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Crise e respostas da Teologia

Nilton Torquato
Nilton Torquato
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31 de julho de 2020 • 7 min. de leitura

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A crise é algo inerente à existência humana. Sempre que algo tira a tranquilidade ou foge à regra daquilo que a humanidade considera cotidiano surge uma crise. Se a origem da crise pode ser bastante diversa, e nem sempre ter a possibilidade de ser evitada pelo ser humano, sua resolução depende da habilidade de lidar com ela e transformar as circunstâncias em novas oportunidades. Neste material teremos como objetivo observar as diversas respostas que teólogos deram em meio a estas crises.

As crises estiveram presentes desde os primórdios da humanidade. Os seres humanos não teriam se desenvolvido tecnologicamente sem a existência de crises. Foi a necessidade de caçar que obrigou o homem a desenvolver os primeiros instrumentos de pedra. “De um ponto de vista puramente natural, o homem é o mais inadequado dos seres vivos existentes em nosso planeta” (PINSKY, 2011, p.10). Foi a falta de alimento que fez ele se deslocar pelas planícies da África e Ásia chegando à Europa e Américas. Por este mesmo motivo a crise denota uma “etapa crucial ou ponto de viragem no decurso de qualquer coisa” (RATO, 2008, p. 175).

Embora existam vários tipos de crises de âmbito mundial, neste material gostaria de apresentar quatro tipos. Eles auxiliam a compreensão das dimensões que uma crise pode atingir. Será discorrido a respeito de crise bélica, econômica, sanitária e migratória. Para cada uma delas, várias respostas foram dadas por teólogos que viveram neste tempo.

Durante o século XX ocorreram duas grandes guerras mundiais. A primeira delas entre 1914 e 1918, intitulada I Guerra Mundial, e a outra entre 1939 e 1945, conhecida como II Guerra Mundial. O palco principal das duas guerras foi a Europa, mas os conflitos atingiram várias regiões do planeta. Soldados de terras muito distantes da Europa foram arrastados para lá com o objetivo de lutar por uma das partes em conflito (HOBSBAWM, 1995). Bailey (1984) indica que os cristão evangélicos tiveram que lidar com algo bastante diverso, uma guerra contra a terra de onde veio a reforma protestante. Em meio à confusão, alguns chegaram a afirmar que a culpa era da própria mensagem de Lutero, mais afeita à agressão do que a arminiana. Outros seguiram para a direção de que se tratava de um castigo divino por conta do desvio da fé dos cristãos locais. Outros ainda perceberam, como na maioria das crises da humanidade, que é um prenúncio da volta de Jesus que se aproximava. Nesta linha não demorou para que figuras fossem identificadas como o anticristo: na primeira guerra eram o Kaiser e Oman Otomano; na segunda guerra cada lado encontraria o anticristo no seu oponente. Poucos líderes viram nestas guerras a oportunidade divina para a construção de uma outra forma de sociedade.

Com o término da Primeira Guerra, os Estados Unidos se tornaram o grande credor do mundo. Todas as dívidas contraídas por conta da guerra tinham que ser pagas, com juros, aos cofres americanos. Soma-se a isso a ausência de empresas capazes de suprir as necessidades europeias que haviam sido destruídas pela guerra. Todas estas contingências, somadas à inventividade de homens como Henry Ford, levaram a um crescimento econômico sem precedentes. Tudo parecia perfeito, até que em 24 de outubro de 1929, a bolsa de nova York sofre uma quebra sem precedentes. Rapidamente o enriquecimento é substituído pela falta de empregos, as indústrias quebram juntamente com os bancos. Numa economia em processo de integração transnacional, vários países do mundo acabam por sofrer as consequências. Mesmo o Brasil viu sua produção de café ser queimada por falta de compradores (HOBSBAWM, 1995).

