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Doutrina ou Prática: Qual o mais importante?

Vinícius Barreto Machado
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12 de fevereiro de 2025 • 3 min. de leitura

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Qualquer cristão contemporâneo já deve ter participado de discussões objetivadas em definir o que importa mais: doutrina ou prática. Não raramente este tipo de debate é encabeçado por dois grupos distintos; o primeiro com um zeloso apego à intelectualidade da doutrina, muitas vezes desconectado de qualquer espiritualidade; e o segundo, que faz parecer que a prática de justiça social e hospitalidade elimina qualquer importância e necessidade de doutrina. A realidade é que ambos parecem ter uma perspectiva equivocada do que de fato é a doutrina para a fé cristã. Isto é, em sua correta assimilação, vivência, e dependência do Espírito Santo. Primeiramente, não há espaço para o acolhimento dos ensinos bíblicos de forma meramente memorizada e intelectualizada. Toda doutrina, após ser conhecida, exige um processo de reflexão e assimilação que apenas são dados através da iluminação do Espírito Santo. O conhecimento de Deus se distingue de todo outro conhecimento quando nota-se que, sem a revelação e luz do próprio Deus, nada de fato decanta às profundezas do coração do ouvinte. A doutrina verdadeiramente conhecida sempre gerará transformação. Em segundo lugar, a tensão entre doutrina e prática apenas encontra espaço na ausência de doutrina vivida. Não há como afirmar conhecer a misericórdia de Deus, se esta mesma misericórdia não tem gerado frutos na vida do cristão. Ou ainda, defender a justificação pela fé, mantendo uma postura legalista e julgadora. O validador da correta assimilação de uma doutrina sempre será o impacto que esta tem gerado na cosmovisão e prática do crente. Sem este, não há, certamente, raízes profundas de tais doutrinas nos corações daqueles que as arrogam. Por último, não há espaço nem para a prática da justiça cristã, nem para qualquer sabedoria ou entendimento fora do Espírito Santo e seu domínio. Toda obra, toda boa ação, qualquer aula, por mais bem elaborada que seja, não passam de atitudes vazias se não forem guiadas, enchidas e nutridas pelo Espírito de Deus para a glória de Cristo. E todo ensino iluminado por Ele, sem dúvidas, cooperará para a edificação, não apenas do ouvinte, mas também de toda comunidade ao seu redor, através do nutrimento de corações de fé profunda e ativa nas verdades do Evangelho. Em um ambiente cheio e guiado pelo Espírito Santo, toda doutrina é prática e profundamente enraizada no coração dos fiéis. Logo, a busca para responder o questionamento “doutrina ou prática?” se dá, não na definição de uma coisa como superior à outra, mas sim no correto alinhamento dos corações para receberem as verdades do Evangelho banhadas da luz do Espírito Santo, que resulta em uma fé agradável ao Senhor, em sua proclamação, e em sua operação.

Vinícius Barreto Machado
Aluno da Faculdade Teológica Betânia
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28 de novembro de 2024 • 3 min. de leitura

O Racismo e seus desdobramento na sociedade

Racismo é imputar algum tipo de superioridade ou inferioridade entre as pessoas em virtude da cor da pele. O Brasil de acordo com a lei 7.716/1989 torna todo e qualquer tipo de preconceito relacionado a cor da pele em crime inafiançável e não deveria ser diferente. Não se pode deixar de lado o fato de que o Brasil é um país racista e isso se dá em várias áreas da sociedade. É um erro fechar os olhos para esse fato, pois se trata de seres humanos, crianças, jovens, adultos e idosos e não meros números. De acordo com Junior Costa (2023), o Brasil encontra-se na 23º posição na lista dos países mais racistas do mundo. Antes dele temos a Alemanha e logo depois a Suíça, e ao fechar os olhos para esse fato, acelera-se a decadência da humanidade. Em se tratando do racismo em solo brasileiro, é possível observar que a região Sul tem os maiores índices de crimes relacionados à injúria racial. Deve-se atentar para o fato de que a lei do racismo o torna inafiançável e a injúria racial tem como pena a detenção de 2 a 5 anos e multa, de acordo com a lei 14.532/2023, isso é extremamente preocupante, pois estamos falando de uma das regiões mais bem desenvolvidas do Brasil (ARAUJO, 2024; BORGES, 2024). Infelizmente muitas pessoas estão vivendo uma vida baseada na superioridade, de acordo com a cor da pele, e isso passa por uma visão deturpada a respeito do outro, onde não se leva em consideração quem ele(a) é, e quem o criou. Um preconceito que vem sendo passado de geração em geração, e uma realidade em grande parte da sociedade. É preciso entender que toda e qualquer pessoa tem um valor imensurável, algo que de forma nenhuma pode ser medido, muito menos pela cor da pele, pois todos somos feituras de Deus, criados à sua imagem e semelhança. Faz-se necessário ensinar a geração atual e as próximas, a enxergar o outro, não pela cor da pele, raça, gênero, ou qualquer outra distinção superficial, mais pela ótica de Deus, que entregou seu filho Jesus Cristo, em amor, por todos. Não se pode perder de vista a obra de Deus, realizada por seu filho Jesus e confirmada dia após dia por meio do Espírito Santo, e isso tudo, por toda a sua criação. Nunca é tarde para aprender a olhar o outro de dentro para fora e não de fora para dentro. Que Deus nos ajude a superar o racismo! Por: Hudson Vieira dos Santos, aluno do 7º Período de Teologia da Fatebe

