Relações Possíveis entre a Cibercultura e a Leitura Bíblica
17 de outubro de 2019 • 3 min. de leitura

Introdução
O objetivo desse artigo é apresentar as possíveis relações entre a ‘cultura da internet’ e a cultura do Antigo Testamento. A ‘cultura da internet’ é atualíssima e muda rapidamente, enquanto que a cultura do AT é antiga e estável. Sendo assim, qual a contribuição das disciplinas do AT para a cultura cibernética? Qual o diálogo possível entre a cultura do AT e cibercultura?
Para abordar essa interrelação, propomos dois casos de choque cultural no mundo Antigo Testamento para, a partir deles, extrair, por analogia, algumas reflexões e orientações para lidar com a cibercultura. Esses dois casos são a passagem da tradição oral para a escrita e a globalização greco-romana.
Da oralidade à escrita
A tradição oral gera uma cultura própria, cujo principal suporte de preservação da informação é a “memória”. Nessa cultura, a tradição era emitida e recebida no mesmo contexto.
A invenção da escrita não substitui a tradição oral, mas coexistem por muitos séculos. A escrita permite adotar outros suportes, como pedra, cerâmica, papiro (2500 a.C.), velino (Jr 36.26), pergaminho (séc. IV d.C.) até chegar ao papel (séc. XV). Além disso, a escrita permite a fixação do texto de modo que a mensagem saia do contexto sem perder o sentido original, dando importância às ciências hermenêuticas.
A globalização greco-romana
A primeira grande globalização da cultura greco-romana representou um choque grave para os judeus, impondo-lhes o dilema: resistência ou assimilação. A nosso ver, o cristianismo primitivo soube aproveitar as vantagens, como integração cultural, idiomática, maior segurança nos transportes, interligação das regiões do Império, a ampla circulação de escritos e de pessoas, ao mesmo tempo resiste aos costumes, como, por exemplo, o culto ao imperador.
O processo de globalização foi acelerado pelos avanços tecnológicos, especialmente no setor de comunicações. A interconexão supriu um desejo do ser humano. Com isso, chegamos a uma nova Babel: a cibercultura venceu ‘Babel’ ou a cibercultura se tornou uma super-Babel?
A Cibercultura e o estudo da Bíblia: aspectos positivos e negativos
a) Aspectos positivos:
– Acesso ao acervo de obras digitais: dicionários, comentários, obras não traduzidas para o português.
– Pesquisa e estatística: maior capacidade de cruzamento de dados e de análise de textos;
– Leitura da Bíblia: diversas versões da Bíblia e diversos idiomas e línguas originais; democratização do conhecimento.
– Ciberteologia: a reflexão teológica das novas tecnologias (cibernética); a inteligência da fé em tempos de internet (SPADARO, 2011).
b) Aspectos negativos e preocupantes
– Dilúvio de informações: dispersão: dificuldade de seleção de fontes; superficialidade: efeito do excesso de informação;
– Comunicação de massa: propaganda ideológica/comercial (mercado gospel); igrejas virtuais x fraternidade comunitária; frustração: fracasso em produzir os resultados prometidos;
– Teologia fake: sensacionalismo: as novas tecnologias como ‘sinais’ da escatologia (controle mundial, chips, numerologia etc.); a rapidez da informação joga contra a verificação da verdade teológica.
Considerações finais:
A cibercultura, como todas as culturas da humanidade, tem aspectos positivos e negativos. Ela não é parte do desenvolvimento retilíneo e necessário da humanidade, pois, outro mundo é possível. A cibercultura reflete desejos de interconexão, de superação de limites. A teologia oferece base para a crítica permanente das obras humanas.

