VOU PESCAR!!
15 de julho de 2020 • 4 min. de leitura

“Vou pescar”.
Essas foram as palavras de Pedro, registradas por João em seu Evangelho no capítulo 21.
“Disse-lhes Simão Pedro: vou pescar. Disseram-lhe os outros: também nós vamos contigo. Saíram, e entraram no barco, e, naquela noite, nada apanharam”. João 21:3.
Pensaram ser uma boa ideia, afinal, não tinham nada para fazer.
O contexto nos leva para as narrativas sobre a morte e ressurreição de Jesus. E esta é a terceira vez em que Jesus aparece para os discípulos após sua ressurreição. Nesta ocasião, os discípulos estavam no mar de Tiberíades, tentando esquecer os últimos acontecimentos. Vários deles eram pescadores quando Jesus os convocou anos antes para deixarem suas redes e se tornarem pescadores de homens. Três anos haviam se passado desde este convite. Por três anos andaram com Jesus, que em tudo os instruiu, além de partilharem de uma comunhão íntima com o mestre.
Durante este tempo Jesus compartilhou sobre sua missão aqui na terra e de como um dia morreria crucificado para salvar “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Lucas 10:6). Porém, após a morte de Jesus esses mesmos discípulos ficaram perdidos, como que sem rumo, sem o mestre e, como sem saber o que fazer dali em diante, tiveram a ideia de retornarem para o antigo meio de vida, a pescaria. Pedro tomou a iniciativa e todos concordaram com ele. Estavam passando por uma crise. Pescaram a noite inteira e nada conseguiram pegar, nenhum peixinho.
Jesus então, já ressuscitado, resolve lhes fazer uma visita ao clarear da madrugada e lhes preparar um café. Café com pão e peixe assado. Que bela surpresa!! Sob a ordem de Jesus lançaram a rede novamente e pegaram muitos peixes.
Ao redor da fogueira inicia-se uma longa conversa. O narrador não revela todos os detalhes desse papo, mas posso imaginar o rumo que tomou a conversa.
Jesus, conhecendo a natureza humana diante das crises e das dificuldades veio para o meio deles para novamente fazê-los entender qual era a missão de cada um, a razão de terem sido escolhidos para andarem com ele aqueles três longos anos.
Jesus também aproveitou a oportunidade para tratar com Pedro. Pedro, que o havia negado na hora crucial, na hora em que ele mais precisava de apoio: “não o conheço!” Palavras que podem ferir profundamente, se pronunciadas por alguém que você ama.
Por três vezes Pedro negou a Jesus. Por três vezes nessa conversa Jesus pergunta para Pedro: “tu me amas”? Pedro se irritou, mas Jesus o restaurou, como que dizendo, “está tudo bem Pedro”. Deu a ele uma missão clara e ainda lhe revelou como morreria.
Desse café da manhã preparado por Jesus para os seus discípulos podemos aprender como Jesus nos trata quando estamos em crise. Os discípulos estavam enfrentando uma crise, talvez uma das mais difíceis de suas vidas, pois estavam sem direção. Haviam perdido o mestre, estavam sem chão, sem âncora, sem rumo.
Jesus não chegou acusando a nenhum deles, não chegou condenando, não chegou criticando, não chegou dando “um sermão”. “Que vergonha hein gente? Parece que não me conhecem? Que não andaram comigo? Não viram os milagres? Não viram a ressurreição? Que vergonha”! Não. Jesus chegou servindo, chegou para restaurar o que havia sido quebrado.
Como seres humanos passaremos por crises, as mais diversas no decorrer da vida. Às vezes teremos o sentimento de que fomos abandonados, que falamos e não somos ouvidos, que estamos sozinhos e queremos retroceder. Somos seres dotados de emoções e às vezes são essas emoções que não nos deixa ver a razão, o óbvio, a direção. E como os discípulos somos tentados a voltar atrás, esquecemos de tudo o que já vivemos com o Senhor, de todas as experiências que tivemos com ele. Mas Jesus sempre virá em nosso socorro para nos fazer enxergar sua bondade, seu desejo de continuar andando conosco, de nos pegar no colo, de nos tomar pela mão e continuar nos guiando.
