logo

Proposta para Tempo de Crise – Abordagem Histórica

Marlon Fluck
Marlon Fluck
 - 

9 de setembro de 2020 • 4 min. de leitura

post

Quando falamos sobre a epidemia em que estamos vivendo geralmente lembramos de outras no passado, como por exemplo, as pestes medievais. A epidemia de peste atingia uma cidade aproximadamente a cada dez anos entre os séculos XIV e XVIII. A taxa de mortalidade era de 60 a 90% (um a três% no Covid-19), o que era particularmente terrível.

Assim como na epidemia de peste negra, bem como em outras, os cristãos tiveram atitudes formidáveis e relevantes no meio da sociedade. O livro Crescimento do Cristianismo apresenta várias razões pelas quais o Cristianismo foi convincente: as epidemias contribuíram significativamente para a causa cristã (STARK, p.88). O Cristianismo se adaptou às tribulações em que a adversidade, a enfermidade e a morte violenta geralmente prevaleciam (STARK, p.94). Os cristãos cuidavam dos enfermos, eram infectados e morriam por eles. Depois estes curados se tornavam cristãos.

A situação se desenvolveu a tal ponto que o imperador que quis reimplantar as religiões pré-cristãs no Império Romano, Juliano, o apóstata, em 362 d.C. avaliou o que então percebia, dizendo: “Os cristãos cuidam não apenas dos seus doentes, mas também dos nossos. Todo mundo pode ver que nosso povo não conta com nossa ajuda” (apud STARK, p.97).

O sociólogo conclui então que, no século IV d.C., “esperava-se que o Cristianismo operasse com júbilo na assistência aos enfermos, aos inválidos e aos dependentes” (STARK, 2006, p.199).

Diante disso, gostaria de elencar pessoas chaves que fizeram a diferença em seu meio e diante das crises:

A visão de Martinho Lutero

A pergunta é se era aceitável fugir como cristão. Lutero respondeu a seu colega John Hus, visto que em 1527 Wittenberg foi atingida pela praga e as aulas foram transferidas para uma cidade não afetada.

Lutero se recusou a sair. Em vez disso, ele decidiu cuidar dos doentes e moribundos e transformou sua casa em um hospital improvisado.

Lutero disse: “Ao crer em Deus e por amor ao próximo, os cristãos devem primeiro pensar em como podem contribuir para o cuidado físico e espiritual dos fracos, isolados, doentes ou moribundos”. Só então Lutero permitiu que os cristãos tomassem decisões privadas sobre a possibilidade de fugir.

O Salmo 41 era a base orientadora para Lutero: “Bem-aventurado aquele que cuida dos fracos! O Senhor o salvará nos maus momentos.” Portanto: “quem cuida de uma pessoa doente (…) que faz isso com essa promessa consoladora, (…) ele tem grande consolo aqui. (…) Deus mesmo quer ser seu guardião e seu médico também.”

Frederico von Bodelschwingh e a Missão de Bethel

Frederico, enquanto estudante, envolveu-se com os mendigos vendo a situação sub-humana em que viviam. Em 1869, de 12 a 25 de janeiro, faleceram 4 de seus filhos.

Em 1872 foi convidado a assumir o lar de epiléticos de Bethel. Para ele, a fé infantil de um doente mental ou de um agricultor epilético era a experiência que superava tudo o que a Universidade poderia oferecer. Os epiléticos eram vistos como doentes mentais nessa época.

Bodelschwingh entendia que ali não se estava em frente à miséria, mas no meio dela. Isto é o que o anunciador da Palavra de Deus deveria aprender, para depois à frente da igreja ser um bom exemplo e tornar outros solícitos para todo tipo de serviço cristão.

A missão possui um hospital psiquiátrico diaconal protestante em Bethel, antiga cidade, hoje um bairro de Bielefeld, na Alemanha .

Quem vinha com alguma dor falar com Bodelschwingh, nunca saía inconsolado. Algo cada um recebia. Para ele, as pessoas precisam ser valorizadas como são. O amor não estabelece pré-requisitos. O amor deve persistir.

Na obra missionária, os desafios eram assumidos por todos. Assim aconteceu a construção de albergues, colônia para desempregados, casa para trabalhadores da cidade. Bodelschwingh tornou-se deputado para trazer benefícios legais aos que estavam mendigando. Queria que o pequeno tivesse sua própria casa e pedaço de terra para plantar.

