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9 de setembro de 2020 • 4 min. de leitura

Proposta para Tempo de Crise – Abordagem Histórica

Quando falamos sobre a epidemia em que estamos vivendo geralmente lembramos de outras no passado, como por exemplo, as pestes medievais. A epidemia de peste atingia uma cidade aproximadamente a cada dez anos entre os séculos XIV e XVIII. A taxa de mortalidade era de 60 a 90% (um a três% no Covid-19), o que era particularmente terrível.

Assim como na epidemia de peste negra, bem como em outras, os cristãos tiveram atitudes formidáveis e relevantes no meio da sociedade. O livro Crescimento do Cristianismo apresenta várias razões pelas quais o Cristianismo foi convincente: as epidemias contribuíram significativamente para a causa cristã (STARK, p.88). O Cristianismo se adaptou às tribulações em que a adversidade, a enfermidade e a morte violenta geralmente prevaleciam (STARK, p.94). Os cristãos cuidavam dos enfermos, eram infectados e morriam por eles. Depois estes curados se tornavam cristãos.

A situação se desenvolveu a tal ponto que o imperador que quis reimplantar as religiões pré-cristãs no Império Romano, Juliano, o apóstata, em 362 d.C. avaliou o que então percebia, dizendo: “Os cristãos cuidam não apenas dos seus doentes, mas também dos nossos. Todo mundo pode ver que nosso povo não conta com nossa ajuda” (apud STARK, p.97).

O sociólogo conclui então que, no século IV d.C., “esperava-se que o Cristianismo operasse com júbilo na assistência aos enfermos, aos inválidos e aos dependentes” (STARK, 2006, p.199).

Diante disso, gostaria de elencar pessoas chaves que fizeram a diferença em seu meio e diante das crises:

A visão de Martinho Lutero

A pergunta é se era aceitável fugir como cristão. Lutero respondeu a seu colega John Hus, visto que em 1527 Wittenberg foi atingida pela praga e as aulas foram transferidas para uma cidade não afetada.

Lutero se recusou a sair. Em vez disso, ele decidiu cuidar dos doentes e moribundos e transformou sua casa em um hospital improvisado.

Lutero disse: “Ao crer em Deus e por amor ao próximo, os cristãos devem primeiro pensar em como podem contribuir para o cuidado físico e espiritual dos fracos, isolados, doentes ou moribundos”. Só então Lutero permitiu que os cristãos tomassem decisões privadas sobre a possibilidade de fugir.

O Salmo 41 era a base orientadora para Lutero: “Bem-aventurado aquele que cuida dos fracos! O Senhor o salvará nos maus momentos.” Portanto: “quem cuida de uma pessoa doente (…) que faz isso com essa promessa consoladora, (…) ele tem grande consolo aqui. (…) Deus mesmo quer ser seu guardião e seu médico também.”

Frederico von Bodelschwingh e a Missão de Bethel

Frederico, enquanto estudante, envolveu-se com os mendigos vendo a situação sub-humana em que viviam. Em 1869, de 12 a 25 de janeiro, faleceram 4 de seus filhos.

Em 1872 foi convidado a assumir o lar de epiléticos de Bethel. Para ele, a fé infantil de um doente mental ou de um agricultor epilético era a experiência que superava tudo o que a Universidade poderia oferecer. Os epiléticos eram vistos como doentes mentais nessa época.

Bodelschwingh entendia que ali não se estava em frente à miséria, mas no meio dela. Isto é o que o anunciador da Palavra de Deus deveria aprender, para depois à frente da igreja ser um bom exemplo e tornar outros solícitos para todo tipo de serviço cristão.

A missão possui um hospital psiquiátrico diaconal protestante em Bethel, antiga cidade, hoje um bairro de Bielefeld, na Alemanha .

Quem vinha com alguma dor falar com Bodelschwingh, nunca saía inconsolado. Algo cada um recebia. Para ele, as pessoas precisam ser valorizadas como são. O amor não estabelece pré-requisitos. O amor deve persistir.

Na obra missionária, os desafios eram assumidos por todos. Assim aconteceu a construção de albergues, colônia para desempregados, casa para trabalhadores da cidade. Bodelschwingh tornou-se deputado para trazer benefícios legais aos que estavam mendigando. Queria que o pequeno tivesse sua própria casa e pedaço de terra para plantar.

A visão escatológica era que tudo será destruído quando Jesus voltar, com exceção do que foi feito de acordo com a vontade de Deus. O trabalho entre os pobres e insignificantes está entre a exceção, pois Cristo se identifica com os sofredores. Somente quem valoriza e age para o melhoramento desse mundo saberá valorizar e agir com vistas ao vindouro.

E esta visão teve consequências nas outras gerações.

Marlon Fluck
Marlon Fluck
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24 de agosto de 2020 • 5 min. de leitura

Isolado, mas não angustiado!

