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O que era Perfeito e Agradável tornou-se Repugnante

Raimunda Alves
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1 de janeiro de 2020 • 4 min. de leitura

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Há um empreendimento no bairro onde moro que é muito bonito. Fica bem na esquina de uma das ruas principais; e a fachada é toda em vidro, contém dois andares, é um belo imóvel. Encontra-se para locação, faz algum tempo. Há no quintal deste imóvel um cachorro; acredito que esteja ali, como protetor daquele local. Cada dia que passa aquele animal faz suas necessidades naquele espaço, e conforme os dias, semanas e meses vão passando, a sujeira vai tomando conta do “pedaço” e aquele cão mal consegue se movimentar, seu espaço vai se reduzindo a cada dia e ele está ficando praticamente encarcerado no meio daqueles estrumes.

A esta altura o imóvel que antes chamava atenção por sua beleza, agora é destacado pela sujeira e pela podridão.

Isso nos leva a refletir sobre o pecado, que age da mesma maneira em nossas vidas. Nesta analogia somos o empreendimento, que é bonito, bem visado, com todos os requisitos para ser locado e habitado por um ser maravilhoso, o Espírito Santo.

Mas acabamos por deixar o pecado habitar ali, ele vai sujando este local, permitindo que essa sujeira vá se alastrando até um ponto em que ficamos aprisionados.

Aquele edifício, que antes recebia visitas, e era admirado por todos que passavam por ali, agora naquele estado, com toda aquela sujeira não recebe mais ninguém. Assim é o pecado, nos separa de Deus, das pessoas que amamos, nos isola, nos afunda a solidão, com um enorme vazio no peito. Temos em nós a falsa impressão de que: a vida é nossa, o corpo é nosso, o espaço é nosso e achamos que temos o direito de colocar quem quisermos para morar em nós, mas, a verdade é que dando lugar ao pecado, acabamos nos tornando refém dele, aprisionados a ele.

Outro detalhe, é que, o imóvel mesmo sendo alto e sua beleza podendo ser evidenciada ao olhar para cima, o que chama atenção agora é o que está no chão.

Isto remete a nós quando estamos aprisionados no pecado, em nossa sujeira espiritual, por mais que falamos de Deus, o que vem à tona e o que chama atenção não será o Deus que pregamos, e de quem falamos, e que está no alto, mas sim o pecado que cometemos que está ao nosso redor. As pessoas vão olhar para os nossos erros, nossas falhas. O Deus que pregamos deve ser evidenciado primeiramente em nós, nas nossas vidas, e ao ver os frutos dignos de arrependimento em nós, automaticamente vão olhar para cima, para Deus, e glorificar o Seu nome.

Outra coisa cruel, é que o próprio edifício não pode por seus meios limpar a sujeira que ali foi colocada, ele está refém das consequências de seus atoś de “liberdade”. Não foi ele, e sim, alguém que colocou o cachorro ali. O cachorro fora colocado ali com intuito de guardar aquele lugar. Mas quem o colocou ali não deu a assistência devida, os cuidados adequados. É necessário que alguém entre ali, limpe a bagunça, limpe o terreno, e deixe o imóvel atrativo novamente.

Nós que estávamos espiritualmente mortos em nossos pecados, aprisionados e sem condições nenhuma de voltar a vida por nossos próprios meios, fomos resgatados por aquele que nos ama desde a fundaçăo do mundo. Ele entrou em nossas vidas, limpou nossas sujeiras, sarou o nosso coração corrompido e passou a habitar em nós, nos fez uma nova criatura e a beleza que ele tinha projetado em nós quando nos criou, passou a ser vista novamente. Aquilo que estava sujo, nojento, indesejável, agora tem aparência, é desejado, chama atenção, e novamente estamos prontos para relacionarmos com aqueles que não se aproximavam mais de nós, sabe por quê? Porque somos novas criaturas transformadas e restauradas por Deus, o pecado já näo habita mais em nós, já temos comunhão com Ele e com nosso próximo. E agora é o Espírito Santo que habita em nós.

