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O reflexo do “desigrejamento” na tarefa missionária

Malena Clower
Malena Clower
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6 de outubro de 2021 • 4 min. de leitura

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Não se tem dados oficiais quanto às consequências que o fenômeno do “desigrejamento” provoca na tarefa de missões, no alcance aos perdidos. No entanto para esta pesquisa partiremos do princípio do papel da igreja quanto a obra missionária, como a que comissiona, envia e sustenta. Logo, com o número de “desigrejados” aumentando cada dia mais, sem dúvida, a tarefa missionária sofrerá impacto deficitário quanto ao desenvolvimento da mesma.

No último censo do IBGE (2010), os resultados foram alarmantes, pois o número de cristãos que se declarou sem vínculo com a igreja saltou de menos de 1 milhão em 2000 para quase 10 milhões em 2010, um crescimento de mais de 780%, sendo a categoria evangélica a que mais cresceu.

Missões na Igreja Primitiva

Após a ascensão de Jesus e o início da perseguição depois do Pentecostes, os primeiros discípulos saíram para pregar as Boas Novas por todo o mundo de então.

Em Atos capítulo 11:19-26 Lucas registra:

“Os que tinham sido dispersos por causa da perseguição desencadeada com a morte de Estêvão chegaram até à Fenícia, Chipre e Antioquia, anunciando a mensagem apenas aos judeus. Alguns deles, todavia, cipriotas e cireneus, foram a Antioquia e começaram a falar também aos gregos, contando-lhes as boas novas a respeito do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles, e muitos creram e se converteram ao Senhor. Notícias desse fato chegaram aos ouvidos da igreja em Jerusalém, e eles enviaram Barnabé a Antioquia. Este, ali chegando e vendo a graça de Deus, ficou alegre e os animou a permanecerem fiéis ao Senhor, de todo o coração. Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé; e muitas pessoas foram acrescentadas ao Senhor. Então Barnabé foi a Tarso procurar Saulo e, quando o encontrou, levou-o para Antioquia. Assim, durante um ano inteiro Barnabé e Saulo se reuniram com a igreja e ensinaram a muitos. Em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos”. Atos 11:19-26.

O capítulo 13 registra o primeiro envio missionário oficial, a partir da Igreja de Antioquia.

“Na igreja de Antioquia havia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. Enquanto adoravam ao Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: “Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”. Assim, depois de jejuar e orar, impuseram-lhes as mãos e os enviaram. Enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. Chegando em Salamina, proclamaram a palavra de Deus nas sinagogas judaicas. João estava com eles como auxiliar”. Atos 13:1-5.

Ronaldo Lidório, em seu livro Vocacionados (Ed. Betânia, 2014; Belo Horizonte, MG), vê a imposição de mãos como:

– Sinal de autoridade;

– Sinal de reconhecimento;

– Sinal de cumplicidade.

A igreja, portanto, exerce um papel de suma importância quanto ao envio missionário.

A igreja enviadora

Como já foi definido o “desigrejado” como não tendo uma ligação formal com a igreja, fica difícil o mesmo se envolver com missões ou a missão, sendo que na maioria dos casos, ou pelo menos o que se espera é que a igreja seja o propulsor de missões.

Portanto, partindo do princípio que missões se faz enviando, cooperando e orando, o “desigrejado”, não faz parte do grupo que se envolve com missões, devido ao desligamento da igreja.

O “Reflexo”, neste sentido seria como uma consequência indireta da falta de pessoas engajadas para com a tarefa missionária. Seria, portanto, menos 10 milhões de pessoas que poderiam estar indo, orando e contribuindo e não estão. Se levarmos em consideração as palavras de Jesus em Mateus 14:24, “E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim”, não pregar o Evangelho seria retardar a volta de Cristo. A pregação do Evangelho sempre foi tarefa da igreja em todos os tempos. Desde a Igreja Primitiva, durante toda a história das missões, a igreja está presente para enviar, sustentar e orar.

