Desigrejamento nos tempos do Novo Testamento
20 de outubro de 2021 • 11 min. de leitura

Em princípio, ficamos pensando sobre aqueles que poderiam sair, os que, de fato, saíram da igreja, nos tempos do NT. Ou seja, aquelas pessoas que, uma vez ingressas na igreja, ou numa comunidade cristã, corriam o risco de se desviarem da fé cristã, bem como aqueles que, de fato, o fizeram. Na sequência, pensamos nos vários motivos que podiam levar um cristão a abandonar a comunidade e sua fé em Cristo. Por último, nos perguntamos se no NT havia desigrejados, do modo como o são os desigrejados nos dias de hoje.
Em termos de terminologia, vou emprestar o termo desigrejado, usado nos nossos dias, e, no final deste texto, faremos uma comparação entre os desigrejados do NT, e os desigrejados de hoje, com o fito de estabelecer diferenças e desafios para estes e para a igreja da atualidade.
Riscos de desigrejamento no Novo Testamento
Quanto ao risco de se desviarem da fé cristã, e abandonarem a comunidade, isso era perfeitamente passível de acontecer, tendo em vista os vários avisos e exortações do NT quanto a essa possibilidade. Exortações desde os tempos de Jesus, em seus próprios ensinos, até aqueles mais tardios, no decorrer do 1º século, nos dão conta desse risco.
Jesus, por exemplo, já advertia: “[…] Ninguém que tendo posto a mão no arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lc 9.61, RA). Numa de suas parábolas, a do Semeador, tanto em relação àqueles simbolizados pela semente que caiu entre pedregulhos, como a que caiu entre espinhos, são tidos como pessoas que não levariam adiante sua primeira profissão de fé, vindo a se desviarem, por razões diferentes (Mt 13.20,21, RA).
Quando consultamos as cartas de Paulo, as cartas gerais, e também o Apocalipse, a mesma advertência é feita aos fiéis sobre o perigo e as consequências de se desviarem da fé cristã, e o abandono da comunidade dos crentes (1 Co 10.1-14; 2 Co 11.3; Gl 3.1-3; 5.4,7; Cl 1.21-23; Hb 2.1; 10.25, RA).
Além das advertências quanto ao risco, a perseverança na fé cristã é constantemente trazida a lume pelos escritores do NT. Não faltam passagens bíblicas encorajando os cristãos a permanecerem firmes na fé em Cristo, junto às suas comunidades (Mt 10.22; 24.13; Mc 13.13; Cl 1.21-23; Hb 12.1,7; Tg 5.11; 1 Pe 2.19; Ap 3.11, RA).
Portanto, o risco, tanto do desigrejamento quanto ao desvio da fé cristã, sempre existiu, desde o princípio, o que ensejou da parte dos escritores do NT emitir não somente exortações e avisos quanto a esse desvio, quanto encorajamentos, a fim dos fiéis permanecerem fiéis a fé e às suas comunidades cristãs.
Motivos de desigrejamento no NT
No que diz respeito aos motivos que poderiam, e, em alguns casos, ensejaram que pessoas se desviaram da fé cristã, abandonando a comunidade dos salvos, esses são os mais variados: o sofrimento por causa do evangelho (Mt 13.21; 24.9,10); as más influências dos falsos mestres, que enganariam a muitos (Mt 24.11); amor ao dinheiro e riquezas deste mundo (Mt 13.22; 2 Tm 9.10); ações aparentemente honrosas, mas com motivações erradas (At 5.1-11); membros com comportamento moralmente inaceitável (1 Co 5.1-8); amor ao presente século (2 Tm 4.10); há também aqueles que fisicamente frequentavam uma determinada comunidade, mas saíram da comunidade por motivos de heresia (1 Jo 1.18-26).
Tipos de desigrejados no Novo Testamento
Quando pensamos no fenômeno de desigrejamento no NT, como um processo, poderíamos imaginar um espectro. Dentro das comunidades cristãs havia desde uma situação de negligência (Hb 5.11-6.3), desânimo (Hb 12.12,13), esfriamento na fé, decepção, dúvidas (Jd 23), até aquela de abandono tanto da fé quanto da comunidade.