“Não por causa de alguma atitude justa que pudéssemos ter praticado, mas devido à sua bondade, ele nos salvou por meio do lavar regenerador e renovador do Espírito Santo.” (Tito 3:5)

Ao iniciar um novo ano, que possamos nos aproximar mais Dele, nos reconciliar com Ele, deixando para trás, tudo o que nos separa do seu amor, vivendo para Ele e por meio Dele, mediante a sua infinita graça.

Raimunda Alves
Graduanda em teologia na Faculdade Teológica Betânia.
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11 de abril de 2019 • 6 min. de leitura

O preço de ir mais alto e chegar mais longe

No dia 02 de Novembro de 2018, tive a experiência de subir a primeira montanha em minha vida. O Pico Caratuva, segundo maior pico do sul do Brasil. A inspiração veio de um aluno da Faculdade Teológica Betânia, onde trabalho, que aos 69 anos de idade, escala montanhas mundo a fora. Depois de ouvir diversas de suas histórias, resolvi me desafiar também, e disse: “quero subir uma montanha, você me ajuda?”. No momento em que proferi aquelas palavras, não pensei muito bem nas implicações do projeto, pensei apenas em encarar um novo desafio, algo que nunca havia tentado. Entretanto, esta foi uma boa experiência e me trouxe na prática algumas lições que resolvi compartilhar nesse pequeno texto: 1. Encarar novos desafios nos ajudam a crescer: Encarar desafios, seja na vida pessoal, profissional ou onde quer que seja não é algo fácil e exige coragem, porém acredito também que seja uma ótima oportunidade de crescimento. É quando nos dispomos a sair da zona de conforto para aprender algo novo e isso normalmente nos faz crescer. Os desafios fazem parte da vida e se pretendemos estar acima da mediocridade precisamos estar dispostos a encará-los. Na vida e especialmente na liderança precisamos estar dispostos a encarar desafios, este é o preço de subir mais alto e chegar mais longe. Davi não se tornou o grande rei de Israel à toa, antes, estava disposto a encarar leões, ursos e um gigante (1Samuel 17: 34-37). 2. Estar no alto exige sacrifício e esforço Com essa experiência confirmei também a tese de que chegar ao alto exige sacrifício e muito esforço. Muitos querem estar no alto e contemplar belas paisagens, mas não podemos esquecer que, para isso, existe um preço a ser pago. Já no início da nossa empreitada na montanha percebi o quanto seria difícil chegar ao final; a falta de preparo físico já me deixou ofegante no pé do monte. Foi quando pensei pela primeira vez: acho que não vou dar conta, vai ser mais difícil do que imaginei. Porém, em poucos instantes lembrei-me que havia pedido ajuda ao meu amigo aventureiro e mais experiente, que prontamente havia se disposto a me levar. Também havia motivado outras pessoas a encararem o desafio junto comigo, então percebi que seria vergonhoso desistir naquela altura, ao experimentar as primeiras dificuldades. Contudo, este é o momento onde muitos desistem, quando começam a perceber o custo do sacrifício e do esforço para se conquistar algo. Realmente foi mais difícil do que eu esperava, após quase 3 horas de caminhada montanha acima meu corpo todo e principalmente minhas pernas doíam muito e pareciam não ter mais forças para continuar, contudo ainda haviam mais 5 horas pela frente. A vontade era de voltar, desistir, mas nestes momentos me lembrava de outro princípio que procuro aplicar à minha vida, o que nos leva à próxima lição. 