Portanto, o “Reflexo” do “desigrejamento” na tarefa missionária é sem dúvida negativo, pois seria como se 10 milhões de pessoas deixassem de trabalhar em uma comunidade, essa comunidade sentiria os efeitos negativos em todos os sentidos.

Bibliografia:

Foto 1- https://pt-br.facebook.com/palavravivavotorantim/photos/

Foto 2 – https://pauloraposocorreia.com.br/2016/11/14/desigrejado-a-ovelha-solitaria

Bíblia NVI – https://www.bibliaonline.com.br/nvi/atos/11

Bíblia NVI – https://www.bibliaonline.com.br/nvi/atos/13

Lidório, Ronaldo; Vocacionados; Belo Horizonte, Editora Betânia, 2014.

https://br.blastingnews.com/sociedade-opiniao/2017/03/desigrejados-o-movimento-evangelico-que-mais-cresce-no-brasil-001546385.html

Malena Clower
Malena Clower
Especialista em Aconselhamento e Gestão de Pessoas pela Faculdade Teológica Betânia de Curitiba - FATEBE e Bacharela em Teologia.
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3 de outubro de 2019 • 3 min. de leitura

A Cibercultura e os transtornos psicológicos: Perigos e desafios atuais

Embora o DSM V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e o CID 10 (da Organização Mundial da Saúde) não tenham nenhuma palavra final diagnóstica sobre transtornos psicológicos associados ao uso inadequado da internet e das várias redes sociais (Facebook, Instagram, WhatsApp, etc), sabe-se que existem vários comportamentos e sintomas associados, os quais tem sido a preocupação de vários profissionais da saúde, tais como: médicos, psiquiatras, psicólogos, pedagogos etc. Ainda que, por um lado, sejam inquestionáveis os muitos benefícios da internet e das redes sociais, por outro lado os comportamentos e sintomas preocupantes, com vários riscos nocivos à saúde, ao bem estar e segurança de seus usuários, são perceptíveis, tais como: a depressão, dependência da internet e redes sociais, crises de ansiedade, comportamento abusivo de jogos pela internet, o ciberbullying, a anorexia, a bulimia, a obesidade, problemas de visão, postura corporal, suicídio etc. Diga-se de passagem, que a internet e as redes sociais, em si, são, de certa forma, neutras. Elas não causam, por elas mesmas, as dificuldades acima mencionadas. A dificuldade está no seu uso inadequado, e também às vulnerabilidades de cada pessoa. Estudiosos apontam que algumas pessoas estão mais suscetíveis a fazer uso inadequados da internet e redes sociais, e colher dificuldades diversas, especialmente adolescentes do sexo feminino, pessoas com descontrole de impulsos, introvertidos, perfeccionistas, pessoas com baixa autoestima, pessoas em constante necessidade de aprovação. Visto que essas dificuldades, relacionadas ao uso inadequado da internet e redes sociais, são relativamente novas, em virtude da cibercultura ser um fenômeno muito recente, estudos e pesquisas, com metodologias científicas mais precisas, necessitam ser feitos para que os estudiosos da saúde possam categorizar todas essas dificuldades, quem sabe, delineando novos transtornos e tratamentos específicos. No momento, estudiosos e pesquisadores têm visto essas dificuldades, como por exemplo, a dependência da internet e redes sociais, mais como um comportamento relacionado ao controle do impulso. É provável que nas próximas edições do DSM e da CID já tragam algum delineamento sobre isso, visto que no primeiro já existe uma sugestão para que alguns assuntos sejam objeto de maiores estudos para futuros delineamentos. Por enquanto, há de perguntar-se o que, como sociedade, podemos fazer para prevenir e/ou ajudar as pessoas que estejam no processo de incorrer em algum prejuízo significativo no uso da internet e redes sociais? Além de maiores estudos e pesquisas científicas sobre o assunto, acima mencionados, é necessário haver maiores discussões e informação em todos os âmbitos da sociedade (escolas, universidades, famílias, religião etc) para as pessoas, especialmente os mais vulneráveis, sobre os benefícios e malefícios da internet e das redes sociais. Nos casos em que alguém esteja tendo um prejuízo significativo no uso dessas mídias, é necessário procurar ajuda médica e psicológica. A internet e as redes sociais vieram para ficar e modificaram a nossa maneira de ver o mundo, nos comunicarmos uns com os outros, e lidarmos com a informação. Precisamos vencer essa fase de adaptação e usá-las de maneira sábia, ética e adequada para o nosso bem, para o bem dos outros, e da sociedade em geral.

