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14 de outubro de 2021 • 5 min. de leitura

Ecoteologia, igreja e os movimentos ambientais

A reflexão teológica e as concepções históricas do pensamento cristão estão constantemente passando por reflexões, transformações, reinterpretações e contextualizações da mensagem dos Evangelhos. Estas constantes reinvenções teológicas normalmente se estabelecem dentro de um contexto histórico-social, onde o pensamento e o conceito da vida em sociedade merecem uma interpretação cristã da realidade e que deve ser feita de maneira crítica e criteriosa, não necessariamente dogmática, mas dialeticamente cristã. É preciso compreender que a Igreja necessita de ações que atinjam estas pessoas, que voltem a perceber que aquilo que elas entendiam não encontrar mais na igreja está sendo recuperado. Um dos grandes problemas que o mundo vai enfrentar nos próximos anos é o problema ambiental. Se a Igreja não conseguir apresentar um diálogo com a sociedade sobre esta questão, através de uma cosmovisão cristã da criação, teremos possivelmente mais cristãos indo buscar estas respostas fora da igreja.

A crise ambiental pelo qual estamos começando a passar é antes de tudo um problema ético, com impactos diretos no modelo capitalista moderno, implicando em profundas alterações comportamentais, que pode mudar a forma de entendermos a realidade e claro sendo um problema humano, encontraremos reflexos no entendimento teológico da criação.

O problema Ecológico

Vivemos um momento muito importante com relação à questão ambiental nos anos 90 e começo de 2000, porém o debate e ações governamentais acabaram esfriando nos últimos anos. Tivemos avanços importantes, mas estes avanços não são perenes se não forem amparados por medidas de políticas públicas persistentes para que não haja regressão. Porém avaliando tanto a situação atual quanto a possibilidade bastante evidente de aprofundamento da crise ambiental é preciso pensar em uma mudança significativa na mentalidade produtivista/consumista que impulsiona o progresso como se está estabelecido atualmente, isto significa uma mudança na forma como toda a sociedade percebe a nossa forma de viver. O relatório Mudança Climática 2021 elaborado para o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que a influência humana no aquecimento do planeta, está ocorrendo em um ritmo sem precedentes pelo menos nos últimos 2 mil anos. Com isso, as consequentes mudanças na temperatura e nos extremos climáticos afetam todas as regiões do mundo. Prevê-se que esses efeitos continuem em longo prazo, pelo menos no resto deste século, afetando ecossistemas dos mares e pessoas que dependem deles (Nações Unidas, 2021). O filósofo Hans Jonas alerta que nós temos uma responsabilidade para com as gerações futuras, isto é a responsabilidade para a manutenção de uma vida autêntica humana (JONAS, 2006). Desta forma, devemos garantir hoje, a possibilidade de vida humana digna futura. O paradigma de crescimento / progresso constante e progressivo nos moldes que pensamos hoje, é insustentável para a vida no planeta. Desta forma é necessária uma mudança de mentalidade com relação a ideia de progresso humano, que seja justa e sustentável.

Ecoteologia, uma teologia pública

O papel da teologia é de refletir através da razão alicerçada pela fé as questões inerentes à vida e espiritualidade humana. A ecoteologia realiza esta ação através da fé pensada no horizonte da consciência planetária, visando entender as implicações da ação humana e sua coerência do mandato divino visando a compreensão da responsabilidade humana pelo futuro da manutenção da vida humana e o respeito pela vida.

Hoje a humanidade já utiliza em torno de 20% a mais do que o planeta consegue recuperar, ou em outras palavras, estamos sim destruindo a nossa casa. Temos que entender que o modelo econômico atual (falo do capitalismo extremado) é danoso, não somente para o planeta terra, mas também para o indivíduo, o excesso de consumismo, a idolatria por bens de consumo, o alto grau de competitividade em que somos impelidos está destruindo as mais básicas estruturas de convívio social. Desta forma faz-se urgente uma mudança de paradigma, como afirma Boff,

“(…)Este fato suscita lenta e progressivamente um novo estado de consciência. Da consciência de etnia e de classe passamos a consciência de espécies homo sapiens e demens. Descobrimo-nos membros da grande família humana e membros da comunidade de vida, irmãos e irmãs, primos e primas de outros representantes da imensa biodiversidade, plantas e animais, que caracterizam a biosfera, aquela camada fina que cerca a Terra constituindo o sistema-vida. Certamente, é mais que uma pequena membrana de vida. É apenas a parte mais visível do próprio planeta Terra, entendido como superorganismo vivo, Mãe, Pachamama e Gaia.” (BOFF, 2005, p. 18)

Assim, faz-se necessário uma reavaliação do processo de produção e consumo, é preciso rever o processo ético da valorização social pelo consumo e capital, e isto não é apenas uma ação individual, mas da sociedade(LOWY, 2020).

Papel da Igreja e da Teologia

Cabe a igreja apontar para o problema ecológico, observando que ela também faz parte deste problema. Cabe a igreja exercer seu papel de profeta na sociedade, no sentido de apontar a crise ambiental como uma crise ética. Cabe a igreja exortar ao corpo que a constitui, uma mudança de “mentalidade” no sentido de entender a responsabilidade individual. Cabe a igreja usar a sua estrutura para apresentar soluções, seja de nível local ou mais amplo. Desta forma, a igreja através de uma construção teológica deve dialogar com a sociedade visando conduzir uma mudança de mentalidade. Para isso, é preciso a compreensão do papel do ser humano regenerado para o cuidado com a manutenção da vida no planeta, entendendo o seu papel na mordomia da criação.

Referências

BOFF, Leonardo; Virtudes para um outro mundo possível – Hospitalidade ; Editora Vozes; 2005; 1ª ed. Petrólis; RJ

JONAS, Hans. 2006. O Princípio Responsabilidade. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2006.

LOWY, Michael. 2020. O que é ecossocialismo? São Paulo: Cortez, 2020.

MURIEL, Fernando A. Zapata e TRUJILLO, Marta Lucía Martinez. 2018. Ecoteología: aportes de la teología y de la religión en torno al problema ecológico que vive el mundo actual. 2018, Vol. 13, pp. 92-105.

