Jesus e as Mulheres
25 de novembro de 2020 • 6 min. de leitura

Jesus disse que quando fosse levantado da terra a todos iria atrair a si (Jo. 12.32). Jesus falou isto referindo-se à sua cruz. Mas muito antes, muito antes da cruz, Jesus atraía as pessoas. O poder de atração de Jesus era enorme. Chama a nossa atenção, salta à vista, se destaca enormemente, o poder de atração que Jesus exercia sobre as mulheres.
Ele as atraía como o mel atrai as abelhas, como a flor os colibris. As mulheres ficavam cativadas por Jesus como os planetas que giram na órbita do sol. E não era pelo fato de ser bonito. A única descrição física que temos de Jesus é na palavra profética de Isaías: “Olhamos para ele e não tinha nenhuma beleza que nos agradasse”.
Por que Jesus exercia esta atração sobre as mulheres? Certamente uma das razões, senão a mais importante, é que as mulheres se sentiam amadas, acolhidas, compreendidas e valorizadas por Jesus. Na sociedade judaica da época as mulheres tinham pouco valor. Elas estavam limitadas, bloqueadas. Eram desvalorizadas.
A teóloga católica Maria Bingemer diz que “a mulher, no judaísmo do tempo de Jesus, era considerada social e religiosamente inferior”. Citando Leonardo Boff ela explica que isto se devia,
“Primeiro, por não ser circuncidada e, por conseguinte, não pertencer propriamente à Aliança com Deus; depois pelos rigorosos preceitos de purificação aos quais estava obrigada por causa da sua condição biológica de mulher; e, finalmente, porque personificava a Eva com toda a carga pejorativa que se lhe agregava”.
Mas não era assim apenas no judaísmo. Esta desvalorização da mulher tinha um caráter quase universal. Stanley Jones, o grande missionário metodista que trabalhou na Índia e que conhecia profundamente o hinduísmo e o budismo, explica que, “tanto no budismo como no hinduísmo a mulher, como tal, não poderia se salvar, precisaria reencarnar como homem para obter esta graça”.
Mas nada disso percebemos em Jesus. Quando Jesus na sinagoga em Nazaré, usando o texto do profeta Isaías, apresentou seu programa messiânico (Lc. 4.17-21) e afirmou: “Hoje se cumpriu a Escritura”. “O ano aceitável do Senhor”, o ano do jubileu, o ano da graça, o ano da remissão, havia chegado.
Os pobres ouviriam as boas-novas. Os oprimidos seriam libertados. Os quebrantados seriam curados. Os oprimidos, entre eles as mulheres oprimidas e encurvadas debaixo do peso de séculos de discriminação e marginalização, seriam restaurados. Há um evento relatado em Lucas 13.1-13. Jesus estava ensinando num sábado numa sinagoga e entra uma mulher encurvada. Há 18 anos ela vivia presa a este mal e, encurvada, vivia com o seu rosto voltado para o chão. Jesus a chamou e disse: “Mulher, você está livre da sua enfermidade”. Ela se endireitou. Podia agora erguer a cabeça, podia olhar ao redor, podia ver o rosto das pessoas. Ela começou a louvar a Deus pela sua libertação.
Com o devido cuidado podemos fazer aqui uma alegoria. Esta mulher encurvada é um símbolo de todas as mulheres encurvadas, com o olhar voltado para o chão, sentindo-se humilhadas, desvalorizadas. Mulheres no mundo, na sociedade, nas sinagogas, nas religiões e, infelizmente, às vezes, até dentro das igrejas. Mulheres que experimentando o amor e o poder libertador de Jesus, agora erguem o rosto e ocupam o seu lugar de direito no mundo, na sociedade e na igreja.
Jesus resgatou a dignidade e o valor da mulher. No reino de Deus, a mulher vive a realidade do jubileu. Jesus, em relação às mulheres, explodiu os paradigmas de sua época. No judaísmo ortodoxo, até hoje, as mulheres são proibidas de estudar a lei. Mas Jesus não tinha estes preconceitos. Ele ensinou teologia não só a Maria, sua amiga assentada a seus pés, mas, à beira da estrada, ensinou sobre a realidade de Deus, da fé e da vida, a uma mulher e, mais do que uma mulher, uma mulher samaritana, e, mais do que isto, era uma mulher com uma vida moral duvidosa. Foi a ela, apenas a ela, que Jesus declarou com todas as letras: “Eu sou o Messias!”
