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Isolado, mas não angustiado!

Fred R. Bornschein
Fred R. Bornschein
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24 de agosto de 2020 • 5 min. de leitura

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O tema deste texto é “Teologia para tempos de Crise”. “Teologia”, uma palavra sobre Deus, ou de Deus, sobre a crise. Pensando em “crise” pensamos nas inumeráveis crises que podem atingir uma pessoa devido às contingências da vida e, de modo particular, pensamos na crise de saúde, crise econômica, social, emocional, que a todos nós atinge atualmente. É uma situação que, por forças das circunstâncias, traz consigo outras preocupações e ansiedades: o medo do contágio, a crise financeira, resultado do afastamento do trabalho, e, em alguns casos, até mesmo de demissões, preocupações com o futuro das firmas e empresas.

O fato é que nós não podemos mudar as circunstâncias. Mas há uma coisa que podemos mudar: nós mesmos. Podemos mudar nossas atitudes, nossas reações, nossa maneira de encarar, de enfrentar esta contingência da vida. Todos nós podemos aprender com um homem que enfrentou também a crise, o isolamento, mas de uma forma brutal, compulsória, forçada, violenta – o apóstolo Paulo.

Podemos perguntar como ele enfrentou as crises em sua vida, o isolamento imposto a ele pela prisão? Como ele reagiu, o que falou, como ele encarou esta situação? Especialmente na carta que Paulo escreveu à Igreja de Filipos temos alguns princípios valiosos que devemos conhecer e aplicar. Quero destacar três deles.

  1. O segredo está no centro

O segredo maior de Paulo para enfrentar as crises da vida é esta: no núcleo de sua vida havia uma realidade que dava sentido, que determinava todas as outras e que não dependia dos altos e baixos da vida: esta realidade era Cristo!

Quero usar de uma imagem. Há pessoas que são como pêssegos, outras são como cebolas. O pêssego tem casca, polpa e semente. Tem um núcleo central. A cebola tem camadas, várias camadas. Você procura algo no centro, mas não encontra. Há pessoas que só tem camadas: trabalho, estudo, casa, carro, beleza, esporte, amigos, o clube, diplomas, dinheiro. A vida vai removendo as camadas. Esta pandemia removeu várias camadas da vida de muitas pessoas e o que há no centro? O que dá valor à vida mesmo que todas as camadas sejam removidas? Paulo tinha algo que era central. Algo que dava valor à sua vida. Uma realidade que determinava o sentido de sua existência. Ele disse: “Para mim o viver é Cristo” (Fil 1.21).

  1. “Floresça onde você está plantado”.

Esta frase é o título de um livreto do famoso e já falecido pastor Robert Schuller. Neste livreto ele afirma que muitas pessoas acham que só poderão ser vencedoras, ter uma vida feliz, ser pessoas realizadas, “florescerem”, se estiverem “plantadas” em outro lugar, se tiverem um outro emprego, se estudarem em outra escola, se mudarem para outra cidade ou país e, pior, muitas vezes, se tiverem um outro marido, uma outra esposa. Mas Schuller afirma: Você pode florescer, viver, ser realizado, encontrar a felicidade onde você está agora. Se há alguma coisa que precisa mudar: é você – por dentro.

Voltando para o apóstolo Paulo, ele estava “plantado” num chão inóspito e desagradável – uma prisão romana. Ele poderia ter dito: “Vou poder voltar a ser útil, a servir, a ser realizado, feliz, quando sair desta prisão miserável”. Mas não! Lá onde ele estava, ele floresceu. Ele falou de Cristo aos guardas, ele escreveu várias cartas que estão entre os escritos mais lidos no mundo até aos nossos dias. Você não está bloqueado, algemado, engessado, congelado pela crise, não! “Floresça onde você está plantado!”

  1. “Acabe com as saúvas, antes que elas acabem com você”.

No passado havia uma frase muito conhecida: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. Esta frase é atribuída ao naturalista francês, Auguste de Saint-Hilaire, que esteve no Brasil há um século e meio atrás, estudando a flora brasileira.

Usando de uma metáfora, quantas “saúvas” de preocupação, ansiedade, nos assediam nestes dias do vírus se espalhando, do perigo de contaminação, do isolamento social, da crise financeira, pessoal e nacional, do medo de ficar doente, de perder o emprego, de perder a firma. Estas “saúvas” nos atacam principalmente a noite, perturbando o nosso sono. O apóstolo Paulo também tem uma sugestão para nós diante das crises de ansiedade e de medo.