NAÇÕES UNIDAS, Aquecimento global sem precedentes tem clara influência humana, diz ONU. 2021. Fonte: https://news.un.org/pt/story/2021/08/1759272 Acessado em: 03/10/2021

Roberto Rohregger
Roberto Rohregger
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6 de outubro de 2021 • 4 min. de leitura

O reflexo do “desigrejamento” na tarefa missionária

Não se tem dados oficiais quanto às consequências que o fenômeno do “desigrejamento” provoca na tarefa de missões, no alcance aos perdidos. No entanto para esta pesquisa partiremos do princípio do papel da igreja quanto a obra missionária, como a que comissiona, envia e sustenta. Logo, com o número de “desigrejados” aumentando cada dia mais, sem dúvida, a tarefa missionária sofrerá impacto deficitário quanto ao desenvolvimento da mesma. No último censo do IBGE (2010), os resultados foram alarmantes, pois o número de cristãos que se declarou sem vínculo com a igreja saltou de menos de 1 milhão em 2000 para quase 10 milhões em 2010, um crescimento de mais de 780%, sendo a categoria evangélica a que mais cresceu. ## Missões na Igreja Primitiva Após a ascensão de Jesus e o início da perseguição depois do Pentecostes, os primeiros discípulos saíram para pregar as Boas Novas por todo o mundo de então. Em Atos capítulo 11:19-26 Lucas registra: “Os que tinham sido dispersos por causa da perseguição desencadeada com a morte de Estêvão chegaram até à Fenícia, Chipre e Antioquia, anunciando a mensagem apenas aos judeus. Alguns deles, todavia, cipriotas e cireneus, foram a Antioquia e começaram a falar também aos gregos, contando-lhes as boas novas a respeito do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles, e muitos creram e se converteram ao Senhor. Notícias desse fato chegaram aos ouvidos da igreja em Jerusalém, e eles enviaram Barnabé a Antioquia. Este, ali chegando e vendo a graça de Deus, ficou alegre e os animou a permanecerem fiéis ao Senhor, de todo o coração. Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé; e muitas pessoas foram acrescentadas ao Senhor. Então Barnabé foi a Tarso procurar Saulo e, quando o encontrou, levou-o para Antioquia. Assim, durante um ano inteiro Barnabé e Saulo se reuniram com a igreja e ensinaram a muitos. Em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos”. Atos 11:19-26. O capítulo 13 registra o primeiro envio missionário oficial, a partir da Igreja de Antioquia. “Na igreja de Antioquia havia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. Enquanto adoravam ao Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: “Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”. Assim, depois de jejuar e orar, impuseram-lhes as mãos e os enviaram. Enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. Chegando em Salamina, proclamaram a palavra de Deus nas sinagogas judaicas. João estava com eles como auxiliar”. Atos 13:1-5. Ronaldo Lidório, em seu livro Vocacionados (Ed. Betânia, 2014; Belo Horizonte, MG), vê a imposição de mãos como: – Sinal de autoridade; – Sinal de reconhecimento; – Sinal de cumplicidade. A igreja, portanto, exerce um papel de suma importância quanto ao envio missionário. ## A igreja enviadora Como já foi definido o “desigrejado” como não tendo uma ligação formal com a igreja, fica difícil o mesmo se envolver com missões ou a missão, sendo que na maioria dos casos, ou pelo menos o que se espera é que a igreja seja o propulsor de missões. Portanto, partindo do princípio que missões se faz enviando, cooperando e orando, o “desigrejado”, não faz parte do grupo que se envolve com missões, devido ao desligamento da igreja. O “Reflexo”, neste sentido seria como uma consequência indireta da falta de pessoas engajadas para com a tarefa missionária. Seria, portanto, menos 10 milhões de pessoas que poderiam estar indo, orando e contribuindo e não estão. Se levarmos em consideração as palavras de Jesus em Mateus 14:24, “E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim”, não pregar o Evangelho seria retardar a volta de Cristo. A pregação do Evangelho sempre foi tarefa da igreja em todos os tempos. Desde a Igreja Primitiva, durante toda a história das missões, a igreja está presente para enviar, sustentar e orar. Portanto, o “Reflexo” do “desigrejamento” na tarefa missionária é sem dúvida negativo, pois seria como se 10 milhões de pessoas deixassem de trabalhar em uma comunidade, essa comunidade sentiria os efeitos negativos em todos os sentidos. ## Bibliografia: Foto 1- https://pt-br.facebook.com/palavravivavotorantim/photos/ Foto 2 – https://pauloraposocorreia.com.br/2016/11/14/desigrejado-a-ovelha-solitaria Bíblia NVI – https://www.bibliaonline.com.br/nvi/atos/11 Bíblia NVI – https://www.bibliaonline.com.br/nvi/atos/13 Lidório, Ronaldo; Vocacionados; Belo Horizonte, Editora Betânia, 2014. https://br.blastingnews.com/sociedade-opiniao/2017/03/desigrejados-o-movimento-evangelico-que-mais-cresce-no-brasil-001546385.html

Malena Clower
Malena Clower
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30 de setembro de 2021 • 6 min. de leitura

