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Uma Mente Renovada para o Discernimento dos Tempos

Nonato Vieira
Nonato Vieira
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6 de novembro de 2019 • 5 min. de leitura

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Li recentemente uma fábula postada em um grupo de aplicativo, parte de um livro do qual não tenho as informações suficientes para fazer a referência, mas aquela estorinha dizia:

Era uma vez, na terra de Fuzz[1], o Rei Aling chamou seu sobrinho Ding e ordenou:

– Sai e percorre toda a Terra de Fuzz e encontra-me o mais bondoso dos homens, o qual hei de recompensar pela sua bondade.

– Mas como haverei eu de reconhecê-lo, quando eu o encontrar? — perguntou.

– Como? Ele será sincero — zombou o rei e arrancou-lhe uma perna por sua impertinência.

Então ele saiu mancando a procurar o homem bom. Mas logo retornou confuso e de mãos vazias.

– Mas como hei de reconhecê-lo quando eu o vir? — perguntou novamente.

– Como? Ele será dedicado — resmungou o rei, e arrancou-lhe outra perna por sua impertinência.

Então saiu coxeando mais uma vez para procurar o mais bondoso dos homens. Mas outra vez retornou confuso e de mãos vazias.

– Mas como hei de reconhecê-lo quando eu o vir? — implorou ao rei.

– Como? Ele terá internalizado sua crescente conscientização — vociferou o rei, e arrancou-lhe outra perna por sua impertinência.

Então, apoiando-se em sua última perna, saiu sal­titando a fim de continuar sua busca. Depois de algum tempo, retornou com o mais sábio, mais sincero e dedicado Fuzzy de toda a Fuzzylândia e o colocou de pé, em frente ao rei.

– Como! Este homem não serve absolutamente — rugiu o rei. — Ele é muito magro para o que quero. — Dizendo isto, arrancou a última perna do servo, que caiu ao chão com um baque surdo!

– A moral desta fábula é que. . . se você não pode reconhecer o que vê quando o vê, pode terminar sem nenhuma perna que o sustente.[2]

Lendo esta fábula, fui levado a uma citação que Ricardo Barbosa faz, na sua consagrada pastoral da Revista Ultimato. Segundo ele, em uma conversa com o teólogo americano James Huston, sobre a influência das tecnologias, mídias e outras mais, este lhe teria dito: “Quando alguém casa com o espírito da época, a época passa e ele fica viúvo”.[3]

A mensagem do Evangelho é uma verdade eterna, que aponta para o governo de Deus sobre a sua criação, em um ato salvífico de redimir o que Ele criara pleno. Porém, esta mensagem e suas realidades subjacentes se materializam na mente das pessoas que a ouvem, por meio de construções sócio culturais. A Igreja é compreendida como aquela que transmite esta mensagem, porque ela se lança a viver a tensão entre os valores eternos de Deus e seu Reino e a necessidade da encarnação destes valores em um mundo caído e sua cultura ainda não redimida, que tem como objetivo ganhar e governar as mentes.

Como viver nessa tensão e não perder sua voz profética no mundo da missão de Deus? Como a Igreja pode ser relevante sem se casar com o espírito da época?

Algumas considerações – a cultura da beleza é obra de Deus – Gênesis 1.2 diz que não existia forma, estética, antes que Deus desse a ordem para que tudo viesse a existir. Mas, disse que o Espírito do Senhor, que dá forma ao que era somente caos, já estava presente sobre o caos – “Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra” (Sl 104.30).

Mesmo depois do pecado, Deus prometeu dar um Espírito que renova, que faria jovens e velhos sonharem, terem visões (Joel 2:28) – viverem entusiasticamente – A profecia de Joel aponta para um tempo de bênção – uma nova era, uma era de mudanças, muitas coisas novas estariam acontecendo – obra de renovo do Espírito Santo.

A Revelação de Deus nos alerta para um viver de culto, para discernir o espírito dos tempos​ – A perspectiva de Romanos 12.1 e 2, é de uma vida que se dá como um ato litúrgico que se desenvolve enquanto vivemos. Com um comportamento assim, o crente vive todas as realidades subjacentes sem perder a capacidade de discernir os tempos, para nunca deixar de ser uma voz profética no mundo.

