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A crise como sistema natural do desenvolvimento do cristianismo

Roberto Rohregger
Roberto Rohregger
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25 de junho de 2020 • 9 min. de leitura

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As crises para o cristianismo são mais comuns do que os momentos de normalidade. O próprio Cristo surge em um momento de crise, a anunciação do seu nascimento gera uma crise entre Maria e José, que é superada pela fé. Pouco tempo depois do nascimento esta família se vê emigrante, parte para um país desconhecido fugindo de uma perseguição governamental. Jesus nasce em uma nação dominada por um governo estrangeiro, e aliás, é de longa data que os judeus não tinham um governo autônomo.

Jesus viveu na Galileia, governada por um rei marionete de Roma. E foi morto na Judeia, uma província romana, administrada por um governador romano. O cristianismo primitivo se desenvolveu dentro dos domínios do Império romano, assim como todos os documentos que se tornaram o Novo Testamento foram escritos dentro dele. (BORING, 2015, p. 127)

Desde o exílio babilônico não souberam mais o que era ser um país independente, os governos ádvenas passavam, mas salvo por um curto espaço de tempo, na revolta dos Macabeus, Israel nunca mais voltou a ser uma nação. Depois da Babilônia, os Persas, depois os Gregos, ptolomeus/selêucidas e por fim Roma.

E é na plenitude dos tempos, sob o domínio e o “progresso” romano que o cristianismo surge e se desenvolve. Porém, surge na Palestina o domínio romano, onde os Judeus viviam sob a regência local por um lado, com Herodes Antipas, um “Rei” fantoche colocado por Roma e por outro, do governo direto da própria Roma, representado por Pôncio Pilatos. Obviamente a grande maioria da população judaica não se via representada por nenhuma das duas figuras, pois o próprio Herodes Antipas não tinha uma linhagem pura judaica. Desta forma, o domínio romano apresentava dificuldades tanto na esfera política, quanto na esfera econômica, principalmente para os pobres, isto é, para a grande maioria da população judaica.

Estrutura Social /Religiosa

A palestina na época de Jesus era pobre, a concentração de renda ficava na mão de uma minoria, a classe média era praticamente inexistente, excluindo aqueles que viviam em Jerusalém e que conseguiam subsistir com um pouco mais de recursos. Este quadro era obviamente agravado pelos tributos a serem recolhidos, para o governo local, para Roma e para o próprio templo.

Do ponto de vista socioeconômico, podem-se distinguir na população Palestina três camadas: a classe rica e poderosa, a classe média e os pobres. À classe rica e poderosa pertenciam os príncipes e os membros da família real de Herodes, assim como os altos dignitários da corte, além das famílias da aristocracia sacerdotal e leiga, dos latifundiários, dos grandes comerciantes e dos cobradores de impostos. A classe média, muito reduzida, existia praticamente só em Jerusalém, já que suas fontes de renda procediam do templo e dos peregrinos. Era formada pelos pequenos comerciantes, pelos artesãos proprietários de suas oficinas, pelos donos das hospedarias e pelo baixo clero. À classe pobre, que constituía a imensa maioria da população, pertenciam os assalariados, tanto operários como camponeses, os pescadores, os inúmeros mendigos e, finalmente, os escravos. (MATEOS; CAMACHO, 1992, p. 19)

Compunha a tríade da elite administrativa/econômica a religiosa, que também era a responsável “jurídica/religiosa” da sociedade. Esta elite, dividida por algumas interpretações teológicas particulares, gravitava ao redor das sinagogas e do templo. Cabe salientar que a sinagoga era uma representação religiosa mais próxima do povo, servindo inclusive para o fortalecimento de vínculos sociais e de educação já que o templo era mais institucionalizado, distante, quase inacessível, formalíssimo e de estrutura rígida. A rigorosa observância religiosa era quase inacessível ao povo que sucumbindo com a inadiável tarefa de sobreviver tinha grandes dificuldades de cumprir todas as normas e rituais, e desta forma sobrevinha a somar o peso da miséria ao da desobediência a preceitos divinos. Jesus demonstra a brutal inversão de valores na interpretação das Escrituras e a opressão que causava aos mais pobres, na resposta a questão do sábado: “Deus criou o sábado para o homem, ou o homem para o sábado?”, uma pergunta retórica, uma vez que nela própria apresentava-se a resposta que calou seus inquisidores. (Mc. 2.23-28)

