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Amor acolhedor

Fred R. Bornschein
Fred R. Bornschein
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30 de setembro de 2021 • 6 min. de leitura

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O propósito deste texto será discutir as razões pelas quais pessoas deixam a comunhão da igreja e o que pode ser feito para evitar que isto aconteça e o que fazer para que desigrejados retornem à comunhão do povo de Deus. Uma coisa é clara, todos os desigrejados uma vez foram “igrejados”. Foram membros ou participantes de uma igreja. As razões pelas quais saíram da igreja são tão inúmeras como diferentes são as pessoas e as circunstâncias da vida.

Todavia a pergunta que eu faço agora é o que a igreja pode fazer, como uma igreja deve ser, para que ela perca o menor número possível de pessoas? Como deve ser a igreja, a nossa igreja, para que as pessoas gostem de vir às reuniões, que participem dos encontros com satisfação e não por mera obrigação ou costume? Se as pessoas permanecem na igreja porque gostam, elas dificilmente irão fazer parte do rol dos desigrejados.

Existem valores e realidades fundamentais da igreja. A maior delas é aquela que Paulo mencionou em 1Cor 3.11: “Ninguém pode pôr outro fundamento na igreja além daquele que já foi posto por Deus, que é Jesus Cristo”. No versículo seguinte Paulo menciona que sobre este fundamento os obreiros podem edificar com 2 tipos de materiais: ouro, prata, pedras preciosas ou madeira, feno, palha. Nós podemos entender o “ouro” com o qual devemos edificar a igreja como o “amor”, mas um amor que eu chamaria de “amor acolhedor”. Jean Vanier [1] disse que “acolher não é primeiramente abrir as portas da casa, mas abrir as portas do coração”. Uma igreja que acolhe as pessoas e cria relacionamentos de amizade, é uma igreja que não apenas cresce, mas segura as pessoas no seu redil. Acolhimento, relacionamento, entrosamento é um dos segredos para pessoas se fixarem e continuarem em uma comunidade. A igreja deve oferecer este acolhimento, esta comunhão que as pessoas buscam e pelas quais anseiam. As pessoas buscam relacionamentos. Uma igreja que oferece relacionamentos reais é uma igreja que segura as pessoas.

Acolher é um sinal de vida cristã. Acolher como Jesus acolheu. E como Jesus acolheu as pessoas? Acolheu ativistas políticos como os zelotes. Acolheu os colaboradores com o Império dominador, como os publicanos. Acolheu as pessoas com vida moral desregrada, como as prostitutas. Acolheu trabalhadores braçais como os pescadores. Acolheu até alguns religiosos legalistas como os fariseus. Acolheu sem preconceitos e distinções.

No grupo dos discípulos Jesus acolheu a todos por igual e tratava a todos por igual, sem fazer uma distinção de valor entre eles. Nós sabemos disso, pois perto do fim de sua vida os discípulos estavam discutindo entre si qual deles seria o maior (Mc 9.34). Até Judas participou dessa discussão. Cada um deles tinha uma história para contar, uma experiência para relatar, de como Jesus o abençoou, usou e se manifestou a ele e que, portanto, deveria ser o maior.

Paulo em Rm 15.7 exortou: “Acolham uns aos outros, como também Cristo acolheu vocês para a glória de Deus”. Às vezes o acolhimento nas igrejas se resume em saudar os visitantes no início do culto ou alguém cumprimentá-los à porta na saída. Mas não ultrapassa estes limites. A pessoa não entra no rol dos grupinhos da igreja, nunca é convidada para um bate papo, para um café na sua casa. De certa feita uma pessoa me disse: “você sabe que Jesus ama você?” Eu respondi: “sim, eu sei que Jesus me ama, mas quero saber se você me ama”. Não devemos apenas espiritualizar o amor. O “amor acolhedor” deve se “fazer carne” em nós. Acolher significa incluir pessoas na comunhão, na amizade. Sentir-se acolhido, aceito, abraçado, é sentir-se valorizado e todos querem se sentir valorizados. A pessoa acolhida se sente valorizada como pessoa. Sabe que tem amigos que se importam com ela. Pessoas com quem pode contar nas horas difíceis da vida.