Um pouco antes desse encontro na praia, antes de sua morte e ressurreição, Jesus havia ceado com os discípulos e após a ceia tiveram uma conversa, onde ele os advertiu: “no mundo passais por aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” João 16:33. Ou seja, vocês terão aflições, crises, tribulações, pandemias, mas eu estarei com vocês.
Creiamos nisso. Ele estará conosco. A solução nunca será retroceder, voltar atrás. A antiga vida. Jamais! Ele estará conosco todos os dias até que tudo se cumpra.

28 de novembro de 2024 • 3 min. de leitura
O Racismo e seus desdobramento na sociedade
Racismo é imputar algum tipo de superioridade ou inferioridade entre as pessoas em virtude da cor da pele. O Brasil de acordo com a lei 7.716/1989 torna todo e qualquer tipo de preconceito relacionado a cor da pele em crime inafiançável e não deveria ser diferente. Não se pode deixar de lado o fato de que o Brasil é um país racista e isso se dá em várias áreas da sociedade. É um erro fechar os olhos para esse fato, pois se trata de seres humanos, crianças, jovens, adultos e idosos e não meros números. De acordo com Junior Costa (2023), o Brasil encontra-se na 23º posição na lista dos países mais racistas do mundo. Antes dele temos a Alemanha e logo depois a Suíça, e ao fechar os olhos para esse fato, acelera-se a decadência da humanidade. Em se tratando do racismo em solo brasileiro, é possível observar que a região Sul tem os maiores índices de crimes relacionados à injúria racial. Deve-se atentar para o fato de que a lei do racismo o torna inafiançável e a injúria racial tem como pena a detenção de 2 a 5 anos e multa, de acordo com a lei 14.532/2023, isso é extremamente preocupante, pois estamos falando de uma das regiões mais bem desenvolvidas do Brasil (ARAUJO, 2024; BORGES, 2024). Infelizmente muitas pessoas estão vivendo uma vida baseada na superioridade, de acordo com a cor da pele, e isso passa por uma visão deturpada a respeito do outro, onde não se leva em consideração quem ele(a) é, e quem o criou. Um preconceito que vem sendo passado de geração em geração, e uma realidade em grande parte da sociedade. É preciso entender que toda e qualquer pessoa tem um valor imensurável, algo que de forma nenhuma pode ser medido, muito menos pela cor da pele, pois todos somos feituras de Deus, criados à sua imagem e semelhança. Faz-se necessário ensinar a geração atual e as próximas, a enxergar o outro, não pela cor da pele, raça, gênero, ou qualquer outra distinção superficial, mais pela ótica de Deus, que entregou seu filho Jesus Cristo, em amor, por todos. Não se pode perder de vista a obra de Deus, realizada por seu filho Jesus e confirmada dia após dia por meio do Espírito Santo, e isso tudo, por toda a sua criação. Nunca é tarde para aprender a olhar o outro de dentro para fora e não de fora para dentro. Que Deus nos ajude a superar o racismo! Por: Hudson Vieira dos Santos, aluno do 7º Período de Teologia da Fatebe

30 de setembro de 2021 • 6 min. de leitura
Amor acolhedor
O propósito deste texto será discutir as razões pelas quais pessoas deixam a comunhão da igreja e o que pode ser feito para evitar que isto aconteça e o que fazer para que desigrejados retornem à comunhão do povo de Deus. Uma coisa é clara, todos os desigrejados uma vez foram “igrejados”. Foram membros ou participantes de uma igreja. As razões pelas quais saíram da igreja são tão inúmeras como diferentes são as pessoas e as circunstâncias da vida. Todavia a pergunta que eu faço agora é o que a igreja pode fazer, como uma igreja deve ser, para que ela perca o menor número possível de pessoas? Como deve ser a igreja, a nossa igreja, para que as pessoas gostem de vir às reuniões, que participem dos encontros com satisfação e não por mera obrigação ou costume? Se as pessoas permanecem na igreja porque gostam, elas dificilmente irão fazer parte do rol dos desigrejados. Existem valores e realidades fundamentais da igreja. A maior delas é aquela que Paulo mencionou em 1Cor 3.11: “Ninguém pode pôr outro fundamento na igreja além daquele