Entre os que abandonaram a fé cristã e a comunidade dos salvos, é possível que houvesse vários tipos de desigrejados. Uma das formas de categorizá-los é bem nítido nas páginas do NT: a) havia aqueles que abandonaram a fé e a comunidade, e eram passíveis de serem recuperados; e, b) havia aqueles que abandonaram a fé cristã e a comunidade, sem muitas chances de serem recuperados. Alguns, não somente abandonaram a fé e a comunidade cristã, mas se tornavam seus inimigos (cf. Hb 6.4-8; 1 Tm 4.1-4; 1 Pe 2; 3.18). A esses últimos, o NT os coloca na categoria de apóstatas.
A apostasia era um desvio gravíssimo da fé, com poucas chances ou nenhuma chance de recuperação. Segundo Mark W. Karlberg, a palavra “apostasia” é a tradução de várias palavras bíblicas, tanto do hebraico quando do texto grego: Heb. mĕsûbâ, e Gr. parapiptō e aphistēmi, e apostasia. Assim sendo, de acordo com o autor, a apostasia é a: “Deserção da fé, um ato de imperdoável rebelião contra Deus e sua verdade. O pecado de apostasia resulta no abandono da doutrina cristã e conduta”. [1]
Recuperação de desigrejados no Novo Testamento
Como já assinalado, o NT parece nos apontar dois tipos de comportamento em relação aos que se desviam da fé cristã: a) Havia os recuperáveis; e, b) Aqueles dificilmente recuperáveis, ou impossíveis de serem recuperados, sendo esses últimos, como aludidos anteriormente, apóstatas.
Mesmo antes de membros abdicarem de sua fé e comunidades, vários autores de epístolas do NT, não somente por si só encorajam os membros das igrejas a perseverarem na fé em Cristo, mas aconselhava as próprias igrejas e seus líderes a exortar, encorajar e a fortalecerem os membros mais displicentes e vulneráveis, a fim de que não abandonassem a fé em Cristo (Gl 6.1-10; 1 Ts 5.4.18; 5.11,14; 2 Ts 2.3; 2 Tm 2.24-26; Hb 10.24,35; Tg 1.19,20; 1 Jo 5.16a; Jd 22,23, RA).
O segundo grupo de desigrejados, parece receber um tratamento diferente daqueles que simplesmente se desviaram da fé, e eram tidos como irrecuperáveis. Desde os tempos de Jesus existe um entendimento de pecados que eram passíveis de serem perdoados, e aqueles que não o eram (Mt 12.31-32; Mc 3.28,29; 1 Jo 5.16-17, RA).
O NT parece repercutir esse entendimento, em relação aos que se desviam da fé e conduta cristã. Os falsos mestres e apóstolos, bem como irmãos que seguiam os ensinamentos daqueles, eram tratados de uma maneira diferenciada. Ou seja, não há muito empenho em recuperá-los do seu desvio. Talvez porque o seu desvio tenha se tornado numa obstinação difícil de ser revertida, não que Deus não pudesse perdoá-los.
João, por exemplo, em sua primeira epístola, diz que não é para orar pelo irmão que tenha pecado para a morte (1 Jo 5.16, RA). Esse pecado para a morte, dentro do contexto de João, parece ser um pecado relacionado à heresia gnóstica, que negava a encarnação de Jesus (1 Jo 1.22, RA) [2]. Na mesma carta, o apóstolo se refere aos falsos mestres, como anticristos, os quais saíram da igreja porque não eram cristãos como os demais, e porque tinham um outro entendimento sobre Jesus (1 Jo 2.18,19, RA).
Em relação aos apóstatas, o autor aos Hebreus, por sua vez, chega a dizer que: “É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que de novo estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e expondo-o à ignomínia” (Hb 6.4-6; 10.26, RA).
Parece-nos que a apostasia, no NT, seja praticada por membros da igreja, ou por falsos mestres que tentavam deturpar a fé cristã com heresias a ponto de colocarem em dúvida as doutrinas fundamentais e também as práticas cristãs, era considerada um tipo de desvio mais grave do que aqueles outros tipos de desvios por motivos menos graves. E, para esse tipo de desvio, como já foi dito, os autores bíblicos tinham dificuldade de pensar na possibilidade de uma recuperação. Assim, a apostasia sempre foi um perigo, um risco, a que os cristãos estavam expostos nos tempos do NT.
Com isso, o NT mantém um equilíbrio entre uma situação de desvio que pode ser revertida e outra que não pode ser revertida.
Desigrejados dos tempos do NT e os desigrejados de hoje
Duas perguntas nos ocorrem quando pensamos em desigrejados do NT, e naqueles de agora: a) os tipos e motivos dos desigrejados do NT são os mesmos dos de hoje? b) quais as diferenças entre os desigrejados do NT, e os chamados desigrejados de hoje, se houver?