Para isso acontecer, a vida, que se dá na liturgia do viver para Deus, está em constante renovação, para que se consiga ler os sinais dos tempos e se lançar à proposta de viver na tensão, sem negar à interação cultura, admitindo que “toda verdade é verdade de Deus”, mas sem deixar de discernir os sujeitos culturais que buscam dominar e transformar a criação de Deus, como expressão de sua sabedoria, graça e deleite divino.

Não esqueçamos: “Quando alguém casa com o espírito da época, a época passa e ele fica viúvo” e “se você não pode reconhecer o que vê quando o vê, pode terminar sem nenhuma perna que o sustente”.

[1] Fuzz significa abstração, falta de clareza. O termo íuzzy, obscuro, será usado no decorrer do livro.

[2] R. F. MACER.

[3] HUSTON, James In BARBOSA, Ricardo. Revista Ultimato. Viçosa: Ultimato, 2019, Ano LII, n. 379, Setembro/Outubro 2019.

Nonato Vieira
Nonato Vieira
Mestrado em Ciências da Religião, pela Universidade Católica de Pernambuco e em Missões Urbanas pela FATSUL. Pós-Graduação em Docência de Filosofia e Sociologia. Bacharelado em Teologia pelo Seminário Teológico Betânia e pela Faculdade de Teologia Hokemah e Licenciatura em História pela Fundação de Ensino Superior de Olinda. Pastor da Igreja Evangélica Livre e professor da Fatebe.
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9 de setembro de 2020 • 4 min. de leitura

Proposta para Tempo de Crise – Abordagem Histórica

Quando falamos sobre a epidemia em que estamos vivendo geralmente lembramos de outras no passado, como por exemplo, as pestes medievais. A epidemia de peste atingia uma cidade aproximadamente a cada dez anos entre os séculos XIV e XVIII. A taxa de mortalidade era de 60 a 90% (um a três% no Covid-19), o que era particularmente terrível. Assim como na epidemia de peste negra, bem como em outras, os cristãos tiveram atitudes formidáveis e relevantes no meio da sociedade. O livro Crescimento do Cristianismo apresenta várias razões pelas quais o Cristianismo foi convincente: as epidemias contribuíram significativamente para a causa cristã (STARK, p.88). O Cristianismo se adaptou às tribulações em que a adversidade, a enfermidade e a morte violenta geralmente prevaleciam (STARK, p.94). Os cristãos cuidavam dos enfermos, eram infectados e morriam por eles. Depois estes curados se tornavam cristãos. A situação se desenvolveu a tal ponto que o imperador que quis reimplantar as religiões pré-cristãs no Império Romano, Juliano, o apóstata, em 362 d.C. avaliou o que então percebia, dizendo: “Os cristãos cuidam não apenas dos seus doentes, mas também dos nossos. Todo mundo pode ver que nosso povo não conta com nossa ajuda” (apud STARK, p.97). O sociólogo conclui então que, no século IV d.C., “esperava-se que o Cristianismo operasse com júbilo na assistência aos enfermos, aos inválidos e aos dependentes” (STARK, 2006, p.199). Diante disso, gostaria