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A Radicalização da Cibercultura: o Transumanismo

Roberto Rohregger
Roberto Rohregger
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31 de outubro de 2019 • 5 min. de leitura

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4 Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. 5 Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Gn. 3:4,5

O desenvolvimento humano sempre esteve atrelado ao desenvolvimento tecnológico. É graças a capacidade humana de criar instrumentos que ampliam a capacidade física natural, que a natureza passa a ser dominada, “pois a fragilidade da natureza humana exigia que o homem buscasse um apoio”. (ROHREGGER; SGANZERLA).

Segundo JONAS: A técnica, podemos dizer, representa uma “vocação” da humanidade, isto é, uma necessidade humana para assegurar a continuidade da sua existência. Mesmo no passado quando seu desenvolvimento era bastante vagaroso, a técnica antiga, como afirma Jonas representava um “tributo cobrado pela necessidade” (2006, p. 45)

A ciência e o desenvolvimento tecnológico têm contribuído para que a humanidade tenha um maior acesso a bens de consumo, alimentos, medicamentos, facilidades de comunicação e transportes, entre outros inúmeros inventos possibilitados inclusive por um sistema econômico que possibilitou este desenvolvimento e hoje também está atrelado de tal maneira que se tornam interdependentes. Porém, a humanidade ainda enfrenta problemas relacionadas à distribuição de todo este desenvolvimento.

Há uma parcela bastante significativa da população mundial que não usufrui de todo este desenvolvimento. Muitos locais de grande concentração humana não têm acesso a questões básicas como a distribuição de água e tratamento de esgoto. Mesmo em países com um grau significativo de desenvolvimento econômico podemos encontrar pessoas sem acesso a tratamento médico e a alimentação digna. Este quadro parece demonstrar que o desenvolvimento técnico-científico não é universalizável, isto é, não é acessível a toda a humanidade, pelo menos não a curto prazo, uma vez que este está atrelado ao desenvolvimento econômico e a políticas públicas.

Apesar deste quadro, não parece haver outra possibilidade para o aumento da qualidade de vida humana que não passe pela concepção de que a ciência e a tecnologia seja o caminho inexorável para este objetivo. Desta forma a ciência é vista como àquela que poderá trazer a humanidade um futuro que possa assemelhar-se ao paraíso. É a partir desta concepção que a ideia do transumanismo se desenvolve, como uma ideologia de evolução que possa ser direcionada pela própria humanidade.

O conceito geral que sustenta o transumanismo é que o ser humano na atualidade já possui as condições para dominar a sua própria evolução, não ficando mais a mercê do evolucionismo cego, isto é, poderíamos a partir das descobertas cientificas como a manipulação genética e tecnológicas como a miniaturização de processadores transformar o corpo humano, aumentando sua capacidade cerebral, física e de longevidade.

O transumanismo deixa de ser apenas uma idéia de ficção científica para passar a ser um conceito ideológico e um projeto filosófico. O “aperfeiçoamento” e a “imortalidade” humana tem sido perseguidos por diferentes grupos sociais, entre empresários, tecnólogos, biotecnólogos. Um dos mais recentes a aderir a essa causa foi Larry Page (co-fundador e CEO do Google) que criou a empresa Calico, voltada para a pesquisa em saúde e longevidade humana. Esta e outras ações e iniciativas estão em curso com o mesmo objetivo e até maiores, a exemplo do empreendimento do empresário russo Dmitry Itskov que pretende, com ajuda da biotecnologia e da informática, alcançar até o ano de 2045, a possibilidade de fazer o upload da mente humana para uma máquina, que seria o passo posterior do transumanismo para o póshumanismo.

Apesar de algumas ideias exóticas o transumanismo tem o apoio de uma boa parcela da comunidade científica, filosófica e empresarial, o que parece indicar que algum tipo de manipulação humana será desenvolvido como resultado deste projeto. É óbvio que deste ideal surgem uma série de questões que necessitam ser respondidas, as mais básicas seriam refletir sobre, quais as implicações do transumanismo para o ser humano? Como podemos compreender as afirmações transumanistas pela perspectiva metafísica e religiosa? Quais as implicações éticas para o desenvolvimento do transumanismo? E as implicações sociais? Porém há uma questão fundamental a qual nos leva à parte inicial deste pequeno texto, qual a possibilidade de universalização do transumanismo?