Quero sugerir duas coisas para a prática do acolhimento na igreja, acolhimento que resulte em relacionamentos vivos.

1º – O discipulado. Que pessoas novas na comunidade sejam discipuladas. Que alguém, por algum tempo, se dedique a acompanhá-las semanalmente. Mas discipulado não é apenas compartilhar verdades bíblicas e verdades cristãs. Discipulado é compartilhar a vida, a vida no dia a dia. Compartilhar a vida de família, os momentos de lazer, os momentos de lutas. No discipulado pode se desenvolver a amizade. Amizade como a de Davi e Jônatas. Numa hora difícil de Davi em que Saul pretendia matá-lo, a Bíblia diz que “Jônatas fortaleceu a fé de Davi em Deus” (1Sm 23.16). Jônatas animou, encorajou o coração de Davi. Uma igreja em que as pessoas se sintam encorajadas e fortalecidas é uma igreja que não irá perder seus membros com facilidade.

2º – Em segundo lugar o novo participante da igreja deve se tornar participante de um grupo pequeno, um grupo em que se pratique real comunhão e compartilhamento de fé e vida. No grupo pequeno pode ser rompido o abraço frio da solidão e a pessoa pode receber o abraço caloroso da comunhão. Há tantas pessoas solitárias até dentro de nossas igrejas. O “amor acolhedor” é a resposta para esta necessidade humana.

Contudo devo dizer que não devemos pensar no acolhimento de forma romântica, pouco realista. Os relacionamentos na igreja não são sem problemas. Cada pessoa que entra na comunidade traz consigo sua carga de problemas, dificuldades, virtudes e defeitos. Onde pessoas convivem há atritos e conflitos, do casamento às igrejas. Os conflitos podem ser uma força desagregadora que leva as pessoas para fora da igreja e diante delas só o espírito perdoador tem a resposta. Perdoar nem sempre é fácil. É mais fácil acolher que perdoar. C. S. Lewis [2] disse que “todos consideram o perdão uma ideia maravilhosa – até o momento em que tem algo a perdoar”. Todavia pelo perdão a comunhão é restabelecida e o “amor acolhedor” volta a fluir. Leonardo Boff [3] comentou que “o perdão de Deus restabelece a comunhão vertical para o alto; o perdão daqueles que nos têm ofendido conserta a comunhão horizontal para os lados. O mundo reconciliado começa a aflorar, o Reino inaugura e os homens começam a viver sob o arco-íris da misericórdia divina”.

Concluindo afirmamos que a prática do “amor acolhedor” é a melhor vacina contra o vírus do desigrejamento.

REFERÊNCIAS

[1] Vanier, Jean. A comunidade, lugar do perdão e da festa. São Paulo: Paulinas, 1982, pg 235

[2] LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. 3ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009, pg 152

[3] BOOF, Leonardo. O Pai-Nosso: a oração da libertação integral. Petrópolis: Vozes, 1979. pg 115

Fred R. Bornschein
Fred R. Bornschein
Prof. Fred R. Bornschein é mestre em Teologia pela PUC/PR, pós graduado em Estudos Avançados em Teologia e Bíblia pela FLT/SC e Bacharel em Teologia pela Faculdade Evangélica do Brasil/PR. Pastor da Igreja Evangélica Livre e professor da Fatebe.
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19 de junho de 2020 • 6 min. de leitura