José Godoi Filho
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25 de junho de 2020 • 9 min. de leitura

A crise como sistema natural do desenvolvimento do cristianismo

As crises para o cristianismo são mais comuns do que os momentos de normalidade. O próprio Cristo surge em um momento de crise, a anunciação do seu nascimento gera uma crise entre Maria e José, que é superada pela fé. Pouco tempo depois do nascimento esta família se vê emigrante, parte para um país desconhecido fugindo de uma perseguição governamental. Jesus nasce em uma nação dominada por um governo estrangeiro, e aliás, é de longa data que os judeus não tinham um governo autônomo. Jesus viveu na Galileia, governada por um rei marionete de Roma. E foi morto na Judeia, uma província romana, administrada por um governador romano. O cristianismo primitivo se desenvolveu dentro dos domínios do Império romano, assim como todos os documentos que se tornaram o Novo Testamento foram escritos dentro dele. (BORING, 2015, p. 127) Desde o exílio babilônico não souberam mais o que era ser um país independente, os governos ádvenas passavam, mas salvo por um curto espaço de tempo, na revolta dos Macabeus, Israel nunca mais voltou a ser uma nação. Depois da Babilônia, os Persas, depois os Gregos, ptolomeus/selêucidas e por fim Roma. E é na plenitude dos tempos, sob o domínio e o “progresso” romano que o cristianismo surge e se desenvolve. Porém, surge na Palestina o domínio romano, onde os Judeus viviam sob a regência local por um lado, com Herodes Antipas, um “Rei” fantoche colocado por Roma e por outro, do governo direto da própria Roma, representado por Pôncio Pilatos. Obviamente a grande maioria da população judaica não se via representada por nenhuma das duas figuras, pois o próprio Herodes Antipas não tinha uma linhagem pura judaica. Desta forma, o domínio romano apresentava dificuldades tanto na esfera política, quanto na esfera econômica, principalmente para os pobres, isto é, para a grande maioria da população judaica. Estrutura Social /Religiosa A palestina na época de Jesus era pobre, a concentração de renda ficava na mão de uma minoria, a classe média era praticamente inexistente, excluindo aqueles que viviam em Jerusalém e que conseguiam subsistir com um pouco mais de recursos. Este quadro era obviamente agravado pelos tributos a serem recolhidos, para o governo local, para Roma e para o próprio templo. Do ponto de vista socioeconômico, podem-se distinguir na população Palestina três camadas: a classe rica e poderosa, a classe média e os pobres. À classe rica e poderosa pertenciam os príncipes e os membros da família real de Herodes, assim como os altos dignitários da corte, além das famílias da aristocracia sacerdotal e leiga, dos latifundiários, dos grandes comerciantes e dos cobradores de impostos. A classe média, muito reduzida, existia praticamente só em Jerusalém, já que suas fontes de renda procediam do templo e dos peregrinos. Era formada pelos pequenos comerciantes, pelos artesãos proprietários de suas oficinas, pelos donos das hospedarias e pelo baixo clero. À classe pobre, que constituía a imensa maioria da população, pertenciam os assalariados, tanto operários como camponeses, os pescadores, os inúmeros mendigos e, finalmente, os escravos. (MATEOS; CAMACHO, 1992, p. 19) Compunha a tríade da elite administrativa/econômica a religiosa, que