Amor acolhedor

O propósito deste texto será discutir as razões pelas quais pessoas deixam a comunhão da igreja e o que pode ser feito para evitar que isto aconteça e o que fazer para que desigrejados retornem à comunhão do povo de Deus. Uma coisa é clara, todos os desigrejados uma vez foram “igrejados”. Foram membros ou participantes de uma igreja. As razões pelas quais saíram da igreja são tão inúmeras como diferentes são as pessoas e as circunstâncias da vida. Todavia a pergunta que eu faço agora é o que a igreja pode fazer, como uma igreja deve ser, para que ela perca o menor número possível de pessoas? Como deve ser a igreja, a nossa igreja, para que as pessoas gostem de vir às reuniões, que participem dos encontros com satisfação e não por mera obrigação ou costume? Se as pessoas permanecem na igreja porque gostam, elas dificilmente irão fazer parte do rol dos desigrejados. Existem valores e realidades fundamentais da igreja. A maior delas é aquela que Paulo mencionou em 1Cor 3.11: “Ninguém pode pôr outro fundamento na igreja além daquele que já foi posto por Deus, que é Jesus Cristo”. No versículo seguinte Paulo menciona que sobre este fundamento os obreiros podem edificar com 2 tipos de materiais: ouro, prata, pedras preciosas ou madeira, feno, palha. Nós podemos entender o “ouro” com o qual devemos edificar a igreja como o “amor”, mas um amor que eu chamaria de “amor acolhedor”. Jean Vanier [1] disse que “acolher não é primeiramente abrir as portas da casa, mas abrir as portas do coração”. Uma igreja que acolhe as pessoas e cria relacionamentos de amizade, é uma igreja que não apenas cresce, mas segura as pessoas no seu redil. Acolhimento, relacionamento, entrosamento é um dos segredos para pessoas se fixarem e continuarem em uma comunidade. A igreja deve oferecer este acolhimento, esta comunhão que as pessoas buscam e pelas quais anseiam. As pessoas buscam relacionamentos. Uma igreja que oferece relacionamentos reais é uma igreja que segura as pessoas. Acolher é um sinal de vida cristã. Acolher como Jesus acolheu. E como Jesus acolheu as pessoas? Acolheu ativistas políticos como os zelotes. Acolheu os colaboradores com o Império dominador, como os publicanos. Acolheu as pessoas com vida moral desregrada, como as prostitutas. Acolheu trabalhadores braçais como os pescadores. Acolheu até alguns religiosos legalistas como os fariseus. Acolheu sem preconceitos e distinções. No grupo dos discípulos Jesus acolheu a todos por igual e tratava a todos por igual, sem fazer uma distinção de valor entre eles. Nós sabemos disso, pois perto do fim de sua vida os discípulos estavam discutindo entre si qual deles seria o maior (Mc 9.34). Até Judas participou dessa discussão. Cada um deles tinha uma história para contar, uma experiência para relatar, de como Jesus o abençoou, usou e se manifestou a ele e que, portanto, deveria ser o maior. Paulo em Rm 15.7 exortou: “Acolham uns aos outros, como também Cristo acolheu vocês para a glória de Deus”. Às vezes o acolhimento nas igrejas se resume em saudar os visitantes no início do culto ou alguém cumprimentá-los à porta na saída. Mas não ultrapassa estes limites. A pessoa não entra no rol dos grupinhos da igreja, nunca é convidada para um bate papo, para um café na sua casa. De certa feita uma pessoa me disse: “você sabe que Jesus ama você?” Eu respondi: “sim, eu sei que Jesus me ama, mas quero saber se você me ama”. Não devemos apenas espiritualizar o amor. O “amor acolhedor” deve se “fazer carne” em nós. Acolher significa incluir pessoas na comunhão, na amizade. Sentir-se acolhido, aceito, abraçado, é sentir-se valorizado e todos querem se sentir valorizados. A pessoa acolhida se sente valorizada como pessoa. Sabe que tem amigos que se importam com ela. Pessoas com quem pode contar nas horas difíceis da vida. Quero sugerir duas coisas para a prática do acolhimento na igreja, acolhimento que resulte em relacionamentos vivos. 1º – O discipulado. Que pessoas novas na comunidade sejam discipuladas. Que alguém, por algum tempo, se dedique a acompanhá-las semanalmente. Mas discipulado não é apenas compartilhar verdades bíblicas e verdades cristãs. Discipulado é compartilhar a vida, a vida no dia a dia. Compartilhar a vida de família, os momentos de lazer, os momentos de lutas. No discipulado pode se desenvolver a amizade. Amizade como a de Davi e Jônatas. Numa hora difícil de Davi em que Saul pretendia matá-lo, a Bíblia diz que “Jônatas fortaleceu a fé de Davi em Deus” (1Sm 23.16). Jônatas animou, encorajou o coração de Davi. Uma igreja em que as pessoas se sintam encorajadas e fortalecidas é uma igreja que não irá perder seus membros com facilidade. 2º – Em segundo lugar o novo participante da igreja deve se tornar participante de um grupo pequeno, um grupo em que se pratique real comunhão e compartilhamento de fé e vida. No grupo pequeno pode ser rompido o abraço frio da solidão e a pessoa pode receber o abraço caloroso da comunhão. Há tantas pessoas solitárias até dentro de nossas igrejas. O “amor acolhedor” é a resposta para esta necessidade humana. Contudo devo dizer que não devemos pensar no acolhimento de forma romântica, pouco realista. Os relacionamentos na igreja não são sem problemas. Cada pessoa que entra na comunidade traz consigo sua carga de problemas, dificuldades, virtudes e defeitos. Onde pessoas convivem há atritos e conflitos, do casamento às igrejas. Os conflitos podem ser uma força desagregadora que leva as pessoas para fora da igreja e diante delas só o espírito perdoador tem a resposta. Perdoar nem sempre é fácil. É mais fácil acolher que perdoar. C. S. Lewis [2] disse que “todos consideram o perdão uma ideia maravilhosa – até o momento em que tem algo a perdoar”. Todavia pelo perdão a comunhão é restabelecida e o “amor acolhedor” volta a fluir. Leonardo Boff [3] comentou que “o perdão de Deus restabelece a comunhão vertical para o alto; o perdão daqueles que nos têm ofendido conserta a comunhão horizontal para os lados. O mundo reconciliado começa a aflorar, o Reino inaugura e os homens começam a viver sob o arco-íris da misericórdia divina”. Concluindo afirmamos que a prática do “amor acolhedor” é a melhor vacina contra o vírus do desigrejamento. REFERÊNCIAS [1] Vanier, Jean. A comunidade, lugar do perdão e da festa. São Paulo: Paulinas, 1982, pg 235 [2] LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. 3ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009, pg 152 [3] BOOF, Leonardo. O Pai-Nosso: a oração da libertação integral. Petrópolis: Vozes, 1979. pg 115

Fred R. Bornschein
Fred R. Bornschein
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22 de setembro de 2021 • 4 min. de leitura

