O preço de ir mais alto e chegar mais longe
11 de abril de 2019 • 6 min. de leitura

No dia 02 de Novembro de 2018, tive a experiência de subir a primeira montanha em minha vida. O Pico Caratuva, segundo maior pico do sul do Brasil. A inspiração veio de um aluno da Faculdade Teológica Betânia, onde trabalho, que aos 69 anos de idade, escala montanhas mundo a fora.
Depois de ouvir diversas de suas histórias, resolvi me desafiar também, e disse: “quero subir uma montanha, você me ajuda?”. No momento em que proferi aquelas palavras, não pensei muito bem nas implicações do projeto, pensei apenas em encarar um novo desafio, algo que nunca havia tentado. Entretanto, esta foi uma boa experiência e me trouxe na prática algumas lições que resolvi compartilhar nesse pequeno texto:
- Encarar novos desafios nos ajudam a crescer:
Encarar desafios, seja na vida pessoal, profissional ou onde quer que seja não é algo fácil e exige coragem, porém acredito também que seja uma ótima oportunidade de crescimento. É quando nos dispomos a sair da zona de conforto para aprender algo novo e isso normalmente nos faz crescer. Os desafios fazem parte da vida e se pretendemos estar acima da mediocridade precisamos estar dispostos a encará-los. Na vida e especialmente na liderança precisamos estar dispostos a encarar desafios, este é o preço de subir mais alto e chegar mais longe. Davi não se tornou o grande rei de Israel à toa, antes, estava disposto a encarar leões, ursos e um gigante (1Samuel 17: 34-37).
- Estar no alto exige sacrifício e esforço
Com essa experiência confirmei também a tese de que chegar ao alto exige sacrifício e muito esforço. Muitos querem estar no alto e contemplar belas paisagens, mas não podemos esquecer que, para isso, existe um preço a ser pago. Já no início da nossa empreitada na montanha percebi o quanto seria difícil chegar ao final; a falta de preparo físico já me deixou ofegante no pé do monte. Foi quando pensei pela primeira vez: acho que não vou dar conta, vai ser mais difícil do que imaginei. Porém, em poucos instantes lembrei-me que havia pedido ajuda ao meu amigo aventureiro e mais experiente, que prontamente havia se disposto a me levar. Também havia motivado outras pessoas a encararem o desafio junto comigo, então percebi que seria vergonhoso desistir naquela altura, ao experimentar as primeiras dificuldades. Contudo, este é o momento onde muitos desistem, quando começam a perceber o custo do sacrifício e do esforço para se conquistar algo.
Realmente foi mais difícil do que eu esperava, após quase 3 horas de caminhada montanha acima meu corpo todo e principalmente minhas pernas doíam muito e pareciam não ter mais forças para continuar, contudo ainda haviam mais 5 horas pela frente. A vontade era de voltar, desistir, mas nestes momentos me lembrava de outro princípio que procuro aplicar à minha vida, o que nos leva à próxima lição.
- Não desista até chegar ao ponto desejado.
Acredito que a perseverança é uma virtude fundamental em todas as áreas da vida. Ela é uma característica dos vencedores, pois escorregar, tropeçar e até mesmo cair, faz parte do percurso, mas os fortes continuam.
Isso me faz lembrar um versículo bíblico que me inspira muito nestes momentos: Tiago 1: 7-8, que diz: “Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos”. A perseverança é uma marca dos fortes e vencedores.
Por diversas vezes ao longo da nossa caminhada rumo ao topo do monte alguém escorregava, tropeçava e às vezes caia, mas em seguida se levantava e prosseguia, pois sabíamos qual era o nosso destino e estávamos dispostos a perseverar até alcançá-lo.
- Amigos que te ajudam a subir
Outra lição que aprendi com essa experiência é a importância de ter amigos que te ajudem a subir. Pessoas que te inspiram, te puxam para cima, te desafiam, ainda que sem palavras, a ir mais alto e mais longe. Foi isso que meu amigo provocou com seu exemplo. Isso me faz lembrar também uma passagem bíblica descrita no evangelho de Marcos 2: 1-12, onde 4 amigos carregaram um paralítico até o telhado do lugar onde Jesus estava para que pudesse ser curado. O que mais me chama atenção neste texto são os amigos deste paralítico. Eles não desistiram diante do primeiro obstáculo, foram perseverantes e ajudaram seu amigo a chegar a um lugar onde ele jamais poderia chegar sozinho. De modo semelhante meu amigo aventureiro não só nos inspirou mas também nos ajudou a subir a montanha. Seus conselhos e experiência foram fundamentais durante o percurso, pois sabíamos que ele já havia estado lá.