Quando comparamos os desigrejados dos tempos do NT, com os de agora, diríamos que todas as situações e tipos de desigrejados naqueles dias são passíveis de acontecer, e acontecem nos dias de hoje.
No entanto, com certeza, os motivos pelos quais pessoas saem da igreja, nos dias de hoje, são muitos, e muito mais variados do que aqueles mencionados no NT. Alan Corrêa, em seu livro, Dissidentes da igreja: entendendo e defendendo a igreja, menciona sete motivos pelos quais pessoas abandonam a igreja hoje. São eles: decepção, abuso religioso, individualismo, cultura de descartabilidade, balança injusta, antinomismo, descredibilidade dos de dentro. [3]
Luiz Alexandre Ribeiro Branco, autor de “Perguntas Pós-Modernas”, por sua vez, ao escrever sobre os desigrejados de hoje, faz uma diferenciação entre desigrejados e descritianizados. Segundo o articulista:
O desigrejado é aquele que por motivos de adaptação litúrgico-teológica não consegue encontrar-se nesse emaranhado de igrejas com suas esquisitices, contudo é crente e sinceramente busca um ambiente cristão e saudável para pertencer, mas lhe é uma tarefa difícil, devido às suas frustrações anteriores. Ele busca a Deus, lê e obedece as Escrituras e procura com sinceridade um aprisco onde possa finalmente descansar com segurança. [4]
Quanto ao descristianizado, Branco o descreve como:
[…] aquele que por motivo teológico-doutrinário afasta-se do meio cristão, movido por intenções equivocadas, não mantém comunhão com os outros crentes, a não ser para reclamar, não busca a Deus, não lê as Escrituras, vive de forma leviana e contrária ao evangelho”.
Ainda, para Branco, “[…] o número de descristianizados seja superior ao número de desigrejados. O primeiro seria um pecador perdido, e o outro, um pecador salvo”.
Recentemente tivemos a oportunidade de ler um interessante e bem pesquisado TCC, intitulado “Os desigrejados no contexto evangélico brasileiro”, de Rogério de Souza Guimarães, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Segundo Guimarães, sendo ele também um desigrejado, considera os desigrejados de hoje como um movimento religioso cristão, recente, da pós-modernidade, à semelhança de tantos outros movimentos de fracionamento ao longo da história da igreja, o qual propõe respostas religiosas inovadoras para condições do mundo moderno (sobretudo em relação à forma de viver a fé cristã e a comunhão com outros que professam a mesma fé, sem perda total e irremediavelmente com as raízes de tradição evangélica. Não deixam de ser, a seu modo, uma espécie de contracultura (ao que chamam de sistema religioso evangélico e sua cultura). [5]
De acordo com Guimarães, os desigrejados são contra a igreja institucionalizada, e têm as seguintes características: a) não submissão a uma liderança carismática; b) não mais templos; c) desnecessidades de reuniões e rituais regulares; d) não seguir um conjunto de regras (confissões, credos etc); e) não dízimos e ofertas.
Guimarães ainda acrescenta que entre os desigrejados de hoje há discordâncias e várias maneiras de ser desigrejado.
Considerações Finais
Parece-nos que, algumas das reivindicações dos desigrejados de hoje, concernentes a igrejas institucionalizadas, fazem todo sentido. Enquanto seja impossível à igreja fugir à institucionalização, esta quando exacerbada pode, sem dúvida, perder de vista, o indivíduo e passar por cima de suas necessidades, deixando de atendê-las.
Por outro lado, algumas das posições de parte dos desigrejados são questionáveis (ser contra templos, deixar de celebrar a ceia, praticar o batismo, ser contra dízimos e ofertas), além do fato de imaginar que a igreja pode fugir à institucionalização.
Cremos que ambos os lados têm muito que ponderar, seja da igreja institucionalizada para reconsiderar toda a sua forma de ser igreja, a fim de recuperar e não continuar perdendo adeptos, seja dos desigrejados, se quiserem se firmar como mais um movimento fracionário da história da igreja, sem abdicar dos essenciais da fé cristã.
REFERÊNCIAS
[1] ELWELL, Walter A. Evangelical Dictionary of Biblical Theology. Grand Rapids, Michigan : Baker House Company, 1996, p. 33.
[2] CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado : versículo por versículo. São Paulo : Milenium Distribuidora Cultural Ltda, 1979, vol. 6, p. 300.
[3] CORRÊA, Alan. Dissidentes da igreja: entendendo e defendendo a igreja. São Paulo: Editora Reflexão, 2014.