de elencar pessoas chaves que fizeram a diferença em seu meio e diante das crises: A visão de Martinho Lutero A pergunta é se era aceitável fugir como cristão. Lutero respondeu a seu colega John Hus, visto que em 1527 Wittenberg foi atingida pela praga e as aulas foram transferidas para uma cidade não afetada. Lutero se recusou a sair. Em vez disso, ele decidiu cuidar dos doentes e moribundos e transformou sua casa em um hospital improvisado. Lutero disse: “Ao crer em Deus e por amor ao próximo, os cristãos devem primeiro pensar em como podem contribuir para o cuidado físico e espiritual dos fracos, isolados, doentes ou moribundos”. Só então Lutero permitiu que os cristãos tomassem decisões privadas sobre a possibilidade de fugir. O Salmo 41 era a base orientadora para Lutero: “Bem-aventurado aquele que cuida dos fracos! O Senhor o salvará nos maus momentos.” Portanto: “quem cuida de uma pessoa doente (…) que faz isso com essa promessa consoladora, (…) ele tem grande consolo aqui. (…) Deus mesmo quer ser seu guardião e seu médico também.” Frederico von Bodelschwingh e a Missão de Bethel Frederico, enquanto estudante, envolveu-se com os mendigos vendo a situação sub-humana em que viviam. Em 1869, de 12 a 25 de janeiro, faleceram 4 de seus filhos. Em 1872 foi convidado a assumir o lar de epiléticos de Bethel. Para ele, a fé infantil de um doente mental ou de um agricultor epilético era a experiência que superava tudo o que a Universidade poderia oferecer. Os epiléticos eram vistos como doentes mentais nessa época. Bodelschwingh entendia que ali não se estava em frente à miséria, mas no meio dela. Isto é o que o anunciador da Palavra de Deus deveria aprender, para depois à frente da igreja ser um bom exemplo e tornar outros solícitos para todo tipo de serviço cristão. A missão possui um hospital psiquiátrico diaconal protestante em Bethel, antiga cidade, hoje um bairro de Bielefeld, na Alemanha . Quem vinha com alguma dor falar com Bodelschwingh, nunca saía inconsolado. Algo cada um recebia. Para ele, as pessoas precisam ser valorizadas como são. O amor não estabelece pré-requisitos. O amor deve persistir. Na obra missionária, os desafios eram assumidos por todos. Assim aconteceu a construção de albergues, colônia para desempregados, casa para trabalhadores da cidade. Bodelschwingh tornou-se deputado para trazer benefícios legais aos que estavam mendigando. Queria que o pequeno tivesse sua própria casa e pedaço de terra para plantar. A visão escatológica era que tudo será destruído quando Jesus voltar, com exceção do que foi feito de acordo com a vontade de Deus. O trabalho entre os pobres e insignificantes está entre a exceção, pois Cristo se identifica com os sofredores. Somente quem valoriza e age para o melhoramento desse mundo saberá valorizar e agir com vistas ao vindouro. E esta visão teve consequências nas outras gerações.

