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Alvo da Graça

Guilherme Kacham
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18 de dezembro de 2019 • 6 min. de leitura

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Lembro-me da minha infância, criado em um contexto católico, no período da Páscoa, a festa começava na sexta-feira santa, e terminava no domingo. Alguns de meus familiares encerravam o período da Quaresma, bebiam, e comiam muito. Mas minha família não deixava de ir às missas todos os três dias. No sábado era um dia em que eu notava que nos postes (de rede elétrica) havia um boneco vestido de pano, onde as pessoas batiam e alguns ateavam fogo. Em um certo ano, perguntei ao meu pai o que significava, e ele me disse que era um boneco de Judas, era dia de “malhar Judas”, minha família nunca praticou essa tradição, mas eu sempre quis, só por ter o prazer de atear fogo no boneco – coisa de criança.

Ao passar o tempo, após minha conversão, notei que a palavra Graça, era e é muito utilizada no contexto evangélico, muito mais que no católico. Meu primeiro contato com a palavra Graça, foi em um livro de Max Lucado, “A Graça bate à sua porta”, um presente que ganhei no dia de meu batismo. O livro contava fatos da vida do autor, de como o Espírito Santo através da Graça o surpreendeu com situações de milagres, até mesmo de bênçãos, e ele falava como a Graça do Senhor era boa. Confesso que até aquele momento eu acreditava que a Graça era como uma “vibe positiva”. Ouvi certa vez de um amigo não convertido ao evangelho, de como ele gostaria que a Graça que os evangélicos falavam e criam cercasse a vida dele para que ele recebesse recompensas e presentes do universo, como se o cosmos convergisse a favor dele. Naquele momento eu o exortei com muito respeito, e disse a ele que a Graça era o amor de Deus manifesto em Jesus Cristo para a salvação das pessoas, mas que depois ela poderia ser um meio de benção na vida dos homens. Acredito que algumas das falas de Max Lucado me influenciaram na época, ou eu interpretei mal o conteúdo de seu livro.

Num outro momento em que a palavra Graça ficou martelando em minha mente, foi quando comecei a ouvir sobre a tal da “hiper-graça”, algo como se o pecado estivesse liberado, os erros tolerados e nada de ruim poderia acontecer às pessoas que viviam sua vida por ela, pois, uma vez salvo, sempre salvo. Pastores e líderes começaram a se preocupar com essa pregação, pois muitos jovens saiam de suas igrejas para irem às igrejas daqueles que testemunhavam a fé por meio dessa hiper-graça. Naquele momento levantei uma bandeira, de “caça às bruxas” contra aqueles que pregavam assim, mas o detalhe é que novamente estava sendo influenciado por algo que eu não compreendia em sua totalidade, mas mesmo assim desejava discutir e me posicionar sobre isso. Vale a pena destacar que não estou aqui entrando no mérito ou não, sobre alguém perder ou não sua salvação, mas sim, de que mais uma vez, a palavra Graça estava em voga na minha mente e em meus discursos, sem entender exatamente o que era.

Ao longo do tempo, o querer entender a Graça sempre foi um de meus objetivos, e acredito que até o fim da minha vida será, mas recentemente lendo o evangelho de João em meu período devocional diário, eu me deparo com o seguinte texto: “Jesus respondeu: é aquele a quem eu der o bocado molhado. E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão” (João 13:26). E por algum motivo estranho resolvi ler e entender o que era bocado, e assim fui para os comentários bíblicos para compreender. Para minha surpresa, a circunstância em torno deste acontecimento conjuntamente com a ceia e a palavra bocado, possuem um grande significado e de extrema relevância. Naquele momento pude acrescentar mais uma pequena parte de instrução sobre a Graça de Jesus, uma fração da Graça que minha mente limitada e humana poderia entender até ali.

O bocado, segundo Champlin (1995, p. 512) era o pedaço de pão molhado em uma terrina, um objeto onde o molho pascal era colocado dentro, com carne de cordeiro pascal, um pouco de pão sem levedo, e ervas amargas. Cada pessoa ali na mesa provavelmente tinha sua terrina para mergulhar o pão. Mas o hóspede servia um bocado para um convidado de honra e a pessoa que recebeu esse bocado, foi nada mais nada menos que Judas lscariotes. Mas por que?, eu me perguntei, sendo que Jesus sabia que ele era o traidor, ou será que Jesus só fez isso para mostrar quem iria traí-lo, como um sinal? Acredito que não. Prefiro supor que Jesus honrou a vida de seu discípulo até o último minuto, até o fim Judas foi o alvo da Graça de Jesus, assim como, um pouco antes no mesmo capítulo 13 de João, Jesus lavou os pés de Judas, junto com os de seus discípulos como forma de servi-los. Jesus serviu a Judas lavando seus pés e dando o bocado para aquele que o trairia logo.