As mulheres tinham o seu lugar entre os discípulos que acompanhavam a Jesus. Muitas mulheres o serviam com os seus bens. A importância das mulheres no ministério de Jesus vemos em dois momentos.
A primeira vez foi nas Bodas de Caná. Naquele casamento surgiu uma situação constrangedora que podia envergonhar o noivo e estragar a alegria da festa. Maria informa a Jesus sobre a situação e diz aos serventes que façam tudo o que Jesus disser. Jesus mandou encher os vasos de água e transformou a água em vinho. Maria foi o “botão de arranque” para Jesus iniciar o seu ministério.
No outro extremo temporal do ministério de Jesus temos o exemplo de Maria Madalena. Jesus ressuscitado se revelou a ela após a sua ressurreição. Jesus a mandou dizer aos discípulos que havia ressuscitado. Foi a primeira pessoa a anunciar que Jesus estava vivo, que havia ressuscitado. Ela foi usada para transmitir a mais gloriosa mensagem que já ecoou na face da terra: “Jesus ressuscitou! Jesus vive!”
O ponto alto do resgate do valor, da dignidade da mulher e da igualdade da mulher em relação aos homens, nós temos no evento que é a culminação do ministério salvador de Jesus, o Pentecostes. Lucas nos conta que naquele dia os discípulos estavam reunidos no cenáculo e “perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele”. Quando Jesus enviou o seu Espírito, as mulheres o receberam como os demais, e manifestaram os dons espirituais como todos os outros.
O que foi evidenciado no evento do Pentecoste o apóstolo Paulo declarou teologicamente no texto de Gal 3.26-28.
Pois todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos vocês que foram batizados em Cristo, de Cristo se revestiram. Assim sendo” diz Paulo, “não há mais distinção entre judeus e gregos (distinções raciais), escravos e libertos (distinções sociais), homens e mulheres (distinções de gênero). Todos vocês são um em Cristo Jesus.
O que foi demonstrado por Jesus em sua vida e ministério, o que foi patenteado no Pentecoste, o que foi afirmado pelo apóstolo Paulo, a igualdade entre o homem e a mulher, faz parte da realidade do reino de Deus, e é essência do jubileu definitivo.
O tempo de Jesus e o tempo de Paulo foi a época dos inícios. Foram os primeiros raios do dia do jubileu que despontava no horizonte deste mundo. Mas agora o fermento já teve tempo de levedar a massa, a semente já teve tempo de se tornar árvore. Agora é hora da igreja realizar e praticar plenamente o fato de que “em Cristo não há homem nem mulher, mas todos são um”.
REFERÊNCIAS:
BINGEMER, Maria Clara. Jesus Cristo: Servo de Deus e Messias. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 46.
BOFF, Leonardo. O rosto materno de Deus. Petrópolis: Vozes, 1979, pgs 77-78 apud BINGEMER, Maria Clara. Jesus Cristo: Servo de Deus e Messias. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 46.
JONES, E. Stanley. O Cristo de todos os caminhos. 2ed. São Paulo: Imprensa Metodista, 1968, pg. 111.

27 de janeiro de 2021 • 4 min. de leitura
QUEM É ELA?