também era a responsável “jurídica/religiosa” da sociedade. Esta elite, dividida por algumas interpretações teológicas particulares, gravitava ao redor das sinagogas e do templo. Cabe salientar que a sinagoga era uma representação religiosa mais próxima do povo, servindo inclusive para o fortalecimento de vínculos sociais e de educação já que o templo era mais institucionalizado, distante, quase inacessível, formalíssimo e de estrutura rígida. A rigorosa observância religiosa era quase inacessível ao povo que sucumbindo com a inadiável tarefa de sobreviver tinha grandes dificuldades de cumprir todas as normas e rituais, e desta forma sobrevinha a somar o peso da miséria ao da desobediência a preceitos divinos. Jesus demonstra a brutal inversão de valores na interpretação das Escrituras e a opressão que causava aos mais pobres, na resposta a questão do sábado: “Deus criou o sábado para o homem, ou o homem para o sábado?”, uma pergunta retórica, uma vez que nela própria apresentava-se a resposta que calou seus inquisidores. (Mc. 2.23-28) Desta forma podemos perceber um crescente embate entre o sistema religioso judaico e Jesus, embate esse que fica cada vez mais saliente e tem um dos seus clímax apresentado no relato da chegada de Jesus no templo e o confronto com os negociantes. O templo tinha sua própria moeda, uma vez que as moedas romanas não poderiam entrar no mesmo, e assim o templo tinha o “seu” câmbio. E este dinheiro seria usado para a compra do animal para o sacrifício que todo judeu deveria providenciar, assim, ao redor do templo formava-se um grande comércio religioso que achacava a já pobre bolsa do fiel. Jesus fica claramente escandalizado e age de forma a demonstrar sua revolta com o que estava acontecendo em um local que deveria ser de acolhimento, auxílio e confraternização, principalmente ao mais fragilizado. O templo realizava liturgia esplendorosa, sustentada pelo imposto religioso anual, o dinheiro dos sacrifícios e dos donativos voluntários dos fiéis. Já os profetas denunciaram o culto hipócrita que encobria a injustiça (Is 1,10-17; Jr 7,1-11); Jesus vai além ao denunciar o próprio culto como exploração do povo (Jo 2,16; Mc 11,17 e paralelos). Nunca aparece no evangelho participando das cerimônias do templo; aí vai por ocasião das grandes festas, e para ensinar às multidões que ocorriam da Palestina e do estrangeiro. (MATEOS; CAMACHO, 1992, p. 69) A crítica à estrutura do templo começa com João Batista. Seu ministério era totalmente alternativo, e é possível que se opusesse ao templo, ainda se, se considerar a hipótese de sua origem for do grupo dos essênios. Jesus ao aceitar o batismo de João Batista de certa forma alinha-se com esta posição. E é a partir do escalonamento da crise entre Jesus e o sistema religioso que ocorre a ação derradeira, o planejamento da prisão de Jesus e a sua apresentação frente ao sistema Religioso/Judicial. Qual a acusação formal de Jesus perante o Sinédrio? A primeira vista era a de blasfémia (HAMM, 2020). Claro que o que estava por trás era o medo do confronto e que Jesus de alguma forma representasse a liderança de um movimento que pudesse acabar em alguma agitação ou tumulto que seria um risco para a manutenção da elite religiosa e política, principalmente se este agito resultasse em alguma ação romana. Mas logo percebesse que o julgamento e execução de Jesus pelo