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Saúde Emocional em Tempos de Crise

José Godoi Filho
José Godoi Filho
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2 de julho de 2020 • 8 min. de leitura

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Nas últimas décadas, as emoções vêm ganhando um destaque cada vez maior sobre sua importância e o quanto podem ser sensivelmente impactadas pelas crises, afetando a saúde mental e física das pessoas.

Entendendo o que é crise

Entender o que é crise é o primeiro passo para sabermos o quanto ela afeta a vida das pessoas. A palavra “crise” vem da palavra grega “κρίσις”, que significa: decisão, julgamento. Isso significa que toda crise exige uma resposta das pessoas, e estas normalmente respondem, de uma maneira ou de outra. Não há como não responder a uma crise, do ponto de vista da psicologia, mesmo que seja inconscientemente.

O termo “crise” também tem uma gama de aplicações, pois é usado no campo da sociologia, da política, da economia, da medicina, da psicopatologia, e em outras áreas do conhecimento humano. Poderíamos, assim, definir a crise como qualquer situação, seja de que ordem for, que cause: alterações (para melhor ou para pior), estranheza, desconforto, e até a sensação de ameaça, de perda para uma pessoa, povo, nação, entidade, etc, e que exija uma resposta da parte afetada.

A classificação das crises pode ser feita de várias maneiras. Por exemplo, elas podem ser classificadas por sua natureza, frequência e também por sua gravidade. Quanto à natureza, existem crises oriundas de desastres naturais, de situações econômicas, sanitárias, crises evolutivas do ciclo de vida do ser humano, crises existenciais, crises emocionais, imaginárias, subjetivas de cada indivíduo, etc. Com relação à frequência, as crises podem ser únicas, episódicas, recorrentes, intermitentes, ou mesmo, crônicas. No que diz respeito à gravidade, elas podem chegar a ponto de serem muito graves, como é o caso do surgimento de uma pandemia.

Diga-se de passagem que as crises fazem parte da nossa vida, desde que nascemos até a morte. É impossível viver sem crises. Algumas dessas crises não somente são inevitáveis, mas necessárias para o desenvolvimento humano. Um exemplo disso são as crises próprias do ciclo de vida das pessoas (infância, adolescência, vida adulta e velhice). Cada fase tem suas crises, assim como na transição de uma para outra.

Algumas crises não resultam necessariamente em maiores prejuízos ao ser humano, mas podem sim significar crescimento e desenvolvimento, dependendo de como reagimos ou agimos diante dessas crises. Outras, no entanto, têm um impacto muito grande na vida emocional das pessoas, as quais podem resultar em danos à sua saúde mental, e também trazer prejuízos imprevisíveis a outras dimensões da vida da pessoa.

Como nos diz Collins (2007), com uma certa poesia, ao discorrer sobre o impacto das crises:

[…] a crise é um ponto de virada que normalmente não pode ser evitado. As crises podem ser esperadas ou inesperadas, reais ou imaginárias, real (como a morte de um ente querido) ou potencial (como o prospecto de que aquele ente querido morrerá logo). Na maioria das vezes, elas chegam rapidamente, e depois vão embora, deixando uma devastação para trás. Às vezes, elas colidem contra nossas vidas como gigantes ondas contra as rochas – de novo e de novo, vagarosamente nos deixando para baixo (p. 746).

A crise emocional, normalmente, está associada a outras crises. Ela dificilmente existe por si só, atingindo a pessoa como um todo, e não apenas a dimensão emocional. Ela afeta o corpo, a parte cognitiva, o comportamento, o trabalho, a vida social da pessoa, etc. É por isso que em um acompanhamento psicológico não se trata apenas a dimensão emocional do paciente, mas também o efeito que isso tem no seu organismo, na sua maneira pensar, e também em outros aspectos e áreas da sua vida.

Segundo Thase e Lange (2005, p. 32), a saúde emocional de uma pessoa envolve vários elementos, tais como: equilíbrio (sob várias sortes); sensação de bem estar, na maior parte do tempo; bom humor; sensação de controle da própria vida; relacionamentos satisfatórios; ser produtivo; suportar perdas, contratempos e frustrações; autoconfiança; dedicar-se a vários interesses; sentido de vida. Numa crise, seja de que ordem for, esses vários aspectos da saúde emocional de uma pessoa são colocados em cheque.