Me pergunto como foi aquela noite para Judas, olhar para os olhos de Jesus, sabendo que ele seria o vassalo de seu Mestre, o Filho de Deus. Judas olhou para o cordeiro indo ao matadouro, o cordeiro que lavou seus pés, que o amava, o cordeiro que serviu-lhe o bocado, que o honrou, naquele momento ao seu lado, prestes a ser sacrificado. Penso que para Jesus, em seu coração misericordioso e cheio de compaixão, era como se através de suas atitudes para com Judas, seu discípulo pudesse voltar atrás e se arrepender, e deixar tudo para lá e voltar à comunhão. Talvez para Judas se tornou tarde demais, o que tinha que ser foi, mas de uma coisa eu sei, Judas até o fim foi alvo da Graça de Jesus. Nós somos alvo dessa Graça, não importa o momento, não importa nossos erros, não importa o pecado que venhamos a cometer, sempre há volta para um coração quebrantado e arrependido retornar à comunhão de Jesus e desfrutar de sua infinita Graça.

REFERÊNCIA CHAMPLIN, Russel Norman. O novo testamento interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Editora e Distribuidora Candeia, 1995. 661 p. 2 v.

Guilherme Kacham
Graduando em teologia na Faculdade Teológica Betânia.
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20 de outubro de 2024 • 6 min. de leitura

A pregação do Lógos no Evangelho de João: um exemplo para a contextualização do Evangelho na contemporaneidade