Sinédrio poderia apresentar-se como um problema ainda maior, se fosse o estopim de algo maior, então melhor seria “transferir o problema” para a administração romana, mas a acusação de blasfêmia não significaria nada para a legislação romana. A acusação para ser efetiva ao código romano teria que ser de sedição e efetivamente é esta a acusação que leva Jesus a cruz, mais por pressão do que por provas efetivas. É neste ambiente de crise que se cumpre a promessa do Antigo Testamento e os evangelistas conseguem interpretar estes atos e identificar com as profecias e o simbolismo através do sacrifício do cordeiro pascal que tira o pecado do mundo. Na sua morte e ressurreição Jesus também efetiva a desnecessidade do Templo, eis mais uma vitória de Jesus. O cristianismo, pós Jesus – a continuidade da crise. A história com a igreja primitiva não foi diferente, cresce e se fortalece em um ambiente hostil, primeiro dentro do judaísmo, onde precisa romper os laços e ser considerada uma seita judaica, e então a perseguição formal, tanto em Jerusalém quanto nas demais cidades onde houvesse a tentativa da pregação da mensagem cristã em uma sinagoga. (MEEKS, 1996). Com o desenvolvimento da igreja, a conversão de judeus e gentios acaba chamando a atenção da população nas cidades em que o cristianismo se estabelece, e sua mensagem causa em muitos locais estranheza e desconfiança. Percebemos nas Epístolas Gerais que a mensagem cria uma crise na sociedade local, ao ponto de haver acusações falsas aos cristãos. Além disto, também se percebe as crises internas nas igrejas em que as novas exigências éticas confrontam os velhos hábitos. E na evolução da história da igreja nota-se o agravamento da crise, chegando ao ponto de institucionalizar-se com a perseguição do governo romano, levando aqueles que professavam a fé em Cristo a mortes terríveis. Considerações Finais O cristianismo surge em um momento de crise, crise judaica de opressão estrangeira e de opressão interna, em uma sociedade extremamente segmentada. Surge em um ambiente de crise como esperança, como uma fé acessível, como uma mensagem de acolhimento, nasce como voz dos excluídos. Desenvolve-se em um ambiente hostil, em constante perseguição, novamente em locais de morte instituída pelo Estado Romano, mas, é nesta crise que o cristão preso, jogado aos leões coloca toda a sua esperança na transcendência e na persistência dos valores do Reino; é na crise que o cristianismo é relevante; é na crise que se faz a esperança cristã na promessa dos valores eternos. É na crise que o mundo pode compreender quais são os valores eternos, e na valorização da vida humana como criação à imagem e semelhança de Deus que concede a todos indistintamente a dignidade inalienável do ser humano acima de qualquer valor. REFERÊNCIAS BORING, M. E. Introdução ao Novo Testamento – História, Literatura e Teologia. São Paulo: Paulus, 2015. HAMM, M. O Julgamento de Jesus – Ilegalidades Processuais nos Direitos Romano e Hebreu. Jusbrasil. Disponível em: <https://marihamm.jusbrasil.com.br/artigos/196386015/o-julgamento-de-jesus>. Acesso em 03/06/2020. MATEOS, J., ; CAMACHO, F. Jesus e a sociedade de seu tempo. São Paulo: Paulus, 1992. MEEKS, W. A. O Mundo Moral dos Primeiros Cristãos. São Paulo: Paulus, 1996. STAMBAUCH, J. E., ; BALCH, D. L. O Novo Testamento em seu ambiente social. São Paulo: Paulus, 1996.

