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Descansando Sob a Soberania de Deus

Bruno Hilgenberg Martins
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8 de abril de 2020 • 8 min. de leitura

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Podemos descansar, em meio às crises e problemas, sob a Soberania de Deus e ainda encontrar paz?

Talvez você que não é cristão, mas que já ouviu falar um pouquinho aqui, um pouquinho ali sobre Deus, sobre Cristo ou até mesmo você que é cristão de longa data, num momento como esse esteja se perguntando: “por que Deus parece não estar fazendo nada em meio ao caos que estamos vivendo?”

Essa pergunta não cabe somente à crise atual que enfrentamos, de maneira muito pontual, mas ao tempo presente em que vivemos; desgraças, tragédias, violências. Será que de seu alto trono Deus olharia para nós aqui em baixo apenas como um espectador, esperando que nós pedíssemos sua ajuda ou, quem sabe, torcendo por nós? Ou pior, será que nosso sofrimento traria a Ele algum tipo de entretenimento?

Com o passar do tempo, temos amoldado nossa interpretação da Pessoa de Deus, da sua personalidade e da sua ação aos nossos próprios moldes, à nossa cultura. Dizemos então que Deus é isso ou aquilo de acordo com a nossa limitada capacidade de interpretação das coisas. Confundimos nosso desejo carnal e egoísta daquilo que gostaríamos que Deus fosse, com o que ele revela de si mesmo dentro das Escrituras. O Deus popular de hoje é bonzinho, vota no meu partido preferido, torce pelo meu time de futebol e só condena à danação eterna aqueles que discordam da minha opinião. Pensamos que ele é passivo e por isso precisa a todo tempo que falemos o que deve fazer e como deve fazer por meio de orações impositivas.

Nós aprendemos a tratá-lo como um velhinho que abandonamos dentro de um templo, mas que visitamos aos finais de semana para que fique feliz e nos dê aquilo que queremos; nos comportamos como aqueles filhos que abandonam seus pais o mês todo, mas que no quinto dia útil, aparecem para buscar seu dinheiro.

Usamos as Escrituras hoje como um baralho de versículos que selecionamos sem nenhum contexto, sem nenhum respeito, conforme nosso humor. Em momentos difíceis dizemos que “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” ou então “Agindo Deus, quem impedirá?” e ignoramos o fato de que a nossa vontade não é a prioridade de Deus, e sacar versículos para jogar ao vento não o obrigará de maneira mágica a agir conforme nossos caprichos.

Gostaria então de fazer uma reflexão contigo sobre o verdadeiro Deus da bíblia, quem ele é e sobre o exercício de sua soberania para que possamos descansar sob a Sua vontade.

Sendo assim: Quem é o Deus da bíblia?

No livro de Isaías capítulo 40, versículo 12, o profeta diz que Ele mede o oceano com a concha de suas mãos, mede o céu a palmos e conhece o peso da terra e das montanhas. O Deus da bíblia é o dono e criador de todas as coisas que existem no céu, na terra e no mar, do menor grão de areia na parte mais profunda do oceano ao ar que respiramos, Ele é aquele que não muda, que é e sempre será, o alfa, o ômega, o princípio e o fim. Ele é o único e verdadeiro Deus, que não se curva a nenhuma verdade pessoal para satisfazer o ego de ninguém, Ele não se esforça pra caber dentro de uma teoria ou filosofia que esteja na moda, Ele definitivamente não é uma opinião, seus parâmetros de justiça estão firmados em si mesmo e por isso vão além da nossa racionalidade. O Deus da bíblia não tem ponto fraco pois é onipotente, o Todo Poderoso, por quem, para quem e por meio de quem são todas as coisas, o Deus da bíblia é SOBERANO e sendo soberano, está no controle de todas as coisas! Neste ponto, imagino que você esteja se perguntando: “por que, sendo Soberano e Todo Poderoso, Ele nos permite passar por coisas ruins?”