Assim como aconteceu nos dias da igreja cristã, no final do 1º século, nos dias do apóstolo João, com seus múltiplos desafios, urge que contextualizemos a mensagem do Evangelho de Jesus na contemporaneidade, não apenas para contrapor-se às ideologias contrárias à fé cristã, mas para que as pessoas compreendam a missão de Jesus, e sejam salvas por ele. Contextualizar a mensagem do Evangelho não é alterá-la em seu conteúdo, mas sim torná-la compreensível às pessoas dentro de um determinadpeo tempo e cultura. Ronaldo e Rossana Lidório, num brilhante artigo, Teologia Bíblia da Contextualização, citando Hesselgrave, disse o seguinte sobre o desafio da igreja na contextualização da mensagem evangélica na contemporaneidade: Quando Hesselgrave afirma que contextualizar é tentar comunicar a mensagem, trabalho, Palavra e desejo de Deus de forma fiel à Sua Revelação e de maneira significante e aplicável nos distintos contextos, seja culturais ou existenciais, ele expõe um desafio à Igreja de Cristo: comunicar o Evangelho de forma teologicamente fiel e ao mesmo tempo humanamente inteligível e relevante. E este talvez seja o maior desafio de estudo e compreensão quando tratamos da teologia da contextualização. Historicamente, a ausência de uma teologia bíblica de contextualização tem gerado duas consequências desastrosas no movimento missionário mundial: o sincretismo religioso e o nominalismo evangélico. O prólogo do Evangelho de João, cap. 1, dos versos 1 a 18, nos fornece um exemplo de como podemos contextualizar a mensagem do Evangelho para os nossos dias, e ainda sim conservarmos a verdade bíblica. O apóstolo João, à semelhança do apóstolo Paulo, em Atenas (At 17.16-34), ao veicular a mensagem do Evangelho, partiu da revelação natural, levando o seu público à revelação especial de Deus em Cristo. Para isso, João utilizou-se de um conceito filosófico, muito conhecido nos seus dias e na sua região, o conceito do _Lógos_. Essa estratégia de João não apenas era necessária, mas totalmente explicável. Ele estava em território gentio. Mais especificamente, grego. Éfeso e arredores incluindo a própria Grécia, era o reduto do pensamento grego. No começo, a pregação se voltava para os judeus, e usava a história do seu povo, e elementos judaicos da revelação divina, para alcançar os conterrâneos não convertidos ao Cristianismo. E agora, quando a igreja está cheia de gentios, de pessoas dadas ao pensamento grego? Como comunicar o Evangelho a esse grupo? Nunca tinham ouvido falar do Messias. Os gregos foram os primeiros a especular sobre a origem das coisas, partindo da filosofia, e também de um começo científico rudimentar. O _Lógos_, conceito que versava sobre esse tema, já era conhecido desde os tempos de Heráclito (535 – 475 a.C.) que foi primeiro a formular o conceito. Para este, o Lógos era o princípio criador de todas as coisas, as quais não têm início prévio (άρχή). Para ele, o _lógos_ era algo que está fora (transcendente). Diferente daqueles que diziam que a criação fora oriunda de material já existente. Para os estoicos, por outro lado, o _Lógos_ era como algo dentro na natureza, ou seja, imanente. As coisas criadas são “semente de Deus”. Ainda, para Philo de Alexandria, um filósofo judeu-helenista do Egito, o Lógos era o mediador entre o criador invisível e a sua criação. Quis Deus que João fosse o articulador entre aquela revelação natural e a revelação especial de Deus na pessoa de Jesus. Assim, o apóstolo, no prólogo do seu Evangelho, por meio de um possível hino da igreja cristã circulante no 1º século , vai dizer, com todas as letras, que esse _Lógos_, que os filósofos especulavam como o princípio de todas as coisas, é Jesus. Ao apresentar Jesus dessa maneira, para o seu público gentio, o apóstolo João, em primeiro lugar, nomina o que era até então inominável. Especulava-se, desde os tempos de Heráclito, sobre o início de todas as coisas, reduzindo a criação de Deus a um princípio filosófico. Porém, João dá um nome a esse princípio. Esse princípio é uma pessoa. É Jesus. Ou seja, ele traz luz à essa verdade sobre qual se especulava, conectando-a à revelação especial de Deus na pessoa de Jesus. Em segundo lugar, João deixa patente que aquilo que era transcendente tornou-se imanente. Para Heráclito, o Lógos era transcendente. João faz uma ligação entre a transcendência e a imanência do Lógos. O Lógos é Deus que desceu dos céus até nós. William Barclay, em seu comentário do Evangelho de João, diz, em outras palavras, o que João estaria comunicando aos gregos no seu prólogo: Por séculos vocês vêm pensando e escrevendo e sonhando acerca do Logos, o poder que fez o mundo, o poder que mantem a ordem do mundo, o poder pelo qual os homens pensam e raciocinam e conhecem, o poder pelo qual os homens entram em contato com Deus. Jesus é este Logos que vem à terra. A Palavra, disse Joao, ‘se tornou carne’. Poderíamos colocar isso de uma outra maneira – A Mente de Deus se tornou pessoa. Em terceiro lugar, João torna aquilo que era abominável para os pré-gnósticos dos seus dias o meio sábio pelo qual Deus empreende o seu projeto de salvar o homem: por meio da encarnação de Jesus. Para os gnósticos, era inconcebível que Deus pudesse se fazer carne, visto que a matéria é essencialmente má, enquanto que só o espírito é bom. João lida também com essa heresia nas suas epístolas (1 João 4.2,3; 2 João 8), sendo que uma das ramificações do gnosticismo, o Docetismo, dizia que Jesus não tinha corpo. Ele era apenas uma aparência. Ou seja, negavam que Jesus veio em carne. Ainda, em relação ao Prólogo de João, ele não apenas usou um conceito filosófico para falar à mentalidade e cultura gregas, mas preservou as grandes doutrinas da revelação de Deus e do Evangelho. As grandes verdades da cristologia foram preservadas: a eternidade de Jesus, sua relação especial com o Pai, sua divindade, seu poder criador tanto quanto ao do seu Pai, a importância da fé em Jesus, por meio da qual nos tornamos filhos de Deus, e a encarnação do Filho de Deus. Hoje, dentre aquelas pessoas que não conhecem a revelação especial de Deus, é comum também ouvirmos suposições e especulações sobre a origem das coisas - sobre se há ou não uma mente racional, ordenadora, por trás de toda ordem da natureza. Às vezes, ouve-se comentários tais como: - “Deve haver alguma força por trás de toda essa ordem”. Nesse caso, e em dizeres similares, nós, cristãos, à semelhança do que fez o apóstolo João, podemos partir daí, e dizer que essa ordem por trás de todas as coisas é Jesus, que se encarnou, e veio salvar a todos quantos crerem nele como o único meio pelo qual Deus escolheu, e revelou-se historicamente, para salvar a humanidade. **Psicólogo, teólogo e escritor. Pós-graduação em Psicologia Clínica pela Universidade Tuiuti do Paraná, em Novo Testamento e Grego pelo Spurgeon’s College – Londres/Inglaterra, em Psicodrama Terapêutica - Associação Paranaense de Psicodrama. FEP. E em Aconselhamento Pastoral, pelo Wheaton College – Wheaton/EUA. Graduado em Psicologia e Teologia e professor da FATEBE.**

