Ecoteologia, igreja e os movimentos ambientais
14 de outubro de 2021 • 5 min. de leitura

A reflexão teológica e as concepções históricas do pensamento cristão estão constantemente passando por reflexões, transformações, reinterpretações e contextualizações da mensagem dos Evangelhos. Estas constantes reinvenções teológicas normalmente se estabelecem dentro de um contexto histórico-social, onde o pensamento e o conceito da vida em sociedade merecem uma interpretação cristã da realidade e que deve ser feita de maneira crítica e criteriosa, não necessariamente dogmática, mas dialeticamente cristã. É preciso compreender que a Igreja necessita de ações que atinjam estas pessoas, que voltem a perceber que aquilo que elas entendiam não encontrar mais na igreja está sendo recuperado. Um dos grandes problemas que o mundo vai enfrentar nos próximos anos é o problema ambiental. Se a Igreja não conseguir apresentar um diálogo com a sociedade sobre esta questão, através de uma cosmovisão cristã da criação, teremos possivelmente mais cristãos indo buscar estas respostas fora da igreja.
A crise ambiental pelo qual estamos começando a passar é antes de tudo um problema ético, com impactos diretos no modelo capitalista moderno, implicando em profundas alterações comportamentais, que pode mudar a forma de entendermos a realidade e claro sendo um problema humano, encontraremos reflexos no entendimento teológico da criação.
O problema Ecológico
Vivemos um momento muito importante com relação à questão ambiental nos anos 90 e começo de 2000, porém o debate e ações governamentais acabaram esfriando nos últimos anos. Tivemos avanços importantes, mas estes avanços não são perenes se não forem amparados por medidas de políticas públicas persistentes para que não haja regressão. Porém avaliando tanto a situação atual quanto a possibilidade bastante evidente de aprofundamento da crise ambiental é preciso pensar em uma mudança significativa na mentalidade produtivista/consumista que impulsiona o progresso como se está estabelecido atualmente, isto significa uma mudança na forma como toda a sociedade percebe a nossa forma de viver. O relatório Mudança Climática 2021 elaborado para o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que a influência humana no aquecimento do planeta, está ocorrendo em um ritmo sem precedentes pelo menos nos últimos 2 mil anos. Com isso, as consequentes mudanças na temperatura e nos extremos climáticos afetam todas as regiões do mundo. Prevê-se que esses efeitos continuem em longo prazo, pelo menos no resto deste século, afetando ecossistemas dos mares e pessoas que dependem deles (Nações Unidas, 2021). O filósofo Hans Jonas alerta que nós temos uma responsabilidade para com as gerações futuras, isto é a responsabilidade para a manutenção de uma vida autêntica humana (JONAS, 2006). Desta forma, devemos garantir hoje, a possibilidade de vida humana digna futura. O paradigma de crescimento / progresso constante e progressivo nos moldes que pensamos hoje, é insustentável para a vida no planeta. Desta forma é necessária uma mudança de mentalidade com relação a ideia de progresso humano, que seja justa e sustentável.
Ecoteologia, uma teologia pública
O papel da teologia é de refletir através da razão alicerçada pela fé as questões inerentes à vida e espiritualidade humana. A ecoteologia realiza esta ação através da fé pensada no horizonte da consciência planetária, visando entender as implicações da ação humana e sua coerência do mandato divino visando a compreensão da responsabilidade humana pelo futuro da manutenção da vida humana e o respeito pela vida.
Hoje a humanidade já utiliza em torno de 20% a mais do que o planeta consegue recuperar, ou em outras palavras, estamos sim destruindo a nossa casa. Temos que entender que o modelo econômico atual (falo do capitalismo extremado) é danoso, não somente para o planeta terra, mas também para o indivíduo, o excesso de consumismo, a idolatria por bens de consumo, o alto grau de competitividade em que somos impelidos está destruindo as mais básicas estruturas de convívio social. Desta forma faz-se urgente uma mudança de paradigma, como afirma Boff,
“(…)Este fato suscita lenta e progressivamente um novo estado de consciência. Da consciência de etnia e de classe passamos a consciência de espécies homo sapiens e demens. Descobrimo-nos membros da grande família humana e membros da comunidade de vida, irmãos e irmãs, primos e primas de outros representantes da imensa biodiversidade, plantas e animais, que caracterizam a biosfera, aquela camada fina que cerca a Terra constituindo o sistema-vida. Certamente, é mais que uma pequena membrana de vida. É apenas a parte mais visível do próprio planeta Terra, entendido como superorganismo vivo, Mãe, Pachamama e Gaia.” (BOFF, 2005, p. 18)
Assim, faz-se necessário uma reavaliação do processo de produção e consumo, é preciso rever o processo ético da valorização social pelo consumo e capital, e isto não é apenas uma ação individual, mas da sociedade(LOWY, 2020).