Um exemplo da associação entre as crises, citamos a atual pandemia do coronavírus, a qual tem impactado a vida das pessoas sob vários aspectos. A Revista Veja, de maio deste ano de 2020, publicou uma edição especial sobre saúde. Dentre os artigos, havia um que tratava do impacto da pandemia na vida dos brasileiros (“A pandemia oculta”). Nele, o jornalista André Biernath reporta uma pesquisa feita pela Área de Inteligência de Mercado do Grupo Abril, em parceria com a MindMiners, com 4.693 brasileiros, evidenciando o impacto da pandemia em nosso país. Dentre as consequências para a saúde mental, cita: crises de ansiedade, depressão, aumento de suicídios, violência doméstica (aumento de 30% em março/2020), aumento de divórcios (E.g. China), problemas relacionados ao luto, visto que muitas famílias estão sendo impedidas de enterrarem os seus entes queridos.

As estatísticas, veiculadas pela reportagem, retratam o impacto emocional na vida dos brasileiros: 54% se sentem preocupados com a situação da Covid-19; 76% temem a superlotação dos hospitais, de modo que não seja possível atender todos os doentes; 70% estão com medo do desemprego e da segurança de amigos e familiares; 70% estão encucados com a possibilidade de sofrer cortes de salário ou perder direitos trabalhistas; 59% dizem que a palavra “insegurança” é o que mais define seus sentimentos com relação à Covid-19; 47% afirmam que têm dificuldade para relaxar; 23% não conseguem dormir.

Propostas para enfrentar as crises

As propostas para enfrentar as crises são muitas, felizmente. A psicologia não somente trabalha essencialmente na(s) crises(s) como também faz diversas intervenções para ajudar os seus clientes/pacientes para enfrentar e, se possível, superar as crises.

Vários especialistas da área da saúde entrevistados na reportagem anteriormente citada, sobre o que fazer nesse momento de crise pandêmica, recomendam às pessoas: praticar meditação, fazer dieta de notícias, ou seja, não ver reportagens sobre o assunto mais do que duas vezes por dia; usar os meios disponíveis para o contato social; procurar fazer algo para relaxar – jogar, ver TV, ler um livro etc. A pesquisa constatou que 64% acessam a internet para tentar preservar a saúde durante a quarentena; 50% preferem ver TV, enquanto que 48% leem, 31% praticam exercícios e 18% meditam.

Além das recomendações acima, o artigo enfatiza aquilo que é a recomendação praxe da área da saúde para todas as pessoas, o que também ajuda na esfera emocional: o descanso noturno, tomar sol todos os dias (para liberação da serotonina, o hormônio do bem-estar), praticar exercícios físicos regularmente, ter uma dieta saudável e praticar a solidariedade.

Existem muitas outras intervenções específicas para ajudar as pessoas a enfrentarem as suas crises, dependendo da abordagem do profissional e também do tipo de crise vivida pela pessoa. Apenas para citar duas dessas intervenções, muitas vezes, paradoxais da psicologia, vale até a recomendação para que a pessoa fique na crise, ou mesmo provoque uma crise, para resolver outras questões na sua vida.

Conclusão

Mesmo numa situação grave de pandemia, pela qual passamos, podemos aproveitar o momento para nos reinventar, aprendermos muitas coisas, aprendizados estes que poderão enriquecer a nossa vida, nos preparando para uma qualidade de vida melhor depois que a crise passar, e para enfrentarmos outras crises que, com certeza, aparecerão.