Quem é ela? Que chegou sorrateiramente como quem não quer nada. Quem é ela? Que sem pedir licença foi ocupando espaço. Quem é ela? Que como mal educada entrou sem bater a porta e quando se percebeu lá estava ela no centro das atenções. Quem é ela? Que arrebatou em todos os níveis sociais, rico ou pobre, alto ou baixo, pois não faz distinção de suas vítimas e seja qual for o estado, lá está ela. Mas, quem é ela? Que, como furacão devorador foi levando embora a alegria, e como se não bastasse saqueou a felicidade, e como ladra subtraiu a paz de muita gente. Mas, quem é ela? Que tem apagado a luz do sol e o resplandecer de um novo dia que para muitos, já não haverá. Ela causa medo e esse medo está tão presente que se faz necessário se esconder atrás de um pequeno pano como se fosse um escudo que obrigatoriamente passou a fazer parte do dia a dia da população. Há o dia a dia. O dia a dia mudou, tudo por culpa dela. E por causa dela, aprendemos novos hábitos. Hábitos que trancafiam, pois, mesmo estando em liberdade a sensação é estar por trás das grades invisíveis que ela nos impõe, assim nos impede, tirando o direito de ir e vir, que seja ao parque, ou até mesmo ao shopping em um daqueles dias de passeio e esses novos hábitos fazem com que as mãos sejam encharcadas por etílico hidratado em grau 70, numa tentativa de blindá-las, tudo isso para tentar combatê-la, ou quem sabe mantê-la bem longe. Seria isso uma real proteção ou uma utopia? Entretanto, ela fez suscitar valores que pareciam enterrados pelos escombros de tantas ideias que parecem sem fundamento algum que surge de uma sociedade de bases líquidas. Todavia, é possível afirmar que devido a presença dela, hoje os valores são outros. Agora temos que ficar longe de quem estava perto, e quem se encontrava longe, podemos chegar tão próximo pelos meios digitais que mesmo a quilômetros de distância conversamos com alguém como se estivesse sentada ao nosso lado no coração de nossas casas. O que ela fez com a gente? De onde realmente veio? Quando vai nos deixar? São indagações que perturbam e machucam como se fosse ferida que não quer curar. E as respostas para tantas perguntas parecem tão distantes que nem a cúpula mais alta da medicina tem uma resposta certa ou a solução para dar. O certo, é que a queremos longínqua e que tudo volte a ser como era antes, se é que é possível, pois uma vez que as águas passaram por baixo da ponte, jamais voltará a passar. É, temos aprendido com ela, e apesar da assolação que ela vem causando, a ótica do ser humano passa a enxergar com uma nova perspectiva. As horas com a família aumentaram, tempo para os filhos que outrora tanto se implorava, agora, resulta em abraços e brincadeiras. Aqueles minutinhos que eram tão escassos se tornaram tão valiosos que não queremos desperdiçá-los com aquilo que não agrega nenhum tipo de valor. O trabalho, que tanto era priorizado naquela rotina alucinada do escritório, podemos fazer de casa mesmo, pois não queremos em um devaneio de uma saída, nos depararmos com ela por aí, pois, ela é parceira da morte, e está apenas esperando pegar alguém despercebido para que possa conduzi-lo a uma viagem sem volta. Logo, com a presença dela, é preciso adaptar-se a um novo estilo de vida. Daqui em diante, não há espaço para viver uma vida cheia de amargura, rancor e de intrigas, visto que, aquilo que hoje é, amanhã poderá vir a não ser. A vida é curta demais para se viver sobrecarregado de sentimentos insultuosos. Por fim, de toda ocasião é possível tirar lições. E daqui para frente, aqueles que escaparam de suas armadilhas passaram a ver a vida mais colorida e trilharam caminhos jamais percorridos em busca de um futuro melhor. É claro que não podemos esquecer, foram muitos os que cruzaram com ela e ficaram pelo caminho e deixaram saudades. Portanto, chegamos à conclusão: é hora de se imunizar com as experiências adquiridas e nos blindar de todas as formas possíveis para vencermos os desafios por ela impostos, e superar as marcas que ela deixou na humanidade. Ora, mas quem é ela? A chamam de pandemia! Covid-19! Essa, ficará na história. Muitos não gostariam de a ter conhecido, pois ela deixou de forma implacável, irresolúveis marcas que a borracha do tempo, jamais poderá apagar.

