Alvo da Graça
18 de dezembro de 2019 • 6 min. de leitura

Lembro-me da minha infância, criado em um contexto católico, no período da Páscoa, a festa começava na sexta-feira santa, e terminava no domingo. Alguns de meus familiares encerravam o período da Quaresma, bebiam, e comiam muito. Mas minha família não deixava de ir às missas todos os três dias. No sábado era um dia em que eu notava que nos postes (de rede elétrica) havia um boneco vestido de pano, onde as pessoas batiam e alguns ateavam fogo. Em um certo ano, perguntei ao meu pai o que significava, e ele me disse que era um boneco de Judas, era dia de “malhar Judas”, minha família nunca praticou essa tradição, mas eu sempre quis, só por ter o prazer de atear fogo no boneco – coisa de criança.
Ao passar o tempo, após minha conversão, notei que a palavra Graça, era e é muito utilizada no contexto evangélico, muito mais que no católico. Meu primeiro contato com a palavra Graça, foi em um livro de Max Lucado, “A Graça bate à sua porta”, um presente que ganhei no dia de meu batismo. O livro contava fatos da vida do autor, de como o Espírito Santo através da Graça o surpreendeu com situações de milagres, até mesmo de bênçãos, e ele falava como a Graça do Senhor era boa. Confesso que até aquele momento eu acreditava que a Graça era como uma “vibe positiva”. Ouvi certa vez de um amigo não convertido ao evangelho, de como ele gostaria que a Graça que os evangélicos falavam e criam cercasse a vida dele para que ele recebesse recompensas e presentes do universo, como se o cosmos convergisse a favor dele. Naquele momento eu o exortei com muito respeito, e disse a ele que a Graça era o amor de Deus manifesto em Jesus Cristo para a salvação das pessoas, mas que depois ela poderia ser um meio de benção na vida dos homens. Acredito que algumas das falas de Max Lucado me influenciaram na época, ou eu interpretei mal o conteúdo de seu livro.
Num outro momento em que a palavra Graça ficou martelando em minha mente, foi quando comecei a ouvir sobre a tal da “hiper-graça”, algo como se o pecado estivesse liberado, os erros tolerados e nada de ruim poderia acontecer às pessoas que viviam sua vida por ela, pois, uma vez salvo, sempre salvo. Pastores e líderes começaram a se preocupar com essa pregação, pois muitos jovens saiam de suas igrejas para irem às igrejas daqueles que testemunhavam a fé por meio dessa hiper-graça. Naquele momento levantei uma bandeira, de “caça às bruxas” contra aqueles que pregavam assim, mas o detalhe é que novamente estava sendo influenciado por algo que eu não compreendia em sua totalidade, mas mesmo assim desejava discutir e me posicionar sobre isso. Vale a pena destacar que não estou aqui entrando no mérito ou não, sobre alguém perder ou não sua salvação, mas sim, de que mais uma vez, a palavra Graça estava em voga na minha mente e em meus discursos, sem entender exatamente o que era.
Ao longo do tempo, o querer entender a Graça sempre foi um de meus objetivos, e acredito que até o fim da minha vida será, mas recentemente lendo o evangelho de João em meu período devocional diário, eu me deparo com o seguinte texto: “Jesus respondeu: é aquele a quem eu der o bocado molhado. E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão” (João 13:26). E por algum motivo estranho resolvi ler e entender o que era bocado, e assim fui para os comentários bíblicos para compreender. Para minha surpresa, a circunstância em torno deste acontecimento conjuntamente com a ceia e a palavra bocado, possuem um grande significado e de extrema relevância. Naquele momento pude acrescentar mais uma pequena parte de instrução sobre a Graça de Jesus, uma fração da Graça que minha mente limitada e humana poderia entender até ali.
O bocado, segundo Champlin (1995, p. 512) era o pedaço de pão molhado em uma terrina, um objeto onde o molho pascal era colocado dentro, com carne de cordeiro pascal, um pouco de pão sem levedo, e ervas amargas. Cada pessoa ali na mesa provavelmente tinha sua terrina para mergulhar o pão. Mas o hóspede servia um bocado para um convidado de honra e a pessoa que recebeu esse bocado, foi nada mais nada menos que Judas lscariotes. Mas por que?, eu me perguntei, sendo que Jesus sabia que ele era o traidor, ou será que Jesus só fez isso para mostrar quem iria traí-lo, como um sinal? Acredito que não. Prefiro supor que Jesus honrou a vida de seu discípulo até o último minuto, até o fim Judas foi o alvo da Graça de Jesus, assim como, um pouco antes no mesmo capítulo 13 de João, Jesus lavou os pés de Judas, junto com os de seus discípulos como forma de servi-los. Jesus serviu a Judas lavando seus pés e dando o bocado para aquele que o trairia logo.