[4] Disponível em: https://www.ultimato.com.br/revista/artigos/361/os-desigrejados-e-os-descristianizados.
[5] GUIMARÃES, R. S. Os desigrejados no contexto evangélico brasileiro. TCC – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Antropologia, Bacharelado em Ciências Sociais. Bacharelado em Ciências Sociais. Porto Alegre, RS : 2021.

1 de junho de 2022 • 5 min. de leitura
Oro a um Deus que não me ouve!
# Oro a um Deus que não me ouve! Sem dúvida nenhuma, um dos maiores pilares da mensagem cristã é a oração! Jesus não somente orava, como também nos aconselha a orar! É muito comum vermos no evangelho Jesus se retirando de entre a multidão e indo para a solitude do ‘monte da oração’. É muito comum vermos Jesus se retirar dos ‘palcos’, se retirar dos ‘holofotes’, e correr para o anonimato do ‘quarto de oração’, pois sem dúvida nenhuma, de nada adiantaria ter as multidões a ouvi-lo e não ter o Deus das multidões na intimidade do quarto! A grande questão na oração é uma simples pergunta: “Por que orar?”. Porque orar se o próprio Jesus disse que Deus já sabe o que precisamos antes mesmo de falarmos? Porque orar se o Senhor já sabe tudo o que iremos dizer na oração antes mesmo de pensarmos naquilo que iremos falar? Porque orar se toda a graça já nos foi dada na Cruz? Porque orar se o que Deus quiser fazer Ele irá fazer independente se eu pedir ou não? Porque orar se o que Deus não quiser fazer Ele não fará independentemente se eu pedir ou não? Porque orar o ‘seja feita a tua vontade’ se a vontade dEle já será feita independemente se eu pedir que ela seja feita ou não? (Existem muitos outros pontos). Porque orar se o ministério do evangelho é simplesmente servir ao próximo em amor? Porque orar sendo que não podemos ‘comprar’ Deus pelos nossos sacrifícios? Porque orar sendo que tudo já nos foi dado quando Jesus gritou “Tetelestai” (está consumado)? Essa foi uma grande questão que invadia minha mente até que encontrei a resposta em Jesus! Me impactou saber que na oração Deus não nos ouve, Ele nos vê! Jesus disse: “Quando fores orar entra no teu quarto, fecha a porta, porque aquele (Deus) que te VÊ em secreto…”, não é aquele que nos ouve, é aquele que nos vê! Um dia perguntaram a Madre Teresa o que ela dizia a Deus em suas orações, ela respondeu: “Eu não falo nada, eu somente escuto!”, então lhe perguntaram: ‘E o que Deus diz’, “Ele não diz nada, Ele somente me escuta” – respondeu ela, Não eram as palavras que moviam a oração, não eram a quantidade de palavras ditas, o tom de voz em que eram ditas, o volume em que eram ditas e muito menos o como eram ditas, mas sim a atitude de estar a orar, a oração do silêncio, a atitude de apresentar-se diante de Deus no quarto da oração e relacionar-se em gemidos da alma! Foi John Bunyan quem disse: “Na oração mais vale um coração sem palavras do que palavras sem um coração!”, orar não é falar e falar, orar é se relacionar mesmo que sem palavras! A respeito da oração muito se ensina a como prolongá-la. Uns pronunciam palavras de modo devagar para que dure mais tempo, outros oram em todos os assuntos possíveis para que fique mais tempo em oração, oram por todos os nomes para que preencha tempo como que cumprindo sua carga horária, fazem como tolos que pensam que por muito falarem serão ouvidos, uns oram gritando acreditando que isso demonstra maior ‘unção e autoridade’, uns oram de maneira rápida e ofegante acreditando que isso é o poder de Deus, mas não! Queridos, orar não é ‘falar e falar’, orar é se relacionar, pois Ele nos VÊ, Ele VÊ a atitude de se retirar do mundo e apegar-se ao silêncio de um quarto escuro!”! Agora eu entendo, oração não é pedir algo (até porque Ele sabe de tudo o que precisamos, mas, se quiser pedir, não é proibido rs), oração é entregar, me entregar, quanto mais oro, mais me entrego. Oração não é a quantidade de decibéis que sai de minha boca, mas sim o aroma suave que vem do coração! Oração é amá-lo, oração é simplesmente o querer estar mais perto, orar não é uma obrigação para os servos mas é um prazer dos filhos! Por isso essa grande pergunta se responde no que é relacional, “por que orar?”, para, simplesmente, me relacionar! Foi assim então que entendi que oração não é questão de “falar e ouvir “, mas de “fazer e ver”! Oração é como o abraço de um casal de namorados, apaixonados…, nenhuma palavra se é pronunciada, nenhuma palavra se faz necessária, o carinho no abraço já diz tudo, os olhos fechados no abraço já dizem tudo, a atitude no abraço já diz tudo! Orar é “abraçar” e não somente palavras pronunciar! Eu não ouço, não escuto quem me abraça, eu o vejo, eu vejo o sentimento no abraço, vejo a sinceridade no abraçar! Oro a um Deus que não me ouve, oro a um Deus que me vê, Ele vê a sinceridade na oração em silêncio, Ele vê o sentimento na oração sem palavras, Ele vê o meu sentir por ele, Ele sente o meu ‘abraçar’ (oração)!