Papel da Igreja e da Teologia
Cabe a igreja apontar para o problema ecológico, observando que ela também faz parte deste problema. Cabe a igreja exercer seu papel de profeta na sociedade, no sentido de apontar a crise ambiental como uma crise ética. Cabe a igreja exortar ao corpo que a constitui, uma mudança de “mentalidade” no sentido de entender a responsabilidade individual. Cabe a igreja usar a sua estrutura para apresentar soluções, seja de nível local ou mais amplo. Desta forma, a igreja através de uma construção teológica deve dialogar com a sociedade visando conduzir uma mudança de mentalidade. Para isso, é preciso a compreensão do papel do ser humano regenerado para o cuidado com a manutenção da vida no planeta, entendendo o seu papel na mordomia da criação.
Referências
BOFF, Leonardo; Virtudes para um outro mundo possível – Hospitalidade ; Editora Vozes; 2005; 1ª ed. Petrólis; RJ
JONAS, Hans. 2006. O Princípio Responsabilidade. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2006.
LOWY, Michael. 2020. O que é ecossocialismo? São Paulo: Cortez, 2020.
MURIEL, Fernando A. Zapata e TRUJILLO, Marta Lucía Martinez. 2018. Ecoteología: aportes de la teología y de la religión en torno al problema ecológico que vive el mundo actual. 2018, Vol. 13, pp. 92-105.
NAÇÕES UNIDAS, Aquecimento global sem precedentes tem clara influência humana, diz ONU. 2021. Fonte: https://news.un.org/pt/story/2021/08/1759272 Acessado em: 03/10/2021

29 de outubro de 2020 • 5 min. de leitura
Abandono e Esperança
Ao criar o mundo, conforme o relato bíblico de Gênesis capítulos 1 e 2, primeiramente Deus preparou um jardim como um lugar perfeito para colocar a “coroa” de sua criação, o ser humano. Criou também os animais. Quando tudo estava pronto, Deus fez um convite especial ao Filho e ao Espírito Santo para formarem o homem, descrito como: “disse Deus: façamos o homem conforme a nossa imagem, conforme nossa semelhança”. Em seguida, Deus formou a mulher. “Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; eu lhe farei uma ajudadora que lhe seja adequada”. Os seres recém-criados eram tão perfeitos que Deus resolveu que eles deveriam ser multiplicados e, assim, conforme Gênesis 04:1 e 2, a mulher deu à luz ao seu primeiro filho. Agora o plano estava completo. Tudo perfeitamente orquestrado e funcionando. O fator mais importante da criação certamente é que apenas o homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, diferentemente dos outros animais. Qual seria então o propósito para tal detalhe? Para que o homem pudesse se relacionar com Deus e com o próximo sendo que toda a humanidade teria a mesma origem. O sopro de Deus fez o homem e todos os seus descendentes seres viventes e capazes de se relacionar. Deus poderia criar todos os homens adultos (e também os animais), mas preferiu criá-los dependentes uns dos outros. Em especial o ser humano, pois este é o único ser que nasce dependente e permanece assim por um bom tempo, recebendo cuidados para depois então se tornarem independentes, ao contrário dos animais. Na viração do dia, Deus procurava o homem para saber “como estava indo”. Batiam então “aquele papo”. A criatura e o criador em perfeita comunhão. Fomos feitos então “à imagem e semelhança de Deus” para nos