12 de junho de 2020 • 3 min. de leitura
O que Deus me ensinou e o que ainda estou aprendendo
Ainda quando criança, aprendi que amar o próximo e servir meus irmãos não é algo facultativo, mas uma obrigação muito honrosa, pois no reino de Deus a promoção é para baixo. Um pouco mais velho aprendi que as coisas que eu pensava que tinha, não eram minhas, mas de Deus, que por sua infinita misericórdia me permitiu administrar e usufruir delas, sabendo que também é minha obrigação usar todas elas em benefício daqueles que não foram favorecidos. Há pouco tempo, também descobri que minha vida aqui não serve apenas para minha própria alegria ou prazer mas que ela tem um propósito maior que a minha própria existência, pois muitas pessoas ainda vivem escravizadas pelo sofrimento e medo e elas também têm o direito de conhecer o Deus maravilhoso que me foi apresentado ainda quando criança. Descobri que para essa nobre tarefa me foi confiada uma lanterna, alimentada pelo evangelho de nosso Senhor, que além de iluminar meus passos também pode iluminar o caminho daqueles que estiverem em trevas, e mais, descobri que ao fazer isso, meu coração se enche com tanta alegria e satisfação que mal posso me conter, a ponto de desejar cada dia mais compartilhar essa luz. Aprendi que às vezes, as pessoas cometem erros terríveis com intenções puras mas que devo sempre lembrar que eu também não consigo fazer o bem que gostaria todas as vezes que tento e que o perdão é libertador. Aprendi que em alguns dias, apesar de fazer sol lá fora e não ter nuvens no céu, meu coração pode enfrentar grandes tempestades e que esses dias costumam ser bem longos, mas aprendi também que em outros dias, não importa o frio que faça lá fora, não importa o quão cinza o céu esteja, meu coração se aquece com o amor de Deus de tal forma, que poderia derreter toda frieza e apatia que me cercar, esses são dias maravilhosos. Com o passar do tempo, tenho aprendido a orar em silêncio, ouvindo mais o que Deus espera de mim, do que dizendo o que eu espero dele, expondo sim, meus anseios e angústias porque sei que ele tem poder para fazer todas as coisas, mas sem me frustrar quando não sou atendido, porque mesmo que as negativas não façam sentido para mim, é Ele quem sabe o que é melhor de acordo com seu plano soberano para minha vida. Tenho aprendido que quando choramos fazemos as nossas melhores orações, pois são as mais sinceras e que nenhuma lágrima é desperdiçada quando derramada na presença de Deus. Descobri que o silêncio de Deus não é sinal de sua apatia, mas na maioria dos casos, a resposta que eu preciso, e que se ambos ficarmos em silêncio por algum tempo, poderemos passar momentos incríveis juntos. Por fim, tenho aprendido que seu amor se manifesta das mais variadas formas, de pássaros cantando na janela a abraços de amigos e que absolutamente nada poderá nos afastar desse amor ou nos arrebatar de suas mãos.

13 de novembro de 2019 • 5 min. de leitura
Comunidade Tradicional e Comunidade Virtual
A construção da identidade de um ser humano é um dos fatores centrais na sua própria existência. O seu posicionamento social acaba plasmado pela sua capacidade de identificar-se enquanto um ser frente aos seus semelhantes. Neste aspecto a instituição é fator essencial para propiciar elementos que estabelecem o aspecto identitário. Em primeiro plano é essencial compreender que identidade é diferente de papel. Os papeis desempenhados pela pessoa “são definidos por normas estruturadas pelas instituições e organizações da sociedade”(CASTELLS, 1999, p. 23). São elementos que permeiam a vida do ser humano, muitas vezes usado para tentar definir o mesmo embora sejam apenas manifestações desta pessoa no seu aspecto funcional. “Identidades, por sua vez, constituem fontes de significado para os próprios atores, por eles originadas e construídas por meio de um processo de individuação” (CASTELLS, 1999, p. 23) Nesta construção, a instituição assume papel importante, auxiliando na introjeção dos elementos constitutivos da identidade mediante a construção do imaginário e elementos valorativos do indivíduo. Castells indica a existência de três tipos de identidade. A primeira é a legitimadora que, mediante a ação das instituições, acaba por tornar natural a opressão e os elementos predatórios existentes no tecido social. A segunda, dentro da lógica da sobrevivência, acaba sendo desenvolvida sempre que se sente ameaçado. Nesta segunda identidade incluem-se tanto os grupos e etnias que sofrem perseguição como os grupamentos religiosos que buscam no fundamentalismo a sobrevivência frente a uma comunidade em constante mutação. A última identidade é a de projeto. Esta terceira identidade se aproxima muito daquilo que Jesus Cristo pregou ao indicar uma nova mensagem por meio do evangelho. É uma identidade que compreende a necessidade de transformação do tecido social mediante uma ressignificação da própria sociedade e da