A nossa imagem de Deus nos dias de hoje foi tão idealizada e tão personalizada que quando Ele age conforme sua própria natureza e personalidade nos causa grande estranheza e então começamos a tentar imaginar justificativas complexas para tentar compreender suas ações, fazendo isso, é como se estivéssemos tentando fazê-lo se justificar para nós. Essa postura, apesar de reprovável, não é inédita. No livro Jó, o injustiçado questiona a sabedoria de Deus frente às suas perdas pessoais, financeiras e de sua saúde tão debilitada. A resposta de Deus é pesada, no capítulo 38 ele responde a Jó com uma série de questionamentos, sendo que o principal deles está no versículo 4 que diz: “Onde estavas tu quando eu fundava a Terra? Faz-me saber se tens inteligência.”

Apesar de ser uma resposta severa, com essa pergunta, Deus deixa claro que, como autor da criação, ele tem domínio sobre ela e que ninguém tem autoridade para questionar a justiça dos seus atos. Outro exemplo que encontramos na bíblia está em Romanos capítulo 9, quando o apóstolo Paulo fala sobre a justificação dos pecados e cita as palavras do próprio Deus que diz ter misericórdia de quem ele tiver, ou seja, de quem ele quiser. Logo na sequência, Paulo compara Deus com um oleiro e nos questiona acaso esse Oleiro, tendo feito seus próprios vasos, não teria sobre eles direito de escolher quais ele usaria para honra e quais para desonra.

Sabendo então que Deus é soberano, que seus parâmetros de justiça estão firmados em si mesmo e que é Ele quem decide quando o sofrimento, a crise ou nossas dificuldades cessarão, devemos então nos conformar calados independente do que aconteça? De maneira alguma, no livro de Filipenses, capítulo 4 e versículo 6, somos aconselhados a não permanecer ansiosos por coisa alguma, fazendo sim nossas petições ou desejos conhecidos do Senhor, apresentando-as com ações de graça. A questão chave não está em pedirmos ou não, e sim em agirmos como se nossas orações tivessem um poder sobrenatural de tornar Deus escravo delas, de modo que assim que orarmos ou como alguns fazem, determinarmos nossa benção, Deus então seria obrigado a cumpri-las e se possível com efeito imediato! Fazemos longas campanhas, sacrifícios de tolos na expectativa de que Deus intervenha de acordo com a nossa vontade.

Quero que perceba que mesmo em narrativas bíblicas que aos nossos olhos pareciam trágicas, Deus sempre teve um propósito, um plano perfeito, infalível, ele não erra, não falha e o fato de passarmos por momentos ruins não quer dizer que Deus tenha qualquer prazer nisso, mas que algumas vezes nós precisamos passar por momentos onde nosso ego, nossos valores e nossa conduta são trabalhados, moldados; momentos em que a nossa fé realmente é posta à prova. Você já percebeu como é fácil ser grato quando temos saúde, alimento sobre nossas mesas, um bom calçado, um bom carro, um casamento feliz? E que mesmo dizendo que somos gratos a Deus por isso nós ainda pensamos que nosso sucesso está atrelado apenas a nossos atributos? Lá no fundo, pensamos que somos felizes e bem sucedidos porque somos muito bons! Mas quando percebemos que nossas conquistas não estão no controle de nossas mãos, que talvez todo nosso dinheiro não seja suficiente para trazer a saúde novamente, quando todo bom vocabulário não é útil para salvar o casamento, quando percebemos que não estamos no controle e que na verdade nunca estivemos, temos uma certeza quase que imediata que vamos perecer?

E então: Como Permanecer Confiante Sob a Soberania de Deus?