Desta forma podemos perceber um crescente embate entre o sistema religioso judaico e Jesus, embate esse que fica cada vez mais saliente e tem um dos seus clímax apresentado no relato da chegada de Jesus no templo e o confronto com os negociantes. O templo tinha sua própria moeda, uma vez que as moedas romanas não poderiam entrar no mesmo, e assim o templo tinha o “seu” câmbio. E este dinheiro seria usado para a compra do animal para o sacrifício que todo judeu deveria providenciar, assim, ao redor do templo formava-se um grande comércio religioso que achacava a já pobre bolsa do fiel. Jesus fica claramente escandalizado e age de forma a demonstrar sua revolta com o que estava acontecendo em um local que deveria ser de acolhimento, auxílio e confraternização, principalmente ao mais fragilizado.

O templo realizava liturgia esplendorosa, sustentada pelo imposto religioso anual, o dinheiro dos sacrifícios e dos donativos voluntários dos fiéis. Já os profetas denunciaram o culto hipócrita que encobria a injustiça (Is 1,10-17; Jr 7,1-11); Jesus vai além ao denunciar o próprio culto como exploração do povo (Jo 2,16; Mc 11,17 e paralelos). Nunca aparece no evangelho participando das cerimônias do templo; aí vai por ocasião das grandes festas, e para ensinar às multidões que ocorriam da Palestina e do estrangeiro. (MATEOS; CAMACHO, 1992, p. 69)

A crítica à estrutura do templo começa com João Batista. Seu ministério era totalmente alternativo, e é possível que se opusesse ao templo, ainda se, se considerar a hipótese de sua origem for do grupo dos essênios. Jesus ao aceitar o batismo de João Batista de certa forma alinha-se com esta posição.

E é a partir do escalonamento da crise entre Jesus e o sistema religioso que ocorre a ação derradeira, o planejamento da prisão de Jesus e a sua apresentação frente ao sistema Religioso/Judicial. Qual a acusação formal de Jesus perante o Sinédrio? A primeira vista era a de blasfémia (HAMM, 2020). Claro que o que estava por trás era o medo do confronto e que Jesus de alguma forma representasse a liderança de um movimento que pudesse acabar em alguma agitação ou tumulto que seria um risco para a manutenção da elite religiosa e política, principalmente se este agito resultasse em alguma ação romana. Mas logo percebesse que o julgamento e execução de Jesus pelo Sinédrio poderia apresentar-se como um problema ainda maior, se fosse o estopim de algo maior, então melhor seria “transferir o problema” para a administração romana, mas a acusação de blasfêmia não significaria nada para a legislação romana.

A acusação para ser efetiva ao código romano teria que ser de sedição e efetivamente é esta a acusação que leva Jesus a cruz, mais por pressão do que por provas efetivas. É neste ambiente de crise que se cumpre a promessa do Antigo Testamento e os evangelistas conseguem interpretar estes atos e identificar com as profecias e o simbolismo através do sacrifício do cordeiro pascal que tira o pecado do mundo. Na sua morte e ressurreição Jesus também efetiva a desnecessidade do Templo, eis mais uma vitória de Jesus.

O cristianismo, pós Jesus – a continuidade da crise.

A história com a igreja primitiva não foi diferente, cresce e se fortalece em um ambiente hostil, primeiro dentro do judaísmo, onde precisa romper os laços e ser considerada uma seita judaica, e então a perseguição formal, tanto em Jerusalém quanto nas demais cidades onde houvesse a tentativa da pregação da mensagem cristã em uma sinagoga. (MEEKS, 1996).