3. Não desista até chegar ao ponto desejado. Acredito que a perseverança é uma virtude fundamental em todas as áreas da vida. Ela é uma característica dos vencedores, pois escorregar, tropeçar e até mesmo cair, faz parte do percurso, mas os fortes continuam. Isso me faz lembrar um versículo bíblico que me inspira muito nestes momentos: Tiago 1: 7-8, que diz: “Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos”. A perseverança é uma marca dos fortes e vencedores. Por diversas vezes ao longo da nossa caminhada rumo ao topo do monte alguém escorregava, tropeçava e às vezes caia, mas em seguida se levantava e prosseguia, pois sabíamos qual era o nosso destino e estávamos dispostos a perseverar até alcançá-lo. 4. Amigos que te ajudam a subir Outra lição que aprendi com essa experiência é a importância de ter amigos que te ajudem a subir. Pessoas que te inspiram, te puxam para cima, te desafiam, ainda que sem palavras, a ir mais alto e mais longe. Foi isso que meu amigo provocou com seu exemplo. Isso me faz lembrar também uma passagem bíblica descrita no evangelho de Marcos 2: 1-12, onde 4 amigos carregaram um paralítico até o telhado do lugar onde Jesus estava para que pudesse ser curado. O que mais me chama atenção neste texto são os amigos deste paralítico. Eles não desistiram diante do primeiro obstáculo, foram perseverantes e ajudaram seu amigo a chegar a um lugar onde ele jamais poderia chegar sozinho. De modo semelhante meu amigo aventureiro não só nos inspirou mas também nos ajudou a subir a montanha. Seus conselhos e experiência foram fundamentais durante o percurso, pois sabíamos que ele já havia estado lá. Na vida também precisamos buscar estar perto de pessoas que nos inspiram, nos provocam a ser melhor, a subir um novo degrau, conhecer novos lugares, contemplar novas paisagens. Não falo de relacionamentos utilitários, porque também devemos procurar ser estas pessoas e buscar ajudar aqueles que nos cercam, a crescer. Mas, sinceramente, acredito que estar perto de pessoas “grandes” nos ajudam a crescer. Grandes em fé, em coragem, em liderança, em bondade… Como disse o grande empreendedor Jim Rohn: “Você é a média das cinco pessoas com quem mais convive” 5. A importância do preparo Por fim, algo que ficou muito claro também nesta aventura foi a importância do preparo, neste caso, o preparo físico. Em função da grande perseverança que tivemos, a falta de preparo não chegou a inviabilizar o projeto, o que poderia ter acontecido, mas provocou um desgaste muito maior que o necessário. Durante as várias paradas que precisávamos fazer, enquanto estávamos ofegantes, percebia a condição física muito mais tranquila do meu amigo alpinista, apesar de ser 30 anos mais velho. De fato, ele está constantemente se preparando, corre maratonas, frequenta academia regularmente e já subiu diversas montanhas. O preparo é fundamental se queremos subir ou chegar mais longe em qualquer área da vida. Um versículo de Eclesiastes 10:10 diz: “Se o machado está cego e sua lâmina não foi afiada, é preciso golpear com mais força; agir com sabedoria assegura o sucesso. (NVI).” Podemos pensar no ato de afiar o machado como o preparo. Se não há preparo, qualquer desafio será muito mais penoso, ou poderá até mesmo fracassar pela falta dele. Já estamos pensando em novos desafios, um novo pico para subir, mas algo que determinei antes da nova empreitada é me preparar fisicamente para um novo desafio. O preparo é fundamental para o sucesso de qualquer projeto que almeja a excelência. Podemos até conseguir algum êxito sem o preparo, mas o desgaste e risco de frustração é muito maior, não vale a pena! Portanto, busque sempre o preparo, oportunidades de aprender, adquirir novas competências, crescer! Esteja disposto a encarar desafios, mesmo que eles exijam esforço e até algum sacrifício. Não desista até alcançar seu objetivo, seja perseverante e invista em relacionamentos que te desafiam a ser melhor. Busque estar perto de pessoas que te ajudem a crescer. Procure também ser esta pessoa sempre que puder. Pois como diz Provérbios 13:20: Aquele que anda com os sábios será cada vez mais sábio, mas o companheiro dos tolos acabará mal (NVI)… Estas foram algumas lições que tirei da experiência da montanha!

Lidiane Souza
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18 de maio de 2022 • 4 min. de leitura

O dilema de amar a si mesmo!