que já foi posto por Deus, que é Jesus Cristo”. No versículo seguinte Paulo menciona que sobre este fundamento os obreiros podem edificar com 2 tipos de materiais: ouro, prata, pedras preciosas ou madeira, feno, palha. Nós podemos entender o “ouro” com o qual devemos edificar a igreja como o “amor”, mas um amor que eu chamaria de “amor acolhedor”. Jean Vanier [1] disse que “acolher não é primeiramente abrir as portas da casa, mas abrir as portas do coração”. Uma igreja que acolhe as pessoas e cria relacionamentos de amizade, é uma igreja que não apenas cresce, mas segura as pessoas no seu redil. Acolhimento, relacionamento, entrosamento é um dos segredos para pessoas se fixarem e continuarem em uma comunidade. A igreja deve oferecer este acolhimento, esta comunhão que as pessoas buscam e pelas quais anseiam. As pessoas buscam relacionamentos. Uma igreja que oferece relacionamentos reais é uma igreja que segura as pessoas. Acolher é um sinal de vida cristã. Acolher como Jesus acolheu. E como Jesus acolheu as pessoas? Acolheu ativistas políticos como os zelotes. Acolheu os colaboradores com o Império dominador, como os publicanos. Acolheu as pessoas com vida moral desregrada, como as prostitutas. Acolheu trabalhadores braçais como os pescadores. Acolheu até alguns religiosos legalistas como os fariseus. Acolheu sem preconceitos e distinções. No grupo dos discípulos Jesus acolheu a todos por igual e tratava a todos por igual, sem fazer uma distinção de valor entre eles. Nós sabemos disso, pois perto do fim de sua vida os discípulos estavam discutindo entre si qual deles seria o maior (Mc 9.34). Até Judas participou dessa discussão. Cada um deles tinha uma história para contar, uma experiência para relatar, de como Jesus o abençoou, usou e se manifestou a ele e que, portanto, deveria ser o maior. Paulo em Rm 15.7 exortou: “Acolham uns aos outros, como também Cristo acolheu vocês para a glória de Deus”. Às vezes o acolhimento nas igrejas se resume em saudar os visitantes no início do culto ou alguém cumprimentá-los à porta na saída. Mas não ultrapassa estes limites. A pessoa não entra no rol dos grupinhos da igreja, nunca é convidada para um bate papo, para um café na sua casa. De certa feita uma pessoa me disse: “você sabe que Jesus ama você?” Eu respondi: “sim, eu sei que Jesus me ama, mas quero saber se você me ama”. Não devemos apenas espiritualizar o amor. O “amor acolhedor” deve se “fazer carne” em nós. Acolher significa incluir pessoas na comunhão, na amizade. Sentir-se acolhido, aceito, abraçado, é sentir-se valorizado e todos querem se sentir valorizados. A pessoa acolhida se sente valorizada como pessoa. Sabe que tem amigos que se importam com ela. Pessoas com quem pode contar nas horas difíceis da vida. Quero sugerir duas coisas para a prática do acolhimento na igreja, acolhimento que resulte em relacionamentos vivos. 1º – O discipulado. Que pessoas novas na comunidade sejam discipuladas. Que alguém, por algum tempo, se dedique a acompanhá-las semanalmente. Mas discipulado não é apenas compartilhar verdades bíblicas e verdades cristãs. Discipulado é compartilhar a vida, a vida no dia a dia. Compartilhar a vida de família, os momentos de lazer, os momentos de lutas. No discipulado pode se desenvolver a amizade. Amizade como a de Davi e Jônatas. Numa hora difícil de Davi em que Saul pretendia matá-lo, a Bíblia diz que “Jônatas fortaleceu a fé de Davi em Deus” (1Sm 23.16). Jônatas animou, encorajou o coração de Davi. Uma igreja em que as pessoas se sintam encorajadas e fortalecidas é uma igreja que não irá perder seus membros com facilidade. 