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A Arte de Ser Cuidado

Michell Scheid da Silva
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13 de dezembro de 2019 • 3 min. de leitura

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Não é fácil deixar cuidar-se, é sempre mais fácil cuidar do outro. Porque isso exige de nós abrir o coração, se expor. Cuidado significa: atenção, precaução, cautela, dedicação, carinho e responsabilidade. Cuidar é perceber a outra pessoa como ela é, e como se mostra, em seus gestos e falas, sua dor e limitação. E esse cuidado, deve ir além da parte física, pois além do sofrimento físico decorrente de uma doença ou limitação, há que se levar em conta as questões emocionais, a história de vida, os sentimentos e emoções do outro. Para ser cuidado você precisa transparecer necessidade ou até mesmo, fragilidade. Olhando por este ponto de vista é mais fácil cuidar. Pois caso você não faça nada, de certa forma, a culpa não cai em você. Porém ao necessitar de cuidado, e não encontrando amparo, você ainda está perdendo, mas ainda assim é mais fácil permanecer em silêncio.

“Cada um por si e Deus por todos” é a Máxima da Lógica. Vivemos hoje numa crise de apatia em nossas famílias, em nosso trabalho e nas ruas. É como se a gente por si só bastasse. A postura individualista diante de um mundo competitivo estabelece a superficialidade absurda que desumaniza e maquia relações. No filme O Grande Ditador de Charlie Chaplin, ele cita: “Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos (duro como pedra) e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

Perdemos a vontade de sermos cuidados pela dureza de nosso coração. Pelo medo de nos expor ao outro, ou pelo fato de não nos acharmos dignos de cuidado. Mas Deus tem cuidado de nós de uma maneira que não podemos compreender, “olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?” (Mt. 6:26).

No cuidar precisa-se estar bem consigo, pois o “amar ao próximo como a si mesmo” é cuidar de si e deixar-se ser cuidado; render-se por inteiro, facilitando ao cuidador essa tarefa. É um exercício de humildade que deve ser motivo de reflexão diária, o qual nos faz lembrar a todo momento que Deus também tem cuidado de nós desde sempre. Como diz o salmista: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir” (Sl 139: 13-16).

Experimente se deixar cuidar. Abra seu coração. Fazem dois anos que passei pelo pior momento de minha vida onde foi necessária uma decisão: me expor e deixar ser cuidado de uma vez por todas ou deixar passar como se fosse mais uma tribulação e não resolvê-la. Escolhi deixar ser conhecido na totalidade, sem máscaras ou fingimentos, decidi aceitar os conselhos com humildade, reconheci que o Senhor é bom em todo o tempo. Experimentei o perdão e o amor. Por isso, posso constatar: Ao me deixar ser cuidado senti o amor de Deus através da vida dos meus irmãos, compreendi e obedeci ao meu chamado, sempre latente, que antes relegava.

Michell Scheid da Silva
Graduando em teologia na Faculdade Teológica Betânia.
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20 de outubro de 2024 • 6 min. de leitura

A pregação do Lógos no Evangelho de João: um exemplo para a contextualização do Evangelho na contemporaneidade