20 de outubro de 2021 • 11 min. de leitura
Desigrejamento nos tempos do Novo Testamento
Em princípio, ficamos pensando sobre aqueles que poderiam sair, os que, de fato, saíram da igreja, nos tempos do NT. Ou seja, aquelas pessoas que, uma vez ingressas na igreja, ou numa comunidade cristã, corriam o risco de se desviarem da fé cristã, bem como aqueles que, de fato, o fizeram. Na sequência, pensamos nos vários motivos que podiam levar um cristão a abandonar a comunidade e sua fé em Cristo. Por último, nos perguntamos se no NT havia desigrejados, do modo como o são os desigrejados nos dias de hoje. Em termos de terminologia, vou emprestar o termo desigrejado, usado nos nossos dias, e, no final deste texto, faremos uma comparação entre os desigrejados do NT, e os desigrejados de hoje, com o fito de estabelecer diferenças e desafios para estes e para a igreja da atualidade. Riscos de desigrejamento no Novo Testamento Quanto ao risco de se desviarem da fé cristã, e abandonarem a comunidade, isso era perfeitamente passível de acontecer, tendo em vista os vários avisos e exortações do NT quanto a essa possibilidade. Exortações desde os tempos de Jesus, em seus próprios ensinos, até aqueles mais tardios, no decorrer do 1º século, nos dão conta desse risco. Jesus, por exemplo, já advertia: “[…] Ninguém que tendo posto a mão no arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lc 9.61, RA). Numa de suas parábolas, a do Semeador, tanto em relação àqueles simbolizados pela semente que caiu entre pedregulhos, como a que caiu entre espinhos, são tidos como pessoas que não levariam adiante sua primeira profissão de fé, vindo a se desviarem, por razões diferentes (Mt 13.20,21, RA). Quando consultamos as cartas de Paulo, as cartas gerais, e também o Apocalipse, a mesma advertência é feita aos fiéis sobre o perigo e as consequências de se desviarem da fé cristã, e o abandono da comunidade dos crentes (1 Co 10.1-14; 2 Co 11.3; Gl 3.1-3; 5.4,7; Cl 1.21-23; Hb 2.1; 10.25, RA). Além das advertências quanto ao risco, a perseverança na fé cristã é constantemente trazida a lume pelos escritores do NT. Não faltam passagens bíblicas encorajando os cristãos a permanecerem firmes na fé em Cristo, junto às suas comunidades (Mt 10.22; 24.13; Mc 13.13; Cl 1.21-23; Hb 12.1,7; Tg 5.11; 1 Pe 2.19; Ap 3.11, RA). Portanto, o risco, tanto do desigrejamento quanto ao desvio da fé cristã, sempre existiu, desde o princípio, o que ensejou da parte dos escritores do NT emitir não somente exortações e avisos quanto a esse desvio, quanto encorajamentos, a fim dos fiéis permanecerem fiéis a fé e às suas comunidades cristãs. Motivos de desigrejamento no NT No que diz respeito aos motivos que poderiam, e, em alguns casos, ensejaram que pessoas se desviaram da fé cristã, abandonando a comunidade dos salvos, esses são os mais variados: o sofrimento por causa do evangelho (Mt 13.21; 24.9,10); as más influências dos falsos mestres, que enganariam a muitos (Mt 24.11); amor ao dinheiro e riquezas deste mundo (Mt 13.22; 2 Tm 9.10); ações aparentemente honrosas, mas com motivações erradas (At 5.1-11); membros com comportamento moralmente inaceitável (1 Co 5.1-8); amor ao presente século (2 Tm 4.10); há também aqueles que fisicamente frequentavam uma determinada comunidade, mas saíram da comunidade por motivos de heresia (1 Jo 1.18-26). Tipos de desigrejados no Novo Testamento Quando pensamos no fenômeno de desigrejamento no NT, como um processo, poderíamos imaginar um espectro. Dentro das comunidades cristãs havia desde uma situação de negligência (Hb 5.11-6.3), desânimo (Hb 12.12,13), esfriamento na fé, decepção, dúvidas (Jd 23), até aquela de abandono tanto da fé quanto da comunidade. Entre os que abandonaram a fé cristã e a comunidade dos salvos, é possível que houvesse vários tipos de desigrejados. Uma das formas de categorizá-los é bem nítido nas páginas do NT: a) havia aqueles que abandonaram a fé e a comunidade, e eram passíveis de serem recuperados; e, b) havia aqueles que abandonaram a fé cristã e a comunidade, sem muitas chances de serem recuperados. Alguns, não somente abandonaram a fé e a comunidade cristã, mas se tornavam seus inimigos (cf. Hb 6.4-8; 1 Tm 4.1-4; 1 Pe 2; 3.18). A esses últimos, o NT os coloca na categoria de