava refugiado em uma cabana abandonada, o monstro aprendeu a ler e a falar apenas através da observação de uma família que habitava em uma cabana ao lado de onde estava abrigado. Após aprender a ler por si mesmo, pegou um diário no bolso de seu casaco, o qual havia anotações do cientista Victor Frankenstein descrevendo detalhadamente o processo de criação da aberração que era. Cheio de perguntas e pensamentos, ele parte em busca de seu criador para saber o motivo de ter dado vida e o rejeitado. Esses foram alguns momentos de consciência da criatura. O monstro de Frankenstein teve um início e um propósito. E nós? “NADA SURGE DO NADA (EX NIHILO NIHIL FIT)” A expressão “Nada surge do nada” é uma expressão da metafísica atribuída a Parménides que diz que nada pode vir do nada e se o universo existe então ou ele sempre existiu ou foi criado em determinado momento e logo deve ter um início. Aparentemente parece haver uma contradição no argumento do filósofo, no próximo parágrafo você irá entender melhor. Além dos filósofos que buscavam compreender a razão das coisas e a partir do método indutivo buscavam explicar a vida, surgiram diversos estudos e teorias no decorrer dos séculos tentando justificar a origem do universos e do homem assim como tudo o que nela existe e o seu propósito, como por exemplo a “Teoria do Big Bang” de Georges Lemaître, “A origem das espécies” de Charles Darwin e o Criacionismo Bíblico. Enquanto a Teoria do Big Bang diz que no início de tudo havia um átomo comprido e através de um decaimento radioativo que resultou em uma explosão, resultando na origem do universo e a expansão do mesmo o criacionismo bíblico vai dizer que a partir do nada tudo criou (ex nihilo). Segundo Santo Anselmo tudo o que existe ou provém de algo ou deriva do nada. Mas o nada não pode gerar nada, pois é impossível pensar que algo não seja gerado se não por algo. E o que a Bíblia diz? “No princípio Deus criou os céus e a terra” (Gênesis 1:1). O primeiro capítulo no primeiro livro da Bíblia o autor relata que Deus criou os céus e a terra, onde através da sua palavra, do seu poder, tudo veio a existir. Deus é o único ser eterno, imortal e pré-existente e não havia mais ninguém com ele, e, portanto, somente ele existia antes de tudo. Vamos analisar o versículo separando-o por partes: NO PRINCÍPIO. Quando lemos “No princípio” vemos a condição de tempo onde Deus um ser atemporal criou o tempo, algo que não pode ser manipulado, sendo assim somente pode ser sentido através da percepção de mudança e do movimento como por exemplo a percepção de presente, passado e futuro. Segundo Adaulto Lourenço (2011) “Antes de Deus ter criado o mundo não poderia ter havido o “antes”, pois não haveria o que mudar. Não havendo mudança, não haveria como medir o tempo!”. DEUS CRIOU. No Cristianismo acreditamos que tudo veio do nada, uma criação ex nihilo onde somente existia o vácuo. Em um determinado momento Deus cria o espaço, onde é encontrado tomo átomo contendo prótons, nêutrons e elétrons que compõe a criação, por exemplo uma rocha e a sua mão. Esse espaço é definido por largura, altura e profundidade. Entenda que nesse momento somente a percepção do espaço é criada e não o que nela existe. A TERRA. Após a criação do espaço, Deus cria a terra. No primeiro capítulo temos que entender que não se trata do planeta terra ou os planetas do sistema solar e sim a criação da matéria, ou seja, aquilo que é sólido, líquido e gasoso. Paulo na carta aos Romanos 4:17 diz que Deus “chama à existência as coisas que não existem” onde Deus em sua plena existência utilizou de seu poder para criar a partir do nada tudo o que existe. Quando pensamos no nada (ex-nihilo) devemos ter em mente a não existência de matéria pré-existente, ou seja, da ausência da realidade. Na carta aos Hebreus 11:3 Paulo diz: “Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo que o que se vê não foi feito do que é visível”. O vazio do universo contemplou a luz da criação onde tudo passou a existir. E DEUS CRIOU O HOMEM A SUA IMAGEM E SEMELHANÇA O primeiro relato da criação do homem se encontra em Gênesis 1:26-27 onde Deus cria o homem a sua imagem e semelhança. Primeiro quero dizer que não fomos criados por um cientista desorientado e sedento por experiências com restos de corpos humanos e muito menos fomos criados e abandonados no planeta terra sem rumo, direção e propósito. Enquanto Deus existia na eternidade, decidiu criar o ser humano para poder compartilhar de suas maravilhas, para contemplar a sua existência e magnitude. Deus criou os homens para poder interagir com o criador. Então a partir do pó da terra, soprou vida em Adão e este passou a existir. Não somente isso, de Deus nós herdamos a sua imagem e semelhança, que significa que recebemos suas características morais e éticas assim como suas capacidades pessoais. Ao homem foi dada a liberdade de ser coparticipante e a partir de sua liberdade, administrar toda a criação. Somos como uma sombra de Deus, e isso significa que para uma sombra aparecer e existir algo para gera-la deve existir então somos o reflexo de Deus, onde possuímos o seu contorno, porém não os mesmos detalhes. Diferentemente do Dr. Frankenstein Deus viu que a sua criação era boa e não a abandonou, mas continuou e continua atuante nela. A RAZÃO DE TUDO O monstro na história quer respostas vindas da boca de seu criador, portanto ele vai em sua busca até encontra-lo. A criatura não somente quer respostas, mas quer relacionamento, quer se envolver com as pessoas a sua volta, quer explicações a respeito de sua existência e seu propósito na vida, ao invés de ser um sem teto ou alguma coisa viva e sem propósito. Assim somos nós, seres humanos querendo respostas, mas infelizmente muitos buscam respostas nos lugares errados ou não tentam busca-la pois tem um olhar niilista da vida. Quero te dizer que Deus criou o homem para ter um relacionamento com ele. Esse é o plano e o motivo dele ter criado o mundo, para que o homem nele pudesse habitar e caminhar ao lado de Deus, conversando e contemplando a sua existência, porém satanás corrompeu o coração do homem e o fez ir contra a ordem de obediência a Deus. Foi com esse propósito que Deus se fez homem, nasceu da virgem, nasceu em um lugar humilde, sofreu da mesma forma que eu e você sofremos, passando fome, frio e foi traído, morrendo na cruz e venceu a morte, para que nós seres humanos possamos ter essa relação de amizade de pai e filho com o criador. Deus não abandonou a sua obra, mas ele se relaciona com ela e é o Senhor dela, o rei justo e misericordioso. O caminho até o criador é Jesus Cristo onde todo o vazio existencial é preenchido e toda vida sem sentido passa a ter um sentido verdadeiro e real. Você não precisa mais caminhar longos trajetos em busca de respostas. Eu te desafio a nesse momento a conversar com Jesus Cristo e dizer que quer conhecelo. Diferentemente do Dr. Frankenstein você não será rejeitado, mas acolhido.

Victor Augusto de Oliveira
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