Assim como aconteceu nos dias da igreja cristã, no final do 1º século, nos dias do apóstolo João, com seus múltiplos desafios, urge que contextualizemos a mensagem do Evangelho de Jesus na contemporaneidade, não apenas para contrapor-se às ideologias contrárias à fé cristã, mas para que as pessoas compreendam a missão de Jesus, e sejam salvas por ele. Contextualizar a mensagem do Evangelho não é alterá-la em seu conteúdo, mas sim torná-la compreensível às pessoas dentro de um determinadpeo tempo e cultura. Ronaldo e Rossana Lidório, num brilhante artigo, Teologia Bíblia da Contextualização, citando Hesselgrave, disse o seguinte sobre o desafio da igreja na contextualização da mensagem evangélica na contemporaneidade: Quando Hesselgrave afirma que contextualizar é tentar comunicar a mensagem, trabalho, Palavra e desejo de Deus de forma fiel à Sua Revelação e de maneira significante e aplicável nos distintos contextos, seja culturais ou existenciais, ele expõe um desafio à Igreja de Cristo: comunicar o Evangelho de forma teologicamente fiel e ao mesmo tempo humanamente inteligível e relevante. E este talvez seja o maior desafio de estudo e compreensão quando tratamos da teologia da contextualização. Historicamente, a ausência de uma teologia bíblica de contextualização tem gerado duas consequências desastrosas no movimento missionário mundial: o sincretismo religioso e o nominalismo evangélico. O prólogo do Evangelho de João, cap. 1, dos versos 1 a 18, nos fornece um exemplo de como podemos contextualizar a mensagem do Evangelho para os nossos dias, e ainda sim conservarmos a verdade bíblica. O apóstolo João, à semelhança do apóstolo Paulo, em Atenas (At 17.16-34), ao veicular a mensagem do Evangelho, partiu da revelação natural, levando o seu público à revelação especial de Deus em Cristo. Para isso, João utilizou-se de um conceito filosófico, muito conhecido nos seus dias e na sua região, o conceito do _Lógos_. Essa estratégia de João não apenas era necessária, mas totalmente explicável. Ele estava em território gentio. Mais especificamente, grego. Éfeso e arredores incluindo a própria Grécia, era o reduto do pensamento grego. No começo, a pregação se voltava para os judeus, e usava a história do seu povo, e elementos judaicos da revelação divina, para alcançar os conterrâneos não convertidos ao Cristianismo. E agora, quando a igreja está cheia de gentios, de pessoas dadas ao pensamento grego? Como comunicar o Evangelho a esse grupo? Nunca tinham ouvido falar do Messias. Os gregos foram os primeiros a especular sobre a origem das coisas, partindo da filosofia, e também de um começo científico rudimentar. O _Lógos_, conceito que versava sobre esse tema, já era conhecido desde os tempos de Heráclito (535 – 475 a.C.) que foi primeiro a formular o conceito. Para este, o Lógos era o princípio criador de todas as coisas, as quais não têm início prévio (άρχή). Para ele, o _lógos_ era algo que está fora (transcendente). Diferente daqueles que diziam que a criação fora oriunda de material já existente. Para os estoicos, por outro lado, o _Lógos_ era como algo dentro na natureza, ou seja, imanente. As coisas criadas são “semente de Deus”. Ainda, para Philo de Alexandria, um filósofo judeu-helenista do Egito, o Lógos era o mediador entre o criador invisível e a sua criação. Quis Deus que João fosse o articulador entre aquela revelação natural e a revelação especial de Deus na pessoa de Jesus. Assim, o apóstolo, no prólogo do seu Evangelho, por meio de um possível hino da igreja cristã circulante no 1º século , vai dizer, com todas as letras, que esse _Lógos_, que os filósofos especulavam como o princípio de todas as coisas, é Jesus. Ao apresentar Jesus dessa maneira, para o seu público gentio, o apóstolo João, em primeiro lugar, nomina o que era até então inominável. Especulava-se, desde os tempos de Heráclito, sobre o início de todas as coisas, reduzindo a criação de Deus a um princípio filosófico. Porém, João dá um nome a esse princípio. Esse princípio é uma pessoa. É Jesus. Ou seja, ele traz luz à essa verdade sobre qual se especulava, conectando-a à revelação especial de Deus na pessoa de Jesus. Em segundo lugar, João deixa patente que aquilo que era transcendente tornou-se imanente. Para Heráclito, o Lógos era transcendente. João faz uma ligação entre a transcendência e a imanência do Lógos. O Lógos é Deus que desceu dos céus até nós. William Barclay, em seu comentário do Evangelho de João, diz, em outras palavras, o que João estaria comunicando aos gregos no seu prólogo: Por séculos vocês vêm pensando e escrevendo e sonhando acerca do Logos, o poder que fez o mundo, o poder que mantem a ordem do mundo, o poder pelo qual os homens pensam e raciocinam e conhecem, o poder pelo qual os homens entram em contato com Deus. Jesus é este Logos que vem à terra. A Palavra, disse Joao, ‘se tornou carne’. Poderíamos colocar isso de uma outra maneira – A Mente de Deus se tornou pessoa. Em terceiro lugar, João torna aquilo que era abominável para os pré-gnósticos dos seus dias o meio sábio pelo qual Deus empreende o seu projeto de salvar o homem: por meio da encarnação de Jesus. Para os gnósticos, era inconcebível que Deus pudesse se fazer carne, visto que a matéria é essencialmente má, enquanto que só o espírito é bom. João lida também com essa heresia nas suas epístolas (1 João 4.2,3; 2 João 8), sendo que uma das ramificações do gnosticismo, o Docetismo, dizia que Jesus não tinha corpo. Ele era apenas uma aparência. Ou seja, negavam que Jesus veio em carne. Ainda, em relação ao Prólogo de João, ele não apenas usou um conceito filosófico para falar à mentalidade e cultura gregas, mas preservou as grandes doutrinas da revelação de Deus e do Evangelho. As grandes verdades da cristologia foram preservadas: a eternidade de Jesus, sua relação especial com o Pai, sua divindade, seu poder criador tanto quanto ao do seu Pai, a importância da fé em Jesus, por meio da qual nos tornamos filhos de Deus, e a encarnação do Filho de Deus. Hoje, dentre aquelas pessoas que não conhecem a revelação especial de Deus, é comum também ouvirmos suposições e especulações sobre a origem das coisas - sobre se há ou não uma mente racional, ordenadora, por trás de toda ordem da natureza. Às vezes, ouve-se comentários tais como: - “Deve haver alguma força por trás de toda essa ordem”. Nesse caso, e em dizeres similares, nós, cristãos, à semelhança do que fez o apóstolo João, podemos partir daí, e dizer que essa ordem por trás de todas as coisas é Jesus, que se encarnou, e veio salvar a todos quantos crerem nele como o único meio pelo qual Deus escolheu, e revelou-se historicamente, para salvar a humanidade. **Psicólogo, teólogo e escritor. Pós-graduação em Psicologia Clínica pela Universidade Tuiuti do Paraná, em Novo Testamento e Grego pelo Spurgeon’s College – Londres/Inglaterra, em Psicodrama Terapêutica - Associação Paranaense de Psicodrama. FEP. E em Aconselhamento Pastoral, pelo Wheaton College – Wheaton/EUA. Graduado em Psicologia e Teologia e professor da FATEBE.**