Com o desenvolvimento da igreja, a conversão de judeus e gentios acaba chamando a atenção da população nas cidades em que o cristianismo se estabelece, e sua mensagem causa em muitos locais estranheza e desconfiança. Percebemos nas Epístolas Gerais que a mensagem cria uma crise na sociedade local, ao ponto de haver acusações falsas aos cristãos. Além disto, também se percebe as crises internas nas igrejas em que as novas exigências éticas confrontam os velhos hábitos. E na evolução da história da igreja nota-se o agravamento da crise, chegando ao ponto de institucionalizar-se com a perseguição do governo romano, levando aqueles que professavam a fé em Cristo a mortes terríveis.

Considerações Finais

O cristianismo surge em um momento de crise, crise judaica de opressão estrangeira e de opressão interna, em uma sociedade extremamente segmentada. Surge em um ambiente de crise como esperança, como uma fé acessível, como uma mensagem de acolhimento, nasce como voz dos excluídos. Desenvolve-se em um ambiente hostil, em constante perseguição, novamente em locais de morte instituída pelo Estado Romano, mas, é nesta crise que o cristão preso, jogado aos leões coloca toda a sua esperança na transcendência e na persistência dos valores do Reino; é na crise que o cristianismo é relevante; é na crise que se faz a esperança cristã na promessa dos valores eternos. É na crise que o mundo pode compreender quais são os valores eternos, e na valorização da vida humana como criação à imagem e semelhança de Deus que concede a todos indistintamente a dignidade inalienável do ser humano acima de qualquer valor.

REFERÊNCIAS

BORING, M. E. Introdução ao Novo Testamento – História, Literatura e Teologia. São Paulo: Paulus, 2015.

HAMM, M. O Julgamento de Jesus – Ilegalidades Processuais nos Direitos Romano e Hebreu. Jusbrasil. Disponível em: https://marihamm.jusbrasil.com.br/artigos/196386015/o-julgamento-de-jesus. Acesso em 03/06/2020.

MATEOS, J., ; CAMACHO, F. Jesus e a sociedade de seu tempo. São Paulo: Paulus, 1992.

MEEKS, W. A. O Mundo Moral dos Primeiros Cristãos. São Paulo: Paulus, 1996.

STAMBAUCH, J. E., ; BALCH, D. L. O Novo Testamento em seu ambiente social. São Paulo: Paulus, 1996.

Roberto Rohregger
Roberto Rohregger
Mestre em Bioética pela PUCPR, pesquisando as implicações bioéticas da biotecnologia, possui ESPECIALIZAÇÃO em Psicoteologia e Bioética pela Faculdade Evangélica do Paraná - FEPAR e Teologia do Novo Testamento Aplicada pela Faculdade Teológica Batista do Paraná - FTBP e em Formação de Professores para EAD pelo Centro Universitário Uninter. Bacharel em Teologia pela Faculdade Evangélica do Paraná (2008) e graduação em Bacharel em Teologia - Seminário Teológico Betânia de Curitiba (2006). Membro do Conselho de Bioética do Hospital Pequeno Príncipe (Curitiba/Pr.) Atualmente é professor do Centro Universitário Uninter na graduação de Bacharelado em Teologia e na disciplina de Ética Aplicada à prática Pastoral na pós graduação em Aconselhamento Cristão e Capelania e da Faculdade Teológica Betânia (Graduação e Pós-Graduação). Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia Moral, atuando principalmente nos seguintes temas: ética, bioética, teologia contemporânea, espiritualidade, : cristianismo., teologia sistemática e ecologia. Criador e coordenador do Grupo de Estudos de Bioética & Teologia (FATEBE) Curitiba,Pr.
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1 de junho de 2022 • 5 min. de leitura

Oro a um Deus que não me ouve!