Sabendo que o Senhor é soberano sim, mas que a sua vontade para nós é boa, agradável e perfeita se nós não nos moldarmos aos padrões desse sistema. Ele não erra e nada está fora do controle de suas mãos. Sabendo disso, devemos então orar não mais tentando controlar Deus para que mude sua vontade ou sua ação, mas para que o Senhor nos conforme a Sua vontade e a imagem de seu filho, que em um momento de grande aflição, prestes a ser crucificado pelos pecados do seu povo, clamou ao pai pedindo que, se possível, passasse dele esse cálice, mas que, antes, a sua vontade, soberana como dissemos, fosse feita. Devemos orar não para que a vontade de Deus seja apenas aceitável a nós, mas para que cheguemos ao ponto de desejá-la com toda nossa força, com todo nosso entendimento e sobre todas as coisas, inclusive sobre a nossa própria vontade. Confie em Deus!

Você pode descansar sob a soberania de um Deus que entregou a vida do seu único filho para que nós tivéssemos livre acesso a Ele, para que tivéssemos paga a dívida de nossos pecados, você deve descansar sob a soberania de um Deus que te promete a salvação eterna, descanse e confie.

Bruno Hilgenberg Martins
Graduando em teologia na Faculdade Teológica Betânia.
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13 de novembro de 2019 • 5 min. de leitura

Comunidade Tradicional e Comunidade Virtual

A construção da identidade de um ser humano é um dos fatores centrais na sua própria existência. O seu posicionamento social acaba plasmado pela sua capacidade de identificar-se enquanto um ser frente aos seus semelhantes. Neste aspecto a instituição é fator essencial para propiciar elementos que estabelecem o aspecto identitário. Em primeiro plano é essencial compreender que identidade é diferente de papel. Os papeis desempenhados pela pessoa “são definidos por normas estruturadas pelas instituições e organizações da sociedade”(CASTELLS, 1999, p. 23). São elementos que permeiam a vida do ser humano, muitas vezes usado para tentar definir o mesmo embora sejam apenas manifestações desta pessoa no seu aspecto funcional. “Identidades, por sua vez, constituem fontes de significado para os próprios atores, por eles originadas e construídas por meio de um processo de individuação” (CASTELLS, 1999, p. 23) Nesta construção, a instituição assume papel importante, auxiliando na introjeção dos elementos constitutivos da identidade mediante a construção do imaginário e elementos valorativos do indivíduo. Castells indica a existência de três tipos de identidade. A primeira é a legitimadora que, mediante a ação das instituições, acaba por tornar natural a opressão e os elementos predatórios existentes no tecido social. A segunda, dentro da lógica da sobrevivência, acaba sendo desenvolvida sempre que se sente ameaçado. Nesta segunda identidade incluem-se tanto os grupos e etnias que sofrem perseguição como os grupamentos religiosos que buscam no fundamentalismo a sobrevivência frente a uma comunidade em constante mutação. A última identidade é a de projeto. Esta terceira identidade se aproxima muito daquilo que Jesus Cristo pregou ao indicar uma nova mensagem por meio do evangelho. É uma identidade que compreende a necessidade de transformação do tecido social mediante uma ressignificação da própria sociedade e da implementação de valores transformadores. Desta forma a identidade do indivíduo se estrutura nesta tríplice possibilidade. É importante notar, contudo, que não se trata de elementos estanques. Uma mesma pessoa que se coloca numa identidade de resistência, pode acabar contraindo elementos que o levem a uma identidade de