Retorno a uma Espiritualidade Autêntica

Do grego κρίσεις, a palavra crises é evocada, já há muito tempo, para identificar os desencontros humanos, eventos catastróficos da natureza, ou eventos sociais de descontinuidade do modus operandi em curso, em um dado momento sócio-histórico. A espiritualidade faz parte do mundo da vida, pois está longe de fazer parte do mundo objetivado, onde as suas sessões se realizam em espaços pré-definidos, como se o modus vivendi da espiritualidade fosse programado para responder aos estímulos divinos em uma realidade geometrificada. Para este curto espaço, abordaremos o porquê de as crises impactarem as expressões de espiritualidade, um fragmento de olhar sobre a crise sanitária atual e se podemos esperar um bramido de genuína espiritualidade. As crises Provocam um Retorno ao Pensar na Existência Além de Si Em um de seus melhores livros – Crime e Castigo, Dostoiévski nos apresenta um homem religioso, que ao mudar para a capital Russa (1712-1918), São Petersburgo, para estudar direito na universidade, se distancia da tradição religiosa doméstica e se torna um misto de gente, inclusive com traços de ateísmo. Uma grande crise na sua vida, um duplo assassinato, lhe faz voltar a se importar com as “insignificâncias” da vida, como ajudar uma viúva pobre que perdera seu marido e a resgatar uma jovenzinha da prostituição e o livro termina com este jovem Rodion Românovitch Raskólnikov na prisão, com um ar esperançoso para encontrar um sentido real para a vida, Dostoiévski lhe deixa com um Novo Testamento, velho e amarelado nas mãos. O Antigo Testamento descreve a peregrinação espiritual de um rei chamado Davi. Este homem vive a espiritualidade do mundo da vida, onde ora, faz confissões maravilhosas sobre Deus e seu inabalável caráter, ora está distante de um relacionamento religioso autêntico. Mas, as crises lhes trazem à mente os melhores cânticos, os mais belos poemas. O Novo Testamento nos mostra Paulo vivendo uma vida de prazer cristão exemplar, mas uma crise, talvez do não reconhecimento do seu apostolado (2 Co 9.11), o que lhe faz deixar um legado escriturístico belo (minha graça te basta, o meu poder se aperfeiçoa na tua fraqueza (2 Co 12.9). Isso é muito próximo da realidade de homens e mulheres no modus vivendi da sua jornada de espiritualidade. As grandes crises da história mostram exatamente o mesmo comportamento humano. No estudo da história se diz que “a história não é professora de ninguém”. Segundo algumas pesquisas, depois do 11 de setembro de 2001, aumentou o número de casamentos, de natalidade, de assiduidade nos templos religiosos, na generosidade dos americanos, entre outros dados positivos, para o período. Mas depois de passado um tempo, o que ficou foi o aumento da desconfiança com o estrangeiro de ascendência árabe; o divórcio ofuscou o casamento; o controle de natalidade ofuscou o acostumado viver a dois ou a sós; a agenda do entretenimento tomou o seu lugar de volta e empurrou a frequência dos cultos religiosos no colo da secularização. A generosidade, como um traço humanista permanece, mas por razões religiosas ou culturais. Mas, alguma coisa sempre fica, no campo humano, bem como na relação com a