Hudson Vieira dos Santos
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30 de setembro de 2021 • 6 min. de leitura

Amor acolhedor

O propósito deste texto será discutir as razões pelas quais pessoas deixam a comunhão da igreja e o que pode ser feito para evitar que isto aconteça e o que fazer para que desigrejados retornem à comunhão do povo de Deus. Uma coisa é clara, todos os desigrejados uma vez foram “igrejados”. Foram membros ou participantes de uma igreja. As razões pelas quais saíram da igreja são tão inúmeras como diferentes são as pessoas e as circunstâncias da vida. Todavia a pergunta que eu faço agora é o que a igreja pode fazer, como uma igreja deve ser, para que ela perca o menor número possível de pessoas? Como deve ser a igreja, a nossa igreja, para que as pessoas gostem de vir às reuniões, que participem dos encontros com satisfação e não por mera obrigação ou costume? Se as pessoas permanecem na igreja porque gostam, elas dificilmente irão fazer parte do rol dos desigrejados. Existem valores e realidades fundamentais da igreja. A maior delas é aquela que Paulo mencionou em 1Cor 3.11: “Ninguém pode pôr outro fundamento na igreja além daquele que já foi posto por Deus, que é Jesus Cristo”. No versículo seguinte Paulo menciona que sobre este fundamento os obreiros podem edificar com 2 tipos de materiais: ouro, prata, pedras preciosas ou madeira, feno, palha. Nós podemos entender o “ouro” com o qual devemos edificar a igreja como o “amor”, mas um amor que eu chamaria de “amor acolhedor”. Jean Vanier [1] disse que “acolher não é primeiramente abrir as portas da casa, mas abrir as portas do coração”. Uma igreja que acolhe as pessoas e cria relacionamentos de amizade, é uma igreja que não apenas cresce, mas segura as pessoas no seu redil. Acolhimento, relacionamento, entrosamento é um dos segredos para pessoas se fixarem e continuarem em uma comunidade. A igreja deve oferecer este acolhimento, esta comunhão que as pessoas buscam e pelas quais anseiam. As pessoas buscam relacionamentos. Uma igreja que oferece relacionamentos reais é uma igreja que segura as pessoas. Acolher é um sinal de vida cristã. Acolher como Jesus acolheu. E como Jesus acolheu as pessoas? Acolheu ativistas políticos como os zelotes. Acolheu os colaboradores com o Império dominador, como os publicanos. Acolheu as pessoas com vida moral desregrada, como as prostitutas. Acolheu trabalhadores braçais como os pescadores. Acolheu até alguns religiosos legalistas como os fariseus. Acolheu sem preconceitos e distinções. No grupo dos discípulos Jesus acolheu a todos por igual e tratava a todos por igual, sem fazer uma distinção de valor entre eles. Nós sabemos disso, pois perto do fim de sua vida os discípulos estavam discutindo entre si qual deles seria o maior (Mc 9.34). Até Judas participou dessa discussão. Cada um deles tinha uma história para contar, uma experiência para relatar, de como Jesus o abençoou, usou e se manifestou a ele e que, portanto, deveria ser o maior. Paulo em Rm 15.7 exortou: “Acolham uns aos outros, como também Cristo acolheu vocês para a glória de Deus”. Às vezes o acolhimento nas igrejas se resume em saudar os visitantes no início do culto ou alguém cumprimentá-los à porta na saída. Mas não ultrapassa estes limites. A pessoa não entra no rol dos grupinhos da igreja, nunca é convidada para um bate papo, para um café na sua casa. De certa feita uma pessoa me disse: “você sabe que Jesus ama você?” Eu respondi: “sim, eu sei que Jesus me ama, mas quero saber se você me ama”. Não devemos apenas espiritualizar o amor. O “amor acolhedor” deve se “fazer carne” em nós. Acolher significa incluir pessoas na comunhão, na amizade. Sentir-se acolhido, aceito, abraçado, é sentir-se valorizado e todos querem se sentir valorizados. A pessoa acolhida se sente valorizada como pessoa. Sabe que tem amigos que se importam com ela. Pessoas com quem pode contar nas horas difíceis da vida. Quero sugerir duas coisas para a prática do acolhimento na igreja, acolhimento que resulte em relacionamentos vivos. 1º – O discipulado. Que pessoas novas na comunidade sejam discipuladas. Que alguém, por algum tempo, se dedique a acompanhá-las semanalmente. Mas discipulado não é apenas compartilhar verdades bíblicas e verdades cristãs. Discipulado é compartilhar a vida, a vida no dia a dia. Compartilhar a vida de família, os momentos de lazer, os momentos de lutas. No discipulado pode se desenvolver a amizade. Amizade como a de Davi e Jônatas. Numa hora difícil de Davi em que Saul pretendia matá-lo, a Bíblia diz que “Jônatas fortaleceu a fé de Davi em Deus” (1Sm 23.16). Jônatas animou, encorajou o coração de Davi. Uma igreja em que as pessoas se sintam encorajadas e fortalecidas é uma igreja que não irá perder seus membros com facilidade. 2º – Em segundo lugar o novo participante da igreja deve se tornar participante de um grupo pequeno, um grupo em que se pratique real comunhão e compartilhamento de fé e vida. No grupo pequeno pode ser rompido o abraço frio da solidão e a pessoa pode receber o abraço caloroso da comunhão. Há tantas pessoas solitárias até dentro de nossas igrejas. O “amor acolhedor” é a resposta para esta necessidade humana. Contudo devo dizer que não devemos pensar no acolhimento de forma romântica, pouco realista. Os relacionamentos na igreja não são sem problemas. Cada pessoa que entra na comunidade traz consigo sua carga de problemas, dificuldades, virtudes e defeitos. Onde pessoas convivem há atritos e conflitos, do casamento às igrejas. Os conflitos podem ser uma força desagregadora que leva as pessoas para fora da igreja e diante delas só o espírito perdoador tem a resposta. Perdoar nem sempre é fácil. É mais fácil acolher que perdoar. C. S. Lewis [2] disse que “todos consideram o perdão uma ideia maravilhosa – até o momento em que tem algo a perdoar”. Todavia pelo perdão a comunhão é restabelecida e o “amor acolhedor” volta a fluir. Leonardo Boff [3] comentou que “o perdão de Deus restabelece a comunhão vertical para o alto; o perdão daqueles que nos têm ofendido conserta a comunhão horizontal para os lados. O mundo reconciliado começa a aflorar, o Reino inaugura e os homens começam a viver sob o arco-íris da misericórdia divina”. Concluindo afirmamos que a prática do “amor acolhedor” é a melhor vacina contra o vírus do desigrejamento. REFERÊNCIAS [1] Vanier, Jean. A comunidade, lugar do perdão e da festa. São Paulo: Paulinas, 1982, pg 235 [2] LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. 3ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009, pg 152 [3] BOOF, Leonardo. O Pai-Nosso: a oração da libertação integral. Petrópolis: Vozes, 1979. pg 115