projeto ou mesmo legitimadora. É neste ponto que entra a importância das comunidades. Inicialmente é possível, a grosso modo, dividi-las entre tradicionais e virtuais (CASTELLS, 1999c,b). As tradicionais são aquelas que existem de forma física, muitas vezes já durando milênios. Normalmente são formais pois estão estruturadas em um tempo e local estabelecidos. As regras, símbolos e ritos marcam a sua existência. Normalmente as pessoas possuem uma relação direta com a comunidade o que permite desenvolver relacionamentos profundos que derivam num senso de pertencimento. Muitas lideranças são estabelecidas por carisma. Suas principais limitações são a atitude normalmente refratária a mudanças e o risco de se tornar uma trincheira no qual os indivíduos se sentem os últimos guardiões da verdade. Quando pensamos em comunidades virtuais o que se traz à tona é um ambiente virtual, o espaço da internet. Um espaço em que sua identidade torna-se múltipla e pode até mesmo ser trocada e disfarçada. É neste espaço que se organizam as comunidades virtuais (CASTELLS, 1999a). Caracteriza-se por possuir pouca ou nenhuma formalidade e uma tendência constante de mutação. O líder deixa de ser carismático para se tornar um influencer. Os relacionamentos são superficiais, ou nas palavras de Bauman (2004), líquidos. Desta forma existe pouca, ou nenhuma, preocupação real com as pessoas. Busca-se o espetacular e o distanciamento dos problemas alheios. Antes de prosseguir para a provocação necessitamos voltar os olhos para Baumann (2001b,a; 2004). Ele observa que existem comunidades virtuais que acabam trazendo consigo elementos tradicionais tais como a possibilidade de exclusão caso não concorde com a “verdade” estabelecida (desfazer amizade). Por outro lado, a contaminação do virtual também chega às comunidades tradicionais que acabam adotando elementos virtuais como o pouco compromisso, o influencer como líder, pouca preocupação real com o outro. Desta forma é possível ter uma comunidade no mundo digital marcada por elementos tradicionais e uma comunidade no mundo real imbricada pela lógica virtual. Desta forma é bastante empobrecedor, numa sociedade líquida imaginar que uma comunidade virtual sempre estará no mundo virtual ou uma tradicional seguindo a lógica do mundo físico. Desta forma a provocação deste texto é uma reflexão sobre qual tipo de identidade nossas Igrejas têm construído. Se olharmos para Jesus Cristo com certeza indicaríamos a de projeto como a mais adequada, mas não é raro observarmos Igrejas construindo identidades legitimadoras e de resistência. Por outro lado, como tem sido a postura da Igreja contemporânea? Ela se contaminou com a tendência líquida da sociedade ou se mantém um espaço onde a Verdade de Jesus Cristo é pregada? Os relacionamentos, ritos e símbolos do sagrado têm sido elementos identitários, ou têm sido substituídos por elementos fluidos que pouco têm a acrescentar na construção identitária de seus membros? São questões que a Igreja precisa responder cotidianamente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN, Z. Comunidade: a busca da segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Zahar, 2001a. 136 p. ISBN: 8571106991. _________. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001b. 192 p. ISBN: 8571105987. _________. Amor Líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. 77 p. ISBN: 9788571107953. CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999a. _________. Fim do milênio. São Paulo: Paz e Terra, 1999b. . O Poder Da Identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999c. 492 p. ISBN: 85-219-0336-7.