A visão escatológica era que tudo será destruído quando Jesus voltar, com exceção do que foi feito de acordo com a vontade de Deus. O trabalho entre os pobres e insignificantes está entre a exceção, pois Cristo se identifica com os sofredores. Somente quem valoriza e age para o melhoramento desse mundo saberá valorizar e agir com vistas ao vindouro.

E esta visão teve consequências nas outras gerações.

Marlon Fluck
Marlon Fluck
Pós-doutorado em Teologia e história na Alemanhã, doutorado em Teologia. Universidade de Basiléia. Suíça, Mestrado em Teologia – Escola Superior de Teologia, EST, Brasil. Especialização em Sociologia Urbana. – UNISINOS, Brasil. Especialização em Serviço Social da Família. ULBRA, Brasil. Graduação em Teologia. FEPAR, Brasil e Bacharelado em Ministério Pastoral. – Seminário Bíblico Palavra da Vida. Pastor Luterano e professor da Fatebe.
placeholder

17 de setembro de 2025 • 3 min. de leitura

Desde a vista do meu ponto: humanidade e espiritualidade

Ultimamente tenho refletido sobre minha humanidade e minha espiritualidade. Sobre o fato de sermos, ao mesmo tempo, seres humanos e espirituais, e como essas dimensões se complementam. Entendo que nossa humanidade recebe os benefícios da espiritualidade, pois, segundo a Bíblia, quando recebemos a Jesus passamos a ser chamados de espirituais. Isso traz consequências positivas ao nosso ser e afeta diretamente a maneira como vivemos nossa humanidade. Essa conexão é profunda, e uma mente que pensa apenas de forma racional não consegue compreender a dimensão do que o espírito pode alcançar. Para entender o Reino de Deus, é necessário pensar espiritualmente. A espiritualidade enriquece nossa humanidade porque nos conecta ao transcendente que, nesse caso, não pode ser outro senão Deus. É nessa conexão que a humanidade encontra propósito, razão de viver e sentido para a existência. Isso nos move a sermos éticos, respeitosos, generosos, pacientes, compreensivos e a manifestar os frutos do Espírito Santo mencionados por Paulo em Gálatas 5.22-23. E, com reverência ao texto, ousaria acrescentar ao final do verso 23 a frase: “Contra essas coisas não há humanidade.” No entanto, nossas dúvidas e incertezas brotam quase todos os dias justamente da nossa humanidade. Aqui falo como um ser comum: que ri, chora, às vezes amaldiçoa, mas também abençoa; que se prende a coisas banais, que trava batalhas internas e até discussões silenciosas com outros; que tem dúvidas, sente que a fé e Deus parecem distantes e que as orações não são ouvidas; que pensa não estar na agenda de Deus ou, se está, é apenas depois de outros que parecem ter mais prioridade. Nesse momento, só posso dizer em primeira pessoa: “Sou assim, sou de carne e osso. Sou humano.” E junto dessa humanidade atuam também as forças das trevas. Embora já derrotadas, elas são perseverantes e insistentes, atacando justamente onde somos mais frágeis. Paulo, em 2 Coríntios 1:8-9, relata uma tribulação tão intensa que chegou a desesperar-se da própria vida. Ali, a humanidade, em linguagem hiperbólica, “gritou”, e a espiritualidade respondeu calmamente por meio do Apóstolo. É como se uma falasse com a outra dentro da mesma pessoa. >Irmãos, não queremos que vocês desconheçam as tribulações que sofremos na província da Ásia, as quais foram muito além da nossa capacidade de suportar, a ponto de perdermos a esperança da própria vida. De fato, já tínhamos sobre nós a sentença de morte, para que não confiássemos em nós mesmos, mas em Deus, que ressuscita os mortos. Ele nos livrou e continuará nos livrando de tal perigo de morte. Nele temos colocado a nossa esperança de que continuará a livrar-nos, 2 Coríntios 1:8-10 >Por isso, precisamos diariamente reafirmar diante da nossa humanidade que nossas armas são poderosas em Deus e capazes de destruir sofismas e resistências do mal. Somos seres espirituais, o Espírito Santo habita em nós, temos todos os benefícios da morte e ressurreição de Cristo e, portanto, devemos viver como tais. Sem esquecer nossa humanidade, mas recordando-a constantemente da nossa espiritualidade em Cristo, que já nos concedeu abundantemente os recursos para uma vida plena no Espírito. Sejamos felizes no Senhor, pois somos mais que vencedores.