apóstatas. A apostasia era um desvio gravíssimo da fé, com poucas chances ou nenhuma chance de recuperação. Segundo Mark W. Karlberg, a palavra “apostasia” é a tradução de várias palavras bíblicas, tanto do hebraico quando do texto grego: Heb. mĕsûbâ, e Gr. parapiptō e aphistēmi, e apostasia. Assim sendo, de acordo com o autor, a apostasia é a: “Deserção da fé, um ato de imperdoável rebelião contra Deus e sua verdade. O pecado de apostasia resulta no abandono da doutrina cristã e conduta”. [1] Recuperação de desigrejados no Novo Testamento Como já assinalado, o NT parece nos apontar dois tipos de comportamento em relação aos que se desviam da fé cristã: a) Havia os recuperáveis; e, b) Aqueles dificilmente recuperáveis, ou impossíveis de serem recuperados, sendo esses últimos, como aludidos anteriormente, apóstatas. Mesmo antes de membros abdicarem de sua fé e comunidades, vários autores de epístolas do NT, não somente por si só encorajam os membros das igrejas a perseverarem na fé em Cristo, mas aconselhava as próprias igrejas e seus líderes a exortar, encorajar e a fortalecerem os membros mais displicentes e vulneráveis, a fim de que não abandonassem a fé em Cristo (Gl 6.1-10; 1 Ts 5.4.18; 5.11,14; 2 Ts 2.3; 2 Tm 2.24-26; Hb 10.24,35; Tg 1.19,20; 1 Jo 5.16a; Jd 22,23, RA). O segundo grupo de desigrejados, parece receber um tratamento diferente daqueles que simplesmente se desviaram da fé, e eram tidos como irrecuperáveis. Desde os tempos de Jesus existe um entendimento de pecados que eram passíveis de serem perdoados, e aqueles que não o eram (Mt 12.31-32; Mc 3.28,29; 1 Jo 5.16-17, RA). O NT parece repercutir esse entendimento, em relação aos que se desviam da fé e conduta cristã. Os falsos mestres e apóstolos, bem como irmãos que seguiam os ensinamentos daqueles, eram tratados de uma maneira diferenciada. Ou seja, não há muito empenho em recuperá-los do seu desvio. Talvez porque o seu desvio tenha se tornado numa obstinação difícil de ser revertida, não que Deus não pudesse perdoá-los. João, por exemplo, em sua primeira epístola, diz que não é para orar pelo irmão que tenha pecado para a morte (1 Jo 5.16, RA). Esse pecado para a morte, dentro do contexto de João, parece ser um pecado relacionado à heresia gnóstica, que negava a encarnação de Jesus (1 Jo 1.22, RA) [2]. Na mesma carta, o apóstolo se refere aos falsos mestres, como anticristos, os quais saíram da igreja porque não eram cristãos como os demais, e porque tinham um outro entendimento sobre Jesus (1 Jo 2.18,19, RA). Em relação aos apóstatas, o autor aos Hebreus, por sua vez, chega a dizer que: “É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que de novo estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e expondo-o à ignomínia” (Hb 6.4-6; 10.26, RA). Parece-nos que a apostasia, no NT, seja praticada por membros da igreja, ou por falsos mestres que tentavam deturpar a fé cristã com heresias a ponto de colocarem em dúvida as doutrinas fundamentais e também as práticas cristãs, era considerada um tipo de desvio mais grave do que aqueles outros tipos de desvios por motivos menos graves. E, para esse tipo de desvio, como já foi dito, os autores bíblicos tinham dificuldade de pensar na possibilidade de uma recuperação. Assim, a apostasia sempre foi um perigo, um risco, a que os cristãos estavam expostos nos tempos do NT. Com isso, o NT mantém um equilíbrio entre uma situação de desvio que pode ser revertida e outra que não pode ser revertida. Desigrejados dos tempos do NT e os desigrejados de hoje Duas perguntas nos ocorrem quando pensamos em desigrejados do NT, e naqueles de agora: a) os tipos e motivos dos desigrejados do NT são os mesmos dos de hoje? b) quais as diferenças entre os desigrejados do NT, e os chamados desigrejados de hoje, se houver? Quando comparamos os desigrejados dos tempos do NT, com os de agora, diríamos que todas as situações e tipos de desigrejados naqueles dias são passíveis de acontecer, e acontecem nos dias de hoje. No entanto, com certeza, os motivos pelos quais pessoas saem da igreja, nos dias de hoje, são muitos, e muito mais variados do que aqueles mencionados no NT. Alan Corrêa, em seu livro, Dissidentes da igreja: entendendo e defendendo a igreja, menciona sete motivos pelos quais pessoas