implementação de valores transformadores. Desta forma a identidade do indivíduo se estrutura nesta tríplice possibilidade. É importante notar, contudo, que não se trata de elementos estanques. Uma mesma pessoa que se coloca numa identidade de resistência, pode acabar contraindo elementos que o levem a uma identidade de projeto ou mesmo legitimadora. É neste ponto que entra a importância das comunidades. Inicialmente é possível, a grosso modo, dividi-las entre tradicionais e virtuais (CASTELLS, 1999c,b). As tradicionais são aquelas que existem de forma física, muitas vezes já durando milênios. Normalmente são formais pois estão estruturadas em um tempo e local estabelecidos. As regras, símbolos e ritos marcam a sua existência. Normalmente as pessoas possuem uma relação direta com a comunidade o que permite desenvolver relacionamentos profundos que derivam num senso de pertencimento. Muitas lideranças são estabelecidas por carisma. Suas principais limitações são a atitude normalmente refratária a mudanças e o risco de se tornar uma trincheira no qual os indivíduos se sentem os últimos guardiões da verdade. Quando pensamos em comunidades virtuais o que se traz à tona é um ambiente virtual, o espaço da internet. Um espaço em que sua identidade torna-se múltipla e pode até mesmo ser trocada e disfarçada. É neste espaço que se organizam as comunidades virtuais (CASTELLS, 1999a). Caracteriza-se por possuir pouca ou nenhuma formalidade e uma tendência constante de mutação. O líder deixa de ser carismático para se tornar um influencer. Os relacionamentos são superficiais, ou nas palavras de Bauman (2004), líquidos. Desta forma existe pouca, ou nenhuma, preocupação real com as pessoas. Busca-se o espetacular e o distanciamento dos problemas alheios. Antes de prosseguir para a provocação necessitamos voltar os olhos para Baumann (2001b,a; 2004). Ele observa que existem comunidades virtuais que acabam trazendo consigo elementos tradicionais tais como a possibilidade de exclusão caso não concorde com a “verdade” estabelecida (desfazer amizade). Por outro lado, a contaminação do virtual também chega às comunidades tradicionais que acabam adotando elementos virtuais como o pouco compromisso, o influencer como líder, pouca preocupação real com o outro. Desta forma é possível ter uma comunidade no mundo digital marcada por elementos tradicionais e uma comunidade no mundo real imbricada pela lógica virtual. Desta forma é bastante empobrecedor, numa sociedade líquida imaginar que uma comunidade virtual sempre estará no mundo virtual ou uma tradicional seguindo a lógica do mundo físico. Desta forma a provocação deste texto é uma reflexão sobre qual tipo de identidade nossas Igrejas têm construído. Se olharmos para Jesus Cristo com certeza indicaríamos a de projeto como a mais adequada, mas não é raro observarmos Igrejas construindo identidades legitimadoras e de resistência. Por outro lado, como tem sido a postura da Igreja contemporânea? Ela se contaminou com a tendência líquida da sociedade ou se mantém um espaço onde a Verdade de Jesus Cristo é pregada? Os relacionamentos, ritos e símbolos do sagrado têm sido elementos identitários, ou têm sido substituídos por elementos fluidos que pouco têm a acrescentar na construção identitária de seus membros? São questões que a Igreja precisa responder cotidianamente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN, Z. Comunidade: a busca da segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Zahar, 2001a. 136 p. ISBN: 8571106991. _________. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001b. 192 p. ISBN: 8571105987. _________. Amor Líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. 77 p. ISBN: 9788571107953. CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999a. _________. Fim do milênio. São Paulo: Paz e Terra, 1999b. . O Poder Da Identidade. São Paulo: Paz e Terra, 1999c. 492 p. ISBN: 85-219-0336-7.

31 de outubro de 2019 • 5 min. de leitura
A Radicalização da Cibercultura: o Transumanismo
4 Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. 5 Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Gn. 3:4,5 O desenvolvimento humano sempre esteve atrelado ao desenvolvimento tecnológico. É graças a capacidade humana de criar instrumentos que ampliam a capacidade física natural, que a natureza passa a ser dominada, “pois a fragilidade da natureza humana exigia que o homem buscasse um apoio”. (ROHREGGER; SGANZERLA). Segundo JONAS: A técnica, podemos dizer, representa uma “vocação” da humanidade, isto é, uma necessidade humana para assegurar a continuidade da sua existência. Mesmo no passado quando seu desenvolvimento era bastante vagaroso, a técnica antiga, como afirma Jonas representava um “tributo cobrado pela necessidade” (2006, p. 45) A ciência e o desenvolvimento tecnológico têm contribuído para que a humanidade tenha um maior acesso a bens de consumo, alimentos, medicamentos, facilidades de comunicação