José Godoi Filho
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25 de agosto de 2021 • 4 min. de leitura

O bom pastor dá a vida por suas ovelhas

No que diz respeito às escrituras sagradas, encontram-se palavras que o significado em nossa língua é limitado, isso se dá ao fato que a bíblia foi escrita em três idiomas: aramaico, hebraico e grego, línguas que já não são faladas ou foram extintas tornando assim dificultosa sua interpretação, porém, não impossível. Através de uma análise das cópias dos originais pode-se chegar a interpretações mais próximas das intenções em que foram originalmente escritas e revela-se o teor original das palavras bíblicas, as emoções, sentimentos, desejos e vontades fazem parte de todo ser humano e perceber a relação da vida exposta nas escrituras com estas emoções auxiliam em compreender a vida que pode-se ter através do Messias. Na passagem onde Jesus relata que veio dar a vida pelas suas ovelhas em João 10.11 a palavra que lemos é ψυχήν (Psique), um dos termos gregos utilizados para se referir a vida, língua a qual esta palavra tem várias e peculiares aplicações da vida em seus aspectos físicos—a.(fôlego da) vida, princípio vital, alma Lc 12.20; At 2.27; Ap 6.9.—β. α vida terrena em si Mt 2.20; 20.28; Mc 10.45; Lc 12.22; Jo 10.11; At 15.26; Fp 2.30; 1 Jo 3.16; Ap 12.11.— b.a alma como sede e centro da vida interior de uma pessoa, em seus muitos e variados aspectos: desejos, sentimentos, emoções. Sobre esta conotação a palavra psique no seu sentido mais amplo está ligada a vida em todos os seus aspectos, tudo que constitui o ser humano como ele é, pode-se aplicar o termo psique como (a vida do homem Lc 12.18-20; sentimento Mc 14.34 e o eu mesmo como ser humano At 2.41-43). Pode-se perceber que a conotação de vida é mais profunda e complexa de ser compreendida, mesmo pelo fato do ser humano não ser um corpo, mas sim alma vivente (Gn 2.7), tudo que constitui homem como ele é se constitui na vida ou psique. Analisando a palavra aplicada no texto bíblico de Jo 10.11, de acordo com o léxico grego e suas definições, a vida dita por Jesus tem a conotação de alma como sede e centro da vida interior de uma pessoa em seus variados aspectos como desejos, sentimentos e emoções, uma vida que vai além da terrena, esta palavra “Psique” não significa a vida apenas física, psique está relacionada a vida intelectiva, vida mental, a vida racional e emocional. Neste mesmo sentido o escritor de Atos dos Apóstolos a utiliza para ilustrar homens que entregaram a vida (psiqué) pelo nome do Senhor. “Homens que têm arriscado a vida pelo nome do Senhor Jesus Cristo”. At 15.26. Ou seja, homens que entregaram tudo de si, suas vidas por completo, seus sentimentos, emoções, mente e corpos por amor a algo que transcende a vida terrena, vida não resume-se ao estar vivo mas, o seu sentido envolve tudo do que é inerente ao ser. O que se pode apresentar com tudo isso, é que uma das missões do Mestre é restabelecer a ordem e saúde emocional do ser humano, pois uma falha ou negligência em lidar com situações pode causar esse desequilíbrio. Cristo trouxe o equilíbrio, e nele temos a paz e controle emocional necessário para lidar com as mais diversas situações, como Ele mesmo diz em Mateus 6.25 “para não se preocupar ou andar ansiosos quanto a vida” (Psique), a vida física como alimentos, bens e vida emocional porque Deus está no controle. Jesus mostra seu controle e suprimento sobre todas as aflições que o homem possa ter quando se lê que no seu aprisco tem o necessário para ter vida abundante (Jo 10.9) ou vida completa que vai além das expectativas, Cristo tem recursos para suprir todas as coisas que situações nos roubaram. Siga em frente!