Ele disse: “Não vivam preocupados com coisa alguma; em vez disso, orem a Deus pedindo aquilo de que precisam e agradecendo-lhe por tudo que ele já fez. Então vocês experimentarão a paz de Deus, que excede todo entendimento e que guardará seu coração e sua mente em Cristo Jesus.” (Fil 4.6-7, NVT)

O conselho de Paulo é este: “Em vez de você carregar dia e noite o peso das preocupações nos seus ombros e no seu coração, entregue nas mãos de Deus e deixe nas mãos dele.” Alguém disse que tinha uma caixinha chamada “CDC” (Coisas para Deus cuidar). Ele colocava na caixinha as suas preocupações e deixava lá. Confiava que Deus iria cuidar daquilo que ele entregou a Deus. Eu sugiro que todos tenhamos uma caixinha “CDC” – “Coisas para Deus cuidar” e coloquemos nela tudo o que nos preocupa e aflige.

Portanto, vamos aprender com o apóstolo Paulo. Ele enfrentou a crise, o isolamento, a prisão de forma brutal, mas não apenas teve uma vitória diante destas circunstâncias de sua vida, como deixou tantos princípios preciosos para nós hoje também, que poderão nos ajudar a termos, também, uma atitude de vitória.

Fred R. Bornschein
Fred R. Bornschein
Prof. Fred R. Bornschein é mestre em Teologia pela PUC/PR, pós graduado em Estudos Avançados em Teologia e Bíblia pela FLT/SC e Bacharel em Teologia pela Faculdade Evangélica do Brasil/PR. Pastor da Igreja Evangélica Livre e professor da Fatebe.
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17 de outubro de 2019 • 3 min. de leitura

Relações Possíveis entre a Cibercultura e a Leitura Bíblica

Introdução O objetivo desse artigo é apresentar as possíveis relações entre a ‘cultura da internet’ e a cultura do Antigo Testamento. A ‘cultura da internet’ é atualíssima e muda rapidamente, enquanto que a cultura do AT é antiga e estável. Sendo assim, qual a contribuição das disciplinas do AT para a cultura cibernética? Qual o diálogo possível entre a cultura do AT e cibercultura? Para abordar essa interrelação, propomos dois casos de choque cultural no mundo Antigo Testamento para, a partir deles, extrair, por analogia, algumas reflexões e orientações para lidar com a cibercultura. Esses dois casos são a passagem da tradição oral para a escrita e a globalização greco-romana. Da oralidade à escrita A tradição oral gera uma cultura própria, cujo principal suporte de preservação da informação é a “memória”. Nessa cultura, a tradição era emitida e recebida no mesmo contexto. A invenção da escrita não substitui a tradição oral, mas coexistem por muitos séculos. A escrita permite adotar outros suportes, como pedra, cerâmica, papiro (2500 a.C.), velino (Jr 36.26), pergaminho (séc. IV d.C.) até chegar ao papel (séc. XV). Além disso, a escrita permite a fixação do texto de modo que a mensagem saia do contexto sem perder o sentido original, dando importância às ciências hermenêuticas. A globalização greco-romana A primeira grande globalização da cultura greco-romana representou um choque grave para os judeus, impondo-lhes o dilema: resistência ou assimilação. A nosso ver, o cristianismo primitivo soube aproveitar as vantagens, como integração cultural, idiomática, maior segurança nos transportes, interligação das regiões do Império, a ampla circulação de escritos e de pessoas, ao mesmo tempo resiste aos costumes, como, por exemplo, o culto ao imperador. O processo de globalização foi acelerado pelos avanços tecnológicos, especialmente no setor de comunicações. A interconexão supriu um desejo do ser humano. Com isso, chegamos a uma nova Babel: a cibercultura venceu ‘Babel’ ou a cibercultura se tornou uma super-Babel? A Cibercultura e o estudo da Bíblia: aspectos positivos e negativos a) Aspectos positivos: – Acesso ao acervo de obras digitais: dicionários, comentários, obras não traduzidas para o português. – Pesquisa e estatística: maior capacidade de cruzamento de dados e de análise de textos; – Leitura da Bíblia: diversas versões da Bíblia e diversos idiomas e línguas originais; democratização do conhecimento. – Ciberteologia: a reflexão teológica das novas tecnologias (cibernética); a inteligência da fé em tempos de internet (SPADARO, 2011). b) Aspectos negativos e preocupantes – Dilúvio de informações: dispersão: dificuldade de seleção de fontes; superficialidade: efeito do excesso de informação; – Comunicação de massa: propaganda ideológica/comercial (mercado gospel); igrejas virtuais x fraternidade comunitária; frustração: fracasso em produzir os resultados prometidos; – Teologia fake: sensacionalismo: as novas tecnologias como ‘sinais’ da escatologia (controle mundial, chips, numerologia etc.); a rapidez da informação joga contra a verificação da verdade teológica. Considerações finais: A cibercultura, como todas as culturas da humanidade, tem aspectos positivos e negativos. Ela não é parte do desenvolvimento retilíneo e necessário da humanidade, pois, outro mundo é possível. A cibercultura reflete desejos de interconexão, de superação de limites. A teologia oferece base para a crítica permanente das obras humanas.