Conflito entre irmãos

“Bem-aventurados os pacificadores porque eles serão chamados filhos de Deus” Mateus 5.9 Por mais controverso que possa ser, não é raro observarmos nos dias atuais cristãos declarando ódio publicamente pelos mais variados motivos em que se possa expressar uma opinião. A divergência que antes era motivo de reflexão com busca pela verdade, hoje costuma ser recebida à base de pedradas. Todos querem ter razão e pior, custe o que custar ou custe a quem custar. Diversos relacionamentos são destruídos por divergências de opinião em questões tão pequenas que com o tempo o próprio motivo de se odiar acaba sumindo e dando lugar apenas ao sentimento, não se lembra com exatidão o motivo da briga, mas se lembra da aversão que ela gerou. Por toda a bíblia desde o Antigo Testamento, temos exemplos práticos do ministério da pacificação e reconciliação. O apóstolo Paulo trabalha mais de uma vez a solução de conflitos entre irmãos de fé e percebendo sua estratégia percebe-se que seu ponto de partida costuma ser o motivo principal do conflito que normalmente está oculto, o orgulho humano. Causa estranheza pensar em orgulho cristão quando o símbolo do cristianismo é o próprio Deus encarnado que se permite humilhar e crucificar por algo que não fez. No Antigo Testamento também vemos que apesar de sua soberania e santidade, Deus perdoa as injustas ofensas de Israel e repetidas vezes promove a sua reconciliação sem ser ele o causador do conflito. A questão que paira então é: se nem o próprio Deus toma para si o direito de executar as injustas ofensas do homem, antes escolhe agir com misericórdia e reconciliar com seus ofensores, como poderia um pecador se sentir no direito de executar direitos sobre seu irmão? Ainda sobre a forma como o apóstolo Paulo lida com conflitos, percebemos que sua primeira estratégia para combater o orgulho é situar os conflitantes de quem eles são, filhos de Deus e portanto irmãos em Cristo, logo após ele busca refletir sobre a importância de que sendo filhos de Deus, irmãos em Cristo, busquem agir como o próprio Cristo agiria, sempre para a glorificação do pai e nunca da carne, por fim adverte que pecar contra seu irmão também é pecar contra o próprio Cristo e que o mais forte em entendimento deverá suportar aquele que é mais fraco. O tempo de vida e experiência ministerial proporcionaram a Paulo estratégias valiosas para gestão de conflitos. Na epístola escrita a Filemon, com grande maestria mesmo à distância, de dentro de seu cativeiro, Paulo intercede por Onésimo junto a Filemon, que era seu credor. Ele inicia a carta falando de seu martírio, e se chama de “prisioneiro de Jesus Cristo” indicando que servir a Deus corretamente também pode produzir sofrimento. Na sequência inicia uma lista de elogios a Filemon, dizendo que sabia de sua fé e amor pelo Senhor e pelos seus irmãos de fé e essa lista segue justamente com qualidades que o próprio Paulo parecia considerar necessárias para o cumprimento daquilo que ele pediria logo na sequência, não apenas o perdão da dívida de Onésimo que havia deixado Filemon na qualidade de escravo e devedor, mas que agora deveria ser recebido como irmão amado. Caso Filemon decidisse por recusar o pedido de Paulo, estaria então agindo exatamente em oposição aos elogios que acabara de receber e, portanto, faria de Paulo um mentiroso. Mesmo sendo uma excelente estratégia, Paulo ainda apela dizendo que está enviando à Filemon o seu próprio coração, representado na figura de Onésimo e que esperava que ele fosse tratado da mesma forma com que Filemon trataria a Paulo. Sempre que estivermos diante de um conflito, devemos lembrar desses e tantos outros exemplos bíblicos de abnegação e humildade, não nos envolvendo em disputas fúteis e se possível, pacificando os conflitos presenciados. A atitude daqueles que colocam sua justiça em Deus evitando a contenda desnecessária, é um poderoso testemunho do evangelho da paz.

Bruno Hilgenberg Martins
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16 de setembro de 2021 • 4 min. de leitura

Uma breve construção histórica do olhar filosófico na relação homem e mulher

Nesta construção histórica da filosofia existem características e eventos que podem lançar luz sobre as questões da mulher em ocupar um lugar de referência dentro do âmbito religioso, e até mesmo potencializar e elucidar a questão da mulher como produtora de conhecimento. Desta forma, pretendo pinçar fatos e personagens que poderão minimamente oferecer apontamentos à questão. Quando a filosofia nasce, na Grécia, no âmbito religioso, as mulheres, enquanto sacerdotisas, tinham os mesmos privilégios que os homens, os quais poderia citar: assento garantido nas primeiras filas dos jogos em Atenas; direito à propriedade e de perpetuar a herança; prestígio ao ponto de terem monumentos erguidos em sua homenagem. Mas este prestígio não era encontrado na vida da sociedade não religiosa grega, pois as mulheres não tinham acesso aos estudos e nenhum direito na democracia Ateniense. Sem dúvida, a condição delas manifestava uma disparidade entre a vida dentro da religião e fora dela. A primeira filósofa que temos notícias foi Safo, 630 ou 604 a.C., nascida em Mitilene – Lesbos, uma ilha grega. Dentre as suas atribuições, podemos citar: poetisa, tecelã, sacerdotisa e filósofa. Devido as suas ideias provocarem perturbações nos poderosos, foi exilada na Sicília junto com a família, mas quando retornou, fundou uma escola só para mulheres, onde as mesmas eram educadas na poesia e filosofia, e eram ensinadas a pensar criticamente e a serem femininas. Sem dúvida esta escola foi um grande marco para a educação das mulheres na época. Por sua vez, o filósofo Platão (428/348 a.C.), na obra “A República”, inova o papel da mulher em sua cidade ideal, possibilitando a sua emancipação social, política e a mesma educação dos homens. Para ele, o único impedimento de uma mulher em praticar o que quiser, seria a sua competência ou não para o ofício desejado. Nesta cidade ideal, todas as funções, até mesmo a de governar sobre outros, não se fixa pelo sexo que cada um possui, e sim, pela competência que cada um carrega em si; o mais capaz então, deve realizar o propósito. Diferente de Platão pensa o seu discípulo Aristóteles, pois para ele a mulher possui uma alma inferior a do homem, ela seria apenas um pouco mais superior que a alma do escravo. Isso intrinsecamente a impediria de realizar algumas funções que seriam próprias do homem livre, entre elas de tecer um pensamento crítico e de governar. Dando um salto na história, iremos nos deparar com Hipátia, nascida em Alexandria no ano de 360 d.C. Ela é uma prova histórica, entre tantas outras, que a mulher tem condições de assumir um protagonismo na liderança e no pensamento crítico, pois foi ela considerada a primeira matemática da história e dirigiu por um significativo período a Escola Platônica de Alexandria, uma das mais conceituadas da época, onde seus alunos, após passarem por ela, tornavam-se prefeitos, governadores e líderes da igreja. Hipátia teve uma morte trágica, foi esfolada viva na Ágora por cristãos radicais. Mas mesmo sendo perseguida em sua vida, nunca deixou de anunciar o que acreditava e por isso tornou-se um ícone na história. Certa vez ela disse: “Governar acorrentando a mente através do medo de punição em outro mundo é tão baixo quanto usar a força”. Outra filósofa a considerar é Simone de Beauvoir (1908/1986). Segundo ela, “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Esta frase, à primeira vista, causa muita estranheza para aqueles que nunca pensaram no assunto. Mas de fato, a mulher sempre foi ensinada a se comportar e agir de determinada maneira e por muito tempo foi educada para ser uma boa esposa e servir ao marido. Com isso, a superioridade do masculino foi ganhando cada vez mais força e o gênero feminino passou a ser visto como inferior. O que está em pauta, não é nascer mulher no sentido biológico, mas sim que a mulher é obrigada a se moldar às expectativas de uma sociedade que a inferioriza. Neste sentido, a mulher, segundo Beauvoir, tem direito de assumir o protagonismo de sua própria existência e querer ser o que ela desejar e não o que se espera socialmente dela. Acredito que estas provocações e exemplos possam ser uma fagulha para pensar melhor sobre a mulher e seus direitos, que devem ser esculpidos à luz das Escrituras e não especificamente da tradição ou de qualquer força que inferiorize o valor da mulher; neste sentido a filosofia tem algo, ainda que de forma singela, a acrescentar.