Me pergunto como foi aquela noite para Judas, olhar para os olhos de Jesus, sabendo que ele seria o vassalo de seu Mestre, o Filho de Deus. Judas olhou para o cordeiro indo ao matadouro, o cordeiro que lavou seus pés, que o amava, o cordeiro que serviu-lhe o bocado, que o honrou, naquele momento ao seu lado, prestes a ser sacrificado. Penso que para Jesus, em seu coração misericordioso e cheio de compaixão, era como se através de suas atitudes para com Judas, seu discípulo pudesse voltar atrás e se arrepender, e deixar tudo para lá e voltar à comunhão. Talvez para Judas se tornou tarde demais, o que tinha que ser foi, mas de uma coisa eu sei, Judas até o fim foi alvo da Graça de Jesus. Nós somos alvo dessa Graça, não importa o momento, não importa nossos erros, não importa o pecado que venhamos a cometer, sempre há volta para um coração quebrantado e arrependido retornar à comunhão de Jesus e desfrutar de sua infinita Graça.
REFERÊNCIA CHAMPLIN, Russel Norman. O novo testamento interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Editora e Distribuidora Candeia, 1995. 661 p. 2 v.

14 de agosto de 2020 • 4 min. de leitura
Teologia em tempos de crise: lições de Jeremias na ‘crise das crises’
Parto da relação etimológica entre os termos principais do título: ‘teologia’ e ‘crise’. A palavra ‘teologia’ é composta de ‘theo’ (Deus) e ‘logos’ (‘estudo’), do v. grego ‘legein’ (‘dizer’), que indica ‘dispor’, ‘organizar’ dados de ‘Deus’ de modo inteligível (inte-log[o]-ível). Já a palavra ‘crise’ deriva de ‘krisis’, do v. grego ‘krinô’ (‘julgar’) e indica uma situação ‘crítica’, que pode evoluir tanto para a ‘ordem’, como para o ‘caos’, a depender da seleção, discernimento e disposição lógica dos dados. A partir dessa breve análise, podemos deduzir o seguinte: a krisis desafia o logos, uma vez que desorganiza os dados, causa ‘desconforto’ intelectual e psicológico e demanda a busca de novo sentido. No caso da ‘teologia’, a ‘crise’ obriga o teólogo a transcender em direção ao Theós para reorganizar os dados e elaborar o ‘logos’, o sentido ‘na’ crise. À luz desse desafio, o objetivo desse artigo é propor formas de elaborar teologia em tempos de crise, partindo de uma experiência dramática do Antigo Testamento: ‘a crise das crises’ — a destruição de Jerusalém e o exílio na Babilônia. Para tanto, vamos comparar os erros e acertos e colher lições para o enfrentamento da crise atual. A crise das crises Nos dias de Jeremias (640-570 a.C.), a aliança de Yavé e o povo de Israel entrou em colapso. Os judeus perderam a posse da ‘terra prometida’, a dinastia de Davi foi afastada do poder e o sacerdócio levítico praticamente extinto com a destruição do templo. A nação perdeu autonomia política e todos os referenciais étnicos e religiosos. Esta crise atingiu todos os pilares da aliança — terra, trono e templo — e desorganizou o sentido da nação. Tudo e todos foram colocados sob suspeita: Deus, o rei, os sacerdotes, os profetas, a Torá, os patriarcas. Como interpretar a crise à luz da fé dos patriarcas? Como confiar nos guias da nação? O rei saberá o que fazer? Os sacerdotes poderão garantir a bênção de Yavé? Qual profeta fala por Yavé: Jeremias ou Ananias? Todos os membros da nação tinham acesso à mesma fonte: a memória da fé (passado), os eventos críticos (presente) e as promessas de Yavé (futuro). A partir desses dados, como cada parte reagiu à crise? Como interpretar a situação? Como dar sentido (logos) aos eventos críticos? Vamos analisar a reação do povo e do profeta Jeremias. O povo representa o erro de interpretação dos dados. Eles negaram a gravidade da situação e expressaram confiança nos ritos e no templo: “Deus está conosco”, “o templo não será destruído”. Essa reação pode ser colocada em termos de “é só uma guerrazinha” ou “o exílio vai passar logo e nós vamos voltar para Judá.” Ao errarem a interpretação da crise, o povo negligenciou as advertências e os riscos. A crise ‘julgou’ a teologia do povo. O profeta Jeremias, por outro lado, representa a leitura correta da crise. A partir dos mesmos dados, ele analisou a movimentação dos impérios, a iminência da guerra, a conduta do povo, as reivindicações de Yavé. Ele acusou o povo de pecado, advertindo-os