Roberto Rohregger
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8 de julho de 2020 • 4 min. de leitura

A crise no contexto missionário: um panorama

A partir da análise de eventos relacionados ao cristianismo dos primeiros séculos, em especial as epidemias sucessivas até meados do século terceiro e a chamada conversão do imperador romano Constantino, no início do século quarto, propomos um paralelo com a conjuntura de 2020. Este paralelo tem como objetivo, através da leitura destes eventos, compartilhar oportunidades e alertas para o comportamento da igreja cristã durante a recente crise que se abateu sobre o mundo com o advento da manifestação da COVID-19, que se materializa em múltiplas crises, seja ela sanitária, econômica e, no caso do Brasil, uma crise política sem paralelos na história da república brasileira. O Movimento Missionário na Igreja Antiga Em seus primeiros séculos, o cristianismo apresenta um movimento descentralizado de evangelismo, partindo dos apóstolos e de seus discípulos diretos. Neste “cristianismo embrionário”, o processo de evangelização e transmissão das boas novas de Cristo acontecia a partir do contato pessoal entre o convertido e o “pagão”, compreendido como o fiel das religiões politeístas tradicionais dos limites do império romano, mas não só. Os territórios “bárbaros” (não romanizados), também contavam com a presença de cristãos, na medida em que este processo acompanhava o avanço de soldados, comerciantes e outras funções que demandassem o deslocamento geográfico por parte destes convertidos. Neste sentido, a pessoalidade estava muito presente neste processo, através do contato pessoal com aquele que conhecia o Evangelho. Neste sentido, as mulheres eram uma grande força missionária, no sentido de serem as primeiras em seus núcleos a conhecerem e propagarem a mensagem de Cristo. Até a segunda metade do século três, diversas epidemias se abateram sobre os territórios mediterrânicos e os cristãos cresceram neste ambiente por duas razões principais. Em primeiro lugar, o senso de comunidade gerado desde o período apostólico fez com que os cristãos cuidassem mais de si mesmos, ao mesmo tempo em que cuidavam dos doentes, que eram descartados pela sociedade romana. Este contato direto com os infectados, levou muitos cristãos à morte e isso trouxe simpatia de camadas mais simples da população romana, desprotegidas pela estrutura oficial imperial. Em contrapartida, a declaração de conversão do imperador Constantino no início do século IV trouxe desafios adicionais, até o momento inéditos para a Igreja Cristã. Se por um lado, o fim das perseguições melhorou a produção teológica que floresce após este período, notoriamente marcada pelos escritos de Atanásio, Jerônimo, Agostinho, entre outros, por outro, a institucionalização do cristianismo pelo império trouxe diversos antagonismos, dos quais destacamos dois de maneira especial. Em primeiro lugar, uma divisão interna entre aqueles que viam com bons olhos a chegada da fé cristã à estrutura imperial e aqueles que viam este novo momento como um desvirtuamento dos ensinos de Cristo com esta aproximação da fé com o império. Em segundo lugar, a associação dos cristãos de maneira direta com o governo imperial, trouxe a hostilização para aqueles que estavam em territórios “bárbaros”, por serem considerados simpatizantes dos romanos. Possibilidades Partindo do exposto até o momento, analisando os feitos da igreja em sua gênese, é possível destacar possíveis oportunidades, além de um alerta para a igreja contemporânea. A pandemia da COVID-19 pode oferecer uma grande oportunidade de aproximação com a sociedade pós-moderna, caso ela ofereça empatia e auxílio para aqueles que estão necessitados. Na medida em que a crise sanitária gera uma crise econômica, o papel da igreja como agente ativo de auxílio e instrumento social de integralidade do evangelho que atinja o indivíduo em todas as suas necessidades será cada vez mais necessário. Como alerta, usando o evento da conversão de Constantino como base de análise, é preciso verificar o papel de parte da liderança protestante brasileira, como elemento ativo no quadro político presente. Quando a igreja demonstra publicamente seu apoio a determinado governo, qualquer que ele seja, automaticamente gerará os efeitos apontados neste artigo: a divisão interna entre os que apoiam e os que desaprovam este apoio, e a hostilidade entre o grupo maior da sociedade que não se identifica ao governo vigente. A reflexão é válida, na medida em que a igreja precisa atentar para seu papel fundamental de fazer discípulos de todas as nações. A igreja tem prevalecido diante dos governos ao longo dos últimos dois milênios. Por esta razão, é condição essencial analisar sua longa história e aprender com ela para direcionar suas ações em nosso presente.

Eduardo Medeiros
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