Fred R. Bornschein
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11 de fevereiro de 2025 • 3 min. de leitura

OBEDIÊNCIA PRECEDE A REVELAÇÃO

Na última reunião em Altônia, durante a assembleia anual da Missão Betânia, me lembrei com muito carinho e gratidão de uma figura do meu passado, Cliff Dahlen. O que o trouxe à minha memória foi uma frase repetida várias vezes nas reuniões: “Obediência precede a revelação”. Cliff foi um dos pioneiros da Bethany, trabalhando principalmente em coisas práticas com mãos habilidosas, mas, também dava uma matéria no seminário, o Evangelho de João. Esta frase é oriunda das suas aulas. Talvez não seja lembrado por sua didática na sala de aula, mas conseguiu implantar alguns princípios e frases na mente e coração dos alunos. Nunca soube da fonte da estrutura do evangelho que passou para nós, mas, os oito “Eu Sou” de Jesus também ficaram na memória e são lembrados até hoje ao contemplar os vitrais da capela do (Seminário e Instituto Bíblico Betânia) SEMIB. A frase: “Obediência precede Revelação”, foi cunhada por Cliff e inspirada do mesmo evangelho, capítulo 7 versículo 17: “Se alguém decidir fazer a vontade de Deus descobrirá se o meu ensino vem de Deus ou se falo por mim mesmo”. Este princípio fundamental está gravado na mente de gerações de alunos americanos, brasileiros e provavelmente na memória de algumas etnias ao redor do mundo através dos formados da Betânia. Tudo vindo de um senhor simples, sorridente, magrinho, com uma voz meio rouca, cuja vida correspondia às suas palavras. Sentei na sua sala de aula, mas, também trabalhei na fábrica de trailers de camping que ele gerenciava e que de fato ocupou a maior parte do seu tempo. Seu trabalho era produzir centenas de trailers de alta qualidade liderando um bando de seminaristas, a maioria sem noção... Tipo eu mesmo. Através deste trabalho secular e exigente ajudou a construir a capela do SEMIB, bem como sustentar missionários espalhados pelo mundo. Era também por meio dele que demonstrava liderança cristã, como lidar com jovens complicados, como sorrir sob pressões, como confrontar com firmeza e amor. Enfim, como ser como Jesus na arena do trabalho. Desde então, eu mesmo, em momentos difíceis, décadas depois da sua morte, tenho voltado ao tempo que trabalhei com ele e me perguntado, como será que Cliff agiria nesta circunstância? Não apenas a frase deste herói esquecido está iluminando a vida de muitos, como também a vida íntegra de Cliff Dahlen continua brilhando décadas depois. Patrick Dugan: Missionário da Missão Betânia por mais de quatro décadas, mestre em teologia, professor, escritor e palestrante.

Patrick Dugan
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