espiritualidade, da trajetória histórica das crises intramundanas. Espiritualidade e a Presente Crise A crise que ora atravessamos tem servido para vermos o quanto a humanidade é frágil na sua individualidade, e empurrado, do mundo de sistemas individualista para o mundo da vida, da partilha, experiências sócio-humanas que refletem como vemos a nós e o outro. Peter L. Berger e Thomas Luckmann afirmam que “a realidade é construída socialmente”. Isso tem implicações para a teologia, mas concordo em grande parte com esta afirmação. No caso do que ora vivemos, não é a pandemia construidora da realidade que se apresenta, mas as ações dos atores sociais em razão dessa realidade extra mundo social. O vírus é apenas uma realidade contingencial, não possuindo sentido social nele mesmo. Não podemos negar, no entanto, que grandes avivamentos foram precedidos por crises e transformações sociais: o impacto da revolução industrial na Inglaterra do século XVIII e XIX; A guerra fratricida entre os Zulus; a própria Reforma Protestante… Apesar do vírus ser uma realidade contingencial, não podemos negar, que em situações como essas, Deus se manifesta, falando mais alto, causando impactos existenciais e despertando homens e mulheres para uma vida mais significativa – mais perto de Deus e mais perto das instâncias intramundanas. A duração disso pode ser questionada, mas o seu acontecimento é real. Acredito que possa haver, neste tempo, maridos se convertendo às suas esposas, esposas se convertendo aos seus maridos, pais se convertendo a seus filhos, filhos se convertendo aos seus pais, irmãos se convertendo a irmãos. Estamos mais sensíveis para enxergar que a religião não cria um grupo de elite, mas todos são frágeis, caminhando na mesma estrada, clamando pelo salvador – “Jesus, filho de Davi tem compaixão de mim”. Apesar de saber que também é tempo de distanciamento familiar, muitos não tem conseguido viver a vida comum do lar. O que esperar? O cerne da piedade cristã é: “Ama o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de todo o teu entendimento e de toda a tua força e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27). Dessas duas sínteses magnas religiosas, emergem a compreensão de uma vida piedosa autêntica, de onde faz surgir respostas autênticas, nutridoras de mentes em constante renovação, para pureza ética, moral e espiritual, como um ato que vai se dando reflexivamente. Pode-se dizer: Pelas Escrituras eu conheço o meu Senhor, seu modus e respondo com a Coram Deo – a vida perante Deus. Por outro lado, a segunda síntese religiosa mencionada aponta para uma espiritualidade que se horizontaliza, se expande além de uma relação verticalizada, egoísta, ascética, mas se materializa na compaixão, na busca dos encontros mais inusitados da experiência humana – é vivendo a realidade mística/espiritual e social de “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14) que resgataremos a espiritualidade de encontros e desencontros, mas sempre gritando ao salvador: tenha misericórdia de mim... pecador. Esperamos que a acontecimento social e espiritual dessa crise nos leve para uma espiritualidade que deseja estar mais perto de gente que Deus criou. Soli Deo Gloria