Handy (1960) indica que durante a prosperidade, as igrejas americanas começaram a sofrer uma evasão. O suprimento financeiro acabou por diminuir o desejo de investimento em missões. Os cultos começaram a esvaziar no mesmo momento em que novas seitas começaram a aflorar em solo americano. Se de um lado, a lei seca parecia demonstrar uma igreja atuante, na verdade denotava uma religiosidade crescente, destituída de uma espiritualidade marcante. Uma apostasia que só não era sentida pelos primeiros pregadores que usavam o rádio para espalhar sua mensagens, muitas vezes sem o conteúdo adequado. Logo, não é de se espantar que vários líderes indicavam a crise como uma punição divina, resultado da ira divina. Outros olharam para este momento como sendo o fim do mundo. O olhar escatológico era facilmente chancelado pela imagem de imensos batalhões de empobrecidos perambulando nas ruas. Mais uma vez foram poucos os que perceberam nisso a oportunidade de um evangelho mais atuante e atento à necessidade humana.

A terceira crise apresentada era a sanitária. Com a gripe espanhola cerca de 50.000.000 de pessoas perderam a vida em todo o planeta. Se ela foi mais letal na Europa e Estados Unidos, não poupou vidas nos demais continentes (HOBSBAWM, 1995). Ao estudar a questão do discurso adotado por teólogos e religiosos na África do Sul, Phillips (1987) chegou a refletir o racismo existente, acusando pessoas más (normalmente negras) como as responsáveis pela difusão da infecção. Esta interpretação acabou por fornecer combustível para o apartheid já praticado nesta nação. Outros grupos negaram a existência de uma pandemia, afirmando que os números estavam sendo superdimensionados e que não passava de uma enfermidade passageira. A negação é uma das formas humanas de lidar com a frustração causada pela impotência diante da dor. A grande novidade das interpretações será a compreensão de que a Igreja deve demandar do Estado o cuidado humanitário com o ser humano.

A última forma de crise indicada é resultado, quase sempre, de conflitos armados. Trata-se da crise migratória. Quase a totalidade dos migrantes estão em busca de uma condição melhor de vida em relação à sua origem. As guerras sempre deslocam pessoas. No caso das guerras que varreram a Europa nos séculos XIX e XX acabaram por produzir um contingente de quase 40.000.000 de imigrantes somente para os Estados Unidos, Argentina e Brasil. Este tipo de crise ainda se faz presente hoje com os conflitos que arrasam o Oriente Médio. As interpretações na época carregavam a ideia de oportunidade divina (REINKE, 2010). A oportunidade de ocupar terras onde não existiriam as guerras da sua origem. Muitos letos vieram para o Brasil com esta esperança. Neste momento tudo era visto como sendo a vontade do próprio Deus. Ainda hoje temos que lidar com esta crise, porém hoje muitos teólogos vêm tentando caracterizar estes elementos migratórios como sendo de origem meramente religiosa. Se existe o elemento religioso, devemos compreender que as guerras custam muito dinheiro e, se existem pessoas capazes de gastar é porque alguém está lucrando muito com isso (HOBSBAWN, 1998).

Se não podemos evitar que as crises, sistematicamente, possam se aproximar de nossas vidas, podemos nos prevenir e buscar interpretações teológicas capazes de gerar crescimento e fortalecimento com vistas à superação delas. O teólogo precisa interpretar de forma profunda a realidade que o cerca, buscando responder de forma profética e profunda aos problemas. É preciso vermos o todo, logo, além da bíblia, devemos portar o conhecimento da atualidade. Sociologia, história, psicologia, entre outras ciências são essenciais para que o teólogo veja além e enxergue a oportunidade do encontro pessoal entre o Deus criador e a sua criatura numa experiência de fé e comunhão.

Referências Bibliográficas

BAILEY, C. The brotishprotestant theologians in the first world war: guermophobia unleashed. Harvard Theologycal Review, [s.l.], v. 77, no 2, p. 195–221, 1984.

HANDY, R. T. THE AMERICAN RELIGIOUS DEPRESSION , 1925-1935. Church history, [s.l.], v. 29, no 1, p. 3–16, 1960.

HOBSBAWM, E. Era dos Extremos: o breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das letras, 1995.

HOBSBAWN, E. sobre história. São Paulo: Companhia das letras, 1998.

PHILLIPS, H. Why did it happen? Religious and lay explanations of spanish flu epidemic of 1918 in South Africa. Kronos, [s.l.], v. 12, no 1, p. 72–92, 1987.