Benides Bergamo
placeholder

2 de junho de 2026 • 4 min. de leitura

CRÍTICA CONSTRUTIVA: UMA BÊNÇÃO ESQUECIDA

Dificilmente você vai conseguir melhorar o seu modo de ser e de fazer as coisas se não houver uma autoavaliação ou receber uma crítica construtiva de alguém que se preocupa com você. Muitos cristãos não aceitam fazer ou receber críticas. Eles dizem: “Não faço nenhum tipo de crítica porque eu também não sou perfeito e também não aceito que me critiquem.” Infelizmente, muitos crentes, inclusive pastores e líderes, deixam de “exortar em amor” a quem precisa, por medo de ouvir do irmão frases do tipo: “Você não tem nada a ver com a minha vida”, ou “você também não é nenhum santo”, ou “macaco olha o seu rabo.” Percebemos, por um lado, o medo de alertar sobre o perigo dos erros que o irmão está cometendo e ser chamado de acusador, orgulhoso e intrometido. Por outro lado, existe a falta de humildade que impede aquele que é exortado de acatar e avaliar a crítica recebida. Esquecemos de que a crítica construtiva é biblicamente válida e benéfica. A Bíblia nos informa que Moisés foi abençoado com uma crítica construtiva que ele recebeu do seu sogro Jetro e que resultou no aumento da eficiência do seu trabalho de julgar as causas do povo de Israel no deserto (Êxodo 18:13 a 26). Se não fosse a crítica feita pelo profeta Natan ao rei Davi, talvez ele nunca tivesse se arrependido do adultério e do assassinato que cometeu (2 Samuel 12:1 a 9). O apóstolo Paulo precisou criticar o comportamento hipócrita do apóstolo Pedro quando deixou de comer com os gentios ao perceber a chegada dos judeus (Gálatas 2:11 a 14). Também no contexto do Novo Testamento, somos avisados de que estará pecando quem vir a seu irmão andar por um caminho de morte e não o alertar. Na verdade, a reação do cristão ao receber uma crítica é um indicativo de como anda a sua espiritualidade ou a sua comunhão com Deus. Um dos propósitos de Deus para a Igreja é que os cristãos sejam cada vez mais parecidos com Jesus Cristo, e isso requer um processo chamado “santificação”. O Espírito de Deus, muitas vezes, nos chama para auxiliar na santificação dos irmãos através da exortação e da repreensão. Quem repreende deve fazê-lo com e por amor. Quem é repreendido deve ter a humildade de analisar bem a crítica recebida. Assim, haverá restauração e crescimento tanto a nível pessoal como comunitário. A crítica construtiva ou repreensão deve ser sempre expressão de amor e de preocupação com o próximo. O amor que vem de Deus também inclui palavras fortes de advertência como: “Hipócritas, raça de víboras” (Mateus 23:33), “vocês estão errados porque não conhecem as Escrituras” (Marcos 12:24), ou “vá e pare de pecar” (João 8:11). Assim como o médico precisa dizer ao paciente teimoso: “- Se você não parar de beber hoje, em breve estará morto.” Durante a criação do mundo, por cinco vezes, Deus avaliou as obras das Suas mãos e, ao final, aprovou todo o seu trabalho (Gênesis 1:10, 12, 18, 21, 25 e 31). Assim também devem ser considerados aqueles eventos que são realizados nas igrejas ano após ano, apresentando os mesmos erros. Ninguém ousa fazer um comentário negativo aos responsáveis pelo evento com medo de que se sintam ofendidos ou humilhados diante de alguma crítica, ainda que construtiva. Após cada evento realizado, é necessária a iniciativa, por parte dos organizadores, de fazer uma reunião com a finalidade de levantar as opiniões, as críticas e as sugestões para a melhoria do evento, na sua organização e realização, no ano seguinte. Nas mãos de Deus, somos como “obras em construção” e, por isso, precisamos uns dos outros para nos manter unidos ao Senhor até o final da caminhada, sendo mutuamente orientados através dos elogios e das críticas. Conforme a orientação de Hebreus 3:13: “Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado”.