Eliseu Pereira
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16 de setembro de 2021 • 4 min. de leitura

Uma breve construção histórica do olhar filosófico na relação homem e mulher

Nesta construção histórica da filosofia existem características e eventos que podem lançar luz sobre as questões da mulher em ocupar um lugar de referência dentro do âmbito religioso, e até mesmo potencializar e elucidar a questão da mulher como produtora de conhecimento. Desta forma, pretendo pinçar fatos e personagens que poderão minimamente oferecer apontamentos à questão. Quando a filosofia nasce, na Grécia, no âmbito religioso, as mulheres, enquanto sacerdotisas, tinham os mesmos privilégios que os homens, os quais poderia citar: assento garantido nas primeiras filas dos jogos em Atenas; direito à propriedade e de perpetuar a herança; prestígio ao ponto de terem monumentos erguidos em sua homenagem. Mas este prestígio não era encontrado na vida da sociedade não religiosa grega, pois as mulheres não tinham acesso aos estudos e nenhum direito na democracia Ateniense. Sem dúvida, a condição delas manifestava uma disparidade entre a vida dentro da religião e fora dela. A primeira filósofa que temos notícias foi Safo, 630 ou 604 a.C., nascida em Mitilene – Lesbos, uma ilha grega. Dentre as suas atribuições, podemos citar: poetisa, tecelã, sacerdotisa e filósofa. Devido as suas ideias provocarem perturbações nos poderosos, foi exilada na Sicília junto com a família, mas quando retornou, fundou uma escola só para mulheres, onde as mesmas eram educadas na poesia e filosofia, e eram ensinadas a pensar criticamente e a serem femininas. Sem dúvida esta escola foi um grande marco para a educação das mulheres na época. Por sua vez, o filósofo Platão (428/348 a.C.), na obra “A República”, inova o papel da mulher em sua cidade ideal, possibilitando a sua emancipação social, política e a mesma educação dos homens. Para ele, o único impedimento de uma mulher em praticar o que quiser, seria a sua competência ou não para o ofício desejado. Nesta cidade ideal, todas as funções, até mesmo a de governar sobre outros, não se fixa pelo sexo que cada um possui, e sim, pela competência que cada um carrega em si; o mais capaz então, deve realizar o propósito. Diferente de Platão pensa o seu discípulo Aristóteles, pois para ele a mulher possui uma alma inferior a do homem, ela seria apenas um pouco mais superior que a alma do escravo. Isso intrinsecamente a impediria de realizar algumas funções que seriam próprias do homem livre, entre elas de tecer um pensamento crítico e de governar. Dando um salto na história, iremos nos deparar com Hipátia, nascida em Alexandria no ano de 360 d.C. Ela é uma prova histórica, entre tantas outras, que a mulher tem condições de assumir um protagonismo na liderança e no pensamento crítico, pois foi ela considerada a primeira matemática da história e dirigiu por um significativo período a Escola Platônica de Alexandria, uma das mais conceituadas da época, onde seus alunos, após passarem por ela, tornavam-se prefeitos, governadores e líderes da igreja. Hipátia teve uma morte trágica, foi esfolada viva na Ágora por cristãos radicais. Mas mesmo sendo perseguida em sua vida, nunca deixou de anunciar o que acreditava e por isso tornou-se um ícone na história. Certa vez ela disse: “Governar acorrentando a mente através do medo de punição em outro mundo é tão baixo quanto usar a força”. Outra filósofa a considerar é Simone de Beauvoir (1908/1986). Segundo ela, “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Esta frase, à primeira vista, causa muita estranheza para aqueles que nunca pensaram no assunto. Mas de fato, a mulher sempre foi ensinada a se comportar e agir de determinada maneira e por muito tempo foi educada para ser uma boa esposa e servir ao marido. Com isso, a superioridade do masculino foi ganhando cada vez mais força e o gênero feminino passou a ser visto como inferior. O que está em pauta, não é nascer mulher no sentido biológico, mas sim que a mulher é obrigada a se moldar às expectativas de uma sociedade que a inferioriza. Neste sentido, a mulher, segundo Beauvoir, tem direito de assumir o protagonismo de sua própria existência e querer ser o que ela desejar e não o que se espera socialmente dela. Acredito que estas provocações e exemplos possam ser uma fagulha para pensar melhor sobre a mulher e seus direitos, que devem ser esculpidos à luz das Escrituras e não especificamente da tradição ou de qualquer força que inferiorize o valor da mulher; neste sentido a filosofia tem algo, ainda que de forma singela, a acrescentar.