Marlon Fluck
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13 de janeiro de 2021 • 5 min. de leitura

Afinal a mulher pode ou não ensinar no culto? Um estudo à luz de 1 Coríntios 14.33-34

Mesmo em dias hodiernos a mulher ainda sofre, além da violência, com preconceitos ministeriais e profissionais, e não estamos analisando uma cultura mais tradicional e conservadora como em países influenciados pela religião islâmica. Denominações cristãs evangélicas ocidentais ainda proíbem as mulheres de ensinarem nas igrejas. Nossa tarefa será fazer uma breve análise do texto de 1 Coríntios 14.33-35: 34 As mulheres estejam caladas nas igrejas, porque lhes não é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. 35 E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é indecente que as mulheres falem na igreja. O estudo da crítica textual nos informa que alguns manuscritos chegam a colocar os versículos 34 ao 35 no final do capítulo 14 depois do versículo 40. (OMANSON, 2010, p. 355). Já Gordon Fee (2019, p. 853) classifica essa passagem como: “[…] passagem espúria (v. 33,34) que conseguiu se aninhar na tradição manuscrita, tendo sido inserida nesse ponto na maioria dos textos remanescentes […]”, ou seja, o autor se nega a comentar esses versículos em sua obra, pois para ele não tem valia nem mesmo como uma interpolação. Todavia, o breve estudo abordará os versículos dentro do seu contexto histórico-cultural e literário partindo do pressuposto como parte integrante do NT, independente de sua colocação nos manuscritos antigos. Não se pode deixar de lado os aspectos culturais da época, a posição da mulher na sociedade era deprimente. O grego Sófocles havia dito que: “O silêncio confere graça a uma mulher”, já os rabinos que “Com respeito a ensinar a lei a uma mulher, o mesmo seria ensinar-lhe impiedade.” (BARCLAY, 1956, p. 136). O mundo greco-romano não conferia valor nenhum à mulher e no judaísmo não era diferente. É nesse contexto em que o NT é escrito. Barclay (1956, p. 134) nos chama a atenção para a observação de como era o culto na Igreja Primitiva. Existia uma “liberdade e uma informalidade” diferente dos nossos cultos atuais, pois não existia “pastores profissionais”, todo aquele que tinha o dom estava livre para usá-lo, a ordem no culto tinha uma flexibilidade. Não participava de um culto somente como ouvinte passivo. As mulheres no NT se destacavam por suas qualidades e virtudes e não por titularidade funcional, uma vez que essa institucionalização vem a posteriori. O contexto literário imediato dos versículos “esboça regras de conduta que promovem o culto ordeiro”, conforme nos relata Kistemaker (2003, p. 711). As profecias devem ser julgadas pelos ouvintes. Porém, Paulo impede as mulheres de julgarem as profecias dos homens. Para o Dr. Waldyr Carvalho Luz (2011, p. 44-49) essa é uma questão de “etiqueta feminina da época” e não uma “injunção teológica.” Quando faz apelo a Lei de forma genérica a Escritura, “ele tem em mente o relato de Gênesis 2.18-24, que ensina a ordem da criação na qual Adão foi criado primeiro e depois Eva como ajudadora de Adão. Desse relato, Paulo deduz o princípio de que a esposa é sujeita ao marido como ajudadora dele e é responsável perante ele”. (KISTEMAKER, 2003, p. 712). Paulo orienta as mulheres de Corinto a respeitarem seus maridos no culto, ficando em silêncio quando discordarem da profecia (pregação) dele e questioná-lo na privacidade do lar. Se a ordem de Paulo era para que as mulheres ficassem totalmente caladas nos cultos, teremos uma grande contradição com o capítulo 11.5: “Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse raspada.” Kistemaker (2003, p. 711) presume “que com os homens, as mulheres também cantavam salmos e hinos na igreja (14.26).” Paulo, jamais quis proibir a mulher de falar e adorar a Deus no culto uma vez que a passagem bíblica citada pelo autor traz além de salmos e hinos, doutrina, revelação, língua e interpretação. Ademais, não permitir que uma mulher fale, ensine ou pregue numa igreja é limitar a ação do Espírito Santo prometida no AT em Joel 2.28-29 e concretizada em Atos 2.17-18: E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, E os vossos velhos sonharão sonhos; E também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias, e profetizarão; Teríamos que ser honestos em afirmar que o dom do ensino e da pregação foi concedido somente aos homens, uma vez que no contexto amplo de 1 Coríntios, Paulo trata com os dons espirituais no capítulo 12. No compêndio da teologia paulina, os dons foram dados para a edificação da igreja. Teríamos também que diferenciar os dons espirituais. Exemplificaremos agora em Romanos 12, uns exclusivos para homens: profecia, ministrar, ensinar, exortar, presidir e outros para homens e mulheres: repartir e misericórdia. Fica a pergunta baseada em Efésios 4.11-12: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores. Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo.” Será mesmo que as mulheres também estão de fora dos dons ministeriais? Eu creio que não. Bibliografia KISTEMAKER, Simon. Exposição da Primeira Epístola aos Coríntios. SP: Cultura Cristã, 2003. BARCLAY, Willian. Comentário de 1 Coríntios. Trinidade College, 1956. FEE, Gordon. Comentário Exegético de 1 Coríntios. SP: Vida Nova, 2010. OMANSON, Roger. Variantes Textuais do Novo Testamento, Análise e Avaliação do Aparato Crítico de “O Novo Testamento Grego”. SP: SBB, 2010. LUZ, Waldyr. Ordenação feminina. Revista Ultimato. Viçosa, MG, Vol. 329, p. 44-49, Março-Abril de 2011.

Juliano Marlus
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29 de outubro de 2020 • 5 min. de leitura