O psicólogo canadense, Steven Taylor, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Columbia, no Canadá, escreveu um livro sobre a pandemia, em dezembro de 2019, um pouco antes do Coronavírus aparecer, antecipando algumas previsões sobre a pandemia seguinte, que assolaria a humanidade. Disse em tom profético:

Em pandemias anteriores, as pessoas também foram solicitadas a se isolar […]. Nós temos precedentes. A boa notícia é que os humanos sobreviveram a muitas pandemias no passado. Muitas, muitas outras mais sérias que esta, então vamos sobreviver. As pessoas costumam esquecer, mas é importante saber, perceber ou lembrar que os seres humanos são resilientes. Nenhum de nós gosta de ficar socialmente isolado, não gostamos do fato de não podermos continuar com nossa vida, achamos estressante, mas vamos sobreviver. Nós vamos lidar com isso. Assim como as pessoas no passado lidaram com pragas e outras pandemias. Fonte: https://apublica.org/2020/03/a-historia-nos-ensinou-que-as-pessoas-sao-resilientes-diz-autor-do-livro-a-psicologia-da-pandemia/

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

COLLINS, G. R. Christian counseling : a comprehensive guide. 3ª ed. USA: Thomas Nelson, 2007.

GERRIG, R. J.; ZIMBARDO, P. G. A psicologia e a vida. 16ª ed. Porto Alegre : Artmed, 2005.

TAYLOR, Steven. The psychology of pandemics : preparing for the next global outbreak of infections disease. 2009.

THASE, Michael E. Sair da depressão: novos métodos para superar a distimia e a depressão branda crônica. Rio de Janeiro: Imago, 2005.

REVISTA VEJA, No 455, Maio/2020.

José Godoi Filho
José Godoi Filho
Psicólogo, teólogo e escritor. Pós-graduação em Psicologia Clínica pela Universidade Tuiuti do Paraná, em Novo Testamento e Grego pelo Spurgeon’s College – Londres/Inglaterra, em Psicodrama Terapêutica - Associação Paranaense de Psicodrama. FEP. E em Aconselhamento Pastoral, pelo Wheaton College – Wheaton/EUA. Graduado em Psicologia e Teologia e professor da FATEBE.
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28 de outubro de 2021 • 3 min. de leitura

Preciso de um chamado específico para “fazer” missões?

O plano perfeito de Deus para a redenção da humanidade após a queda, conta com a participação do homem como um cooperador para sua execução. Após o juízo aplicado através do Dilúvio e da Torre de Babel, Deus escolheu um homem segundo o seu coração para dar continuidade ao seu plano, dando início ao povo de Israel, do qual viria o Messias prometido em Gênesis, 3:15 “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela; esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”, sendo essa a primeira menção do sacrifício de Jesus para salvar os perdidos. A partir de Gênesis 12, Deus escolhe Abrão como o pai da futura nação de Israel, prometendo que em Abrão “seriam benditas todas as famílias da terra” (Gênesis 12:3). Daí em diante, Deus escolheu Jacó, José, Davi e outros reis de Israel para dar continuidade ao seu plano, chegando ao Novo Testamento com o nascimento de Jesus, quando escolheu Maria como a mãe do Salvador. Todos estes citados receberam uma missão específica em cumprimento do plano de Deus. Para dar continuidade ao plano de Deus, Jesus escolheu 12 discípulos para estar com ele enquanto aqui na terra e os instruiu sobre as verdades do Reino de Deus e o seu propósito. Os Evangelhos registraram que após sua morte e ressurreição Jesus apareceu aos seus discípulos e lhes deu uma missão, a maior missão de todos os tempos dada aos filhos dos homens, “Portanto, ide e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-lhes a obedecer a todas as coisas que vos ordenei” (Mateus 28:19,20). Em Atos 1:8 Jesus deu ênfase a esta tarefa especificando Jerusalém, Samaria, Judeia e até “os confins da terra”, para que não houvesse dúvida quanto ao alcance de sua mensagem. Portanto, a todos os que aceitam a mensagem do sacrifício de Cristo deverão fazer parte dessa missão, a missão de espalhar as “Boas Novas” ou o Evangelho a todos os que ainda não ouviram. Esse chamado é geral, embora em muitos casos nos relatos bíblicos encontramos vários chamados específicos, como Paulo e Barnabé para os gentios, aqueles que não conheciam o Evangelho e Timóteo para pregar a palavra. Ronaldo Lidório em seu livro Vocacionados (Editora Betânia, 2014), resume este assunto afirmando que “todos os remidos são chamados por Deus e para Deus.” A origem do chamado não é do homem ou da igreja, mas sim de Deus. O Evangelho é como um remédio que sabemos que fará bem a todos os enfermos que o receber, mas muitas vezes guardamos apenas para nós, quando poderia alcançar milhares de doentes espiritualmente que seriam curados. A missão de pregar o Evangelho, revelar o segredo do remédio é para todos os salvos em Cristo, embora muitas vezes Deus revela algo específico a ser realizado por um dos seus filhos, seja local ou mundial. Nem todos serão missionários ou pastores, mas todos devem assumir a missão de pregar o Evangelho para o maior número de pessoas possível. Dessa forma, a visão de João registrada em Apocalipse se cumprirá, “Depois disso olhei, e diante de mim estava uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, diante do trono e do Cordeiro, com vestes brancas e segurando palmas”, Apocalipse 7:9.