Rodrigo Ramos
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8 de abril de 2020 • 8 min. de leitura

Descansando Sob a Soberania de Deus

Podemos descansar, em meio às crises e problemas, sob a Soberania de Deus e ainda encontrar paz? Talvez você que não é cristão, mas que já ouviu falar um pouquinho aqui, um pouquinho ali sobre Deus, sobre Cristo ou até mesmo você que é cristão de longa data, num momento como esse esteja se perguntando: “por que Deus parece não estar fazendo nada em meio ao caos que estamos vivendo?” Essa pergunta não cabe somente à crise atual que enfrentamos, de maneira muito pontual, mas ao tempo presente em que vivemos; desgraças, tragédias, violências. Será que de seu alto trono Deus olharia para nós aqui em baixo apenas como um espectador, esperando que nós pedíssemos sua ajuda ou, quem sabe, torcendo por nós? Ou pior, será que nosso sofrimento traria a Ele algum tipo de entretenimento? Com o passar do tempo, temos amoldado nossa interpretação da Pessoa de Deus, da sua personalidade e da sua ação aos nossos próprios moldes, à nossa cultura. Dizemos então que Deus é isso ou aquilo de acordo com a nossa limitada capacidade de interpretação das coisas. Confundimos nosso desejo carnal e egoísta daquilo que gostaríamos que Deus fosse, com o que ele revela de si mesmo dentro das Escrituras. O Deus popular de hoje é bonzinho, vota no meu partido preferido, torce pelo meu time de futebol e só condena à danação eterna aqueles que discordam da minha opinião. Pensamos que ele é passivo e por isso precisa a todo tempo que falemos o que deve fazer e como deve fazer por meio de orações impositivas. Nós aprendemos a tratá-lo como um velhinho que abandonamos dentro de um templo, mas que visitamos aos finais de semana para que fique feliz e nos dê aquilo que queremos; nos comportamos como aqueles filhos que abandonam seus pais o mês todo, mas que no quinto dia útil, aparecem para buscar seu dinheiro. Usamos as Escrituras hoje como um baralho de versículos que selecionamos sem nenhum contexto, sem nenhum respeito, conforme nosso humor. Em momentos difíceis dizemos que “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” ou então “Agindo Deus, quem impedirá?” e ignoramos o fato de que a nossa vontade não é a prioridade de Deus, e sacar versículos para jogar ao vento não o obrigará de maneira mágica a agir conforme nossos caprichos. Gostaria então de fazer uma reflexão contigo sobre o verdadeiro Deus da bíblia, quem ele é e sobre o exercício de sua soberania para que possamos descansar sob a Sua vontade. Sendo assim: Quem é o Deus da bíblia? No livro de Isaías capítulo 40, versículo 12, o profeta diz que Ele mede o oceano com a concha de suas mãos, mede o céu a palmos e conhece o peso da terra e das montanhas. O Deus da bíblia é o dono e criador de todas as coisas que existem no céu, na terra e no mar, do menor grão de areia na parte mais profunda do oceano ao ar que respiramos, Ele é aquele que não muda, que é e sempre será, o alfa, o ômega, o princípio e o fim. Ele é o único e verdadeiro Deus, que não se curva a nenhuma verdade pessoal para satisfazer o ego de ninguém, Ele não se esforça pra caber dentro de uma teoria ou filosofia que esteja na moda, Ele definitivamente não é uma opinião, seus parâmetros de justiça estão firmados em si mesmo e por isso vão além da nossa racionalidade. O Deus da bíblia não tem ponto fraco pois é onipotente, o Todo Poderoso, por quem, para quem e por meio de quem são todas as coisas, o Deus da bíblia é SOBERANO e sendo soberano, está no controle de todas as coisas! Neste ponto, imagino que você esteja se perguntando: “por que, sendo Soberano e Todo Poderoso, Ele nos permite passar por coisas ruins?” A nossa imagem de Deus nos dias de hoje foi tão idealizada e tão personalizada que quando Ele age conforme sua própria natureza e personalidade nos causa grande estranheza e então começamos a tentar imaginar justificativas complexas para tentar compreender suas ações, fazendo isso, é como se estivéssemos tentando fazê-lo se justificar para nós. Essa postura, apesar de reprovável, não é inédita. No livro Jó, o injustiçado questiona a sabedoria de Deus frente às suas perdas pessoais, financeiras e de sua saúde tão