Rogério Leoderio de Souza
Rogério Leoderio de Souza
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25 de agosto de 2021 • 4 min. de leitura

O bom pastor dá a vida por suas ovelhas

No que diz respeito às escrituras sagradas, encontram-se palavras que o significado em nossa língua é limitado, isso se dá ao fato que a bíblia foi escrita em três idiomas: aramaico, hebraico e grego, línguas que já não são faladas ou foram extintas tornando assim dificultosa sua interpretação, porém, não impossível. Através de uma análise das cópias dos originais pode-se chegar a interpretações mais próximas das intenções em que foram originalmente escritas e revela-se o teor original das palavras bíblicas, as emoções, sentimentos, desejos e vontades fazem parte de todo ser humano e perceber a relação da vida exposta nas escrituras com estas emoções auxiliam em compreender a vida que pode-se ter através do Messias. Na passagem onde Jesus relata que veio dar a vida pelas suas ovelhas em João 10.11 a palavra que lemos é ψυχήν (Psique), um dos termos gregos utilizados para se referir a vida, língua a qual esta palavra tem várias e peculiares aplicações da vida em seus aspectos físicos—a.(fôlego da) vida, princípio vital, alma Lc 12.20; At 2.27; Ap 6.9.—β. α vida terrena em si Mt 2.20; 20.28; Mc 10.45; Lc 12.22; Jo 10.11; At 15.26; Fp 2.30; 1 Jo 3.16; Ap 12.11.— b.a alma como sede e centro da vida interior de uma pessoa, em seus muitos e variados aspectos: desejos, sentimentos, emoções. Sobre esta conotação a palavra psique no seu sentido mais amplo está ligada a vida em todos os seus aspectos, tudo que constitui o ser humano como ele é, pode-se aplicar o termo psique como (a vida do homem Lc 12.18-20; sentimento Mc 14.34 e o eu mesmo como ser humano At 2.41-43). Pode-se perceber que a conotação de vida é mais profunda e complexa de ser compreendida, mesmo pelo fato do ser humano não ser um corpo, mas sim alma vivente (Gn 2.7), tudo que constitui homem como ele é se constitui na vida ou psique. Analisando a palavra aplicada no texto bíblico de Jo 10.11, de acordo com o léxico grego e suas definições, a vida dita por Jesus tem a conotação de alma como sede e centro da vida interior de uma pessoa em seus variados aspectos como desejos, sentimentos e emoções, uma vida que vai além da terrena, esta palavra “Psique” não significa a vida apenas física, psique está relacionada a vida intelectiva, vida mental, a vida racional e emocional. Neste mesmo sentido o escritor de Atos dos Apóstolos a utiliza para ilustrar homens que entregaram a vida (psiqué) pelo nome do Senhor. “Homens que têm arriscado a vida pelo nome do Senhor Jesus Cristo”. At 15.26. Ou seja, homens que entregaram tudo de si, suas vidas por completo, seus sentimentos, emoções, mente e corpos por amor a algo que transcende a vida terrena, vida não resume-se ao estar vivo mas, o seu sentido envolve tudo do que é inerente ao ser. O que se pode apresentar com tudo isso, é que uma das missões do Mestre é restabelecer a ordem e saúde emocional do ser humano, pois uma falha ou negligência em lidar com situações pode causar esse desequilíbrio. Cristo trouxe o equilíbrio, e nele temos a paz e controle emocional necessário para lidar com as mais diversas situações, como Ele mesmo diz em Mateus 6.25 “para não se preocupar ou andar ansiosos quanto a vida” (Psique), a vida física como alimentos, bens e vida emocional porque Deus está no controle. Jesus mostra seu controle e suprimento sobre todas as aflições que o homem possa ter quando se lê que no seu aprisco tem o necessário para ter vida abundante (Jo 10.9) ou vida completa que vai além das expectativas, Cristo tem recursos para suprir todas as coisas que situações nos roubaram. Siga em frente!

Rodrigo Ramos
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12 de agosto de 2021 • 4 min. de leitura