Rogério Leoderio de Souza
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12 de agosto de 2021 • 4 min. de leitura

O deus brasileiro

Com o aumento das lives, transmissões de cultos por redes sociais cada dia se torna mais comum que reuniões de igrejas de todos os tamanhos acabem se tornando públicas. Aquelas igrejas pequeninas ou mais reservadas que antes tinham um tapume na porta impedindo que aqueles que passavam na rua pudessem ver o que acontece lá dentro, agora tem seus púlpitos filmados e publicados para quem quiser assistir. Em um primeiro momento até podemos acabar confundidos e pensar que esse novo movimento de lives seria uma grande conquista do Cristianismo, a propagação massiva do evangelho em todas as principais redes, aplicativos de mensagens e até televisionadas, alcançando dos mais jovens aos mais idosos, realmente seria essa uma grande conquista se de fato o que estivéssemos vendo fosse verdadeiramente a pregação do evangelho. O conteúdo dessas reuniões públicas apresentam práticas tão peculiares e discursos tão diferentes da centralidade do evangelho bíblico que somos então obrigados a diferenciar o Deus do Cristianismo do deus brasileiro. Vivemos em uma época marcada pela relativização da verdade em que a opinião ou achismo toma o lugar do estudo e da certeza analisada e já verificada, pouco importa os anos de pesquisa e dedicação de um cientista que dedicou a vida ao estudo e reflexão de certo tema se um jovem de 13 anos decidir dizer nas redes sociais que ele está errado “porque sim”. Como não poderia ser diferente, esse movimento de instabilidade daquilo que se sabe também alcançou o Cristianismo e tem sido demasiadamente danoso ao verdadeiro evangelho de Cristo, isso porque o resgate de heresias antigas e já superadas retornam agora com uma nova roupagem e acabam por atrapalhar aqueles que as abraçam de um contato com o verdadeiro evangelho. Aos poucos o Deus do cristianismo é abandonado por um deus brasileiro, montado e idealizado em cima de conceitos populares, frases de efeito e sincretismos com outras religiões. O deus brasileiro é um senhor bonachão que quer que todos tenham uma vida longa e próspera, cheia de riquezas e benesses, que leva para o céu as pessoas que os seus fiéis acham que são boas e condena ao inferno quem eles consideram ruins, ele atende demandas da terra o tempo todo e para tudo o que estiver fazendo quando um dos seus devotos decreta que ele faça algo. O deus brasileiro satisfaz egos, alimenta desejos egoístas e apesar de dizer que usa a mesma bíblia do cristianismo, ele só a usa se for para distorcer os significados dos textos, mas na maioria das vezes ele prefere falar aos “ouvidos espirituais” dos seus devotos as coisas mais estapafúrdias que em boa parte das vezes são completamente opostas às direções que o Deus do cristianismo deixou registrado para os cristãos na bíblia. O deus brasileiro é uma criatura impossível de se conhecer pois todas as vezes que se pergunta aos seus fiéis quem é Deus, todos eles iniciam com a frase “para mim, Deus é…” mas terminam com os conceitos que mais lhes for conveniente e que por vezes são contraditórios, cada um tem a sua própria versão personalizada desse deus. Enquanto o Deus do cristianismo recebe a todos como pecadores e os transforma para a salvação e para que vivam em novidade de vida em uma única comunidade chamada igreja de Cristo, o deus brasileiro separa as pessoas em grupos de acordo com a moral e cada grupo acha que o outro vai para o inferno. Essa divisão é feita de maneira política, econômica, social e onde pudermos pensar que exista um grupo, ali haverá uma versão desse deus. O deus brasileiro abraça os pecadores, os conforta e diz a eles que está tudo bem e que eles não precisam de arrependimento enquanto caminham rumo ao inferno, o deus brasileiro é o seu próprio ego. Tenho visto muitos cristãos comemorando o crescimento e expansão do cristianismo protestante no Brasil, mas creio que ainda não se deram conta que a religião que tem crescido cada dia mais não é o cristianismo e sim o hedonismo disfarçado de cristianismo. Voltemos ao evangelho, voltemos à bíblia, voltemos ao Deus com “D”.

Bruno Hilgenberg Martins
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