“Você ama a si mesmo?” Pois bem, excepcionalmente nas reuniões e redes sociais daqueles que são vítimas da carência, do narcisismo, ou de um relacionamento abusivo, esta pergunta sempre vem acompanhada da afirmação: “Não se submeta a……..tenha AMOR PRÓPRIO”! Ame a si mesmo! Assim, o conceito de amor próprio pode parecer idealista e romântico demais para aqueles que não percebem o perigo nestas palavras, haja vista que, como disse C.S. Lewis, todo amor que se torna um “deus”, da mesma forma, torna-se um demônio; e o amor próprio não escapa desta premissa! A inconsistência desta afirmação (não se submeta a….tenha amor próprio) se revela diante do Cristo do Evangelho, que mesmo podendo evitar, submeteu-se a torturas, humilhações, abandonos e até mesmo cuspidas em sua face. Ora, pergunto-lhe, Jesus amava a si mesmo? Qualquer um que tenha sanidade mental responderia: É óbvio! Contudo, como sustentar o castelo de “princesinhas e principezinhos” que em nome de seu “amor próprio” vivem afirmando: “Eu não aceito qualquer coisa”? É assustador perceber como Lewis estava certo ao afirmar que todo amor pode tornar-se demônio; diante de nossa realidade, onde, em nome de amor próprio criam-se guerras de todos os tipos, feridas de todos os tipos, desavenças, divisões, e já não sabem mais diferenciar o que seria amor próprio de idolatria do próprio “Eu” ou do próprio EGO! Em nome de “amar” a si mesmo, o AMOR desaparece! Em nome de “amar” a si mesmo, o AMOR é sepultado, dando lugar à ira, e trazendo vida aos irmãos siameses, a saber: Egoísmo e Individualismo! Distantes demais do AMOR de Jesus, eles “amam a si mesmos”! E, por amarem a si mesmos, vão jogando na lata do lixo à beira da estrada tudo o que seu amor próprio é incapaz de suportar, perdoar, abraçar ou compreender! Constatando o pequeno limiar entre amor próprio e idolatria do Ego, em nosso tempo, é preciso reacender nos corações o verdadeiro significado de “Amar a si mesmo”, para que este amor não continue tornando-se ‘demônio’ no coração de muitos! Enquanto o amor segundo Jesus, afirma: “O amor tudo suporta”, o grito dos EGOCÊNTRicos (Ego no centro), diz: “Você não é obrigado a suportar, se dê valor”! Enquanto o amor segundo Jesus afirma nos corações: “O amor tudo sofre”, os EGOCÊNTRicos gritam aos telhados: “Você merece mais!” De cara, diante do Evangelho, desaparecem os dois maiores pressupostos dos que dizem se amar, e são elas: 1 – Você é especial, 2 – Você merece; posto que, o Evangelho nos diz: “Você é mau, você não merece nada”! E é diante desta convicção que nasce o que realmente é amor próprio: A convicção de que Deus nos ama, apesar do que somos e em detrimento do que tentamos ser! Pois bem, percebe Cristo afirmou: “Ame o próximo como EU lhe amei!” O mandamento precede uma realidade: Você é amado! E a partir desta realidade, nasce o mandato de Cristo: “Ame, assim como você, por mim, é amado”! Toda relação de amor genuíno nasce da convicção de que sou verdadeiramente amado, e amado por aquele que jamais deixará de me amar com o amor eterno, perfeito, imutável, indescritível, imensurável! A escritura nos afirma: “Ele nos amou primeiro”. A convicção de que sou amado precede a toda entrega de amor! Primeiro sei que sou amado, depois amo! Carência, narcisismo, ansiedade, egoísmo, individualismo, orgulho, são incapazes de resistir ao evangelho que ininterruptamente grita: “Vocês são maus e não há nada em vós mesmos que lhe façam merecer alguma coisa, contudo, EU lhes amo, com tudo o que sou!” A paz que brota deste amor próprio, é a paz que se submete, que se entrega, que compreende, que perdoa, que tudo sofre, que tudo suporta, mas que, não é tola, tudo discerne e não se permite estar numa relação, seja de qual natureza for, onde o amor genuíno não tem liberdade e paz para reinar; paz que também sabe o momento e as ocasiões apropriadas de se afastar, não por narcisismo e seus camaradas, muito menos por dizer que “mereço mais”, mas um afastamento por amor! Amor que traz a convicção de que tal relação (conjugal, profissional, social) se inviabilizou por estar, de modo deliberado, levando o verdadeiro amor a morrer! Assim, é impossível criar padrões para vos definir o que fazer, quando fazer, e como fazer, mas a direção sempre estará lá, na consciência daqueles que tem a convicção de que Deus lhes ama, e que, por essa convicção, amam profundamente seu próximo! O Senhor estará lá…! Assim, abandone agora, toda raiz de “amor próprio” apodrecido, que lhe ensinaram, e entregue-se ao Deus do Evangelho que, por ser puramente AMOR, lhe ensinará amar, tanto a si mesmo como aos outros!