PINSKY, J. As Primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2011. 125 p.

RATO, H. Crise e democracia: resolução da crise e aprofundamento da democracia. In: FERREIRA, E.; OLIVEIRA, J. P.; MORTÁGUA, M. joão (Orgs.). Investigação e prática em economia. 1 ed. Parede: Princípia Editora, 2008. p. 175–194.

REINKE, A. D. Os pioneiros 1910-2010: 100 anos de história da Covenção Batista Pioneira do sul do Brasil. 1 ed. Curitiba: Convenção Batista Pioneira do sul do Brasil, 2010.

Nilton Torquato
Nilton Torquato
Mestre em Educação e novas tecnologias. Pós-graduado em Gestão e educação ambiental. Bacharel em História pela Federal do Paraná UFPR . Bacharel em Teologia. Pastor e professor da Fatebe.
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18 de dezembro de 2019 • 6 min. de leitura

Alvo da Graça

Lembro-me da minha infância, criado em um contexto católico, no período da Páscoa, a festa começava na sexta-feira santa, e terminava no domingo. Alguns de meus familiares encerravam o período da Quaresma, bebiam, e comiam muito. Mas minha família não deixava de ir às missas todos os três dias. No sábado era um dia em que eu notava que nos postes (de rede elétrica) havia um boneco vestido de pano, onde as pessoas batiam e alguns ateavam fogo. Em um certo ano, perguntei ao meu pai o que significava, e ele me disse que era um boneco de Judas, era dia de “malhar Judas”, minha família nunca praticou essa tradição, mas eu sempre quis, só por ter o prazer de atear fogo no boneco – coisa de criança. Ao passar o tempo, após minha conversão, notei que a palavra Graça, era e é muito utilizada no contexto evangélico, muito mais que no católico. Meu primeiro contato com a palavra Graça, foi em um livro de Max Lucado, “A Graça bate à sua porta”, um presente que ganhei no dia de meu batismo. O livro contava fatos da vida do autor, de como o Espírito Santo através da Graça o surpreendeu com situações de milagres, até mesmo de bênçãos, e ele falava como a Graça do Senhor era boa. Confesso que até aquele momento eu acreditava que a Graça era como uma “vibe positiva”. Ouvi certa vez de um amigo não convertido ao evangelho, de como ele gostaria que a Graça que os evangélicos falavam e criam cercasse a vida dele para que ele recebesse recompensas e presentes do universo, como se o cosmos convergisse a favor dele. Naquele momento eu o exortei com muito respeito, e disse a ele que a Graça era o amor de Deus manifesto em Jesus Cristo para a salvação das pessoas, mas que depois ela poderia ser um meio de benção na vida dos homens. Acredito que algumas das falas de Max Lucado me influenciaram na época, ou eu interpretei mal o conteúdo de seu livro. Num outro momento em que a palavra Graça ficou martelando em minha mente, foi quando comecei a ouvir sobre a tal da “hiper-graça”, algo como se o pecado estivesse liberado, os erros tolerados e nada de ruim poderia acontecer às pessoas que viviam sua vida por ela, pois, uma vez salvo, sempre salvo. Pastores e líderes começaram a se preocupar com essa pregação, pois muitos jovens saiam de suas igrejas para irem às igrejas daqueles que testemunhavam a fé por meio dessa hiper-graça. Naquele momento levantei uma bandeira, de “caça às bruxas” contra aqueles que pregavam assim, mas o detalhe é que novamente estava sendo influenciado por algo que eu não compreendia em sua totalidade, mas mesmo assim desejava discutir e me posicionar sobre isso. Vale a pena destacar que não estou aqui entrando no mérito ou não, sobre alguém perder ou não sua salvação, mas sim, de que mais uma vez, a palavra Graça estava em voga na minha mente e em meus discursos, sem entender exatamente o que era. Ao longo do tempo, o querer entender a Graça sempre foi um de meus objetivos, e acredito que até o fim da minha vida será, mas recentemente lendo o evangelho de João em meu período devocional diário, eu me deparo com o seguinte texto: “Jesus respondeu: é aquele a quem eu der o bocado molhado. E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão” (João 13:26). E por algum motivo estranho resolvi ler e entender o que era bocado, e assim fui para os comentários bíblicos para compreender. Para minha surpresa, a circunstância em torno deste acontecimento conjuntamente com a ceia e a palavra bocado, possuem um grande significado e de extrema relevância. Naquele momento pude acrescentar mais uma pequena parte de instrução sobre a Graça de Jesus, uma fração da Graça que minha mente limitada e humana poderia entender até ali. O bocado, segundo Champlin (1995, p. 512) era o pedaço de pão molhado em uma terrina, um objeto onde o molho pascal era colocado dentro, com carne de cordeiro pascal, um pouco de pão sem levedo, e ervas amargas. Cada pessoa ali na mesa provavelmente tinha sua terrina para mergulhar o pão. Mas o hóspede servia um bocado para um convidado de honra e a pessoa que recebeu esse bocado, foi nada mais nada menos que Judas lscariotes. Mas por que?, eu me perguntei, sendo que Jesus sabia que ele era o traidor, ou será que Jesus só fez isso para mostrar quem iria traí-lo, como um sinal? Acredito que não. Prefiro supor que Jesus honrou a vida de seu discípulo até o último minuto, até o fim Judas foi o alvo da Graça de Jesus, assim como, um pouco antes no mesmo capítulo 13 de João, Jesus lavou os pés de Judas, junto com os de seus discípulos como forma de servi-los. Jesus serviu a Judas lavando seus pés e dando o bocado para aquele que o trairia logo. Me pergunto como foi aquela noite para Judas, olhar para os olhos de Jesus, sabendo que ele seria o vassalo de seu Mestre, o Filho de Deus. Judas olhou para o cordeiro indo ao matadouro, o cordeiro que lavou seus pés, que o amava, o cordeiro que serviu-lhe o bocado, que o honrou, naquele momento ao seu lado, prestes a ser sacrificado. Penso que para Jesus, em seu coração misericordioso e cheio de compaixão, era como se através de suas atitudes para com Judas, seu discípulo pudesse voltar atrás e se arrepender, e deixar tudo para lá e voltar à comunhão. Talvez para Judas se tornou tarde demais, o que tinha que ser foi, mas de uma coisa eu sei, Judas até o fim foi alvo da Graça de Jesus. Nós somos alvo dessa Graça, não importa o momento, não importa nossos erros, não importa o pecado que venhamos a cometer, sempre há volta para um coração quebrantado e arrependido retornar à comunhão de Jesus e desfrutar de sua infinita Graça. REFERÊNCIA CHAMPLIN, Russel Norman. O novo testamento interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Editora e Distribuidora Candeia, 1995. 661 p. 2 v.