relacionar com Ele e com o próximo. Fomos feitos seres relacionáveis, de certa forma dependentes uns dos outros. Porém, no meio do caminho veio a “Queda” relatada em Gênesis capítulo 3, quando o homem cedeu à tentação e tomou o seu próprio caminho, independente de Deus. A promessa do inimigo é que ele seria igual a Deus; uma de suas primeiras mentiras contadas ao ser humano. Embora Deus nunca tenha abandonado o homem, mesmo tendo-o expulsado do Jardim perfeito, preparou um plano de redenção para trazer a criatura de volta ao criador, conforme relato em Gênesis 3:15, este tem se afastado cada vez mais do propósito original que é a comunhão, o relacionamento. No livro A criação restaurada, Albert Wolters escreveu: Deus persiste na sua criação original caída e a salva. Ele se recusa a abandonar a obra de suas mãos – de fato, ele sacrifica o próprio Filho para salvar o seu projeto original. A humanidade, que estragou o seu mandato original… recebe outra oportunidade em Cristo; somos restabelecidos como administradores de Deus sobre a terra. (São Paulo; Cultura Cristã, 2006, p. 80). Essa independência trouxe várias consequências, como podemos comprovar tanto no relato bíblico, como em nossa vida, em nosso cotidiano. Uma dessas consequências certamente é o “abandono”. Andando pelas ruas das cidades, vendo seres humanos, pessoas, feitas à imagem e semelhança de Deus, com o propósito principal de relacionar com ele e com os seus semelhantes, penso no estrago que a “independência”, o desejo de ser igual a Deus em tudo, provocou. Quantas pessoas abandonaram ou foram abandonadas pelos seus. Ou seja, a tentativa de ser independente não afetou somente a relação do homem com Deus, mas também com o seu semelhante, os animais e a natureza. Deus em sua infinita bondade e misericórdia trabalha incansavelmente para alcançar suas criaturas e torná-las seus filhos através do sacrifício de Jesus, como prometido em Gênesis 3:15. Como bem colocado por Randy Alcorn: “Em Gênesis, o Redentor é prometido; em Apocalipse, o Redentor retorna. Gênesis conta a história do Paraíso perdido; Apocalipse conta a história do Paraíso recuperado. Em Gênesis, o homem e a mulher caem como governantes da terra; em Apocalipse, a humanidade justa governa a nova terra, em lealdade ao Rei Jesus. Satanás e o pecado não irão frustrar o plano de Deus”. (O Romancista Romântico. Deus, vida e imaginação na obra de C.S.Lewis; p. 159). Não haverá mais “abandono”. As ruas serão ocupadas pelos remidos no sangue do cordeiro. A alegria será completa e a presença do Cordeiro nos fará esquecer toda a lágrima, todo o abandono. Esperamos com confiança a redenção dos homens e da natureza, como prometido desde o início por aquele que nos fez “conforme sua imagem e semelhança”, para que pudéssemos nos relacionar com ele. A Bíblia começa com um jardim e termina com um jardim, com o mesmo jardineiro. Isso é maravilhoso. Referências: A criação restaurada. Wolters Albert; São Paulo, SP. Cultura Cristã, 2º Edição, 2019. O Racionalista Romântico. Deus, vida e imaginação na obra de C.S.Lewis. Piper J; Mathis, David organizadores; Brasília, DF. Editora Monergismo, 1ª Edição, 2017. Bíblia Brasileira de Estudos Almeida Século 21. São Paulo, SP. Editora Hagnos, 1ª Edição, 2016.