Na vida também precisamos buscar estar perto de pessoas que nos inspiram, nos provocam a ser melhor, a subir um novo degrau, conhecer novos lugares, contemplar novas paisagens. Não falo de relacionamentos utilitários, porque também devemos procurar ser estas pessoas e buscar ajudar aqueles que nos cercam, a crescer. Mas, sinceramente, acredito que estar perto de pessoas “grandes” nos ajudam a crescer. Grandes em fé, em coragem, em liderança, em bondade… Como disse o grande empreendedor Jim Rohn: “Você é a média das cinco pessoas com quem mais convive”
- A importância do preparo
Por fim, algo que ficou muito claro também nesta aventura foi a importância do preparo, neste caso, o preparo físico. Em função da grande perseverança que tivemos, a falta de preparo não chegou a inviabilizar o projeto, o que poderia ter acontecido, mas provocou um desgaste muito maior que o necessário. Durante as várias paradas que precisávamos fazer, enquanto estávamos ofegantes, percebia a condição física muito mais tranquila do meu amigo alpinista, apesar de ser 30 anos mais velho. De fato, ele está constantemente se preparando, corre maratonas, frequenta academia regularmente e já subiu diversas montanhas.
O preparo é fundamental se queremos subir ou chegar mais longe em qualquer área da vida. Um versículo de Eclesiastes 10:10 diz: “Se o machado está cego e sua lâmina não foi afiada, é preciso golpear com mais força; agir com sabedoria assegura o sucesso. (NVI).” Podemos pensar no ato de afiar o machado como o preparo. Se não há preparo, qualquer desafio será muito mais penoso, ou poderá até mesmo fracassar pela falta dele.
Já estamos pensando em novos desafios, um novo pico para subir, mas algo que determinei antes da nova empreitada é me preparar fisicamente para um novo desafio. O preparo é fundamental para o sucesso de qualquer projeto que almeja a excelência. Podemos até conseguir algum êxito sem o preparo, mas o desgaste e risco de frustração é muito maior, não vale a pena!
Portanto, busque sempre o preparo, oportunidades de aprender, adquirir novas competências, crescer! Esteja disposto a encarar desafios, mesmo que eles exijam esforço e até algum sacrifício. Não desista até alcançar seu objetivo, seja perseverante e invista em relacionamentos que te desafiam a ser melhor. Busque estar perto de pessoas que te ajudem a crescer. Procure também ser esta pessoa sempre que puder. Pois como diz Provérbios 13:20: Aquele que anda com os sábios será cada vez mais sábio, mas o companheiro dos tolos acabará mal (NVI)…
Estas foram algumas lições que tirei da experiência da montanha!

9 de setembro de 2020 • 4 min. de leitura
Proposta para Tempo de Crise – Abordagem Histórica
Quando falamos sobre a epidemia em que estamos vivendo geralmente lembramos de outras no passado, como por exemplo, as pestes medievais. A epidemia de peste atingia uma cidade aproximadamente a cada dez anos entre os séculos XIV e XVIII. A taxa de mortalidade era de 60 a 90% (um a três% no Covid-19), o que era particularmente terrível. Assim como na epidemia de peste negra, bem como em outras, os cristãos tiveram atitudes formidáveis e relevantes no meio da sociedade. O livro Crescimento do Cristianismo apresenta várias razões pelas quais o Cristianismo foi convincente: as epidemias contribuíram significativamente para a causa cristã (STARK, p.88). O Cristianismo se adaptou às tribulações em que a adversidade, a enfermidade e a morte violenta geralmente prevaleciam (STARK, p.94). Os cristãos cuidavam dos enfermos, eram infectados e morriam por eles. Depois estes curados se tornavam cristãos. A situação se desenvolveu a tal ponto que o imperador que quis reimplantar as religiões pré-cristãs no Império Romano, Juliano, o apóstata, em 362 d.C. avaliou o que então percebia, dizendo: “Os cristãos cuidam não apenas dos seus doentes, mas também dos nossos. Todo mundo pode ver que nosso povo não conta com nossa ajuda” (apud STARK, p.97). O sociólogo conclui então que, no século IV d.C., “esperava-se que o Cristianismo operasse com júbilo na assistência aos enfermos, aos inválidos e aos dependentes” (STARK, 2006, p.199). Diante disso, gostaria de elencar pessoas