17 de outubro de 2019 • 3 min. de leitura
Relações Possíveis entre a Cibercultura e a Leitura Bíblica
Introdução O objetivo desse artigo é apresentar as possíveis relações entre a ‘cultura da internet’ e a cultura do Antigo Testamento. A ‘cultura da internet’ é atualíssima e muda rapidamente, enquanto que a cultura do AT é antiga e estável. Sendo assim, qual a contribuição das disciplinas do AT para a cultura cibernética? Qual o diálogo possível entre a cultura do AT e cibercultura? Para abordar essa interrelação, propomos dois casos de choque cultural no mundo Antigo Testamento para, a partir deles, extrair, por analogia, algumas reflexões e orientações para lidar com a cibercultura. Esses dois casos são a passagem da tradição oral para a escrita e a globalização greco-romana. Da oralidade à escrita A tradição oral gera uma cultura própria, cujo principal suporte de preservação da informação é a “memória”. Nessa cultura, a tradição era emitida e recebida no mesmo contexto. A invenção da escrita não substitui a tradição oral, mas coexistem por muitos séculos. A escrita permite adotar outros suportes, como pedra, cerâmica, papiro (2500 a.C.), velino (Jr 36.26), pergaminho (séc. IV d.C.) até chegar ao papel (séc. XV). Além disso, a escrita permite a fixação do texto de modo que a mensagem saia do contexto sem perder o sentido original, dando importância às ciências hermenêuticas. A globalização greco-romana A primeira grande globalização da cultura greco-romana representou um choque grave para os judeus, impondo-lhes o dilema: resistência ou assimilação. A nosso ver, o cristianismo primitivo soube aproveitar as vantagens, como integração cultural, idiomática, maior segurança nos transportes, interligação das regiões do Império, a ampla circulação de escritos e de pessoas, ao mesmo tempo resiste aos costumes, como, por exemplo, o culto ao imperador. O processo de globalização foi acelerado pelos avanços tecnológicos, especialmente no setor de comunicações. A interconexão supriu um desejo do ser humano. Com isso, chegamos a uma nova Babel: a cibercultura venceu ‘Babel’ ou a cibercultura se tornou uma super-Babel? A Cibercultura e o estudo da Bíblia: aspectos positivos e negativos a) Aspectos positivos: – Acesso ao acervo de obras digitais: dicionários, comentários, obras não traduzidas para o português. – Pesquisa e estatística: maior capacidade de cruzamento de dados e de análise de textos; – Leitura da Bíblia: diversas versões da Bíblia e diversos idiomas e línguas originais; democratização do conhecimento. – Ciberteologia: a reflexão teológica das novas tecnologias (cibernética); a inteligência da fé em tempos de internet (SPADARO, 2011). b) Aspectos negativos e preocupantes – Dilúvio de informações: dispersão: dificuldade de seleção de fontes; superficialidade: efeito do excesso de informação; – Comunicação de massa: propaganda ideológica/comercial (mercado gospel); igrejas virtuais x fraternidade comunitária; frustração: fracasso em produzir os resultados prometidos; – Teologia fake: sensacionalismo: as novas tecnologias como ‘sinais’ da escatologia (controle mundial, chips, numerologia etc.); a rapidez da informação joga contra a verificação da verdade teológica. Considerações finais: A cibercultura, como todas as culturas da humanidade, tem aspectos positivos e negativos. Ela não é parte do desenvolvimento retilíneo e necessário da humanidade, pois, outro mundo é possível. A cibercultura reflete desejos de interconexão, de superação de limites. A teologia oferece base para a crítica permanente das obras humanas.