3 de outubro de 2019 • 3 min. de leitura
A Cibercultura e os transtornos psicológicos: Perigos e desafios atuais
Embora o DSM V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e o CID 10 (da Organização Mundial da Saúde) não tenham nenhuma palavra final diagnóstica sobre transtornos psicológicos associados ao uso inadequado da internet e das várias redes sociais (Facebook, Instagram, WhatsApp, etc), sabe-se que existem vários comportamentos e sintomas associados, os quais tem sido a preocupação de vários profissionais da saúde, tais como: médicos, psiquiatras, psicólogos, pedagogos etc. Ainda que, por um lado, sejam inquestionáveis os muitos benefícios da internet e das redes sociais, por outro lado os comportamentos e sintomas preocupantes, com vários riscos nocivos à saúde, ao bem estar e segurança de seus usuários, são perceptíveis, tais como: a depressão, dependência da internet e redes sociais, crises de ansiedade, comportamento abusivo de jogos pela internet, o ciberbullying, a anorexia, a bulimia, a obesidade, problemas de visão, postura corporal, suicídio etc. Diga-se de passagem, que a internet e as redes sociais, em si, são, de certa forma, neutras. Elas não causam, por elas mesmas, as dificuldades acima mencionadas. A dificuldade está no seu uso inadequado, e também às vulnerabilidades de cada pessoa. Estudiosos apontam que algumas pessoas estão mais suscetíveis a fazer uso inadequados da internet e redes sociais, e colher dificuldades diversas, especialmente adolescentes do sexo feminino, pessoas com descontrole de impulsos, introvertidos, perfeccionistas, pessoas com baixa autoestima, pessoas em constante necessidade de aprovação. Visto que essas dificuldades, relacionadas ao uso inadequado da internet e redes sociais, são relativamente novas, em virtude da cibercultura ser um fenômeno muito recente, estudos e pesquisas, com metodologias científicas mais precisas, necessitam ser feitos para que os estudiosos da saúde possam categorizar todas essas dificuldades, quem sabe, delineando novos transtornos e tratamentos específicos. No momento, estudiosos e pesquisadores têm visto essas dificuldades, como por exemplo, a dependência da internet e redes sociais, mais como um comportamento relacionado ao controle do impulso. É provável que nas próximas edições do DSM e da CID já tragam algum delineamento sobre isso, visto que no primeiro já existe uma sugestão para que alguns assuntos sejam objeto de maiores estudos para futuros delineamentos. Por enquanto, há de perguntar-se o que, como sociedade, podemos fazer para prevenir e/ou ajudar as pessoas que estejam no processo de incorrer em algum prejuízo significativo no uso da internet e redes sociais? Além de maiores estudos e pesquisas científicas sobre o assunto, acima mencionados, é necessário haver maiores discussões e informação em todos os âmbitos da sociedade (escolas, universidades, famílias, religião etc) para as pessoas, especialmente os mais vulneráveis, sobre os benefícios e malefícios da internet e das redes sociais. Nos casos em que alguém esteja tendo um prejuízo significativo no uso dessas mídias, é necessário procurar ajuda médica e psicológica. A internet e as redes sociais vieram para ficar e modificaram a nossa maneira de ver o mundo, nos comunicarmos uns com os outros, e lidarmos com a informação. Precisamos vencer essa fase de adaptação e usá-las de maneira sábia, ética e adequada para o nosso bem, para o bem dos outros, e da sociedade em geral.

25 de junho de 2020 • 9 min. de leitura
A crise como sistema natural do desenvolvimento do cristianismo
As crises para o cristianismo são mais comuns do que os momentos de normalidade. O próprio Cristo surge em um momento de crise, a anunciação do seu nascimento gera uma crise entre Maria e José, que é superada pela fé. Pouco tempo depois do nascimento esta família se vê emigrante, parte para um país desconhecido fugindo de uma perseguição governamental. Jesus nasce em uma nação dominada por um governo estrangeiro, e aliás, é de longa data que os judeus não tinham um governo autônomo. Jesus viveu na Galileia, governada por um rei marionete de Roma. E foi morto na Judeia, uma província romana, administrada por um governador romano. O cristianismo primitivo se desenvolveu dentro dos domínios do Império romano, assim como todos os documentos que se tornaram o Novo Testamento foram escritos dentro dele. (BORING, 2015, p. 127) Desde o exílio babilônico não souberam mais o que era ser um país independente, os governos ádvenas passavam, mas