Nilton Torquato
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8 de maio de 2026 • 3 min. de leitura

HUMANIDADE E ESPIRITUALIDADE

Ultimamente tenho refletido sobre minha humanidade e minha espiritualidade. Sobre o fato de sermos, ao mesmo tempo, seres humanos e espirituais, e como essas dimensões se complementam. Entendo que nossa humanidade recebe os benefícios da espiritualidade, pois, segundo a Bíblia, quando recebemos a Jesus passamos a ser chamados de espirituais. Isso traz consequências positivas ao nosso ser e afeta diretamente a maneira como vivemos nossa humanidade. Essa conexão é profunda, e uma mente que pensa apenas de forma racional não consegue compreender a dimensão do que o espírito pode alcançar. Para entender o Reino de Deus, é necessário pensar espiritualmente. A espiritualidade enriquece nossa humanidade porque nos conecta ao transcendente que, nesse caso, não pode ser outro senão Deus. É nessa conexão que a humanidade encontra propósito, razão de viver e sentido para a existência. Isso nos move a ser éticos, respeitosos, generosos, pacientes, compreensivos e a manifestar os frutos do Espírito Santo mencionados por Paulo em Gálatas 5.22-23. E, com reverência ao texto, ousaria acrescentar ao final do verso 23 a frase: “Contra essas coisas não há humanidade.” No entanto, nossas dúvidas e incertezas brotam quase todos os dias justamente da nossa humanidade. Aqui falo como um ser comum: que ri, chora, às vezes amaldiçoa, mas também abençoa; que se prende a coisas banais, que trava batalhas internas e até discussões silenciosas com outros; que tem dúvidas, sente que a fé e Deus parecem distantes e que as orações não são ouvidas; que pensa não estar na agenda de Deus ou, se está, é apenas depois de outros que parecem ter mais prioridade. Nesse momento, só posso dizer em primeira pessoa: “Sou assim, sou de carne e osso. Sou humano.” E junto dessa humanidade atuam também as forças das trevas. Embora já derrotadas, elas são perseverantes e insistentes, atacando justamente onde somos mais frágeis. Paulo, em 2 Coríntios 1:8-9, relata uma tribulação tão intensa que chegou a desesperar-se da própria vida. Ali, a humanidade, em linguagem hiperbólica, “gritou”, e a espiritualidade respondeu calmamente por meio do Apóstolo. É como se uma falasse com a outra dentro da mesma pessoa. Por isso, precisamos diariamente reafirmar diante da nossa humanidade que nossas armas são espirituais e poderosas em Deus e capazes de destruir sofismas e resistências do mal. Somos seres espirituais, o Espírito Santo habita em nós, temos todos os benefícios da morte e ressurreição de Cristo e, portanto, devemos viver como tais. Sem esquecer nossa humanidade, mas recordando-a constantemente da nossa espiritualidade em Cristo, que já nos concedeu abundantemente os recursos para uma vida plena no Espírito. Sejamos felizes. Somos mais que vencedores!

Benides Bergamo
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31 de outubro de 2019 • 5 min. de leitura