O deus brasileiro

Com o aumento das lives, transmissões de cultos por redes sociais cada dia se torna mais comum que reuniões de igrejas de todos os tamanhos acabem se tornando públicas. Aquelas igrejas pequeninas ou mais reservadas que antes tinham um tapume na porta impedindo que aqueles que passavam na rua pudessem ver o que acontece lá dentro, agora tem seus púlpitos filmados e publicados para quem quiser assistir. Em um primeiro momento até podemos acabar confundidos e pensar que esse novo movimento de lives seria uma grande conquista do Cristianismo, a propagação massiva do evangelho em todas as principais redes, aplicativos de mensagens e até televisionadas, alcançando dos mais jovens aos mais idosos, realmente seria essa uma grande conquista se de fato o que estivéssemos vendo fosse verdadeiramente a pregação do evangelho. O conteúdo dessas reuniões públicas apresentam práticas tão peculiares e discursos tão diferentes da centralidade do evangelho bíblico que somos então obrigados a diferenciar o Deus do Cristianismo do deus brasileiro. Vivemos em uma época marcada pela relativização da verdade em que a opinião ou achismo toma o lugar do estudo e da certeza analisada e já verificada, pouco importa os anos de pesquisa e dedicação de um cientista que dedicou a vida ao estudo e reflexão de certo tema se um jovem de 13 anos decidir dizer nas redes sociais que ele está errado “porque sim”. Como não poderia ser diferente, esse movimento de instabilidade daquilo que se sabe também alcançou o Cristianismo e tem sido demasiadamente danoso ao verdadeiro evangelho de Cristo, isso porque o resgate de heresias antigas e já superadas retornam agora com uma nova roupagem e acabam por atrapalhar aqueles que as abraçam de um contato com o verdadeiro evangelho. Aos poucos o Deus do cristianismo é abandonado por um deus brasileiro, montado e idealizado em cima de conceitos populares, frases de efeito e sincretismos com outras religiões. O deus brasileiro é um senhor bonachão que quer que todos tenham uma vida longa e próspera, cheia de riquezas e benesses, que leva para o céu as pessoas que os seus fiéis acham que são boas e condena ao inferno quem eles consideram ruins, ele atende demandas da terra o tempo todo e para tudo o que estiver fazendo quando um dos seus devotos decreta que ele faça algo. O deus brasileiro satisfaz egos, alimenta desejos egoístas e apesar de dizer que usa a mesma bíblia do cristianismo, ele só a usa se for para distorcer os significados dos textos, mas na maioria das vezes ele prefere falar aos “ouvidos espirituais” dos seus devotos as coisas mais estapafúrdias que em boa parte das vezes são completamente opostas às direções que o Deus do cristianismo deixou registrado para os cristãos na bíblia. O deus brasileiro é uma criatura impossível de se conhecer pois todas as vezes que se pergunta aos seus fiéis quem é Deus, todos eles iniciam com a frase “para mim, Deus é…” mas terminam com os conceitos que mais lhes for conveniente e que por vezes são contraditórios, cada um tem a sua própria versão personalizada desse deus. Enquanto o Deus do cristianismo recebe a todos como pecadores e os transforma para a salvação e para que vivam em novidade de vida em uma única comunidade chamada igreja de Cristo, o deus brasileiro separa as pessoas em grupos de acordo com a moral e cada grupo acha que o outro vai para o inferno. Essa divisão é feita de maneira política, econômica, social e onde pudermos pensar que exista um grupo, ali haverá uma versão desse deus. O deus brasileiro abraça os pecadores, os conforta e diz a eles que está tudo bem e que eles não precisam de arrependimento enquanto caminham rumo ao inferno, o deus brasileiro é o seu próprio ego. Tenho visto muitos cristãos comemorando o crescimento e expansão do cristianismo protestante no Brasil, mas creio que ainda não se deram conta que a religião que tem crescido cada dia mais não é o cristianismo e sim o hedonismo disfarçado de cristianismo. Voltemos ao evangelho, voltemos à bíblia, voltemos ao Deus com “D”.

Bruno Hilgenberg Martins
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27 de janeiro de 2021 • 4 min. de leitura

QUEM É ELA?

Quem é ela? Que chegou sorrateiramente como quem não quer nada. Quem é ela? Que sem pedir licença foi ocupando espaço. Quem é ela? Que como mal educada entrou sem bater a porta e quando se percebeu lá estava ela no centro das atenções. Quem é ela? Que arrebatou em todos os níveis sociais, rico ou pobre, alto ou baixo, pois não faz distinção de suas vítimas e seja qual for o estado, lá está ela. Mas, quem é ela? Que, como furacão devorador foi levando embora a alegria, e como se não bastasse saqueou a felicidade, e como ladra subtraiu a paz de muita gente. Mas, quem é ela? Que tem apagado a luz do sol e o resplandecer de um novo dia que para muitos, já não haverá. Ela causa medo e esse medo está tão presente que se faz necessário se esconder atrás de um pequeno pano como se fosse um escudo que obrigatoriamente passou a fazer parte do dia a dia da população. Há o dia a dia. O dia a dia mudou, tudo por culpa dela. E por causa dela, aprendemos novos hábitos. Hábitos que trancafiam, pois, mesmo estando em liberdade a sensação é estar por trás das grades invisíveis que ela nos impõe, assim nos impede, tirando o direito de ir e vir, que seja ao parque, ou até mesmo ao shopping em um daqueles dias de passeio e esses novos hábitos fazem com que as mãos sejam encharcadas por etílico hidratado em grau 70, numa tentativa de blindá-las, tudo isso para tentar combatê-la, ou quem sabe mantê-la bem longe. Seria isso uma real proteção ou uma utopia? Entretanto, ela fez suscitar valores que pareciam enterrados pelos escombros de tantas ideias que parecem sem fundamento algum que surge de uma sociedade de bases líquidas. Todavia, é possível afirmar que devido a presença dela, hoje os valores são outros. Agora temos que ficar longe de quem estava perto, e quem se encontrava longe, podemos chegar tão próximo pelos meios digitais que mesmo a quilômetros de distância conversamos com alguém como se estivesse sentada ao nosso lado no coração de nossas casas. O que ela fez com a gente? De onde realmente veio? Quando vai nos deixar? São indagações que perturbam e machucam como se fosse ferida que não quer curar. E as respostas para tantas perguntas parecem tão distantes que nem a cúpula mais alta da medicina tem uma resposta certa ou a solução para dar. O certo, é que a queremos longínqua e que tudo volte a ser como era antes, se é que é possível, pois uma vez que as águas passaram por baixo da ponte, jamais voltará a passar. É, temos aprendido com ela, e apesar da assolação que ela vem causando, a ótica do ser humano passa a enxergar com uma nova perspectiva. As horas com a família aumentaram, tempo para os filhos que outrora tanto se implorava, agora, resulta em abraços e brincadeiras. Aqueles minutinhos que eram tão escassos se tornaram tão valiosos que não queremos desperdiçá-los com aquilo que não agrega nenhum tipo de valor. O trabalho, que tanto era priorizado naquela rotina alucinada do escritório, podemos fazer de casa mesmo, pois não queremos em um devaneio de uma saída, nos depararmos com ela por aí, pois, ela é parceira da morte, e está apenas esperando pegar alguém despercebido para que possa conduzi-lo a uma viagem sem volta. Logo, com a presença dela, é preciso adaptar-se a um novo estilo de vida. Daqui em diante, não há espaço para viver uma vida cheia de amargura, rancor e de intrigas, visto que, aquilo que hoje é, amanhã poderá vir a não ser. A vida é curta demais para se viver sobrecarregado de sentimentos insultuosos. Por fim, de toda ocasião é possível tirar lições. E daqui para frente, aqueles que escaparam de suas armadilhas passaram a ver a vida mais colorida e trilharam caminhos jamais percorridos em busca de um futuro melhor. É claro que não podemos esquecer, foram muitos os que cruzaram com ela e ficaram pelo caminho e deixaram saudades. Portanto, chegamos à conclusão: é hora de se imunizar com as experiências adquiridas e nos blindar de todas as formas possíveis para vencermos os desafios por ela impostos, e superar as marcas que ela deixou na humanidade. Ora, mas quem é ela? A chamam de pandemia! Covid-19! Essa, ficará na história. Muitos não gostariam de a ter conhecido, pois ela deixou de forma implacável, irresolúveis marcas que a borracha do tempo, jamais poderá apagar.