ao arrependimento. Quando percebeu que a situação era irreversível, aconselhou seus conterrâneos a se renderem aos babilônios e enviou mensagens de calma aos exilados. A teologia do profeta também foi julgada pela crise. Note-se ainda que, mesmo acertando na interpretação da crise, Jeremias vivenciou solidariamente todas as consequências dos erros do povo. Ele profetizou a partir de dentro da crise e depois ajudou o povo a superar o caos. Lamentações, atribuído a Jeremias, é expressão franca de um homem que dá livre curso à tristeza, mas também cobra esperança nas promessas de Deus para dar sentido à crise. Assim, a crise produziu teologia. Provocações Respondendo ao desafio de fazer ‘teologia em tempos de crise’, aprendemos com Jeremias que o teólogo deve acolher honestamente suas próprias perguntas, mesmo correndo o risco de não obter respostas. Deve acolher também as interpelações da sociedade, se é que ela nos considera relevantes para o enfrentamento das crises. O teólogo deve submeter sua teologia a julgamento, acolher os dados ‘críticos’ e buscar ‘inte-log[o]-ência’ no Theos que a tudo transcende. A crise interpela a teologia e abre novas oportunidade de revelação. A crise abala as certezas teológicas e expõe o teólogo à agonia da não-resposta. A teologia dialoga com as crises à luz do Theos e experimenta novos caminhos e olhares. A teologia não foge, nem nega a crise, mas avança em meio a ela e a ilumina. Assim, em vez de ‘teologia de crise’, podemos aventar uma ‘teologia da resiliência’. Resiliente como a teologia de Jeremias que, décadas mais tarde, serviu de fundamento de esperança e fé aos judeus que voltaram do exílio e reconstruíram a nação.

15 de julho de 2020 • 4 min. de leitura
VOU PESCAR!!
“Vou pescar”. Essas foram as palavras de Pedro, registradas por João em seu Evangelho no capítulo 21. “Disse-lhes Simão Pedro: vou pescar. Disseram-lhe os outros: também nós vamos contigo. Saíram, e entraram no barco, e, naquela noite, nada apanharam”. João 21:3. Pensaram ser uma boa ideia, afinal, não tinham nada para fazer. O contexto nos leva para as narrativas sobre a morte e ressurreição de Jesus. E esta é a terceira vez em que Jesus aparece para os discípulos após sua ressurreição. Nesta ocasião, os discípulos estavam no mar de Tiberíades, tentando esquecer os últimos acontecimentos. Vários deles eram pescadores quando Jesus os convocou anos antes para deixarem suas redes e se tornarem pescadores de homens. Três anos haviam se passado desde este convite. Por três anos andaram com Jesus, que em tudo os instruiu, além de partilharem de uma comunhão íntima com o mestre. Durante este tempo Jesus compartilhou sobre sua missão aqui na terra e de como um dia morreria crucificado para salvar “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Lucas 10:6). Porém, após a morte de Jesus esses mesmos discípulos ficaram perdidos, como que sem rumo, sem o mestre e, como sem saber o que fazer dali em diante, tiveram a ideia de retornarem para o antigo meio de vida, a pescaria. Pedro tomou a iniciativa e todos concordaram com ele. Estavam passando por uma crise. Pescaram a noite inteira e nada conseguiram pegar, nenhum peixinho. Jesus então, já ressuscitado, resolve lhes fazer uma visita ao clarear da madrugada e lhes preparar um café. Café com pão e peixe assado. Que bela surpresa!! Sob a ordem de Jesus lançaram a rede novamente e pegaram muitos peixes. Ao redor da fogueira inicia-se uma longa conversa. O narrador não revela todos os detalhes desse papo, mas posso imaginar o rumo que tomou a conversa. Jesus, conhecendo a natureza humana diante das crises e das dificuldades veio para o meio deles para novamente fazê-los entender qual era a missão de cada um, a razão de terem sido escolhidos para andarem com ele aqueles três longos anos. Jesus também aproveitou a oportunidade para tratar com Pedro. Pedro, que o havia negado na hora crucial, na hora em que ele mais precisava de apoio: “não o conheço!” Palavras que podem ferir profundamente, se pronunciadas por alguém que você ama. Por três vezes Pedro negou a Jesus. Por três vezes nessa conversa Jesus pergunta para Pedro: “tu me amas”? Pedro se irritou, mas Jesus o restaurou, como