Luiz Henrique Silva dos Santos
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25 de novembro de 2020 • 6 min. de leitura

Jesus e as Mulheres

Jesus disse que quando fosse levantado da terra a todos iria atrair a si (Jo. 12.32). Jesus falou isto referindo-se à sua cruz. Mas muito antes, muito antes da cruz, Jesus atraía as pessoas. O poder de atração de Jesus era enorme. Chama a nossa atenção, salta à vista, se destaca enormemente, o poder de atração que Jesus exercia sobre as mulheres. Ele as atraía como o mel atrai as abelhas, como a flor os colibris. As mulheres ficavam cativadas por Jesus como os planetas que giram na órbita do sol. E não era pelo fato de ser bonito. A única descrição física que temos de Jesus é na palavra profética de Isaías: “Olhamos para ele e não tinha nenhuma beleza que nos agradasse”. Por que Jesus exercia esta atração sobre as mulheres? Certamente uma das razões, senão a mais importante, é que as mulheres se sentiam amadas, acolhidas, compreendidas e valorizadas por Jesus. Na sociedade judaica da época as mulheres tinham pouco valor. Elas estavam limitadas, bloqueadas. Eram desvalorizadas. A teóloga católica Maria Bingemer diz que “a mulher, no judaísmo do tempo de Jesus, era considerada social e religiosamente inferior”. Citando Leonardo Boff ela explica que isto se devia, “Primeiro, por não ser circuncidada e, por conseguinte, não pertencer propriamente à Aliança com Deus; depois pelos rigorosos preceitos de purificação aos quais estava obrigada por causa da sua condição biológica de mulher; e, finalmente, porque personificava a Eva com toda a carga pejorativa que se lhe agregava”. Mas não era assim apenas no judaísmo. Esta desvalorização da mulher tinha um caráter quase universal. Stanley Jones, o grande missionário metodista que trabalhou na Índia e que conhecia profundamente o hinduísmo e o budismo, explica que, “tanto no budismo como no hinduísmo a mulher, como tal, não poderia se salvar, precisaria reencarnar como homem para obter esta graça”. Mas nada disso percebemos em Jesus. Quando Jesus na sinagoga em Nazaré, usando o texto do profeta Isaías, apresentou seu programa messiânico (Lc. 4.17-21) e afirmou: “Hoje se cumpriu a Escritura”. “O ano aceitável do Senhor”, o ano do jubileu, o ano da graça, o ano da remissão, havia chegado. Os pobres ouviriam as boas-novas. Os oprimidos seriam libertados. Os quebrantados seriam curados. Os oprimidos, entre eles as mulheres oprimidas e encurvadas debaixo do peso de séculos de discriminação e marginalização, seriam restaurados. Há um evento relatado em Lucas 13.1-13. Jesus estava ensinando num sábado numa sinagoga e entra uma mulher encurvada. Há 18 anos ela vivia presa a este mal e, encurvada, vivia com o seu rosto voltado para o chão. Jesus a chamou e disse: “Mulher, você está livre da sua enfermidade”. Ela se endireitou. Podia agora erguer a cabeça, podia olhar ao redor, podia ver o rosto das pessoas. Ela começou a louvar a Deus pela sua libertação. Com o devido cuidado podemos fazer aqui uma alegoria. Esta mulher encurvada é um símbolo de todas as mulheres encurvadas, com o olhar voltado para o chão, sentindo-se humilhadas, desvalorizadas. Mulheres no mundo, na sociedade, nas sinagogas, nas religiões e, infelizmente, às vezes, até dentro das igrejas. Mulheres que experimentando o amor e o poder libertador de Jesus, agora erguem o rosto e ocupam o seu lugar de direito no mundo, na sociedade e na igreja. Jesus resgatou a dignidade e o valor da mulher. No reino de Deus, a mulher vive a realidade do jubileu. Jesus, em