# Oro a um Deus que não me ouve! Sem dúvida nenhuma, um dos maiores pilares da mensagem cristã é a oração! Jesus não somente orava, como também nos aconselha a orar! É muito comum vermos no evangelho Jesus se retirando de entre a multidão e indo para a solitude do ‘monte da oração’. É muito comum vermos Jesus se retirar dos ‘palcos’, se retirar dos ‘holofotes’, e correr para o anonimato do ‘quarto de oração’, pois sem dúvida nenhuma, de nada adiantaria ter as multidões a ouvi-lo e não ter o Deus das multidões na intimidade do quarto! A grande questão na oração é uma simples pergunta: “Por que orar?”. Porque orar se o próprio Jesus disse que Deus já sabe o que precisamos antes mesmo de falarmos? Porque orar se o Senhor já sabe tudo o que iremos dizer na oração antes mesmo de pensarmos naquilo que iremos falar? Porque orar se toda a graça já nos foi dada na Cruz? Porque orar se o que Deus quiser fazer Ele irá fazer independente se eu pedir ou não? Porque orar se o que Deus não quiser fazer Ele não fará independentemente se eu pedir ou não? Porque orar o ‘seja feita a tua vontade’ se a vontade dEle já será feita independemente se eu pedir que ela seja feita ou não? (Existem muitos outros pontos). Porque orar se o ministério do evangelho é simplesmente servir ao próximo em amor? Porque orar sendo que não podemos ‘comprar’ Deus pelos nossos sacrifícios? Porque orar sendo que tudo já nos foi dado quando Jesus gritou “Tetelestai” (está consumado)? Essa foi uma grande questão que invadia minha mente até que encontrei a resposta em Jesus! Me impactou saber que na oração Deus não nos ouve, Ele nos vê! Jesus disse: “Quando fores orar entra no teu quarto, fecha a porta, porque aquele (Deus) que te VÊ em secreto…”, não é aquele que nos ouve, é aquele que nos vê! Um dia perguntaram a Madre Teresa o que ela dizia a Deus em suas orações, ela respondeu: “Eu não falo nada, eu somente escuto!”, então lhe perguntaram: ‘E o que Deus diz’, “Ele não diz nada, Ele somente me escuta” – respondeu ela, Não eram as palavras que moviam a oração, não eram a quantidade de palavras ditas, o tom de voz em que eram ditas, o volume em que eram ditas e muito menos o como eram ditas, mas sim a atitude de estar a orar, a oração do silêncio, a atitude de apresentar-se diante de Deus no quarto da oração e relacionar-se em gemidos da alma! Foi John Bunyan quem disse: “Na oração mais vale um coração sem palavras do que palavras sem um coração!”, orar não é falar e falar, orar é se relacionar mesmo que sem palavras! A respeito da oração muito se ensina a como prolongá-la. Uns pronunciam palavras de modo devagar para que dure mais tempo, outros oram em todos os assuntos possíveis para que fique mais tempo em oração, oram por todos os nomes para que preencha tempo como que cumprindo sua carga horária, fazem como tolos que pensam que por muito falarem serão ouvidos, uns oram gritando acreditando que isso demonstra maior ‘unção e autoridade’, uns oram de maneira rápida e ofegante acreditando que isso é o poder de Deus, mas não! Queridos, orar não é ‘falar e falar’, orar é se relacionar, pois Ele nos VÊ, Ele VÊ a atitude de se retirar do mundo e apegar-se ao silêncio de um quarto escuro!”! Agora eu entendo, oração não é pedir algo (até porque Ele sabe de tudo o que precisamos, mas, se quiser pedir, não é proibido rs), oração é entregar, me entregar, quanto mais oro, mais me entrego. Oração não é a quantidade de decibéis que sai de minha boca, mas sim o aroma suave que vem do coração! Oração é amá-lo, oração é simplesmente o querer estar mais perto, orar não é uma obrigação para os servos mas é um prazer dos filhos! Por isso essa grande pergunta se responde no que é relacional, “por que orar?”, para, simplesmente, me relacionar! Foi assim então que entendi que oração não é questão de “falar e ouvir “, mas de “fazer e ver”! Oração é como o abraço de um casal de namorados, apaixonados…, nenhuma palavra se é pronunciada, nenhuma palavra se faz necessária, o carinho no abraço já diz tudo, os olhos fechados no abraço já dizem tudo, a atitude no abraço já diz tudo! Orar é “abraçar” e não somente palavras pronunciar! Eu não ouço, não escuto quem me abraça, eu o vejo, eu vejo o sentimento no abraço, vejo a sinceridade no abraçar! Oro a um Deus que não me ouve, oro a um Deus que me vê, Ele vê a sinceridade na oração em silêncio, Ele vê o sentimento na oração sem palavras, Ele vê o meu sentir por ele, Ele sente o meu ‘abraçar’ (oração)!