Talvez se este desenvolvimento tecnológico não possa ser acessível a qualquer pessoa, signifique a construção de um abismo social muito maior do que o existente na atualidade e o desenvolvimento técnico-cientifico possa, não mais apontar para o progresso de toda a humanidade, mas para apenas um seleto e já privilegiado grupo.

Referências bibliográficas para aprofundar o tema.

BOSTROM, Nick; Superinteligência. Rio de Janeiro, RJ: Darkside, 2018

FERRY, Luc; A Revolução Transumanista, Barueri, SP: Manole, 2018

FUKUYAMA, Francis. Nosso Futuro Pós-Humano, Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2003

JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUCRio, 2006.

JONAS, Hans. Técnica, medicina e ética. Sobre a prática do Princípio Responsabilidade. São Paulo: Paulus, 2013.

ROHREGGER, R.; SGANZERLA, A. . Transhumanismo e a ampliação da desigualdade social. In: Daiane Priscila Simão-Silva; Leo Pessini. (Org.). Bioética, Tecnologia e Genética. 1ed.Curitiba: Editora CRV, 2017, v. 1, p. 51-68.

ROHREGGER, R.. IMPLICAÇÕES FILOSÓFICAS DO TRANSHUMANISMO. 2019. (Apresentação de Trabalho/Comunicação).

SANDEL, Michael J. Contra a Perfeição. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2013

SGANZERLA, A.; ROHREGGER, R. . PRUDÊNCIA: A VIRTUDE DA BIOÉTICA NA CIVILIZAÇÃO TECNOLÓGICA. THAUMAZEIN (SANTA MARIA), v. 10, p. 67-74, 2017.

SGANZERLA, A. ; ROHREGGER, R. ; RODRIGUES, M. P. Transhumanismo: Poderá a tecnologia criar um ser humano ‘superior’?. Simpósio Internacional IHU, v. 1, p. 202, 2014.

Roberto Rohregger
Roberto Rohregger
Mestre em Bioética pela PUCPR, pesquisando as implicações bioéticas da biotecnologia, possui ESPECIALIZAÇÃO em Psicoteologia e Bioética pela Faculdade Evangélica do Paraná - FEPAR e Teologia do Novo Testamento Aplicada pela Faculdade Teológica Batista do Paraná - FTBP e em Formação de Professores para EAD pelo Centro Universitário Uninter. Bacharel em Teologia pela Faculdade Evangélica do Paraná (2008) e graduação em Bacharel em Teologia - Seminário Teológico Betânia de Curitiba (2006). Membro do Conselho de Bioética do Hospital Pequeno Príncipe (Curitiba/Pr.) Atualmente é professor do Centro Universitário Uninter na graduação de Bacharelado em Teologia e na disciplina de Ética Aplicada à prática Pastoral na pós graduação em Aconselhamento Cristão e Capelania e da Faculdade Teológica Betânia (Graduação e Pós-Graduação). Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia Moral, atuando principalmente nos seguintes temas: ética, bioética, teologia contemporânea, espiritualidade, : cristianismo., teologia sistemática e ecologia. Criador e coordenador do Grupo de Estudos de Bioética & Teologia (FATEBE) Curitiba,Pr.
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25 de dezembro de 2017 • 2 min. de leitura