Malena Clower
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14 de outubro de 2021 • 5 min. de leitura

Ecoteologia, igreja e os movimentos ambientais

A reflexão teológica e as concepções históricas do pensamento cristão estão constantemente passando por reflexões, transformações, reinterpretações e contextualizações da mensagem dos Evangelhos. Estas constantes reinvenções teológicas normalmente se estabelecem dentro de um contexto histórico-social, onde o pensamento e o conceito da vida em sociedade merecem uma interpretação cristã da realidade e que deve ser feita de maneira crítica e criteriosa, não necessariamente dogmática, mas dialeticamente cristã. É preciso compreender que a Igreja necessita de ações que atinjam estas pessoas, que voltem a perceber que aquilo que elas entendiam não encontrar mais na igreja está sendo recuperado. Um dos grandes problemas que o mundo vai enfrentar nos próximos anos é o problema ambiental. Se a Igreja não conseguir apresentar um diálogo com a sociedade sobre esta questão, através de uma cosmovisão cristã da criação, teremos possivelmente mais cristãos indo buscar estas respostas fora da igreja. A crise ambiental pelo qual estamos começando a passar é antes de tudo um problema ético, com impactos diretos no modelo capitalista moderno, implicando em profundas alterações comportamentais, que pode mudar a forma de entendermos a realidade e claro sendo um problema humano, encontraremos reflexos no entendimento teológico da criação. O problema Ecológico Vivemos um momento muito importante com relação à questão ambiental nos anos 90 e começo de 2000, porém o debate e ações governamentais acabaram esfriando nos últimos anos. Tivemos avanços importantes, mas estes avanços não são perenes se não forem amparados por medidas de políticas públicas persistentes para que não haja regressão. Porém avaliando tanto a situação atual quanto a possibilidade bastante evidente de aprofundamento da crise ambiental é preciso pensar em uma mudança significativa na mentalidade produtivista/consumista que impulsiona o progresso como se está estabelecido atualmente, isto significa uma mudança na forma como toda a sociedade percebe a nossa forma de viver. O relatório Mudança Climática 2021 elaborado para o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que a influência humana no aquecimento do planeta, está ocorrendo em um ritmo sem precedentes pelo menos nos últimos 2 mil anos. Com isso, as consequentes mudanças na temperatura e nos extremos climáticos afetam todas as regiões do mundo. Prevê-se que esses efeitos continuem em longo prazo, pelo menos no resto deste século, afetando ecossistemas dos mares e pessoas que dependem deles (Nações Unidas, 2021). O filósofo Hans Jonas alerta que nós temos uma responsabilidade para com as gerações futuras, isto é a responsabilidade para a manutenção de uma vida autêntica humana (JONAS, 2006). Desta forma, devemos garantir hoje, a possibilidade de vida humana digna futura. O paradigma de crescimento / progresso constante e progressivo nos moldes que pensamos hoje, é insustentável para a vida no planeta. Desta forma é necessária uma mudança de mentalidade com relação a ideia de progresso humano, que seja justa e sustentável. Ecoteologia, uma teologia pública O papel da teologia é de refletir através da razão alicerçada pela fé as questões