chaves que fizeram a diferença em seu meio e diante das crises: A visão de Martinho Lutero A pergunta é se era aceitável fugir como cristão. Lutero respondeu a seu colega John Hus, visto que em 1527 Wittenberg foi atingida pela praga e as aulas foram transferidas para uma cidade não afetada. Lutero se recusou a sair. Em vez disso, ele decidiu cuidar dos doentes e moribundos e transformou sua casa em um hospital improvisado. Lutero disse: “Ao crer em Deus e por amor ao próximo, os cristãos devem primeiro pensar em como podem contribuir para o cuidado físico e espiritual dos fracos, isolados, doentes ou moribundos”. Só então Lutero permitiu que os cristãos tomassem decisões privadas sobre a possibilidade de fugir. O Salmo 41 era a base orientadora para Lutero: “Bem-aventurado aquele que cuida dos fracos! O Senhor o salvará nos maus momentos.” Portanto: “quem cuida de uma pessoa doente (…) que faz isso com essa promessa consoladora, (…) ele tem grande consolo aqui. (…) Deus mesmo quer ser seu guardião e seu médico também.” Frederico von Bodelschwingh e a Missão de Bethel Frederico, enquanto estudante, envolveu-se com os mendigos vendo a situação sub-humana em que viviam. Em 1869, de 12 a 25 de janeiro, faleceram 4 de seus filhos. Em 1872 foi convidado a assumir o lar de epiléticos de Bethel. Para ele, a fé infantil de um doente mental ou de um agricultor epilético era a experiência que superava tudo o que a Universidade poderia oferecer. Os epiléticos eram vistos como doentes mentais nessa época. Bodelschwingh entendia que ali não se estava em frente à miséria, mas no meio dela. Isto é o que o anunciador da Palavra de Deus deveria aprender, para depois à frente da igreja ser um bom exemplo e tornar outros solícitos para todo tipo de serviço cristão. A missão possui um hospital psiquiátrico diaconal protestante em Bethel, antiga cidade, hoje um bairro de Bielefeld, na Alemanha . Quem vinha com alguma dor falar com Bodelschwingh, nunca saía inconsolado. Algo cada um recebia. Para ele, as pessoas precisam ser valorizadas como são. O amor não estabelece pré-requisitos. O amor deve persistir. Na obra missionária, os desafios eram assumidos por todos. Assim aconteceu a construção de albergues, colônia para desempregados, casa para trabalhadores da cidade. Bodelschwingh tornou-se deputado para trazer benefícios legais aos que estavam mendigando. Queria que o pequeno tivesse sua própria casa e pedaço de terra para plantar. A visão escatológica era que tudo será destruído quando Jesus voltar, com exceção do que foi feito de acordo com a vontade de Deus. O trabalho entre os pobres e insignificantes está entre a exceção, pois Cristo se identifica com os sofredores. Somente quem valoriza e age para o melhoramento desse mundo saberá valorizar e agir com vistas ao vindouro. E esta visão teve consequências nas outras gerações.

13 de janeiro de 2021 • 5 min. de leitura
Afinal a mulher pode ou não ensinar no culto? Um estudo à luz de 1 Coríntios 14.33-34
Mesmo em dias hodiernos a mulher ainda sofre, além da violência, com preconceitos ministeriais e profissionais, e não estamos analisando uma cultura mais tradicional e conservadora como em países influenciados pela religião islâmica. Denominações cristãs evangélicas ocidentais ainda proíbem as mulheres de ensinarem nas igrejas. Nossa tarefa será fazer uma breve análise do texto de 1 Coríntios 14.33-35: 34 As mulheres estejam caladas nas igrejas, porque lhes não é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. 35 E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é indecente que as mulheres falem na igreja. O estudo da crítica textual nos informa que alguns manuscritos chegam a colocar os versículos 34 ao 35 no final do capítulo 14 depois do versículo 40. (OMANSON, 2010, p. 355). Já Gordon Fee (2019, p. 853) classifica essa passagem como: “[…] passagem espúria (v. 33,34) que conseguiu se aninhar na tradição manuscrita, tendo sido inserida nesse ponto na maioria dos textos remanescentes […]”, ou seja, o autor se nega a comentar esses versículos em sua obra, pois para ele não tem valia nem mesmo como uma interpolação. Todavia, o breve estudo abordará os