Sobre os caras que dormem olhando para o céu

Quem caminha pelas ruas de Curitiba pode ter se incomodado com o cheiro ou com o pedido de “vultos” que transitam por todas as partes da cidade. São pais e mães, filhos e filhas, que em algum momento de suas histórias acabaram nas ruas sem ter onde morar. O que pode ser um momento de inconveniência para quem se vê do outro lado, revela um mal persistente nessa sociedade adoecida pelo vírus da indiferença. Na situação de rua curitibana encontramos diversas pessoas que pelos infortúnios relacionados a violência, dependência química e desestrutura familiar acabaram optando pelas marquises e calçadas como moradia. Quando escutamos as histórias de quem vive na rua, podemos ver a proximidade que a Igreja tem dessa realidade – são filhos de crentes, membros de denominações evangélicas, irmãos de fé, pessoas que moravam ao lado da congregação. O que faltou para que a história dessas pessoas pudesse ser diferente? Segundo dados da Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua de 2008, foram identificadas 2.776 pessoas nessas condições. São indivíduos que sofrem pela indiferença e descaso da sociedade, isso quando não são vítimas de violência motivada pela discriminação. O Movimento Nacional dos Moradores de Rua e a Prefeitura de Curitiba estimam que em 2014 essa população tenha alcançado um contingente de 4 mil pessoas, com base na quantidade de atendimentos individuais feitos pela Central de Resgate Social e o número crescente de vagas de acolhimento em abrigos. Os “vultos” que perambulam pelas ruas da cidade precisam ter suas imagens bem definidas e suas histórias conhecidas. Afinal não são inconvenientes que nos atrapalham de ir ao shopping, eles são gente como a gente e da nossa gente, mas infelizmente reflexos de uma postura social cada vez mais indiferente. E falando em Igreja, essa tem uma responsabilidade que vai além do resgate social e da distribuição de sopão, algo que implica em um comprometimento profundo em se relacionar – afinal, para que congregações bonitas e cheias de requinte se não for para abrir as portas para quem precisa?

Adoniran de Souza Bail
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18 de abril de 2019 • 2 min. de leitura

Como manter a paixão no que você faz?

Muitos em determinado momento de sua caminhada em busca de seus projetos, acabam se perdendo, não encontram motivação para continuar… o fogo, a paixão, o impulso, perdem a força… Mais importante que o começo é o fim das coisas! Ele de fato revelará quão convictos e perseverantes realmente somos. Chegar ao fim da jornada com êxito fará com que cada sacrifício do caminho tenha valido a pena! O “fim” pode estar bem distante, por isso, manter-se motivado é essencial para quem deseja ter sucesso. Mas como conservar-se firme apesar das dificuldades? Lembrando sempre do porquê e para quem você está fazendo o que faz! Ou seja, lembrar-se constantemente do seu PROPÓSITO! Ao fazer isso: As circunstâncias não poderão abalar sua paixão e sua fé! Deixe que sua convicção mova você e lhe impulsione acima dos desafios! As circunstâncias mudam, mas o propósito permanece sempre! Guarde o coração para conseguir cumprir sua missão! Lembrar que seu propósito o protegerá! Você não tomará decisões erradas, não se encantará pelos atalhos duvidosos, nem agirá no impulso, pois buscará conservar a essência e a pureza de suas ações. Lembrar que seu propósito lhe permitirá avaliar o que realmente vale a pena! Você saberá o que precisa perder, reter, ganhar, dar… pois terá um padrão, uma medida para avaliar as ações necessárias para que o propósito se cumpra. Lembrar que seu propósito lhe fará valorizar as pequenas coisas, as tímidas conquistas, e serão elas mesmas que te manterão humilde, dependente, e com o coração no lugar certo. Lembrar que seu propósito lhe fará respeitar o fator TEMPO! Nenhuma colheita saudável ou resultados permanentes vem em velocidade de fast-food. Quem conserva o propósito, desenvolve perseverança. Lembrar que seu propósito lhe manterá vivo e capaz de enfrentar a realidade de que as coisas nem sempre acontecem como planejamos ou desejamos. A vida não é controlada por uma planilha ou uma lista de tarefas imutáveis e de fácil realização. Ela é dinâmica, e se não estivermos dispostos a nos reinventar e recomeçar, não permaneceremos!

Cíntia Stürmer
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8 de outubro de 2019 • 4 min. de leitura