José Godoi Filho
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25 de agosto de 2021 • 4 min. de leitura

O bom pastor dá a vida por suas ovelhas

No que diz respeito às escrituras sagradas, encontram-se palavras que o significado em nossa língua é limitado, isso se dá ao fato que a bíblia foi escrita em três idiomas: aramaico, hebraico e grego, línguas que já não são faladas ou foram extintas tornando assim dificultosa sua interpretação, porém, não impossível. Através de uma análise das cópias dos originais pode-se chegar a interpretações mais próximas das intenções em que foram originalmente escritas e revela-se o teor original das palavras bíblicas, as emoções, sentimentos, desejos e vontades fazem parte de todo ser humano e perceber a relação da vida exposta nas escrituras com estas emoções auxiliam em compreender a vida que pode-se ter através do Messias. Na passagem onde Jesus relata que veio dar a vida pelas suas ovelhas em João 10.11 a palavra que lemos é ψυχήν (Psique), um dos termos gregos utilizados para se referir a vida, língua a qual esta palavra tem várias e peculiares aplicações da vida em seus aspectos físicos—a.(fôlego da) vida, princípio vital, alma Lc 12.20; At 2.27; Ap 6.9.—β. α vida terrena em si Mt 2.20; 20.28; Mc 10.45; Lc 12.22; Jo 10.11; At 15.26; Fp 2.30; 1 Jo 3.16; Ap 12.11.— b.a alma como sede e centro da vida interior de uma pessoa, em seus muitos e variados aspectos: desejos, sentimentos, emoções. Sobre esta conotação a palavra psique no seu sentido mais amplo está ligada a vida em todos os seus aspectos, tudo que constitui o ser humano como ele é, pode-se aplicar o termo psique como (a vida do homem Lc 12.18-20; sentimento Mc 14.34 e o eu mesmo como ser humano At 2.41-43). Pode-se perceber que a conotação de vida é mais profunda e complexa de ser compreendida, mesmo pelo fato do ser humano não ser um corpo, mas sim alma vivente (Gn 2.7), tudo que constitui homem como ele é se constitui na vida ou psique. Analisando a palavra aplicada no texto bíblico de Jo 10.11, de acordo com o léxico grego e suas definições, a vida dita por Jesus tem a conotação de alma como sede e centro da vida interior de uma pessoa em seus variados aspectos como desejos, sentimentos e emoções, uma vida que vai além da terrena, esta palavra “Psique” não significa a vida apenas física, psique está relacionada a vida intelectiva, vida mental, a vida racional e emocional. Neste mesmo sentido o escritor de Atos dos Apóstolos a utiliza para ilustrar homens que entregaram a vida (psiqué) pelo nome do Senhor. “Homens que têm arriscado a vida pelo nome do Senhor Jesus Cristo”. At 15.26. Ou seja, homens que entregaram tudo de si, suas vidas por completo, seus sentimentos, emoções, mente e corpos por amor a algo que transcende a vida terrena, vida não resume-se ao estar vivo mas, o seu sentido envolve tudo do que é inerente ao ser. O que se pode apresentar com tudo isso, é que uma das missões do Mestre é restabelecer a ordem e saúde emocional do ser humano, pois uma falha ou negligência em lidar com situações pode causar esse desequilíbrio. Cristo trouxe o equilíbrio, e nele temos a paz e controle emocional necessário para lidar com as mais diversas situações, como Ele mesmo diz em Mateus 6.25 “para não se preocupar ou andar ansiosos quanto a vida” (Psique), a vida física como alimentos, bens e vida emocional porque Deus está no controle. Jesus mostra seu controle e suprimento sobre todas as aflições que o homem possa ter quando se lê que no seu aprisco tem o necessário para ter vida abundante (Jo 10.9) ou vida completa que vai além das expectativas, Cristo tem recursos para suprir todas as coisas que situações nos roubaram. Siga em frente!