debilitada. A resposta de Deus é pesada, no capítulo 38 ele responde a Jó com uma série de questionamentos, sendo que o principal deles está no versículo 4 que diz: “Onde estavas tu quando eu fundava a Terra? Faz-me saber se tens inteligência.” Apesar de ser uma resposta severa, com essa pergunta, Deus deixa claro que, como autor da criação, ele tem domínio sobre ela e que ninguém tem autoridade para questionar a justiça dos seus atos. Outro exemplo que encontramos na bíblia está em Romanos capítulo 9, quando o apóstolo Paulo fala sobre a justificação dos pecados e cita as palavras do próprio Deus que diz ter misericórdia de quem ele tiver, ou seja, de quem ele quiser. Logo na sequência, Paulo compara Deus com um oleiro e nos questiona acaso esse Oleiro, tendo feito seus próprios vasos, não teria sobre eles direito de escolher quais ele usaria para honra e quais para desonra. Sabendo então que Deus é soberano, que seus parâmetros de justiça estão firmados em si mesmo e que é Ele quem decide quando o sofrimento, a crise ou nossas dificuldades cessarão, devemos então nos conformar calados independente do que aconteça? De maneira alguma, no livro de Filipenses, capítulo 4 e versículo 6, somos aconselhados a não permanecer ansiosos por coisa alguma, fazendo sim nossas petições ou desejos conhecidos do Senhor, apresentando-as com ações de graça. A questão chave não está em pedirmos ou não, e sim em agirmos como se nossas orações tivessem um poder sobrenatural de tornar Deus escravo delas, de modo que assim que orarmos ou como alguns fazem, determinarmos nossa benção, Deus então seria obrigado a cumpri-las e se possível com efeito imediato! Fazemos longas campanhas, sacrifícios de tolos na expectativa de que Deus intervenha de acordo com a nossa vontade. Quero que perceba que mesmo em narrativas bíblicas que aos nossos olhos pareciam trágicas, Deus sempre teve um propósito, um plano perfeito, infalível, ele não erra, não falha e o fato de passarmos por momentos ruins não quer dizer que Deus tenha qualquer prazer nisso, mas que algumas vezes nós precisamos passar por momentos onde nosso ego, nossos valores e nossa conduta são trabalhados, moldados; momentos em que a nossa fé realmente é posta à prova. Você já percebeu como é fácil ser grato quando temos saúde, alimento sobre nossas mesas, um bom calçado, um bom carro, um casamento feliz? E que mesmo dizendo que somos gratos a Deus por isso nós ainda pensamos que nosso sucesso está atrelado apenas a nossos atributos? Lá no fundo, pensamos que somos felizes e bem sucedidos porque somos muito bons! Mas quando percebemos que nossas conquistas não estão no controle de nossas mãos, que talvez todo nosso dinheiro não seja suficiente para trazer a saúde novamente, quando todo bom vocabulário não é útil para salvar o casamento, quando percebemos que não estamos no controle e que na verdade nunca estivemos, temos uma certeza quase que imediata que vamos perecer? E então: Como Permanecer Confiante Sob a Soberania de Deus? Sabendo que o Senhor é soberano sim, mas que a sua vontade para nós é boa, agradável e perfeita se nós não nos moldarmos aos padrões desse sistema. Ele não erra e nada está fora do controle de suas mãos. Sabendo disso, devemos então orar não mais tentando controlar Deus para que mude sua vontade ou sua ação, mas para que o Senhor nos conforme a Sua vontade e a imagem de seu filho, que em um momento de grande aflição, prestes a ser crucificado pelos pecados do seu povo, clamou ao pai pedindo que, se possível, passasse dele esse cálice, mas que, antes, a sua vontade, soberana como dissemos, fosse feita. Devemos orar não para que a vontade de Deus seja apenas aceitável a nós, mas para que cheguemos ao ponto de desejá-la com toda nossa força, com todo nosso entendimento e sobre todas as coisas, inclusive sobre a nossa própria vontade. Confie em Deus! Você pode descansar sob a soberania de um Deus que entregou a vida do seu único filho para que nós tivéssemos livre acesso a Ele, para que tivéssemos paga a dívida de nossos pecados, você deve descansar sob a soberania de um Deus que te promete a salvação eterna, descanse e confie.

Bruno Hilgenberg Martins
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