salvo por um curto espaço de tempo, na revolta dos Macabeus, Israel nunca mais voltou a ser uma nação. Depois da Babilônia, os Persas, depois os Gregos, ptolomeus/selêucidas e por fim Roma. E é na plenitude dos tempos, sob o domínio e o “progresso” romano que o cristianismo surge e se desenvolve. Porém, surge na Palestina o domínio romano, onde os Judeus viviam sob a regência local por um lado, com Herodes Antipas, um “Rei” fantoche colocado por Roma e por outro, do governo direto da própria Roma, representado por Pôncio Pilatos. Obviamente a grande maioria da população judaica não se via representada por nenhuma das duas figuras, pois o próprio Herodes Antipas não tinha uma linhagem pura judaica. Desta forma, o domínio romano apresentava dificuldades tanto na esfera política, quanto na esfera econômica, principalmente para os pobres, isto é, para a grande maioria da população judaica. Estrutura Social /Religiosa A palestina na época de Jesus era pobre, a concentração de renda ficava na mão de uma minoria, a classe média era praticamente inexistente, excluindo aqueles que viviam em Jerusalém e que conseguiam subsistir com um pouco mais de recursos. Este quadro era obviamente agravado pelos tributos a serem recolhidos, para o governo local, para Roma e para o próprio templo. Do ponto de vista socioeconômico, podem-se distinguir na população Palestina três camadas: a classe rica e poderosa, a classe média e os pobres. À classe rica e poderosa pertenciam os príncipes e os membros da família real de Herodes, assim como os altos dignitários da corte, além das famílias da aristocracia sacerdotal e leiga, dos latifundiários, dos grandes comerciantes e dos cobradores de impostos. A classe média, muito reduzida, existia praticamente só em Jerusalém, já que suas fontes de renda procediam do templo e dos peregrinos. Era formada pelos pequenos comerciantes, pelos artesãos proprietários de suas oficinas, pelos donos das hospedarias e pelo baixo clero. À classe pobre, que constituía a imensa maioria da população, pertenciam os assalariados, tanto operários como camponeses, os pescadores, os inúmeros mendigos e, finalmente, os escravos. (MATEOS; CAMACHO, 1992, p. 19) Compunha a tríade da elite administrativa/econômica a religiosa, que também era a responsável “jurídica/religiosa” da sociedade. Esta elite, dividida por algumas interpretações teológicas particulares, gravitava ao redor das sinagogas e do templo. Cabe salientar que a sinagoga era uma representação religiosa mais próxima do povo, servindo inclusive para o fortalecimento de vínculos sociais e de educação já que o templo era mais institucionalizado, distante, quase inacessível, formalíssimo e de estrutura rígida. A rigorosa observância religiosa era quase inacessível ao povo que sucumbindo com a inadiável tarefa de sobreviver tinha grandes dificuldades de cumprir todas as normas e rituais, e desta forma sobrevinha a somar o peso da miséria ao da desobediência a preceitos divinos. Jesus demonstra a brutal inversão de valores na interpretação das Escrituras e a opressão que causava aos mais pobres, na resposta a questão do sábado: “Deus criou o sábado para o homem, ou o homem para o sábado?”, uma pergunta retórica, uma vez que nela própria apresentava-se a resposta que calou seus inquisidores. (Mc. 2.23-28) Desta forma podemos perceber um crescente embate entre o sistema religioso judaico e Jesus, embate esse que fica cada vez mais saliente e tem um dos seus clímax apresentado no relato da chegada de Jesus no templo e o confronto com os negociantes. O templo tinha sua própria moeda, uma vez que as moedas romanas não poderiam entrar no mesmo, e assim o templo tinha o “seu” câmbio. E este dinheiro seria usado para a compra do animal para o sacrifício que todo judeu deveria providenciar, assim, ao redor do templo formava-se um grande comércio religioso que achacava a já pobre bolsa do fiel. Jesus fica claramente escandalizado e age de forma a demonstrar sua revolta com o que estava acontecendo em um local que deveria ser de acolhimento, auxílio e confraternização, principalmente ao mais fragilizado. O templo realizava liturgia esplendorosa, sustentada pelo imposto religioso anual, o dinheiro dos sacrifícios e dos donativos voluntários dos fiéis. Já os profetas denunciaram o culto hipócrita que encobria a injustiça (Is 1,10-17; Jr 7,1-11); Jesus vai além ao denunciar o próprio culto como exploração do povo (Jo 2,16; Mc 11,17 e paralelos). Nunca aparece no evangelho participando das cerimônias do templo; aí