Nonato Vieira
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23 de abril de 2020 • 3 min. de leitura

Mergulhar – Parte I

Há momentos em que nossos olhos ficam cegos para o que nos espera, mas isso não isenta um trajeto de se apresentar à nossa frente. Digo isso, porque era impossível saber o que aquela imensidão azul a minha frente reservava, porém perceber-me diante dela, fez-me desejá-la. Então, tomei a minha decisão. Eu decidi pela saída do cais, pela navegação por altos mares e pelo momento que me fez suspirar: meu mergulho. A embarcação não deixa o cais sem nenhuma decisão. Não se retira âncoras afundadas em meio a medos, comodismo… sem decisões. O barco nunca será visto navegando, os marinheiros nunca chegarão ao seu destino, se do cais, eles não tiverem partido. Na praia, há lugar para quem quiser. Existem pessoas que querem sentar, deixar o tempo passar… e se elas acham que não estão fazendo escolha nenhuma, infelizmente, enganam-se. Dizem por aí que quem não se posiciona de nenhum lado, já tomou sua decisão. Só espero que elas sejam mais rápidas do que a surpresa de uma ressaca do mar, espero que se levantem antes que a onda venha, e assim tomem lugar ao lado do capitão. Meu desejo é que elas possam subir a bordo, assim como eu. Bom, quero dizer para você que ao assumir viagem sobre o mar, percebi que muitas coisas serão inevitáveis. Caberá a nós mantermos a rota, mas, a velocidade dos ventos, a força das ondas, as longas tempestades, nada disso, caberá a nós o controle. Poderemos ser uma pequena embarcação em um vasto oceano, um alvo fácil de ser atingido. Mas, a viagem, mesmo com todas essas reviravoltas, oportuniza-nos conhecer o capitão e nos surpreendermos com ele, alguém que chamou todas as coisas à existência e tem prazer em dar força àqueles que mais fracos estão. Mesmo em meio às fortes tormentas, veremos que é possível ter paz, mesmo se o mar revolto estiver tentando nos trazer ao naufrágio, será necessário apenas nos preocuparmos em nos mantermos na rota, persistindo, até que as nuvens se dissipem e seja possível avistar o sol surgindo. Entre tormentas e calmarias, uma coisa é de almejo unânime entre os navegantes: chegar ao seu destino. Nem antes, nem depois dele. Se você já subiu a bordo, imagino que também abraçou a mesma causa e pretende ir até o fim. Se você já subiu a bordo, imagino que não só de tormentas fez-se sua viagem, mas que você também pode estar avistando belas paisagens, alguns pontos de parada aqui, pequenas ilhas ali, talvez outras rotas… Lembre-se da causa que você abraçou e mantenha o foco. O farol que já iluminou sobre muitos continua fiel em sua causa, ele também brilhará para você, seja fiel também e mantenha o foco. Porque haverá um momento, assim como aconteceu comigo, em que o capitão parará ao seu lado, colocará a mão em seu ombro e dirá: chegamos. Você então vai observar, e os seus olhos não alcançarão nada mais do que a imensidão azul à frente. Mas, o capitão insistirá: chegamos. Você poderia estar esperando uma terra fofa para repousar os pés, mas o convite feito é para retirar os sapatos. Sim meu amigo, o seu destino é aqui, nesta imensidão onde poucos ousam entrar. Onde a confiança é o impulso que te fará desprender-se do barco e mergulhar. Ouse confiar, não em si mesmo, mas no capitão, pois ele conhece o mar como a palma de sua própria mão. Tudo detalhado para Ele, mas um mistério para você. Onde será que esse mergulho poderá te levar? Continua…