2º – Em segundo lugar o novo participante da igreja deve se tornar participante de um grupo pequeno, um grupo em que se pratique real comunhão e compartilhamento de fé e vida. No grupo pequeno pode ser rompido o abraço frio da solidão e a pessoa pode receber o abraço caloroso da comunhão. Há tantas pessoas solitárias até dentro de nossas igrejas. O “amor acolhedor” é a resposta para esta necessidade humana. Contudo devo dizer que não devemos pensar no acolhimento de forma romântica, pouco realista. Os relacionamentos na igreja não são sem problemas. Cada pessoa que entra na comunidade traz consigo sua carga de problemas, dificuldades, virtudes e defeitos. Onde pessoas convivem há atritos e conflitos, do casamento às igrejas. Os conflitos podem ser uma força desagregadora que leva as pessoas para fora da igreja e diante delas só o espírito perdoador tem a resposta. Perdoar nem sempre é fácil. É mais fácil acolher que perdoar. C. S. Lewis [2] disse que “todos consideram o perdão uma ideia maravilhosa – até o momento em que tem algo a perdoar”. Todavia pelo perdão a comunhão é restabelecida e o “amor acolhedor” volta a fluir. Leonardo Boff [3] comentou que “o perdão de Deus restabelece a comunhão vertical para o alto; o perdão daqueles que nos têm ofendido conserta a comunhão horizontal para os lados. O mundo reconciliado começa a aflorar, o Reino inaugura e os homens começam a viver sob o arco-íris da misericórdia divina”. Concluindo afirmamos que a prática do “amor acolhedor” é a melhor vacina contra o vírus do desigrejamento. REFERÊNCIAS [1] Vanier, Jean. A comunidade, lugar do perdão e da festa. São Paulo: Paulinas, 1982, pg 235 [2] LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. 3ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009, pg 152 [3] BOOF, Leonardo. O Pai-Nosso: a oração da libertação integral. Petrópolis: Vozes, 1979. pg 115

11 de fevereiro de 2025 • 3 min. de leitura
OBEDIÊNCIA PRECEDE A REVELAÇÃO
Na última reunião em Altônia, durante a assembleia anual da Missão Betânia, me lembrei com muito carinho e gratidão de uma figura do meu passado, Cliff Dahlen. O que o trouxe à minha memória foi uma frase repetida várias vezes nas reuniões: “Obediência precede a revelação”. Cliff foi um dos pioneiros da Bethany, trabalhando principalmente em coisas práticas com mãos habilidosas, mas, também dava uma matéria no seminário, o Evangelho de João. Esta frase é oriunda das suas aulas. Talvez não seja lembrado por sua didática na sala de aula, mas conseguiu implantar alguns princípios e frases na mente e coração dos alunos. Nunca soube da fonte da estrutura do evangelho que passou para nós, mas, os oito “Eu Sou” de Jesus também ficaram na memória e são lembrados até hoje ao contemplar os vitrais da capela do (Seminário e Instituto Bíblico Betânia) SEMIB. A frase: “Obediência precede Revelação”, foi cunhada por Cliff e inspirada do mesmo evangelho, capítulo 7 versículo 17: “Se alguém decidir fazer a vontade de Deus descobrirá se o meu ensino vem de Deus ou se falo por mim mesmo”. Este princípio fundamental está gravado na mente de gerações de alunos americanos, brasileiros e provavelmente na memória de algumas etnias ao redor do mundo através dos formados da Betânia. Tudo vindo de um senhor simples, sorridente, magrinho, com uma voz meio rouca, cuja vida correspondia às suas palavras. Sentei na sua sala de aula, mas, também trabalhei na fábrica de trailers de camping que ele gerenciava e que de fato ocupou a maior parte do seu tempo. Seu trabalho era produzir centenas de trailers de alta qualidade liderando um bando de seminaristas, a maioria sem noção... Tipo eu mesmo. Através deste trabalho secular e exigente ajudou a construir a capela do SEMIB, bem como sustentar missionários espalhados pelo mundo. Era também por meio dele que demonstrava liderança cristã, como lidar com jovens complicados, como sorrir sob pressões, como confrontar com firmeza e amor. Enfim, como ser como Jesus na arena do trabalho. Desde então, eu mesmo, em momentos difíceis, décadas depois da sua morte, tenho voltado ao tempo que trabalhei com ele e me perguntado, como será que Cliff agiria nesta circunstância? Não apenas a frase deste herói esquecido está iluminando a vida de muitos, como também a vida íntegra de Cliff Dahlen continua brilhando décadas depois. Patrick Dugan: Missionário da Missão Betânia por mais de quatro décadas, mestre em teologia, professor, escritor e palestrante.
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