versículos dentro do seu contexto histórico-cultural e literário partindo do pressuposto como parte integrante do NT, independente de sua colocação nos manuscritos antigos. Não se pode deixar de lado os aspectos culturais da época, a posição da mulher na sociedade era deprimente. O grego Sófocles havia dito que: “O silêncio confere graça a uma mulher”, já os rabinos que “Com respeito a ensinar a lei a uma mulher, o mesmo seria ensinar-lhe impiedade.” (BARCLAY, 1956, p. 136). O mundo greco-romano não conferia valor nenhum à mulher e no judaísmo não era diferente. É nesse contexto em que o NT é escrito. Barclay (1956, p. 134) nos chama a atenção para a observação de como era o culto na Igreja Primitiva. Existia uma “liberdade e uma informalidade” diferente dos nossos cultos atuais, pois não existia “pastores profissionais”, todo aquele que tinha o dom estava livre para usá-lo, a ordem no culto tinha uma flexibilidade. Não participava de um culto somente como ouvinte passivo. As mulheres no NT se destacavam por suas qualidades e virtudes e não por titularidade funcional, uma vez que essa institucionalização vem a posteriori. O contexto literário imediato dos versículos “esboça regras de conduta que promovem o culto ordeiro”, conforme nos relata Kistemaker (2003, p. 711). As profecias devem ser julgadas pelos ouvintes. Porém, Paulo impede as mulheres de julgarem as profecias dos homens. Para o Dr. Waldyr Carvalho Luz (2011, p. 44-49) essa é uma questão de “etiqueta feminina da época” e não uma “injunção teológica.” Quando faz apelo a Lei de forma genérica a Escritura, “ele tem em mente o relato de Gênesis 2.18-24, que ensina a ordem da criação na qual Adão foi criado primeiro e depois Eva como ajudadora de Adão. Desse relato, Paulo deduz o princípio de que a esposa é sujeita ao marido como ajudadora dele e é responsável perante ele”. (KISTEMAKER, 2003, p. 712). Paulo orienta as mulheres de Corinto a respeitarem seus maridos no culto, ficando em silêncio quando discordarem da profecia (pregação) dele e questioná-lo na privacidade do lar. Se a ordem de Paulo era para que as mulheres ficassem totalmente caladas nos cultos, teremos uma grande contradição com o capítulo 11.5: “Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse raspada.” Kistemaker (2003, p. 711) presume “que com os homens, as mulheres também cantavam salmos e hinos na igreja (14.26).” Paulo, jamais quis proibir a mulher de falar e adorar a Deus no culto uma vez que a passagem bíblica citada pelo autor traz além de salmos e hinos, doutrina, revelação, língua e interpretação. Ademais, não permitir que uma mulher fale, ensine ou pregue numa igreja é limitar a ação do Espírito Santo prometida no AT em Joel 2.28-29 e concretizada em Atos 2.17-18: E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, E os vossos velhos sonharão sonhos; E também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias, e profetizarão; Teríamos que ser honestos em afirmar que o dom do ensino e da pregação foi concedido somente aos homens, uma vez que no contexto amplo de 1 Coríntios, Paulo trata com os dons espirituais no capítulo 12. No compêndio da teologia paulina, os dons foram dados para a edificação da igreja. Teríamos também que diferenciar os dons espirituais. Exemplificaremos agora em Romanos 12, uns exclusivos para homens: profecia, ministrar, ensinar, exortar, presidir e outros para homens e mulheres: repartir e misericórdia. Fica a pergunta baseada em Efésios 4.11-12: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores. Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo.” Será mesmo que as mulheres também estão de fora dos dons ministeriais? Eu creio que não. Bibliografia KISTEMAKER, Simon. Exposição da Primeira Epístola aos Coríntios. SP: Cultura Cristã, 2003. BARCLAY, Willian. Comentário de 1 Coríntios. Trinidade College, 1956. FEE, Gordon. Comentário Exegético de 1 Coríntios. SP: Vida Nova, 2010. OMANSON, Roger. Variantes Textuais do Novo Testamento, Análise e Avaliação do Aparato Crítico de “O Novo Testamento Grego”. SP: SBB, 2010. LUZ, Waldyr. Ordenação feminina. Revista Ultimato. Viçosa, MG, Vol. 329, p. 44-49, Março-Abril de 2011.