16 de setembro de 2021 • 4 min. de leitura
Uma breve construção histórica do olhar filosófico na relação homem e mulher
Nesta construção histórica da filosofia existem características e eventos que podem lançar luz sobre as questões da mulher em ocupar um lugar de referência dentro do âmbito religioso, e até mesmo potencializar e elucidar a questão da mulher como produtora de conhecimento. Desta forma, pretendo pinçar fatos e personagens que poderão minimamente oferecer apontamentos à questão. Quando a filosofia nasce, na Grécia, no âmbito religioso, as mulheres, enquanto sacerdotisas, tinham os mesmos privilégios que os homens, os quais poderia citar: assento garantido nas primeiras filas dos jogos em Atenas; direito à propriedade e de perpetuar a herança; prestígio ao ponto de terem monumentos erguidos em sua homenagem. Mas este prestígio não era encontrado na vida da sociedade não religiosa grega, pois as mulheres não tinham acesso aos estudos e nenhum direito na democracia Ateniense. Sem dúvida, a condição delas manifestava uma disparidade entre a vida dentro da religião e fora dela. A primeira filósofa que temos notícias foi Safo, 630 ou 604 a.C., nascida em Mitilene – Lesbos, uma ilha grega. Dentre as suas atribuições, podemos citar: poetisa, tecelã, sacerdotisa e filósofa. Devido as suas ideias provocarem perturbações nos poderosos, foi exilada na Sicília junto com a família, mas quando retornou, fundou uma escola só para mulheres, onde as mesmas eram educadas na poesia e filosofia, e eram ensinadas a pensar criticamente e a serem femininas. Sem dúvida esta escola foi um grande marco para a educação das mulheres na época. Por sua vez, o filósofo Platão (428/348 a.C.), na obra “A República”, inova o papel da mulher em sua cidade ideal, possibilitando a sua emancipação social, política e a mesma educação dos homens. Para ele, o único impedimento de uma mulher em praticar o que quiser, seria a sua competência ou não para o ofício desejado. Nesta cidade ideal, todas as funções, até mesmo a de governar sobre outros, não se fixa pelo sexo que cada um possui, e sim, pela competência que cada um carrega em si; o mais capaz então, deve realizar o propósito. Diferente de Platão pensa o seu discípulo Aristóteles, pois para ele a mulher possui uma alma inferior a do homem, ela seria apenas um pouco mais superior que a alma do escravo. Isso intrinsecamente a impediria de realizar algumas funções que seriam próprias do homem livre, entre elas de tecer um pensamento crítico e de governar. Dando um salto na história, iremos nos deparar com Hipátia, nascida em Alexandria no ano de 360 d.C. Ela é uma prova histórica, entre tantas outras, que a mulher tem condições de assumir um protagonismo na liderança e no pensamento crítico, pois foi ela considerada a primeira matemática da história e dirigiu por um significativo período a Escola Platônica de Alexandria, uma das mais conceituadas da época, onde seus alunos, após passarem por ela, tornavam-se prefeitos, governadores e líderes da igreja. Hipátia teve uma morte trágica, foi esfolada viva na Ágora por cristãos radicais. Mas mesmo sendo perseguida em sua vida, nunca deixou de anunciar o que acreditava e por isso tornou-se um ícone na história. Certa vez ela disse: “Governar acorrentando a mente através do medo de punição em outro mundo é tão baixo quanto usar a força”. Outra filósofa a considerar é Simone de Beauvoir (1908/1986). Segundo ela, “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Esta frase, à primeira vista, causa muita estranheza para aqueles que nunca pensaram no assunto. Mas de fato, a mulher sempre foi ensinada a se comportar e agir de determinada maneira e por muito tempo foi educada para ser uma boa esposa e servir ao marido. Com isso, a superioridade do masculino foi ganhando cada vez mais força e o gênero feminino passou a ser visto como inferior. O que está em pauta, não é nascer mulher no sentido biológico, mas sim que a mulher é obrigada a se moldar às expectativas de uma sociedade que a inferioriza. Neste sentido, a mulher, segundo Beauvoir, tem direito de assumir o protagonismo de sua própria existência e querer ser o que ela desejar e não o que se espera socialmente dela. Acredito que estas provocações e exemplos possam ser uma fagulha para pensar melhor sobre a mulher e seus direitos, que devem ser esculpidos à luz das Escrituras e não especificamente da tradição ou de qualquer força que inferiorize o valor da mulher; neste sentido a filosofia tem algo, ainda que de forma singela, a acrescentar.
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