Marcos Aurélio de Souza Paulino
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13 de janeiro de 2021 • 5 min. de leitura

Afinal a mulher pode ou não ensinar no culto? Um estudo à luz de 1 Coríntios 14.33-34

Mesmo em dias hodiernos a mulher ainda sofre, além da violência, com preconceitos ministeriais e profissionais, e não estamos analisando uma cultura mais tradicional e conservadora como em países influenciados pela religião islâmica. Denominações cristãs evangélicas ocidentais ainda proíbem as mulheres de ensinarem nas igrejas. Nossa tarefa será fazer uma breve análise do texto de 1 Coríntios 14.33-35: 34 As mulheres estejam caladas nas igrejas, porque lhes não é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. 35 E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é indecente que as mulheres falem na igreja. O estudo da crítica textual nos informa que alguns manuscritos chegam a colocar os versículos 34 ao 35 no final do capítulo 14 depois do versículo 40. (OMANSON, 2010, p. 355). Já Gordon Fee (2019, p. 853) classifica essa passagem como: “[…] passagem espúria (v. 33,34) que conseguiu se aninhar na tradição manuscrita, tendo sido inserida nesse ponto na maioria dos textos remanescentes […]”, ou seja, o autor se nega a comentar esses versículos em sua obra, pois para ele não tem valia nem mesmo como uma interpolação. Todavia, o breve estudo abordará os versículos dentro do seu contexto histórico-cultural e literário partindo do pressuposto como parte integrante do NT, independente de sua colocação nos manuscritos antigos. Não se pode deixar de lado os aspectos culturais da época, a posição da mulher na sociedade era deprimente. O grego Sófocles havia dito que: “O silêncio confere graça a uma mulher”, já os rabinos que “Com respeito a ensinar a lei a uma mulher, o mesmo seria ensinar-lhe impiedade.” (BARCLAY, 1956, p. 136). O mundo greco-romano não conferia valor nenhum à mulher e no judaísmo não era diferente. É nesse contexto em que o NT é escrito. Barclay (1956, p. 134) nos chama a atenção para a observação de como era o culto na Igreja Primitiva. Existia uma “liberdade e uma informalidade” diferente dos nossos cultos atuais, pois não existia “pastores profissionais”, todo aquele que tinha o dom estava livre para usá-lo, a ordem no culto tinha uma flexibilidade. Não participava de um culto somente como ouvinte passivo. As mulheres no NT se destacavam por suas qualidades e virtudes e não por titularidade funcional, uma vez que essa institucionalização vem a posteriori. O contexto literário imediato dos versículos “esboça regras de conduta que promovem o culto ordeiro”, conforme nos relata Kistemaker (2003, p. 711). As profecias devem ser julgadas pelos ouvintes. Porém, Paulo impede as mulheres de julgarem as profecias dos homens. Para o Dr. Waldyr Carvalho Luz (2011, p. 44-49) essa é uma questão de “etiqueta feminina da época” e não uma “injunção teológica.” Quando faz apelo a Lei de forma genérica a Escritura, “ele tem em mente o relato de Gênesis 2.18-24, que ensina a ordem da criação na qual Adão foi criado primeiro e depois Eva como ajudadora de Adão. Desse relato, Paulo deduz o princípio de que a esposa é sujeita ao marido como ajudadora dele e é responsável perante ele”. (KISTEMAKER, 2003, p. 712). Paulo orienta as mulheres de Corinto a respeitarem seus maridos no culto, ficando em silêncio quando discordarem da profecia (pregação) dele e questioná-lo na privacidade do lar. Se a ordem de Paulo era para que as mulheres ficassem totalmente caladas nos cultos, teremos uma grande contradição com o capítulo 11.5: “Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse raspada.” Kistemaker (2003, p. 711) presume “que com os homens, as mulheres também cantavam salmos e hinos na igreja (14.26).” Paulo, jamais quis proibir a mulher de falar e adorar a Deus no culto uma vez que a passagem bíblica citada pelo autor traz além de salmos e hinos, doutrina, revelação, língua e interpretação. Ademais, não permitir que uma mulher fale, ensine ou pregue numa igreja é limitar a ação do Espírito Santo prometida no AT em Joel 2.28-29 e concretizada em Atos 2.17-18: E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, E os vossos velhos sonharão sonhos; E também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias, e profetizarão; Teríamos que ser honestos em afirmar que o dom do ensino e da pregação foi concedido somente aos homens, uma vez que no contexto amplo de 1 Coríntios, Paulo trata com os dons espirituais no capítulo 12. No compêndio da teologia paulina, os dons foram dados para a edificação da igreja. Teríamos também que diferenciar os dons espirituais. Exemplificaremos agora em Romanos 12, uns exclusivos para homens: profecia, ministrar, ensinar, exortar, presidir e outros para homens e mulheres: repartir e misericórdia. Fica a pergunta baseada em Efésios 4.11-12: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores. Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo.” Será mesmo que as mulheres também estão de fora dos dons ministeriais? Eu creio que não. Bibliografia KISTEMAKER, Simon. Exposição da Primeira Epístola aos Coríntios. SP: Cultura Cristã, 2003. BARCLAY, Willian. Comentário de 1 Coríntios. Trinidade College, 1956. FEE, Gordon. Comentário Exegético de 1 Coríntios. SP: Vida Nova, 2010. OMANSON, Roger. Variantes Textuais do Novo Testamento, Análise e Avaliação do Aparato Crítico de “O Novo Testamento Grego”. SP: SBB, 2010. LUZ, Waldyr. Ordenação feminina. Revista Ultimato. Viçosa, MG, Vol. 329, p. 44-49, Março-Abril de 2011.