Abandono e Esperança

Ao criar o mundo, conforme o relato bíblico de Gênesis capítulos 1 e 2, primeiramente Deus preparou um jardim como um lugar perfeito para colocar a “coroa” de sua criação, o ser humano. Criou também os animais. Quando tudo estava pronto, Deus fez um convite especial ao Filho e ao Espírito Santo para formarem o homem, descrito como: “disse Deus: façamos o homem conforme a nossa imagem, conforme nossa semelhança”. Em seguida, Deus formou a mulher. “Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; eu lhe farei uma ajudadora que lhe seja adequada”. Os seres recém-criados eram tão perfeitos que Deus resolveu que eles deveriam ser multiplicados e, assim, conforme Gênesis 04:1 e 2, a mulher deu à luz ao seu primeiro filho. Agora o plano estava completo. Tudo perfeitamente orquestrado e funcionando. O fator mais importante da criação certamente é que apenas o homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, diferentemente dos outros animais. Qual seria então o propósito para tal detalhe? Para que o homem pudesse se relacionar com Deus e com o próximo sendo que toda a humanidade teria a mesma origem. O sopro de Deus fez o homem e todos os seus descendentes seres viventes e capazes de se relacionar. Deus poderia criar todos os homens adultos (e também os animais), mas preferiu criá-los dependentes uns dos outros. Em especial o ser humano, pois este é o único ser que nasce dependente e permanece assim por um bom tempo, recebendo cuidados para depois então se tornarem independentes, ao contrário dos animais. Na viração do dia, Deus procurava o homem para saber “como estava indo”. Batiam então “aquele papo”. A criatura e o criador em perfeita comunhão. Fomos feitos então “à imagem e semelhança de Deus” para nos relacionar com Ele e com o próximo. Fomos feitos seres relacionáveis, de certa forma dependentes uns dos outros. Porém, no meio do caminho veio a “Queda” relatada em Gênesis capítulo 3, quando o homem cedeu à tentação e tomou o seu próprio caminho, independente de Deus. A promessa do inimigo é que ele seria igual a Deus; uma de suas primeiras mentiras contadas ao ser humano. Embora Deus nunca tenha abandonado o homem, mesmo tendo-o expulsado do Jardim perfeito, preparou um plano de redenção para trazer a criatura de volta ao criador, conforme relato em Gênesis 3:15, este tem se afastado cada vez mais do propósito original que é a comunhão, o relacionamento. No livro A criação restaurada, Albert Wolters escreveu: Deus persiste na sua criação original caída e a salva. Ele se recusa a abandonar a obra de suas mãos – de fato, ele sacrifica o próprio Filho para salvar o seu projeto original. A humanidade, que estragou o seu mandato original… recebe outra oportunidade em Cristo; somos restabelecidos como administradores de Deus sobre a terra. (São Paulo; Cultura Cristã, 2006, p. 80). Essa independência trouxe várias consequências, como podemos comprovar tanto no relato bíblico, como em nossa vida, em nosso cotidiano. Uma dessas consequências certamente é o “abandono”. Andando pelas ruas das cidades, vendo seres humanos, pessoas, feitas à imagem e semelhança de Deus, com o propósito principal de relacionar com ele e com os seus semelhantes, penso no estrago que a “independência”, o desejo de ser igual a Deus em tudo, provocou. Quantas pessoas abandonaram ou foram abandonadas pelos seus. Ou seja, a tentativa de ser independente não afetou somente a relação do homem com Deus, mas também com o seu semelhante, os animais e a natureza. Deus em sua infinita bondade e misericórdia trabalha incansavelmente para alcançar suas criaturas e torná-las seus filhos através do sacrifício de Jesus, como prometido em Gênesis 3:15. Como bem colocado por Randy Alcorn: “Em Gênesis, o Redentor é prometido; em Apocalipse, o Redentor retorna. Gênesis conta a história do Paraíso perdido; Apocalipse conta a história do Paraíso recuperado. Em Gênesis, o homem e a mulher caem como governantes da terra; em Apocalipse, a humanidade justa governa a nova terra, em lealdade ao Rei Jesus. Satanás e o pecado não irão frustrar o plano de Deus”. (O Romancista Romântico. Deus, vida e imaginação na obra de C.S.Lewis; p. 159). Não haverá mais “abandono”. As ruas serão ocupadas pelos remidos no sangue do cordeiro. A alegria será completa e a presença do Cordeiro nos fará esquecer toda a lágrima, todo o abandono. Esperamos com confiança a redenção dos homens e da natureza, como prometido desde o início por aquele que nos fez “conforme sua imagem e semelhança”, para que pudéssemos nos relacionar com ele. A Bíblia começa com um jardim e termina com um jardim, com o mesmo jardineiro. Isso é maravilhoso. Referências: A criação restaurada. Wolters Albert; São Paulo, SP. Cultura Cristã, 2º Edição, 2019. O Racionalista Romântico. Deus, vida e imaginação na obra de C.S.Lewis. Piper J; Mathis, David organizadores; Brasília, DF. Editora Monergismo, 1ª Edição, 2017. Bíblia Brasileira de Estudos Almeida Século 21. São Paulo, SP. Editora Hagnos, 1ª Edição, 2016.

Malena Clower
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