que dizendo, “está tudo bem Pedro”. Deu a ele uma missão clara e ainda lhe revelou como morreria. Desse café da manhã preparado por Jesus para os seus discípulos podemos aprender como Jesus nos trata quando estamos em crise. Os discípulos estavam enfrentando uma crise, talvez uma das mais difíceis de suas vidas, pois estavam sem direção. Haviam perdido o mestre, estavam sem chão, sem âncora, sem rumo. Jesus não chegou acusando a nenhum deles, não chegou condenando, não chegou criticando, não chegou dando “um sermão”. “Que vergonha hein gente? Parece que não me conhecem? Que não andaram comigo? Não viram os milagres? Não viram a ressurreição? Que vergonha”! Não. Jesus chegou servindo, chegou para restaurar o que havia sido quebrado. Como seres humanos passaremos por crises, as mais diversas no decorrer da vida. Às vezes teremos o sentimento de que fomos abandonados, que falamos e não somos ouvidos, que estamos sozinhos e queremos retroceder. Somos seres dotados de emoções e às vezes são essas emoções que não nos deixa ver a razão, o óbvio, a direção. E como os discípulos somos tentados a voltar atrás, esquecemos de tudo o que já vivemos com o Senhor, de todas as experiências que tivemos com ele. Mas Jesus sempre virá em nosso socorro para nos fazer enxergar sua bondade, seu desejo de continuar andando conosco, de nos pegar no colo, de nos tomar pela mão e continuar nos guiando. Um pouco antes desse encontro na praia, antes de sua morte e ressurreição, Jesus havia ceado com os discípulos e após a ceia tiveram uma conversa, onde ele os advertiu: “no mundo passais por aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” João 16:33. Ou seja, vocês terão aflições, crises, tribulações, pandemias, mas eu estarei com vocês. Creiamos nisso. Ele estará conosco. A solução nunca será retroceder, voltar atrás. A antiga vida. Jamais! Ele estará conosco todos os dias até que tudo se cumpra.

19 de junho de 2020 • 6 min. de leitura
Retorno a uma Espiritualidade Autêntica
Do grego κρίσεις, a palavra crises é evocada, já há muito tempo, para identificar os desencontros humanos, eventos catastróficos da natureza, ou eventos sociais de descontinuidade do modus operandi em curso, em um dado momento sócio-histórico. A espiritualidade faz parte do mundo da vida, pois está longe de fazer parte do mundo objetivado, onde as suas sessões se realizam em espaços pré-definidos, como se o modus vivendi da espiritualidade fosse programado para responder aos estímulos divinos em uma realidade geometrificada. Para este curto espaço, abordaremos o porquê de as crises impactarem as expressões de espiritualidade, um fragmento de olhar sobre a crise sanitária atual e se podemos esperar um bramido de genuína espiritualidade. As crises Provocam um Retorno ao Pensar na Existência Além de Si Em um de seus melhores livros – Crime e Castigo, Dostoiévski nos apresenta um homem religioso, que ao mudar para a capital Russa (1712-1918), São Petersburgo, para estudar direito na universidade, se distancia da tradição religiosa doméstica e se torna um misto de gente, inclusive com traços de ateísmo. Uma grande crise na sua vida, um duplo assassinato, lhe faz voltar a se importar com as “insignificâncias” da vida, como ajudar uma viúva pobre que perdera seu marido e a resgatar uma jovenzinha da prostituição e o livro termina com este jovem Rodion Românovitch Raskólnikov na prisão, com um ar esperançoso para encontrar um sentido real para a vida, Dostoiévski lhe deixa com um Novo Testamento, velho e amarelado nas mãos. O Antigo Testamento descreve a peregrinação espiritual de um rei chamado Davi. Este homem vive a espiritualidade do mundo da vida, onde ora, faz confissões maravilhosas sobre Deus e seu inabalável caráter, ora está distante de um relacionamento religioso autêntico. Mas, as crises lhes trazem à mente os melhores cânticos, os mais belos poemas. O Novo Testamento nos mostra Paulo vivendo uma vida de prazer cristão exemplar, mas uma crise, talvez do não reconhecimento do seu apostolado (2 Co 9.11), o que lhe faz deixar um legado escriturístico belo (minha graça te basta, o meu poder se aperfeiçoa na tua fraqueza (2 Co 12.9). Isso é muito próximo da realidade de homens e