inerentes à vida e espiritualidade humana. A ecoteologia realiza esta ação através da fé pensada no horizonte da consciência planetária, visando entender as implicações da ação humana e sua coerência do mandato divino visando a compreensão da responsabilidade humana pelo futuro da manutenção da vida humana e o respeito pela vida. Hoje a humanidade já utiliza em torno de 20% a mais do que o planeta consegue recuperar, ou em outras palavras, estamos sim destruindo a nossa casa. Temos que entender que o modelo econômico atual (falo do capitalismo extremado) é danoso, não somente para o planeta terra, mas também para o indivíduo, o excesso de consumismo, a idolatria por bens de consumo, o alto grau de competitividade em que somos impelidos está destruindo as mais básicas estruturas de convívio social. Desta forma faz-se urgente uma mudança de paradigma, como afirma Boff, “(…)Este fato suscita lenta e progressivamente um novo estado de consciência. Da consciência de etnia e de classe passamos a consciência de espécies homo sapiens e demens. Descobrimo-nos membros da grande família humana e membros da comunidade de vida, irmãos e irmãs, primos e primas de outros representantes da imensa biodiversidade, plantas e animais, que caracterizam a biosfera, aquela camada fina que cerca a Terra constituindo o sistema-vida. Certamente, é mais que uma pequena membrana de vida. É apenas a parte mais visível do próprio planeta Terra, entendido como superorganismo vivo, Mãe, Pachamama e Gaia.” (BOFF, 2005, p. 18) Assim, faz-se necessário uma reavaliação do processo de produção e consumo, é preciso rever o processo ético da valorização social pelo consumo e capital, e isto não é apenas uma ação individual, mas da sociedade(LOWY, 2020). Papel da Igreja e da Teologia Cabe a igreja apontar para o problema ecológico, observando que ela também faz parte deste problema. Cabe a igreja exercer seu papel de profeta na sociedade, no sentido de apontar a crise ambiental como uma crise ética. Cabe a igreja exortar ao corpo que a constitui, uma mudança de “mentalidade” no sentido de entender a responsabilidade individual. Cabe a igreja usar a sua estrutura para apresentar soluções, seja de nível local ou mais amplo. Desta forma, a igreja através de uma construção teológica deve dialogar com a sociedade visando conduzir uma mudança de mentalidade. Para isso, é preciso a compreensão do papel do ser humano regenerado para o cuidado com a manutenção da vida no planeta, entendendo o seu papel na mordomia da criação. Referências BOFF, Leonardo; Virtudes para um outro mundo possível – Hospitalidade ; Editora Vozes; 2005; 1ª ed. Petrólis; RJ JONAS, Hans. 2006. O Princípio Responsabilidade. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2006. LOWY, Michael. 2020. O que é ecossocialismo? São Paulo: Cortez, 2020. MURIEL, Fernando A. Zapata e TRUJILLO, Marta Lucía Martinez. 2018. Ecoteología: aportes de la teología y de la religión en torno al problema ecológico que vive el mundo actual. 2018, Vol. 13, pp. 92-105. NAÇÕES UNIDAS, Aquecimento global sem precedentes tem clara influência humana, diz ONU. 2021. Fonte: [https://news.un.org/pt/story/2021/08/1759272](https://news.un.org/pt/story/2021/08/1759272) Acessado em: 03/10/2021

Roberto Rohregger
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9 de setembro de 2020 • 4 min. de leitura