Luiz Henrique Silva dos Santos
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17 de outubro de 2019 • 3 min. de leitura

Relações Possíveis entre a Cibercultura e a Leitura Bíblica

Introdução O objetivo desse artigo é apresentar as possíveis relações entre a ‘cultura da internet’ e a cultura do Antigo Testamento. A ‘cultura da internet’ é atualíssima e muda rapidamente, enquanto que a cultura do AT é antiga e estável. Sendo assim, qual a contribuição das disciplinas do AT para a cultura cibernética? Qual o diálogo possível entre a cultura do AT e cibercultura? Para abordar essa interrelação, propomos dois casos de choque cultural no mundo Antigo Testamento para, a partir deles, extrair, por analogia, algumas reflexões e orientações para lidar com a cibercultura. Esses dois casos são a passagem da tradição oral para a escrita e a globalização greco-romana. Da oralidade à escrita A tradição oral gera uma cultura própria, cujo principal suporte de preservação da informação é a “memória”. Nessa cultura, a tradição era emitida e recebida no mesmo contexto. A invenção da escrita não substitui a tradição oral, mas coexistem por muitos séculos. A escrita permite adotar outros suportes, como pedra, cerâmica, papiro (2500 a.C.), velino (Jr 36.26), pergaminho (séc. IV d.C.) até chegar ao papel (séc. XV). Além disso, a escrita permite a fixação do texto de modo que a mensagem saia do contexto sem perder o sentido original, dando importância às ciências hermenêuticas. A globalização greco-romana A primeira grande globalização da cultura greco-romana representou um choque grave para os judeus, impondo-lhes o dilema: resistência ou assimilação. A nosso ver, o cristianismo primitivo soube aproveitar as vantagens, como integração cultural, idiomática, maior segurança nos transportes, interligação das regiões do Império, a ampla circulação de escritos e de pessoas, ao mesmo tempo resiste aos costumes, como, por exemplo, o culto ao imperador. O processo de globalização foi acelerado pelos avanços tecnológicos, especialmente no setor de comunicações. A interconexão supriu um desejo do ser humano. Com isso, chegamos a uma nova Babel: a cibercultura venceu ‘Babel’ ou a cibercultura se tornou uma super-Babel? A Cibercultura e o estudo da Bíblia: aspectos positivos e negativos a) Aspectos positivos: – Acesso ao acervo de obras digitais: dicionários, comentários, obras não traduzidas para o português. – Pesquisa e estatística: maior capacidade de cruzamento de dados e de análise de textos; – Leitura da Bíblia: diversas versões da Bíblia e diversos idiomas e línguas originais; democratização do conhecimento. – Ciberteologia: a reflexão teológica das novas tecnologias (cibernética); a inteligência da fé em tempos de internet (SPADARO, 2011). b) Aspectos negativos e preocupantes – Dilúvio de informações: dispersão: dificuldade de seleção de fontes; superficialidade: efeito do excesso de informação; – Comunicação de massa: propaganda ideológica/comercial (mercado gospel); igrejas virtuais x fraternidade comunitária; frustração: fracasso em produzir os resultados prometidos; – Teologia fake: sensacionalismo: as novas tecnologias como ‘sinais’ da escatologia (controle mundial, chips, numerologia etc.); a rapidez da informação joga contra a verificação da verdade teológica. Considerações finais: A cibercultura, como todas as culturas da humanidade, tem aspectos positivos e negativos. Ela não é parte do desenvolvimento retilíneo e necessário da humanidade, pois, outro mundo é possível. A cibercultura reflete desejos de interconexão, de superação de limites. A teologia oferece base para a crítica permanente das obras humanas.