29 de outubro de 2020 • 5 min. de leitura
Abandono e Esperança
Ao criar o mundo, conforme o relato bíblico de Gênesis capítulos 1 e 2, primeiramente Deus preparou um jardim como um lugar perfeito para colocar a “coroa” de sua criação, o ser humano. Criou também os animais. Quando tudo estava pronto, Deus fez um convite especial ao Filho e ao Espírito Santo para formarem o homem, descrito como: “disse Deus: façamos o homem conforme a nossa imagem, conforme nossa semelhança”. Em seguida, Deus formou a mulher. “Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; eu lhe farei uma ajudadora que lhe seja adequada”. Os seres recém-criados eram tão perfeitos que Deus resolveu que eles deveriam ser multiplicados e, assim, conforme Gênesis 04:1 e 2, a mulher deu à luz ao seu primeiro filho. Agora o plano estava completo. Tudo perfeitamente orquestrado e funcionando. O fator mais importante da criação certamente é que apenas o homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, diferentemente dos outros animais. Qual seria então o propósito para tal detalhe? Para que o homem pudesse se relacionar com Deus e com o próximo sendo que toda a humanidade teria a mesma origem. O sopro de Deus fez o homem e todos os seus descendentes seres viventes e capazes de se relacionar. Deus poderia criar todos os homens adultos (e também os animais), mas preferiu criá-los dependentes uns dos outros. Em especial o ser humano, pois este é o único ser que nasce dependente e permanece assim por um bom tempo, recebendo cuidados para depois então se tornarem independentes, ao contrário dos animais. Na viração do dia, Deus procurava o homem para saber “como estava indo”. Batiam então “aquele papo”. A criatura e o criador em perfeita comunhão. Fomos feitos então “à imagem e semelhança de Deus” para nos relacionar com Ele e com o próximo. Fomos feitos seres relacionáveis, de certa forma dependentes uns dos outros. Porém, no meio do caminho veio a “Queda” relatada em Gênesis capítulo 3, quando o homem cedeu à tentação e tomou o seu próprio caminho, independente de Deus. A promessa do inimigo é que ele seria igual a Deus; uma de suas primeiras mentiras contadas ao ser humano. Embora Deus nunca tenha abandonado o homem, mesmo tendo-o expulsado do Jardim perfeito, preparou um plano de redenção para trazer a criatura de volta ao criador, conforme relato em Gênesis 3:15, este tem se afastado cada vez mais do propósito original que é a comunhão, o relacionamento. No livro A criação restaurada, Albert Wolters escreveu: Deus persiste na sua criação original caída e a salva. Ele se recusa a abandonar a obra de suas mãos – de fato, ele sacrifica o próprio Filho para salvar o seu projeto original. A humanidade, que estragou o seu mandato original… recebe outra oportunidade em Cristo; somos restabelecidos como administradores de Deus sobre a terra. (São Paulo; Cultura Cristã, 2006, p. 80). Essa independência trouxe várias consequências, como podemos comprovar tanto no relato bíblico, como em nossa vida, em nosso cotidiano. Uma dessas consequências certamente é o “abandono”. Andando pelas ruas das cidades, vendo seres humanos, pessoas, feitas à imagem e semelhança de Deus, com o propósito principal de relacionar com ele e com os seus semelhantes, penso no estrago que a “independência”, o desejo de ser igual a Deus em tudo, provocou. Quantas pessoas abandonaram ou foram abandonadas pelos seus. Ou seja, a tentativa de ser independente não afetou somente a relação do homem com Deus, mas também com o seu semelhante, os animais e a natureza. Deus em sua infinita bondade e misericórdia trabalha incansavelmente para alcançar suas criaturas e torná-las seus filhos através do sacrifício de Jesus, como prometido em Gênesis 3:15. Como bem colocado por Randy Alcorn: “Em Gênesis, o Redentor é prometido; em Apocalipse, o Redentor retorna. Gênesis conta a história do Paraíso perdido; Apocalipse conta a história do Paraíso recuperado. Em Gênesis, o homem e a mulher caem como governantes da terra; em Apocalipse, a humanidade justa governa a nova terra, em lealdade ao Rei Jesus. Satanás e o pecado não irão frustrar o plano de Deus”. (O Romancista Romântico. Deus, vida e imaginação na obra de C.S.Lewis; p. 159). Não haverá mais “abandono”. As ruas serão ocupadas pelos remidos no sangue do cordeiro. A alegria será completa e a presença do Cordeiro nos fará esquecer toda a lágrima, todo o abandono. Esperamos com confiança a redenção dos homens e da natureza, como prometido desde o início por aquele que nos fez “conforme sua imagem e semelhança”, para que pudéssemos nos relacionar com ele. A Bíblia começa com um jardim e termina com um jardim, com o mesmo jardineiro. Isso é maravilhoso. Referências: A criação restaurada. Wolters Albert; São Paulo, SP. Cultura Cristã, 2º Edição, 2019. O Racionalista Romântico. Deus, vida e imaginação na obra de C.S.Lewis. Piper J; Mathis, David organizadores; Brasília, DF. Editora Monergismo, 1ª Edição, 2017. Bíblia Brasileira de Estudos Almeida Século 21. São Paulo, SP. Editora Hagnos, 1ª Edição, 2016.
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