Thauane Cordeiro
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19 de março de 2020 • 6 min. de leitura

O Deus das Montanhas

“Quem subirá ao monte do SENHOR, ou quem estará no seu lugar santo”. Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega sua alma à vaidade, nem jura enganosamente. “Este receberá a benção do SENHOR e a justiça do Deus da sua salvação” Salmos 24. 3-5 Certamente, há 16 anos atrás, não era eu a quem o Salmo acima se referia… Por que? Dia 19 de fevereiro de 2004, 17 horas. Nenhuma fé. Desfaleço. Perco a consciência. Estou morto. Como Deus nos leva por caminhos e como nós (ou pelo menos eu) somos rebeldes… Nesta data eu tive o privilégio de ser a pessoa mais perto do céu, na face da terra. Em meio a mais de 7.8 bilhões de pessoas, eu estava a quase 7.000 metros de altura e ninguém mais…, mas meu coração certamente estava bem abaixo e vazio. Durante algumas horas Deus usou 14 pessoas para me resgatarem de um acidente na montanha e me trazerem de volta à vida. Demorei muito para entender isto! Deus nunca me abandonou. Sempre fui eu que o abandonei. Mas aos primeiros movimentos meus em direção a Ele, coisas boas e novas começaram a acontecer em minha vida. Eu sempre fui um executivo de muito trabalho e pouca fé. Meu deus era o trabalho e minha estrada era a carreira profissional. Meu intuito era ter muito dinheiro, prestígio e poder. O resto não tinha muita importância. Foram quase 60 anos vivendo dessa forma. Precisei perder quase tudo para entender que nada estava no meu controle. Descobri que havia depositado minha confiança nos homens e não em Deus. Não que Deus nunca me houvesse mandado sinais, mas eu nunca os havia percebido. Estava demais ocupado para sentir a Sua presença ou ouvir o seu Espírito. Sempre achei que a força estava nas pessoas e não em Deus. Um dia, Deus me mandou alguém muito especial. Rose Petenucci. Ela foi um grande presente: Entre conhecê-la e começar a namorar foi uma semana… Deus às vezes é rápido e eu fui também! Deu certo. Casamos e começamos uma vida nova dentro dos princípios cristãos. Ela tem sido um anjo permanente ao meu lado, um testemunho de fé total em Deus. Eu sempre fui um homem de pouca fé. Ainda sou um pouco, mas tenho certeza que foi Deus quem me trouxe até a Primeira Igreja Batista. E por caminhos bem estranhos. A primeira vez que entrei neste templo do SENHOR foi para jogar futebol. Mas sei que era Deus me trazendo para uma das melhores experiências de minha vida. Daquela tarde que vim me divertir com as crianças como instrutor, para o primeiro culto foram apenas alguns dias. Não faltei mais. Hoje, frequento a PIB que é minha segunda casa. No inicio de 2009, resolvi me aprofundar um pouco mais na leitura da Bíblia, que para mim ainda era um livro bastante novo, e fazer o curso para ser batizado. Acho que o SENHOR Deus já me mostrava o caminho, e coube a mim aceitá-lo integralmente. A Profissão de fé que fiz pelo batismo foi deixar para trás aquela pessoa que era, materialista, que acreditava só em si, que comprava centenas de livros de auto-ajuda, que tinha deuses para cada causa, que não se importava com o perdão das pessoas à sua volta, e cujo a moeda de troca era a vingança, de preferência tardia para ser bem saboreada. Fé? Simplesmente não tinha. Sei que a transformação é e será lenta e que muitas vezes ainda repetirei o homem que já fui, mas acredito também no perdão, arrependimento e graça de Deus, pois sou um homem novo, lavado pelo sangue de Cristo e batizado em o nome de Jesus. Durante minha vida, já me preparei para iniciar cursos muito importantes. Lembro-me quando passei no vestibular da FAE, no longínquo ano de 1967 e com muita ansiedade esperei pelo primeiro dia de aula na faculdade… Anos mais tarde, ao fazer o Mestrado na COPPEAD – UFRJ, a mesma emoção se apoderou de mim, mas a vida estava para me reservar uma alegria ainda maior: O curso de Teologia na Faculdade Betânia – Fatebe. Foi depois de ter feito o curso de pós-graduação em Aconselhamento e Gestão de Pessoas nesta Instituição, que tomei a decisão de fazer o curso de bacharelado em Teologia. Já se passaram quase quatro anos e estou me formando, se Deus quiser, neste final de ano. Pretendo ser um Teólogo e atuar na academia. Já estou, de certa maneira fazendo isto, como professor do curso de pós-graduação da Fatebe. Para terminar, gostaria de voltar ao primeiro assunto, que é como gosto de me encontrar com Deus nas montanhas. Desde aquele acontecimento fatídico de 2004, onde fui resgatado, já quase sem vida, subi muitas outras montanhas. Estive por mais 5 vezes no Aconcágua, que é a maior montanha do hemisfério Sul. Também fui escalar a Cordilheira Blanca no Peru, a Cordilheira Real na Bolívia, a Cordilheira Huayhuash que é tida como a cordilheira mais bonita depois dos Himalayas e recentemente estive no Deserto de Atacama, escalando alguns vulcões dentre os quais o Ojos del Salado, que tem quase 7.000 metros de altura. Este deserto, por ser o mais alto do mundo, é implacável e é o mais seco do planeta Terra. As temperaturas variam muito, chegando durante o dia a quase 40 graus positivos e baixando à noite para 20 graus negativos ou mais, dependendo da altura dos vulcões. Nesta viagem, fiz questão de levar comigo uma bandeira da Faculdade Betânia, para fazer uma homenagem a todos os meus amigos, alunos e professores desta Instituição. Este é o meu Deus das montanhas, todas as noites no deserto, ao olhar para o céu, a imensidão das estrelas, tive o privilégio de estar mais perto d’Ele. Minha oração é para que eu possa subir ao monte do SENHOR e estar no seu lugar santo, no aconchego da Sua proteção. Que ele limpe minhas mãos, purifique meu coração e livre minha alma da vaidade. Obrigado Senhor Deus da minha vida, por tudo que tens feito em mim!

José Manuel Kantek Garcia Navarro
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