Juliano Marlus
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6 de janeiro de 2021 • 5 min. de leitura

Em Nome de Jesus

Acredito que você já tenha ouvido por diversas vezes alguém orando ou simplesmente lançando ao vento a frase “em nome de Jesus”. Antes dessa frase ser banalizada e se tornar um jargão popular do evangeliquês, seu sentido era muito puro e representava a maior segurança que um cristão poderia ter. Em uma breve reflexão, gostaria de tentar resgatar o correto uso dessa expressão que em seu sentido original, é maior que qualquer coisa que possamos imaginar. Primeiramente gostaria de lhe convidar a imaginar a alegria daqueles que ouviram a verdade que liberta da boca do próprio libertador, imagine comigo a honra de ter sido um apóstolo de Cristo, não apenas crer que há uma salvação mas ter consigo o próprio salvador, caminhar com ele, dividir refeições, poder ter longas conversas, consegue imaginar a segurança e o sentimento de satisfação que conviver fisicamente com Jesus deve ter proporcionado a esses homens, a ponto de deixarem tudo o que tinham para trás, crendo que apenas estar com Cristo lhes seria suficiente? Peço que gaste alguns segundos meditando sobre isso, feche seus olhos por um breve momento e tente se imaginar agora como alguém que está caminhando com Cristo e convivendo com ele, bebendo a água da vida direto da fonte, a qualquer momento você poderia lhe fazer indagações cujas resposta você esteja procurando por anos, faça isso agora. Meditar sobre isso me traz tanta paz e conforto que eu poderia fazer isso por um bom tempo, mas se apenas esse breve exercício de imaginação já é capaz de nos proporcionar alegria, paz, conforto, imagine como realmente deve ter sido estar lá. Agora quero que tente imaginar o quão assustador deve ter sido saber que o salvador lhes seria tirado, eles ainda não sabiam o que era servir a um Cristo ressurreto, sua experiência era física, visual, auditiva. Medo e insegurança devem ter tomado conta dos seus corações. Esses homens haviam abandonado tudo para seguir seu salvador que agora lhes seria tirado. Cristo já os havia contado sobre seu propósito aqui na terra, seu sofrimento, crucificação e ressurreição, mas saber isso de antemão não tornaria o fato de não ter mais a presença física do mestre muito mais fácil, como ficaria a expansão do evangelho quando ele fosse embora? E os milagres que fazia, as pessoas precisavam daquilo, o que aconteceria dali em diante, será que a presença do mestre seria apenas como um capítulo bom que se encerraria e com o passar do tempo suas vidas voltariam a ser o que eram antes? No evangelho de João, capítulo 14 Jesus apresenta como que um testamento para seus apóstolos e para todos os cristãos, uma garantia de que não somente o seu evangelho seria expandido, como coisas ainda maiores seriam feitas, desta vez, pelas mãos de seus apóstolos e futuramente de todos aqueles que levariam seu nome, os cristãos. Jesus diz nos versículos 12 a 14 que todos aqueles que nele cressem, fariam obras ainda maiores do que as que ele fez, diz também que tudo o que fosse pedido em seu nome, lhes seria atendido, para que o pai fosse glorificado através do filho. Com essa fala, Cristo mostra que seu poder é ainda muito maior do que seus apóstolos poderiam perceber pois agora os milagres, a expansão do evangelho, já não seriam feitos diretamente pelas mãos de Cristo, mas sim por Cristo, através das mãos de todos aqueles que cressem. Aqui percebemos então a majestade de nosso Senhor e salvador, cujo nome tem autoridade para realizar milagres que contrariam leis da física, probabilidades naturais e subjugam todo mal, todo universo se curva perante a autoridade do nome de Jesus e por meio desse nome o evangelho seria expandido a todos os povos, pessoas seriam curadas, libertas e o pai seria glorificado através do filho, exatamente como Cristo havia dito. Precisamos esclarecer que a autoridade do nome de Jesus, apesar de estar disponível a todos os cristãos, não é uma chave mística que pode ser lançada como uma palavra mágica, essa autoridade deve ser usada para um propósito que glorifique o nome do pai e não para conquistas egoístas, vazias ou para satisfazer vaidades. O livro de Tiago nos diz no capítulo 4 que pedimos e não recebemos porque pedimos mal, todo pedido em nome de Jesus que não resulte na glorificação do pai, é pedir mal. Outra verdade que precisa ser compreendida é que a autoridade do nome de Jesus deve ser usada para pedir, clamar, mas não dar ordens ou determinar, isso porque o único que tem autoridade para ordenar ou criar decretos é o próprio Cristo. Para o cristão, o uso da autoridade do nome de Jesus é um favor, clamamos pelo favor de Deus em nome de Jesus e isso porque por nosso próprio nome não somos dignos de pedir nada, somos pecadores, falhos e vivemos pela graça e misericórdia de Deus, não há mérito no homem. Por isso, quando usamos a autoridade do nome de Jesus, não estamos nos valendo de nosso merecimento, mas do mérito do próprio Cristo, daquele que sofreu até o fim sem cometer pecado, do cordeiro imaculado que venceu a morte, o pecado, vive e reina junto ao pai. Nosso Deus, é relacional e não uma força do universo ou uma energia que paira como os deuses de outras religiões, ele é um ser pessoal que se importa conosco e tem interesse por nossas vidas, por isso, com muita humildade, podemos e devemos tornar nossas petições conhecidas dele através de nossas orações, conforme o apóstolo Paulo nos orienta no livro de Filipenses capítulo 4, cientes que não buscamos nada por mérito próprio ou por direito mas tão somente por favor, por sua graça, certos de que se pedirmos algo para que seu nome seja glorificado, e em nome de Jesus, certamente ele nos atenderá.

Bruno Hilgenberg Martins