abandonam a igreja hoje. São eles: decepção, abuso religioso, individualismo, cultura de descartabilidade, balança injusta, antinomismo, descredibilidade dos de dentro. [3] Luiz Alexandre Ribeiro Branco, autor de “Perguntas Pós-Modernas”, por sua vez, ao escrever sobre os desigrejados de hoje, faz uma diferenciação entre desigrejados e descritianizados. Segundo o articulista: O desigrejado é aquele que por motivos de adaptação litúrgico-teológica não consegue encontrar-se nesse emaranhado de igrejas com suas esquisitices, contudo é crente e sinceramente busca um ambiente cristão e saudável para pertencer, mas lhe é uma tarefa difícil, devido às suas frustrações anteriores. Ele busca a Deus, lê e obedece as Escrituras e procura com sinceridade um aprisco onde possa finalmente descansar com segurança. [4] Quanto ao descristianizado, Branco o descreve como: […] aquele que por motivo teológico-doutrinário afasta-se do meio cristão, movido por intenções equivocadas, não mantém comunhão com os outros crentes, a não ser para reclamar, não busca a Deus, não lê as Escrituras, vive de forma leviana e contrária ao evangelho”. Ainda, para Branco, “[…] o número de descristianizados seja superior ao número de desigrejados. O primeiro seria um pecador perdido, e o outro, um pecador salvo”. Recentemente tivemos a oportunidade de ler um interessante e bem pesquisado TCC, intitulado “Os desigrejados no contexto evangélico brasileiro”, de Rogério de Souza Guimarães, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Segundo Guimarães, sendo ele também um desigrejado, considera os desigrejados de hoje como um movimento religioso cristão, recente, da pós-modernidade, à semelhança de tantos outros movimentos de fracionamento ao longo da história da igreja, o qual propõe respostas religiosas inovadoras para condições do mundo moderno (sobretudo em relação à forma de viver a fé cristã e a comunhão com outros que professam a mesma fé, sem perda total e irremediavelmente com as raízes de tradição evangélica. Não deixam de ser, a seu modo, uma espécie de contracultura (ao que chamam de sistema religioso evangélico e sua cultura). [5] De acordo com Guimarães, os desigrejados são contra a igreja institucionalizada, e têm as seguintes características: a) não submissão a uma liderança carismática; b) não mais templos; c) desnecessidades de reuniões e rituais regulares; d) não seguir um conjunto de regras (confissões, credos etc); e) não dízimos e ofertas. Guimarães ainda acrescenta que entre os desigrejados de hoje há discordâncias e várias maneiras de ser desigrejado. Considerações Finais Parece-nos que, algumas das reivindicações dos desigrejados de hoje, concernentes a igrejas institucionalizadas, fazem todo sentido. Enquanto seja impossível à igreja fugir à institucionalização, esta quando exacerbada pode, sem dúvida, perder de vista, o indivíduo e passar por cima de suas necessidades, deixando de atendê-las. Por outro lado, algumas das posições de parte dos desigrejados são questionáveis (ser contra templos, deixar de celebrar a ceia, praticar o batismo, ser contra dízimos e ofertas), além do fato de imaginar que a igreja pode fugir à institucionalização. Cremos que ambos os lados têm muito que ponderar, seja da igreja institucionalizada para reconsiderar toda a sua forma de ser igreja, a fim de recuperar e não continuar perdendo adeptos, seja dos desigrejados, se quiserem se firmar como mais um movimento fracionário da história da igreja, sem abdicar dos essenciais da fé cristã. REFERÊNCIAS [1] ELWELL, Walter A. Evangelical Dictionary of Biblical Theology. Grand Rapids, Michigan : Baker House Company, 1996, p. 33. [2] CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado : versículo por versículo. São Paulo : Milenium Distribuidora Cultural Ltda, 1979, vol. 6, p. 300. [3] CORRÊA, Alan. Dissidentes da igreja: entendendo e defendendo a igreja. São Paulo: Editora Reflexão, 2014. [4] Disponível em: https://www.ultimato.com.br/revista/artigos/361/os-desigrejados-e-os-descristianizados. [5] GUIMARÃES, R. S. Os desigrejados no contexto evangélico brasileiro. TCC – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Antropologia, Bacharelado em Ciências Sociais. Bacharelado em Ciências Sociais. Porto Alegre, RS : 2021.