mulheres no modus vivendi da sua jornada de espiritualidade. As grandes crises da história mostram exatamente o mesmo comportamento humano. No estudo da história se diz que “a história não é professora de ninguém”. Segundo algumas pesquisas, depois do 11 de setembro de 2001, aumentou o número de casamentos, de natalidade, de assiduidade nos templos religiosos, na generosidade dos americanos, entre outros dados positivos, para o período. Mas depois de passado um tempo, o que ficou foi o aumento da desconfiança com o estrangeiro de ascendência árabe; o divórcio ofuscou o casamento; o controle de natalidade ofuscou o acostumado viver a dois ou a sós; a agenda do entretenimento tomou o seu lugar de volta e empurrou a frequência dos cultos religiosos no colo da secularização. A generosidade, como um traço humanista permanece, mas por razões religiosas ou culturais. Mas, alguma coisa sempre fica, no campo humano, bem como na relação com a espiritualidade, da trajetória histórica das crises intramundanas. Espiritualidade e a Presente Crise A crise que ora atravessamos tem servido para vermos o quanto a humanidade é frágil na sua individualidade, e empurrado, do mundo de sistemas individualista para o mundo da vida, da partilha, experiências sócio-humanas que refletem como vemos a nós e o outro. Peter L. Berger e Thomas Luckmann afirmam que “a realidade é construída socialmente”. Isso tem implicações para a teologia, mas concordo em grande parte com esta afirmação. No caso do que ora vivemos, não é a pandemia construidora da realidade que se apresenta, mas as ações dos atores sociais em razão dessa realidade extra mundo social. O vírus é apenas uma realidade contingencial, não possuindo sentido social nele mesmo. Não podemos negar, no entanto, que grandes avivamentos foram precedidos por crises e transformações sociais: o impacto da revolução industrial na Inglaterra do século XVIII e XIX; A guerra fratricida entre os Zulus; a própria Reforma Protestante… Apesar do vírus ser uma realidade contingencial, não podemos negar, que em situações como essas, Deus se manifesta, falando mais alto, causando impactos existenciais e despertando homens e mulheres para uma vida mais significativa – mais perto de Deus e mais perto das instâncias intramundanas. A duração disso pode ser questionada, mas o seu acontecimento é real. Acredito que possa haver, neste tempo, maridos se convertendo às suas esposas, esposas se convertendo aos seus maridos, pais se convertendo a seus filhos, filhos se convertendo aos seus pais, irmãos se convertendo a irmãos. Estamos mais sensíveis para enxergar que a religião não cria um grupo de elite, mas todos são frágeis, caminhando na mesma estrada, clamando pelo salvador – “Jesus, filho de Davi tem compaixão de mim”. Apesar de saber que também é tempo de distanciamento familiar, muitos não tem conseguido viver a vida comum do lar. O que esperar? O cerne da piedade cristã é: “Ama o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de todo o teu entendimento e de toda a tua força e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27). Dessas duas sínteses magnas religiosas, emergem a compreensão de uma vida piedosa autêntica, de onde faz surgir respostas autênticas, nutridoras de mentes em constante renovação, para pureza ética, moral e espiritual, como um ato que vai se dando reflexivamente. Pode-se dizer: Pelas Escrituras eu conheço o meu Senhor, seu modus e respondo com a Coram Deo – a vida perante Deus. Por outro lado, a segunda síntese religiosa mencionada aponta para uma espiritualidade que se horizontaliza, se expande além de uma relação verticalizada, egoísta, ascética, mas se materializa na compaixão, na busca dos encontros mais inusitados da experiência humana – é vivendo a realidade mística/espiritual e social de “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14) que resgataremos a espiritualidade de encontros e desencontros, mas sempre gritando ao salvador: tenha misericórdia de mim... pecador. Esperamos que a acontecimento social e espiritual dessa crise nos leve para uma espiritualidade que deseja estar mais perto de gente que Deus criou. Soli Deo Gloria
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