A Radicalização da Cibercultura: o Transumanismo

4 Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. 5 Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Gn. 3:4,5 O desenvolvimento humano sempre esteve atrelado ao desenvolvimento tecnológico. É graças a capacidade humana de criar instrumentos que ampliam a capacidade física natural, que a natureza passa a ser dominada, “pois a fragilidade da natureza humana exigia que o homem buscasse um apoio”. (ROHREGGER; SGANZERLA). Segundo JONAS: A técnica, podemos dizer, representa uma “vocação” da humanidade, isto é, uma necessidade humana para assegurar a continuidade da sua existência. Mesmo no passado quando seu desenvolvimento era bastante vagaroso, a técnica antiga, como afirma Jonas representava um “tributo cobrado pela necessidade” (2006, p. 45) A ciência e o desenvolvimento tecnológico têm contribuído para que a humanidade tenha um maior acesso a bens de consumo, alimentos, medicamentos, facilidades de comunicação e transportes, entre outros inúmeros inventos possibilitados inclusive por um sistema econômico que possibilitou este desenvolvimento e hoje também está atrelado de tal maneira que se tornam interdependentes. Porém, a humanidade ainda enfrenta problemas relacionadas à distribuição de todo este desenvolvimento. Há uma parcela bastante significativa da população mundial que não usufrui de todo este desenvolvimento. Muitos locais de grande concentração humana não têm acesso a questões básicas como a distribuição de água e tratamento de esgoto. Mesmo em países com um grau significativo de desenvolvimento econômico podemos encontrar pessoas sem acesso a tratamento médico e a alimentação digna. Este quadro parece demonstrar que o desenvolvimento técnico-científico não é universalizável, isto é, não é acessível a toda a humanidade, pelo menos não a curto prazo, uma vez que este está atrelado ao desenvolvimento econômico e a políticas públicas. Apesar deste quadro, não parece haver outra possibilidade para o aumento da qualidade de vida humana que não passe pela concepção de que a ciência e a tecnologia seja o caminho inexorável para este objetivo. Desta forma a ciência é vista como àquela que poderá trazer a humanidade um futuro que possa assemelhar-se ao paraíso. É a partir desta concepção que a ideia do transumanismo se desenvolve, como uma ideologia de evolução que possa ser direcionada pela própria humanidade. O conceito geral que sustenta o transumanismo é que o ser humano na atualidade já possui as condições para dominar a sua própria evolução, não ficando mais a mercê do evolucionismo cego, isto é, poderíamos a partir das descobertas cientificas como a manipulação genética e tecnológicas como a miniaturização de processadores transformar o corpo humano, aumentando sua capacidade cerebral, física e de longevidade. O transumanismo deixa de ser apenas uma idéia de ficção científica para passar a ser um conceito ideológico e um projeto filosófico. O “aperfeiçoamento” e a “imortalidade” humana tem sido perseguidos por diferentes grupos sociais, entre empresários, tecnólogos, biotecnólogos. Um dos mais recentes a aderir a essa causa foi Larry Page (co-fundador e CEO do Google) que criou a empresa Calico, voltada para a pesquisa em saúde e longevidade humana. Esta e outras ações e iniciativas estão em curso com o mesmo objetivo e até maiores, a exemplo do empreendimento do empresário russo Dmitry Itskov que pretende, com ajuda da biotecnologia e da informática, alcançar até o ano de 2045, a possibilidade de fazer o upload da mente humana para uma máquina, que seria o passo posterior do transumanismo para o póshumanismo. Apesar de algumas ideias exóticas o transumanismo tem o apoio de uma boa parcela da comunidade científica, filosófica e empresarial, o que parece indicar que algum tipo de manipulação humana será desenvolvido como resultado deste projeto. É óbvio que deste ideal surgem uma série de questões que necessitam ser respondidas, as mais básicas seriam refletir sobre, quais as implicações do transumanismo para o ser humano? Como podemos compreender as afirmações transumanistas pela perspectiva metafísica e religiosa? Quais as implicações éticas para o desenvolvimento do transumanismo? E as implicações sociais? Porém há uma questão fundamental a qual nos leva à parte inicial deste pequeno texto, qual a possibilidade de universalização do transumanismo? Talvez se este desenvolvimento tecnológico não possa ser acessível a qualquer pessoa, signifique a construção de um abismo social muito maior do que o existente na atualidade e o desenvolvimento técnico-cientifico possa, não mais apontar para o progresso de toda a humanidade, mas para apenas um seleto e já privilegiado grupo. Referências bibliográficas para aprofundar o tema. BOSTROM, Nick; Superinteligência. Rio de Janeiro, RJ: Darkside, 2018 FERRY, Luc; A Revolução Transumanista, Barueri, SP: Manole, 2018 FUKUYAMA, Francis. Nosso Futuro Pós-Humano, Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2003 JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUCRio, 2006. JONAS, Hans. Técnica, medicina e ética. Sobre a prática do Princípio Responsabilidade. São Paulo: Paulus, 2013. ROHREGGER, R.; SGANZERLA, A. . Transhumanismo e a ampliação da desigualdade social. In: Daiane Priscila Simão-Silva; Leo Pessini. (Org.). Bioética, Tecnologia e Genética. 1ed.Curitiba: Editora CRV, 2017, v. 1, p. 51-68. ROHREGGER, R.. IMPLICAÇÕES FILOSÓFICAS DO TRANSHUMANISMO. 2019. (Apresentação de Trabalho/Comunicação). SANDEL, Michael J. Contra a Perfeição. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2013 SGANZERLA, A.; ROHREGGER, R. . PRUDÊNCIA: A VIRTUDE DA BIOÉTICA NA CIVILIZAÇÃO TECNOLÓGICA. THAUMAZEIN (SANTA MARIA), v. 10, p. 67-74, 2017. SGANZERLA, A. ; ROHREGGER, R. ; RODRIGUES, M. P. Transhumanismo: Poderá a tecnologia criar um ser humano ‘superior’?. Simpósio Internacional IHU, v. 1, p. 202, 2014.

Roberto Rohregger
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