e transportes, entre outros inúmeros inventos possibilitados inclusive por um sistema econômico que possibilitou este desenvolvimento e hoje também está atrelado de tal maneira que se tornam interdependentes. Porém, a humanidade ainda enfrenta problemas relacionadas à distribuição de todo este desenvolvimento. Há uma parcela bastante significativa da população mundial que não usufrui de todo este desenvolvimento. Muitos locais de grande concentração humana não têm acesso a questões básicas como a distribuição de água e tratamento de esgoto. Mesmo em países com um grau significativo de desenvolvimento econômico podemos encontrar pessoas sem acesso a tratamento médico e a alimentação digna. Este quadro parece demonstrar que o desenvolvimento técnico-científico não é universalizável, isto é, não é acessível a toda a humanidade, pelo menos não a curto prazo, uma vez que este está atrelado ao desenvolvimento econômico e a políticas públicas. Apesar deste quadro, não parece haver outra possibilidade para o aumento da qualidade de vida humana que não passe pela concepção de que a ciência e a tecnologia seja o caminho inexorável para este objetivo. Desta forma a ciência é vista como àquela que poderá trazer a humanidade um futuro que possa assemelhar-se ao paraíso. É a partir desta concepção que a ideia do transumanismo se desenvolve, como uma ideologia de evolução que possa ser direcionada pela própria humanidade. O conceito geral que sustenta o transumanismo é que o ser humano na atualidade já possui as condições para dominar a sua própria evolução, não ficando mais a mercê do evolucionismo cego, isto é, poderíamos a partir das descobertas cientificas como a manipulação genética e tecnológicas como a miniaturização de processadores transformar o corpo humano, aumentando sua capacidade cerebral, física e de longevidade. O transumanismo deixa de ser apenas uma idéia de ficção científica para passar a ser um conceito ideológico e um projeto filosófico. O “aperfeiçoamento” e a “imortalidade” humana tem sido perseguidos por diferentes grupos sociais, entre empresários, tecnólogos, biotecnólogos. Um dos mais recentes a aderir a essa causa foi Larry Page (co-fundador e CEO do Google) que criou a empresa Calico, voltada para a pesquisa em saúde e longevidade humana. Esta e outras ações e iniciativas estão em curso com o mesmo objetivo e até maiores, a exemplo do empreendimento do empresário russo Dmitry Itskov que pretende, com ajuda da biotecnologia e da informática, alcançar até o ano de 2045, a possibilidade de fazer o upload da mente humana para uma máquina, que seria o passo posterior do transumanismo para o póshumanismo. Apesar de algumas ideias exóticas o transumanismo tem o apoio de uma boa parcela da comunidade científica, filosófica e empresarial, o que parece indicar que algum tipo de manipulação humana será desenvolvido como resultado deste projeto. É óbvio que deste ideal surgem uma série de questões que necessitam ser respondidas, as mais básicas seriam refletir sobre, quais as implicações do transumanismo para o ser humano? Como podemos compreender as afirmações transumanistas pela perspectiva metafísica e religiosa? Quais as implicações éticas para o desenvolvimento do transumanismo? E as implicações sociais? Porém há uma questão fundamental a qual nos leva à parte inicial deste pequeno texto, qual a possibilidade de universalização do transumanismo? Talvez se este desenvolvimento tecnológico não possa ser acessível a qualquer pessoa, signifique a construção de um abismo social muito maior do que o existente na atualidade e o desenvolvimento técnico-cientifico possa, não mais apontar para o progresso de toda a humanidade, mas para apenas um seleto e já privilegiado grupo. Referências bibliográficas para aprofundar o tema. BOSTROM, Nick; Superinteligência. Rio de Janeiro, RJ: Darkside, 2018 FERRY, Luc; A Revolução Transumanista, Barueri, SP: Manole, 2018 FUKUYAMA, Francis. Nosso Futuro Pós-Humano, Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2003 JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUCRio, 2006. JONAS, Hans. Técnica, medicina e ética. Sobre a prática do Princípio Responsabilidade. São Paulo: Paulus, 2013. ROHREGGER, R.; SGANZERLA, A. . Transhumanismo e a ampliação da desigualdade social. In: Daiane Priscila Simão-Silva; Leo Pessini. (Org.). Bioética, Tecnologia e Genética. 1ed.Curitiba: Editora CRV, 2017, v. 1, p. 51-68. ROHREGGER, R.. IMPLICAÇÕES FILOSÓFICAS DO TRANSHUMANISMO. 2019. (Apresentação de Trabalho/Comunicação). SANDEL, Michael J. Contra a Perfeição. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2013 SGANZERLA, A.; ROHREGGER, R. . PRUDÊNCIA: A VIRTUDE DA BIOÉTICA NA CIVILIZAÇÃO TECNOLÓGICA. THAUMAZEIN (SANTA MARIA), v. 10, p. 67-74, 2017. SGANZERLA, A. ; ROHREGGER, R. ; RODRIGUES, M. P. Transhumanismo: Poderá a tecnologia criar um ser humano ‘superior’?. Simpósio Internacional IHU, v. 1, p. 202, 2014.