31 de julho de 2020 • 7 min. de leitura
Crise e respostas da Teologia
A crise é algo inerente à existência humana. Sempre que algo tira a tranquilidade ou foge à regra daquilo que a humanidade considera cotidiano surge uma crise. Se a origem da crise pode ser bastante diversa, e nem sempre ter a possibilidade de ser evitada pelo ser humano, sua resolução depende da habilidade de lidar com ela e transformar as circunstâncias em novas oportunidades. Neste material teremos como objetivo observar as diversas respostas que teólogos deram em meio a estas crises. As crises estiveram presentes desde os primórdios da humanidade. Os seres humanos não teriam se desenvolvido tecnologicamente sem a existência de crises. Foi a necessidade de caçar que obrigou o homem a desenvolver os primeiros instrumentos de pedra. “De um ponto de vista puramente natural, o homem é o mais inadequado dos seres vivos existentes em nosso planeta” (PINSKY, 2011, p.10). Foi a falta de alimento que fez ele se deslocar pelas planícies da África e Ásia chegando à Europa e Américas. Por este mesmo motivo a crise denota uma “etapa crucial ou ponto de viragem no decurso de qualquer coisa” (RATO, 2008, p. 175). Embora existam vários tipos de crises de âmbito mundial, neste material gostaria de apresentar quatro tipos. Eles auxiliam a compreensão das dimensões que uma crise pode atingir. Será discorrido a respeito de crise bélica, econômica, sanitária e migratória. Para cada uma delas, várias respostas foram dadas por teólogos que viveram neste tempo. Durante o século XX ocorreram duas grandes guerras mundiais. A primeira delas entre 1914 e 1918, intitulada I Guerra Mundial, e a outra entre 1939 e 1945, conhecida como II Guerra Mundial. O palco principal das duas guerras foi a Europa, mas os conflitos atingiram várias regiões do planeta. Soldados de terras muito distantes da Europa foram arrastados para lá com o objetivo de lutar por uma das partes em conflito (HOBSBAWM, 1995). Bailey (1984) indica que os cristão evangélicos tiveram que lidar com algo bastante diverso, uma guerra contra a terra de onde veio a reforma protestante. Em meio à confusão, alguns chegaram a afirmar que a culpa era da própria mensagem de Lutero, mais afeita à agressão do que a arminiana. Outros seguiram para a direção de que se tratava de um castigo divino por conta do desvio da fé dos cristãos locais. Outros ainda perceberam, como na maioria das crises da humanidade, que é um prenúncio da volta de Jesus que se aproximava. Nesta linha não demorou para que figuras fossem identificadas como o anticristo: na primeira guerra eram o Kaiser e Oman Otomano; na segunda guerra cada lado encontraria o anticristo no seu oponente. Poucos líderes viram nestas guerras a oportunidade divina para a construção de uma outra forma de sociedade. Com o término da Primeira Guerra, os Estados Unidos se tornaram o grande credor do mundo. Todas as dívidas contraídas por conta da guerra tinham que ser pagas, com juros, aos cofres americanos. Soma-se a isso a ausência de empresas capazes de suprir as necessidades europeias que haviam sido destruídas pela guerra. Todas estas contingências, somadas à inventividade de homens como Henry Ford, levaram a um crescimento econômico sem precedentes. Tudo parecia perfeito, até que em 24 de outubro de 1929, a bolsa de nova York sofre uma quebra sem precedentes. Rapidamente o enriquecimento é substituído pela falta de empregos, as indústrias quebram juntamente com os bancos. Numa economia em processo de integração transnacional, vários países do mundo acabam por sofrer as consequências. Mesmo o Brasil viu sua produção de café ser queimada por falta de compradores (HOBSBAWM, 1995). Handy (1960) indica que durante a prosperidade, as igrejas americanas começaram a sofrer uma evasão. O suprimento financeiro acabou por diminuir o desejo de investimento em missões. Os cultos começaram a esvaziar no mesmo momento em que novas seitas começaram a aflorar em solo americano. Se de um lado, a lei seca parecia demonstrar uma igreja atuante, na verdade denotava uma religiosidade crescente, destituída de uma espiritualidade marcante. Uma apostasia que só não era sentida pelos primeiros pregadores que usavam o rádio para espalhar sua mensagens, muitas vezes sem o conteúdo adequado. Logo, não é de se espantar que vários líderes