vai por ocasião das grandes festas, e para ensinar às multidões que ocorriam da Palestina e do estrangeiro. (MATEOS; CAMACHO, 1992, p. 69) A crítica à estrutura do templo começa com João Batista. Seu ministério era totalmente alternativo, e é possível que se opusesse ao templo, ainda se, se considerar a hipótese de sua origem for do grupo dos essênios. Jesus ao aceitar o batismo de João Batista de certa forma alinha-se com esta posição. E é a partir do escalonamento da crise entre Jesus e o sistema religioso que ocorre a ação derradeira, o planejamento da prisão de Jesus e a sua apresentação frente ao sistema Religioso/Judicial. Qual a acusação formal de Jesus perante o Sinédrio? A primeira vista era a de blasfémia (HAMM, 2020). Claro que o que estava por trás era o medo do confronto e que Jesus de alguma forma representasse a liderança de um movimento que pudesse acabar em alguma agitação ou tumulto que seria um risco para a manutenção da elite religiosa e política, principalmente se este agito resultasse em alguma ação romana. Mas logo percebesse que o julgamento e execução de Jesus pelo Sinédrio poderia apresentar-se como um problema ainda maior, se fosse o estopim de algo maior, então melhor seria “transferir o problema” para a administração romana, mas a acusação de blasfêmia não significaria nada para a legislação romana. A acusação para ser efetiva ao código romano teria que ser de sedição e efetivamente é esta a acusação que leva Jesus a cruz, mais por pressão do que por provas efetivas. É neste ambiente de crise que se cumpre a promessa do Antigo Testamento e os evangelistas conseguem interpretar estes atos e identificar com as profecias e o simbolismo através do sacrifício do cordeiro pascal que tira o pecado do mundo. Na sua morte e ressurreição Jesus também efetiva a desnecessidade do Templo, eis mais uma vitória de Jesus. O cristianismo, pós Jesus – a continuidade da crise. A história com a igreja primitiva não foi diferente, cresce e se fortalece em um ambiente hostil, primeiro dentro do judaísmo, onde precisa romper os laços e ser considerada uma seita judaica, e então a perseguição formal, tanto em Jerusalém quanto nas demais cidades onde houvesse a tentativa da pregação da mensagem cristã em uma sinagoga. (MEEKS, 1996). Com o desenvolvimento da igreja, a conversão de judeus e gentios acaba chamando a atenção da população nas cidades em que o cristianismo se estabelece, e sua mensagem causa em muitos locais estranheza e desconfiança. Percebemos nas Epístolas Gerais que a mensagem cria uma crise na sociedade local, ao ponto de haver acusações falsas aos cristãos. Além disto, também se percebe as crises internas nas igrejas em que as novas exigências éticas confrontam os velhos hábitos. E na evolução da história da igreja nota-se o agravamento da crise, chegando ao ponto de institucionalizar-se com a perseguição do governo romano, levando aqueles que professavam a fé em Cristo a mortes terríveis. Considerações Finais O cristianismo surge em um momento de crise, crise judaica de opressão estrangeira e de opressão interna, em uma sociedade extremamente segmentada. Surge em um ambiente de crise como esperança, como uma fé acessível, como uma mensagem de acolhimento, nasce como voz dos excluídos. Desenvolve-se em um ambiente hostil, em constante perseguição, novamente em locais de morte instituída pelo Estado Romano, mas, é nesta crise que o cristão preso, jogado aos leões coloca toda a sua esperança na transcendência e na persistência dos valores do Reino; é na crise que o cristianismo é relevante; é na crise que se faz a esperança cristã na promessa dos valores eternos. É na crise que o mundo pode compreender quais são os valores eternos, e na valorização da vida humana como criação à imagem e semelhança de Deus que concede a todos indistintamente a dignidade inalienável do ser humano acima de qualquer valor. REFERÊNCIAS BORING, M. E. Introdução ao Novo Testamento – História, Literatura e Teologia. São Paulo: Paulus, 2015. HAMM, M. O Julgamento de Jesus – Ilegalidades Processuais nos Direitos Romano e Hebreu. Jusbrasil. Disponível em: <https://marihamm.jusbrasil.com.br/artigos/196386015/o-julgamento-de-jesus>. Acesso em 03/06/2020. MATEOS, J., ; CAMACHO, F. Jesus e a sociedade de seu tempo. São Paulo: Paulus, 1992. MEEKS, W. A. O Mundo Moral dos Primeiros Cristãos. São Paulo: Paulus, 1996. STAMBAUCH, J. E., ; BALCH, D. L. O Novo Testamento em seu ambiente social. São Paulo: Paulus, 1996.
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