Eliseu Pereira
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16 de setembro de 2021 • 4 min. de leitura

Uma breve construção histórica do olhar filosófico na relação homem e mulher

Nesta construção histórica da filosofia existem características e eventos que podem lançar luz sobre as questões da mulher em ocupar um lugar de referência dentro do âmbito religioso, e até mesmo potencializar e elucidar a questão da mulher como produtora de conhecimento. Desta forma, pretendo pinçar fatos e personagens que poderão minimamente oferecer apontamentos à questão. Quando a filosofia nasce, na Grécia, no âmbito religioso, as mulheres, enquanto sacerdotisas, tinham os mesmos privilégios que os homens, os quais poderia citar: assento garantido nas primeiras filas dos jogos em Atenas; direito à propriedade e de perpetuar a herança; prestígio ao ponto de terem monumentos erguidos em sua homenagem. Mas este prestígio não era encontrado na vida da sociedade não religiosa grega, pois as mulheres não tinham acesso aos estudos e nenhum direito na democracia Ateniense. Sem dúvida, a condição delas manifestava uma disparidade entre a vida dentro da religião e fora dela. A primeira filósofa que temos notícias foi Safo, 630 ou 604 a.C., nascida em Mitilene – Lesbos, uma ilha grega. Dentre as suas atribuições, podemos citar: poetisa, tecelã, sacerdotisa e filósofa. Devido as suas ideias provocarem perturbações nos poderosos, foi exilada na Sicília junto com a família, mas quando retornou, fundou uma escola só para mulheres, onde as mesmas eram educadas na poesia e filosofia, e eram ensinadas a pensar criticamente e a serem femininas. Sem dúvida esta escola foi um grande marco para a educação das mulheres na época. Por sua vez, o filósofo Platão (428/348 a.C.), na obra “A República”, inova o papel da mulher em sua cidade ideal, possibilitando a sua emancipação social, política e a mesma educação dos homens. Para ele, o único impedimento de uma mulher em praticar o que quiser, seria a sua competência ou não para o ofício desejado. Nesta cidade ideal, todas as funções, até mesmo a de governar sobre outros, não se fixa pelo sexo que cada um possui, e sim, pela competência que cada um carrega em si; o mais capaz então, deve realizar o propósito. Diferente de Platão pensa o seu discípulo Aristóteles, pois para ele a mulher possui uma alma inferior a do homem, ela seria apenas um pouco mais superior que a alma do escravo. Isso intrinsecamente a impediria de realizar algumas funções que seriam próprias do homem livre, entre elas de tecer um pensamento crítico e de governar. Dando um salto na história, iremos nos deparar com Hipátia, nascida em Alexandria no ano de 360 d.C. Ela é uma prova histórica, entre tantas outras, que a mulher tem condições de assumir um protagonismo na liderança e no pensamento crítico, pois foi ela considerada a primeira matemática da história e dirigiu por um significativo período a Escola Platônica de Alexandria, uma das mais conceituadas da época, onde seus alunos, após passarem por ela, tornavam-se prefeitos, governadores e líderes da igreja. Hipátia teve uma morte trágica, foi esfolada viva na Ágora por cristãos radicais. Mas mesmo sendo perseguida em sua vida, nunca deixou de anunciar o que acreditava e por isso tornou-se um ícone na história. Certa vez ela disse: “Governar acorrentando a mente através do medo de punição em outro mundo é tão baixo quanto usar a força”. Outra filósofa a considerar é Simone de Beauvoir (1908/1986). Segundo ela, “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Esta frase, à primeira vista, causa muita estranheza para aqueles que nunca pensaram no assunto. Mas de fato, a mulher sempre foi ensinada a se comportar e agir de determinada maneira e por muito tempo foi educada para ser uma boa esposa e servir ao marido. Com isso, a superioridade do masculino foi ganhando cada vez mais força e o gênero feminino passou a ser visto como inferior. O que está em pauta, não é nascer mulher no sentido biológico, mas sim que a mulher é obrigada a se moldar às expectativas de uma sociedade que a inferioriza. Neste sentido, a mulher, segundo Beauvoir, tem direito de assumir o protagonismo de sua própria existência e querer ser o que ela desejar e não o que se espera socialmente dela. Acredito que estas provocações e exemplos possam ser uma fagulha para pensar melhor sobre a mulher e seus direitos, que devem ser esculpidos à luz das Escrituras e não especificamente da tradição ou de qualquer força que inferiorize o valor da mulher; neste sentido a filosofia tem algo, ainda que de forma singela, a acrescentar.

Rogério Leoderio de Souza
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