indicavam a crise como uma punição divina, resultado da ira divina. Outros olharam para este momento como sendo o fim do mundo. O olhar escatológico era facilmente chancelado pela imagem de imensos batalhões de empobrecidos perambulando nas ruas. Mais uma vez foram poucos os que perceberam nisso a oportunidade de um evangelho mais atuante e atento à necessidade humana. A terceira crise apresentada era a sanitária. Com a gripe espanhola cerca de 50.000.000 de pessoas perderam a vida em todo o planeta. Se ela foi mais letal na Europa e Estados Unidos, não poupou vidas nos demais continentes (HOBSBAWM, 1995). Ao estudar a questão do discurso adotado por teólogos e religiosos na África do Sul, Phillips (1987) chegou a refletir o racismo existente, acusando pessoas más (normalmente negras) como as responsáveis pela difusão da infecção. Esta interpretação acabou por fornecer combustível para o apartheid já praticado nesta nação. Outros grupos negaram a existência de uma pandemia, afirmando que os números estavam sendo superdimensionados e que não passava de uma enfermidade passageira. A negação é uma das formas humanas de lidar com a frustração causada pela impotência diante da dor. A grande novidade das interpretações será a compreensão de que a Igreja deve demandar do Estado o cuidado humanitário com o ser humano. A última forma de crise indicada é resultado, quase sempre, de conflitos armados. Trata-se da crise migratória. Quase a totalidade dos migrantes estão em busca de uma condição melhor de vida em relação à sua origem. As guerras sempre deslocam pessoas. No caso das guerras que varreram a Europa nos séculos XIX e XX acabaram por produzir um contingente de quase 40.000.000 de imigrantes somente para os Estados Unidos, Argentina e Brasil. Este tipo de crise ainda se faz presente hoje com os conflitos que arrasam o Oriente Médio. As interpretações na época carregavam a ideia de oportunidade divina (REINKE, 2010). A oportunidade de ocupar terras onde não existiriam as guerras da sua origem. Muitos letos vieram para o Brasil com esta esperança. Neste momento tudo era visto como sendo a vontade do próprio Deus. Ainda hoje temos que lidar com esta crise, porém hoje muitos teólogos vêm tentando caracterizar estes elementos migratórios como sendo de origem meramente religiosa. Se existe o elemento religioso, devemos compreender que as guerras custam muito dinheiro e, se existem pessoas capazes de gastar é porque alguém está lucrando muito com isso (HOBSBAWN, 1998). Se não podemos evitar que as crises, sistematicamente, possam se aproximar de nossas vidas, podemos nos prevenir e buscar interpretações teológicas capazes de gerar crescimento e fortalecimento com vistas à superação delas. O teólogo precisa interpretar de forma profunda a realidade que o cerca, buscando responder de forma profética e profunda aos problemas. É preciso vermos o todo, logo, além da bíblia, devemos portar o conhecimento da atualidade. Sociologia, história, psicologia, entre outras ciências são essenciais para que o teólogo veja além e enxergue a oportunidade do encontro pessoal entre o Deus criador e a sua criatura numa experiência de fé e comunhão. Referências Bibliográficas BAILEY, C. The brotishprotestant theologians in the first world war: guermophobia unleashed. Harvard Theologycal Review, [s.l.], v. 77, no 2, p. 195–221, 1984. HANDY, R. T. THE AMERICAN RELIGIOUS DEPRESSION , 1925-1935. Church history, [s.l.], v. 29, no 1, p. 3–16, 1960. HOBSBAWM, E. Era dos Extremos: o breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das letras, 1995. HOBSBAWN, E. sobre história. São Paulo: Companhia das letras, 1998. PHILLIPS, H. Why did it happen? Religious and lay explanations of spanish flu epidemic of 1918 in South Africa. Kronos, [s.l.], v. 12, no 1, p. 72–92, 1987. PINSKY, J. As Primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2011. 125 p. RATO, H. Crise e democracia: resolução da crise e aprofundamento da democracia. In: FERREIRA, E.; OLIVEIRA, J. P.; MORTÁGUA, M. joão (Orgs.). Investigação e prática em economia. 1 ed. Parede: Princípia Editora, 2008. p. 175–194. REINKE, A. D. Os pioneiros 1910-2010: 100 anos de história da Covenção Batista Pioneira do sul do Brasil. 1 ed. Curitiba: Convenção Batista Pioneira do sul do Brasil, 2010.
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