relação às mulheres, explodiu os paradigmas de sua época. No judaísmo ortodoxo, até hoje, as mulheres são proibidas de estudar a lei. Mas Jesus não tinha estes preconceitos. Ele ensinou teologia não só a Maria, sua amiga assentada a seus pés, mas, à beira da estrada, ensinou sobre a realidade de Deus, da fé e da vida, a uma mulher e, mais do que uma mulher, uma mulher samaritana, e, mais do que isto, era uma mulher com uma vida moral duvidosa. Foi a ela, apenas a ela, que Jesus declarou com todas as letras: “Eu sou o Messias!” As mulheres tinham o seu lugar entre os discípulos que acompanhavam a Jesus. Muitas mulheres o serviam com os seus bens. A importância das mulheres no ministério de Jesus vemos em dois momentos. A primeira vez foi nas Bodas de Caná. Naquele casamento surgiu uma situação constrangedora que podia envergonhar o noivo e estragar a alegria da festa. Maria informa a Jesus sobre a situação e diz aos serventes que façam tudo o que Jesus disser. Jesus mandou encher os vasos de água e transformou a água em vinho. Maria foi o “botão de arranque” para Jesus iniciar o seu ministério. No outro extremo temporal do ministério de Jesus temos o exemplo de Maria Madalena. Jesus ressuscitado se revelou a ela após a sua ressurreição. Jesus a mandou dizer aos discípulos que havia ressuscitado. Foi a primeira pessoa a anunciar que Jesus estava vivo, que havia ressuscitado. Ela foi usada para transmitir a mais gloriosa mensagem que já ecoou na face da terra: “Jesus ressuscitou! Jesus vive!” O ponto alto do resgate do valor, da dignidade da mulher e da igualdade da mulher em relação aos homens, nós temos no evento que é a culminação do ministério salvador de Jesus, o Pentecostes. Lucas nos conta que naquele dia os discípulos estavam reunidos no cenáculo e “perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele”. Quando Jesus enviou o seu Espírito, as mulheres o receberam como os demais, e manifestaram os dons espirituais como todos os outros. O que foi evidenciado no evento do Pentecoste o apóstolo Paulo declarou teologicamente no texto de Gal 3.26-28. Pois todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos vocês que foram batizados em Cristo, de Cristo se revestiram. Assim sendo” diz Paulo, “não há mais distinção entre judeus e gregos (distinções raciais), escravos e libertos (distinções sociais), homens e mulheres (distinções de gênero). Todos vocês são um em Cristo Jesus. O que foi demonstrado por Jesus em sua vida e ministério, o que foi patenteado no Pentecoste, o que foi afirmado pelo apóstolo Paulo, a igualdade entre o homem e a mulher, faz parte da realidade do reino de Deus, e é essência do jubileu definitivo. O tempo de Jesus e o tempo de Paulo foi a época dos inícios. Foram os primeiros raios do dia do jubileu que despontava no horizonte deste mundo. Mas agora o fermento já teve tempo de levedar a massa, a semente já teve tempo de se tornar árvore. Agora é hora da igreja realizar e praticar plenamente o fato de que “em Cristo não há homem nem mulher, mas todos são um”. REFERÊNCIAS: BINGEMER, Maria Clara. Jesus Cristo: Servo de Deus e Messias. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 46. BOFF, Leonardo. O rosto materno de Deus. Petrópolis: Vozes, 1979, pgs 77-78 apud BINGEMER, Maria Clara. Jesus Cristo: Servo de Deus e Messias. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 46. JONES, E. Stanley. O Cristo de todos os caminhos. 2ed. São Paulo: Imprensa Metodista, 1968, pg. 111.

Fred R. Bornschein
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