Guilherme Kacham
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28 de novembro de 2024 • 3 min. de leitura

O Racismo e seus desdobramento na sociedade

Racismo é imputar algum tipo de superioridade ou inferioridade entre as pessoas em virtude da cor da pele. O Brasil de acordo com a lei 7.716/1989 torna todo e qualquer tipo de preconceito relacionado a cor da pele em crime inafiançável e não deveria ser diferente. Não se pode deixar de lado o fato de que o Brasil é um país racista e isso se dá em várias áreas da sociedade. É um erro fechar os olhos para esse fato, pois se trata de seres humanos, crianças, jovens, adultos e idosos e não meros números. De acordo com Junior Costa (2023), o Brasil encontra-se na 23º posição na lista dos países mais racistas do mundo. Antes dele temos a Alemanha e logo depois a Suíça, e ao fechar os olhos para esse fato, acelera-se a decadência da humanidade. Em se tratando do racismo em solo brasileiro, é possível observar que a região Sul tem os maiores índices de crimes relacionados à injúria racial. Deve-se atentar para o fato de que a lei do racismo o torna inafiançável e a injúria racial tem como pena a detenção de 2 a 5 anos e multa, de acordo com a lei 14.532/2023, isso é extremamente preocupante, pois estamos falando de uma das regiões mais bem desenvolvidas do Brasil (ARAUJO, 2024; BORGES, 2024). Infelizmente muitas pessoas estão vivendo uma vida baseada na superioridade, de acordo com a cor da pele, e isso passa por uma visão deturpada a respeito do outro, onde não se leva em consideração quem ele(a) é, e quem o criou. Um preconceito que vem sendo passado de geração em geração, e uma realidade em grande parte da sociedade. É preciso entender que toda e qualquer pessoa tem um valor imensurável, algo que de forma nenhuma pode ser medido, muito menos pela cor da pele, pois todos somos feituras de Deus, criados à sua imagem e semelhança. Faz-se necessário ensinar a geração atual e as próximas, a enxergar o outro, não pela cor da pele, raça, gênero, ou qualquer outra distinção superficial, mais pela ótica de Deus, que entregou seu filho Jesus Cristo, em amor, por todos. Não se pode perder de vista a obra de Deus, realizada por seu filho Jesus e confirmada dia após dia por meio do Espírito Santo, e isso tudo, por toda a sua criação. Nunca é tarde para aprender a olhar o outro de dentro para fora e não de fora para dentro. Que Deus nos ajude a superar o racismo! Por: Hudson Vieira dos Santos, aluno do 7º Período de Teologia da Fatebe