O Ciberespaço e a Cibercultura e seu impacto sobre o ser humano

Nós vivemos hoje uma realidade única na história. A invenção e o desenvolvimento da internet criou uma realidade que engloba a todas as pessoas de uma forma ou de outra. Pela rede mundial de computadores o mundo tornou-se uma aldeia global. Na história nós temos vários momentos chaves que impactaram a humanidade pelo desenvolvimento da comunicação, da informação, pelo desenvolvimento da cultura e da ciência. Tivemos a invenção da escrita, a imprensa, o telégrafo, o rádio, a televisão. Mas estas conquistas da tecnologia foram apenas prelúdios do grande impacto causado pela internet. A invenção da internet e a disseminação dos conteúdos, das ideias, dos textos e imagens, do conhecimento, por meio da rede mundial de computadores causou e causa um impacto que é difícil de mensurar. A internet é um oceano de profundezas abissais divulgando notícias, informações, canalizando o comércio a nível global, conectando pessoas, espalhando a cultura e o conhecimento. Um extraordinário cabedal de informações está à disposição das pessoas por meio da internet com todos os seus afluentes e ramificações, como as redes sociais. Ao falar da internet duas expressões se destacam: O ciberespaço e a cibercultura. O Ciberespaço A Internet é um planeta. Este planeta não é uniforme. Está dividido em “continentes, países, estados”. Estas áreas dentro da internet agregando, de forma bastante solta, assuntos afins, são chamados de ciberespaços. Não são espaços físicos, mas virtuais. Os ambientes do ciberespaço são incontáveis: Há os espaços culturais, as áreas destinadas às artes, lá se encontram setores educacionais, os esportivos. O comércio mundial é impensável sem as redes de computadores. Imenso é o ciberespaço religioso e, também, o político. Toda e qualquer área da cultura, do conhecimento, das realidades humanas, encontra sua expressão neste ciberuniverso. O ciberespaço do lazer e do entretenimento é algo poderoso. Seu poder de atração é muito grande. Pode ter um poder viciante. Há pessoas que se perdem neste ambiente. Perdem a noção do tempo, dos valores, da vida, do trabalho. Dentro do ciberespaço do entretenimento há áreas sombrias e perniciosas, como uma das maiores, que é a área da pornografia. Existe o ciberespaço educacional, que agrega universidades, temas educacionais e setores voltados à divulgação de ideias as mais variadas. Há também o onipresente e dominador ciberespaço dos relacionamentos e da comunicação. As redes sociais são onipresentes, os contatos são exigentes e os interlocutores exigem respostas imediatas. A Cibercultura De dentro do ciberespaço brota a cibercultura. Podemos dizer que a cibercultura é o conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes, valores que permeiam grupos sociais a partir da vivência das mesmas no ciberespaço¹. Pierre Lévy afirma que “a cibercultura supera ciência e religião porque envolve todos os seres humanos”.² A cibercultura “criou novas formas de trabalho e de lazer, de comunicação e relacionamento social, influenciando hábitos, escolhas de consumo, ritmos produtivos e compartilhamento da informação³. Portanto a forma como nós usamos a internet ou nos movemos no ciberespaço pode nos influenciar naquilo que cremos, nos valores que assumimos, nos hábitos que cultivamos, nos alvos que buscamos, nas necessidades que procuramos suprir, na ética que adotamos. O apóstolo Paulo disse o seguinte: “Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Cor 6.12). É válido, é lícito, é até necessário mergulhar no oceano da internet, mas, pergunto, usando a linguagem simbólica de Deuteronômio 28.13 (“O Senhor te porá por cabeça e não por cauda”) em relação à internet, você é “cabeça ou cauda” se em relação à internet somos dominantes ou dominados? Numa atitude de autoavaliação podemos perguntar em que ciberespaços temos navegado? De que forma os conteúdos da internet e das mídias sociais tem influenciado nossas convicções e atitudes? Como temos nos posicionado diante das mídias sociais? Sucumbimos à compulsão de consultar de forma incessante as redes sociais? Conseguimos simplesmente ler um livro, desligando o celular? Temos a capacidade de ficar a sós sem as interrupções das mensagens? A internet é uma realidade. Não podemos dispensá-la, mas ela deve estar debaixo da autoridade do Senhor Jesus. O Espírito de Deus deve encher o nosso coração e determinar os conteúdos de nossas mentes e corações e não os conteúdos das mídias sociais. Devemos declarar Jesus como Senhor também desta área de nossas vidas. Senhor do Ciberespaço no qual nos movemos e Senhor daquilo que buscamos na internet. ¹(cf. dic. Houaiss) ²(https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs180104.htm; 27.8.2019) ³(cf. LEMOS, 2004, APUD LEMOS; LÉVY, 2010 http://tiny.cc/djm3cz, 27.8.2019)

Fred R. Bornschein
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