Rodrigo Ramos
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17 de setembro de 2025 • 3 min. de leitura

Desde a vista do meu ponto: humanidade e espiritualidade

Ultimamente tenho refletido sobre minha humanidade e minha espiritualidade. Sobre o fato de sermos, ao mesmo tempo, seres humanos e espirituais, e como essas dimensões se complementam. Entendo que nossa humanidade recebe os benefícios da espiritualidade, pois, segundo a Bíblia, quando recebemos a Jesus passamos a ser chamados de espirituais. Isso traz consequências positivas ao nosso ser e afeta diretamente a maneira como vivemos nossa humanidade. Essa conexão é profunda, e uma mente que pensa apenas de forma racional não consegue compreender a dimensão do que o espírito pode alcançar. Para entender o Reino de Deus, é necessário pensar espiritualmente. A espiritualidade enriquece nossa humanidade porque nos conecta ao transcendente que, nesse caso, não pode ser outro senão Deus. É nessa conexão que a humanidade encontra propósito, razão de viver e sentido para a existência. Isso nos move a sermos éticos, respeitosos, generosos, pacientes, compreensivos e a manifestar os frutos do Espírito Santo mencionados por Paulo em Gálatas 5.22-23. E, com reverência ao texto, ousaria acrescentar ao final do verso 23 a frase: “Contra essas coisas não há humanidade.” No entanto, nossas dúvidas e incertezas brotam quase todos os dias justamente da nossa humanidade. Aqui falo como um ser comum: que ri, chora, às vezes amaldiçoa, mas também abençoa; que se prende a coisas banais, que trava batalhas internas e até discussões silenciosas com outros; que tem dúvidas, sente que a fé e Deus parecem distantes e que as orações não são ouvidas; que pensa não estar na agenda de Deus ou, se está, é apenas depois de outros que parecem ter mais prioridade. Nesse momento, só posso dizer em primeira pessoa: “Sou assim, sou de carne e osso. Sou humano.” E junto dessa humanidade atuam também as forças das trevas. Embora já derrotadas, elas são perseverantes e insistentes, atacando justamente onde somos mais frágeis. Paulo, em 2 Coríntios 1:8-9, relata uma tribulação tão intensa que chegou a desesperar-se da própria vida. Ali, a humanidade, em linguagem hiperbólica, “gritou”, e a espiritualidade respondeu calmamente por meio do Apóstolo. É como se uma falasse com a outra dentro da mesma pessoa. >Irmãos, não queremos que vocês desconheçam as tribulações que sofremos na província da Ásia, as quais foram muito além da nossa capacidade de suportar, a ponto de perdermos a esperança da própria vida. De fato, já tínhamos sobre nós a sentença de morte, para que não confiássemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos. Ele nos livrou e continuará nos livrando de tal perigo de morte. Nele temos colocado a nossa esperança de que continuará a livrar-nos, 2 Coríntios 1:8-10 >Por isso, precisamos diariamente reafirmar diante da nossa humanidade que nossas armas são poderosas em Deus e capazes de destruir sofismas e resistências do mal. Somos seres espirituais, o Espírito Santo habita em nós, temos todos os benefícios da morte e ressurreição de Cristo e, portanto, devemos viver como tais. Sem esquecer nossa humanidade, mas recordando-a constantemente da nossa espiritualidade em Cristo, que já nos concedeu abundantemente os recursos para uma vida plena no Espírito. Sejamos felizes no Senhor, pois somos mais que vencedores.

Benides Bergamo
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