Hudson Vieira dos Santos
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30 de setembro de 2021 • 6 min. de leitura

Amor acolhedor

O propósito deste texto será discutir as razões pelas quais pessoas deixam a comunhão da igreja e o que pode ser feito para evitar que isto aconteça e o que fazer para que desigrejados retornem à comunhão do povo de Deus. Uma coisa é clara, todos os desigrejados uma vez foram “igrejados”. Foram membros ou participantes de uma igreja. As razões pelas quais saíram da igreja são tão inúmeras como diferentes são as pessoas e as circunstâncias da vida. Todavia a pergunta que eu faço agora é o que a igreja pode fazer, como uma igreja deve ser, para que ela perca o menor número possível de pessoas? Como deve ser a igreja, a nossa igreja, para que as pessoas gostem de vir às reuniões, que participem dos encontros com satisfação e não por mera obrigação ou costume? Se as pessoas permanecem na igreja porque gostam, elas dificilmente irão fazer parte do rol dos desigrejados. Existem valores e realidades fundamentais da igreja. A maior delas é aquela que Paulo mencionou em 1Cor 3.11: “Ninguém pode pôr outro fundamento na igreja além daquele que já foi posto por Deus, que é Jesus Cristo”. No versículo seguinte Paulo menciona que sobre este fundamento os obreiros podem edificar com 2 tipos de materiais: ouro, prata, pedras preciosas ou madeira, feno, palha. Nós podemos entender o “ouro” com o qual devemos edificar a igreja como o “amor”, mas um amor que eu chamaria de “amor acolhedor”. Jean Vanier [1] disse que “acolher não é primeiramente abrir as portas da casa, mas abrir as portas do coração”. Uma igreja que acolhe as pessoas e cria relacionamentos de amizade, é uma igreja que não apenas cresce, mas segura as pessoas no seu redil. Acolhimento, relacionamento, entrosamento é um dos segredos para pessoas se fixarem e continuarem em uma comunidade. A igreja deve oferecer este acolhimento, esta comunhão que as pessoas buscam e pelas quais anseiam. As pessoas buscam relacionamentos. Uma igreja que oferece relacionamentos reais é uma igreja que segura as pessoas. Acolher é um sinal de vida cristã. Acolher como Jesus acolheu. E como Jesus acolheu as pessoas? Acolheu ativistas políticos como os zelotes. Acolheu os colaboradores com o Império dominador, como os publicanos. Acolheu as pessoas com vida moral desregrada, como as prostitutas. Acolheu trabalhadores braçais como os pescadores. Acolheu até alguns religiosos legalistas como os fariseus. Acolheu sem preconceitos e distinções. No grupo dos discípulos Jesus acolheu a todos por igual e tratava a todos por igual, sem fazer uma distinção de valor entre eles. Nós sabemos disso, pois perto do fim de sua vida os discípulos estavam discutindo entre si qual deles seria o maior (Mc 9.34). Até Judas participou dessa discussão. Cada um deles tinha uma história para contar, uma experiência para relatar, de como Jesus o abençoou, usou e se manifestou a ele e que, portanto, deveria ser o maior. Paulo em Rm 15.7 exortou: “Acolham uns aos outros, como também Cristo acolheu vocês para a glória de Deus”. Às vezes o acolhimento nas igrejas se resume em saudar os visitantes no início do culto ou alguém cumprimentá-los à porta na saída. Mas não ultrapassa estes limites. A pessoa não entra no rol dos grupinhos da igreja, nunca é convidada para um bate papo, para