Proposta para Tempo de Crise – Abordagem Histórica

Quando falamos sobre a epidemia em que estamos vivendo geralmente lembramos de outras no passado, como por exemplo, as pestes medievais. A epidemia de peste atingia uma cidade aproximadamente a cada dez anos entre os séculos XIV e XVIII. A taxa de mortalidade era de 60 a 90% (um a três% no Covid-19), o que era particularmente terrível. Assim como na epidemia de peste negra, bem como em outras, os cristãos tiveram atitudes formidáveis e relevantes no meio da sociedade. O livro Crescimento do Cristianismo apresenta várias razões pelas quais o Cristianismo foi convincente: as epidemias contribuíram significativamente para a causa cristã (STARK, p.88). O Cristianismo se adaptou às tribulações em que a adversidade, a enfermidade e a morte violenta geralmente prevaleciam (STARK, p.94). Os cristãos cuidavam dos enfermos, eram infectados e morriam por eles. Depois estes curados se tornavam cristãos. A situação se desenvolveu a tal ponto que o imperador que quis reimplantar as religiões pré-cristãs no Império Romano, Juliano, o apóstata, em 362 d.C. avaliou o que então percebia, dizendo: “Os cristãos cuidam não apenas dos seus doentes, mas também dos nossos. Todo mundo pode ver que nosso povo não conta com nossa ajuda” (apud STARK, p.97). O sociólogo conclui então que, no século IV d.C., “esperava-se que o Cristianismo operasse com júbilo na assistência aos enfermos, aos inválidos e aos dependentes” (STARK, 2006, p.199). Diante disso, gostaria de elencar pessoas chaves que fizeram a diferença em seu meio e diante das crises: A visão de Martinho Lutero A pergunta é se era aceitável fugir como cristão. Lutero respondeu a seu colega John Hus, visto que em 1527 Wittenberg foi atingida pela praga e as aulas foram transferidas para uma cidade não afetada. Lutero se recusou a sair. Em vez disso, ele decidiu cuidar dos doentes e moribundos e transformou sua casa em um hospital improvisado. Lutero disse: “Ao crer em Deus e por amor ao próximo, os cristãos devem primeiro pensar em como podem contribuir para o cuidado físico e espiritual dos fracos, isolados, doentes ou moribundos”. Só então Lutero permitiu que os cristãos tomassem decisões privadas sobre a possibilidade de fugir. O Salmo 41 era a base orientadora para Lutero: “Bem-aventurado aquele que cuida dos fracos! O Senhor o salvará nos maus momentos.” Portanto: “quem cuida de uma pessoa doente (…) que faz isso com essa promessa consoladora, (…) ele tem grande consolo aqui. (…) Deus mesmo quer ser seu guardião e seu médico também.” Frederico von Bodelschwingh e a Missão de Bethel Frederico, enquanto estudante, envolveu-se com os mendigos vendo a situação sub-humana em que viviam. Em 1869, de 12 a 25 de janeiro, faleceram 4 de seus filhos. Em 1872 foi convidado a assumir o lar de epiléticos de Bethel. Para ele, a fé infantil de um doente mental ou de um agricultor epilético era a experiência que superava tudo o que a Universidade poderia oferecer. Os epiléticos eram vistos como doentes mentais nessa época. Bodelschwingh entendia que ali não se estava em frente à miséria, mas no meio dela. Isto é o que o anunciador da Palavra de Deus deveria aprender, para depois à frente da igreja ser um bom exemplo e tornar outros solícitos para todo tipo de serviço cristão. A missão possui um hospital psiquiátrico diaconal protestante em Bethel, antiga cidade, hoje um bairro de Bielefeld, na Alemanha . Quem vinha com alguma dor falar com Bodelschwingh, nunca saía inconsolado. Algo cada um recebia. Para ele, as pessoas precisam ser valorizadas como são. O amor não estabelece pré-requisitos. O amor deve persistir. Na obra missionária, os desafios eram assumidos por todos. Assim aconteceu a construção de albergues, colônia para desempregados, casa para trabalhadores da cidade. Bodelschwingh tornou-se deputado para trazer benefícios legais aos que estavam mendigando. Queria que o pequeno tivesse sua própria casa e pedaço de terra para plantar. A visão escatológica era que tudo será destruído quando Jesus voltar, com exceção do que foi feito de acordo com a vontade de Deus. O trabalho entre os pobres e insignificantes está entre a exceção, pois Cristo se identifica com os sofredores. Somente quem valoriza e age para o melhoramento desse mundo saberá valorizar e agir com vistas ao vindouro. E esta visão teve consequências nas outras gerações.

Marlon Fluck
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