Alexandre Fonseca de Melo
placeholder

28 de agosto de 2026 • 3 min. de leitura

TEOLOGIA, VOCAÇÃO E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: PERSPECTIVAS PARA O MINISTÉRIO NA ERA DIGITAL

A contemporaneidade é profundamente marcada por transformações estruturais decorrentes da evolução acelerada das tecnologias da informação e da comunicação, exigindo uma contínua reavaliação epistemológica e metodológica dos diversos campos do saber humano. No âmbito da formação teológica e da liderança eclesiástica, tal cenário impõe a imperiosa necessidade de um posicionamento analítico, crítico e solidamente fundamentado nas Escrituras Sagradas. A reflexão teológica não pode se distanciar das realidades emergentes, considerando que a era digital não constitui mais um horizonte futuro abstrato ou meramente hipotético, mas sim uma realidade plenamente instaurada na cultura contemporânea e na práxis cotidiana de toda a sociedade global. Diante da premente exigência de contextualização da reflexão teológica e do agir eclesial, a Faculdade Teológica Betania (FATEBE) inaugurou as atividades acadêmicas do segundo semestre letivo de 20206, por meio de sua tradicional Semana Acadêmica. O evento adotou como eixo temático norteador as discussões sobre a práxis ministerial na era digital, integrando aspectos basilares do chamado vocacional, da responsabilidade ética e do uso de instrumentos tecnológicos inovadores no ministério. O objetivo primordial consistiu em fornecer subsídios conceituais, teóricos e metodológicos consistentes para que a comunidade acadêmica compreenda criticamente os desafios, os dilemas, os riscos e as vastas oportunidades decorrentes da expansão progressiva dos novos ecossistemas digitais. A condução dos trabalhos acadêmicos esteve sob a responsabilidade do Prof. Dr. Kemuel Andrade, pesquisador com reconhecida trajetória acadêmica na investigação rigorosa das interfaces entre cultura digital, teologia sistemática e ministério pastoral. A dinâmica metodológica implementada organizou as atividades em jornadas diárias estruturadas em dois blocos temáticos complementares, mediados por intervalos de convivência, proporcionando um ambiente altamente propício ao aprofundamento analítico, à troca interdisciplinar de conhecimentos e à consolidação de competências conceituais e operacionais indispensáveis à liderança eclesial contemporânea. No primeiro dia da programação, a sessão inaugural articulou a mensagem institucional a uma criteriosa atividade diagnóstica de percepção discente, culminando em uma preleção dedicada à vocação e ao chamado pastoral na pós-modernidade. O debate enfatizou a indispensável necessidade de preservação da autenticidade da missão eclesiástica, do compromisso vocacional e da integridade espiritual antes de qualquer apropriação dos aparatos técnicos modernos. O segundo dia concentrou-se na análise minuciosa dos impactos éticos, sociais e teológicos decorrentes da automação algorítmica e dos sistemas inteligentes, estabelecendo um paralelo histórico e hermenêutico com as narrativas veterotestamentárias. Após a exposição teórica principal, os discentes integraram grupos de trabalho estruturados a partir de ementas problematizadoras, resultando em debates profícuos e apresentações em plenária que exploraram a postura da comunidade de fé diante da aceleração tecnológica. O terceiro dia caracterizou-se por uma abordagem eminentemente prática e laboratorial. Os estudantes tiveram contato direto com os princípios estruturantes da inteligência artificial generativa, examinando a formulação e o refinamento de comandos (prompts) aplicados à elaboração de estudos bíblicos, à exegese e à pesquisa homilética. Foram explorados ambientes computacionais voltados à investigação acadêmica rigorosa, bem como aplicações de ponta destinadas à produção visual e artística para a comunicação institucional eclesiástica. No encerramento da programação, reafirmou-se o compromisso pedagógico com a excelência formativa e a aprendizagem profunda mediante avaliações objetivas e discursivas, que atestaram a sólida assimilação dos conteúdos ministrados ao longo da semana. A conferência derradeira integrou dimensões fundamentais de maturidade socioafetiva, espiritualidade e competência técnica no exercício ministerial. O percurso percorrido evidenciou que a tecnologia não é neutra, mas veicula valores e pressupostos existenciais que demandam constante discernimento ético, maturidade crítica e fidelidade bíblica.

Dr. Kemuel Andrade
 Voltar ao início