um café na sua casa. De certa feita uma pessoa me disse: “você sabe que Jesus ama você?” Eu respondi: “sim, eu sei que Jesus me ama, mas quero saber se você me ama”. Não devemos apenas espiritualizar o amor. O “amor acolhedor” deve se “fazer carne” em nós. Acolher significa incluir pessoas na comunhão, na amizade. Sentir-se acolhido, aceito, abraçado, é sentir-se valorizado e todos querem se sentir valorizados. A pessoa acolhida se sente valorizada como pessoa. Sabe que tem amigos que se importam com ela. Pessoas com quem pode contar nas horas difíceis da vida. Quero sugerir duas coisas para a prática do acolhimento na igreja, acolhimento que resulte em relacionamentos vivos. 1º – O discipulado. Que pessoas novas na comunidade sejam discipuladas. Que alguém, por algum tempo, se dedique a acompanhá-las semanalmente. Mas discipulado não é apenas compartilhar verdades bíblicas e verdades cristãs. Discipulado é compartilhar a vida, a vida no dia a dia. Compartilhar a vida de família, os momentos de lazer, os momentos de lutas. No discipulado pode se desenvolver a amizade. Amizade como a de Davi e Jônatas. Numa hora difícil de Davi em que Saul pretendia matá-lo, a Bíblia diz que “Jônatas fortaleceu a fé de Davi em Deus” (1Sm 23.16). Jônatas animou, encorajou o coração de Davi. Uma igreja em que as pessoas se sintam encorajadas e fortalecidas é uma igreja que não irá perder seus membros com facilidade. 2º – Em segundo lugar o novo participante da igreja deve se tornar participante de um grupo pequeno, um grupo em que se pratique real comunhão e compartilhamento de fé e vida. No grupo pequeno pode ser rompido o abraço frio da solidão e a pessoa pode receber o abraço caloroso da comunhão. Há tantas pessoas solitárias até dentro de nossas igrejas. O “amor acolhedor” é a resposta para esta necessidade humana. Contudo devo dizer que não devemos pensar no acolhimento de forma romântica, pouco realista. Os relacionamentos na igreja não são sem problemas. Cada pessoa que entra na comunidade traz consigo sua carga de problemas, dificuldades, virtudes e defeitos. Onde pessoas convivem há atritos e conflitos, do casamento às igrejas. Os conflitos podem ser uma força desagregadora que leva as pessoas para fora da igreja e diante delas só o espírito perdoador tem a resposta. Perdoar nem sempre é fácil. É mais fácil acolher que perdoar. C. S. Lewis [2] disse que “todos consideram o perdão uma ideia maravilhosa – até o momento em que tem algo a perdoar”. Todavia pelo perdão a comunhão é restabelecida e o “amor acolhedor” volta a fluir. Leonardo Boff [3] comentou que “o perdão de Deus restabelece a comunhão vertical para o alto; o perdão daqueles que nos têm ofendido conserta a comunhão horizontal para os lados. O mundo reconciliado começa a aflorar, o Reino inaugura e os homens começam a viver sob o arco-íris da misericórdia divina”. Concluindo afirmamos que a prática do “amor acolhedor” é a melhor vacina contra o vírus do desigrejamento. REFERÊNCIAS [1] Vanier, Jean. A comunidade, lugar do perdão e da festa. São Paulo: Paulinas, 1982, pg 235 [2] LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. 3ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009, pg 152 [3] BOOF, Leonardo. O Pai-Nosso: a oração da libertação integral. Petrópolis: Vozes, 1979. pg 115

Fred R. Bornschein
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