O tema deste texto é “Teologia para tempos de Crise”. “Teologia”, uma palavra sobre Deus, ou de Deus, sobre a crise. Pensando em “crise” pensamos nas inumeráveis crises que podem atingir uma pessoa devido às contingências da vida e, de modo particular, pensamos na crise de saúde, crise econômica, social, emocional, que a todos nós atinge atualmente. É uma situação que, por forças das circunstâncias, traz consigo outras preocupações e ansiedades: o medo do contágio, a crise financeira, resultado do afastamento do trabalho, e, em alguns casos, até mesmo de demissões, preocupações com o futuro das firmas e empresas. O fato é que nós não podemos mudar as circunstâncias. Mas há uma coisa que podemos mudar: nós mesmos. Podemos mudar nossas atitudes, nossas reações, nossa maneira de encarar, de enfrentar esta contingência da vida. Todos nós podemos aprender com um homem que enfrentou também a crise, o isolamento, mas de uma forma brutal, compulsória, forçada, violenta – o apóstolo Paulo. Podemos perguntar como ele enfrentou as crises em sua vida, o isolamento imposto a ele pela prisão? Como ele reagiu, o que falou, como ele encarou esta situação? Especialmente na carta que Paulo escreveu à Igreja de Filipos temos alguns princípios valiosos que devemos conhecer e aplicar. Quero destacar três deles. 1. O segredo está no centro O segredo maior de Paulo para enfrentar as crises da vida é esta: no núcleo de sua vida havia uma realidade que dava sentido, que determinava todas as outras e que não dependia dos altos e baixos da vida: esta realidade era Cristo! Quero usar de uma imagem. Há pessoas que são como pêssegos, outras são como cebolas. O pêssego tem casca, polpa e semente. Tem um núcleo central. A cebola tem camadas, várias camadas. Você procura algo no centro, mas não encontra. Há pessoas que só tem camadas: trabalho, estudo, casa, carro, beleza, esporte, amigos, o clube, diplomas, dinheiro. A vida vai removendo as camadas. Esta pandemia removeu várias camadas da vida de muitas pessoas e o que há no centro? O que dá valor à vida mesmo que todas as camadas sejam removidas? Paulo tinha algo que era central. Algo que dava valor à sua vida. Uma realidade que determinava o sentido de sua existência. Ele disse: “Para mim o viver é Cristo” (Fil 1.21). 2. “Floresça onde você está plantado”. Esta frase é o título de um livreto do famoso e já falecido pastor Robert Schuller. Neste livreto ele afirma que muitas pessoas acham que só poderão ser vencedoras, ter uma vida feliz, ser pessoas realizadas, “florescerem”, se estiverem “plantadas” em outro lugar, se tiverem um outro emprego, se estudarem em outra escola, se mudarem para outra cidade ou país e, pior, muitas vezes, se tiverem um outro marido, uma outra esposa. Mas Schuller afirma: Você pode florescer, viver, ser realizado, encontrar a felicidade onde você está agora. Se há alguma coisa que precisa mudar: é você – por dentro. Voltando para o apóstolo Paulo, ele estava “plantado” num chão inóspito e desagradável – uma prisão romana. Ele poderia ter dito: “Vou poder voltar a ser útil, a servir, a ser realizado, feliz, quando sair desta prisão miserável”. Mas não! Lá onde ele estava, ele floresceu. Ele falou de Cristo aos guardas, ele escreveu várias cartas que estão entre os escritos mais lidos no mundo até aos nossos dias. Você não está bloqueado, algemado, engessado, congelado pela crise, não! “Floresça onde você está plantado!” 3. “Acabe com as saúvas, antes que elas acabem com você”. No passado havia uma frase muito conhecida: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. Esta frase é atribuída ao naturalista francês, Auguste de Saint-Hilaire, que esteve no Brasil há um século e meio atrás, estudando a flora brasileira. Usando de uma metáfora, quantas “saúvas” de preocupação, ansiedade, nos assediam nestes dias do vírus se espalhando, do perigo de contaminação, do isolamento social, da crise financeira, pessoal e nacional, do medo de ficar doente, de perder o emprego, de perder a firma. Estas “saúvas” nos atacam principalmente a noite, perturbando o nosso sono. O apóstolo Paulo também tem uma sugestão para nós diante das crises de ansiedade e de medo. Ele disse: “Não vivam preocupados com coisa alguma; em vez disso, orem a Deus pedindo aquilo de que precisam e agradecendo-lhe por tudo que ele já fez. Então vocês experimentarão a paz de Deus, que excede todo entendimento e que guardará seu coração e sua mente em Cristo Jesus.” (Fil 4.6-7, NVT) O conselho de Paulo é este: “Em vez de você carregar dia e noite o peso das preocupações nos seus ombros e no seu coração, entregue nas mãos de Deus e deixe nas mãos dele.” Alguém disse que tinha uma caixinha chamada “CDC” (Coisas para Deus cuidar). Ele colocava na caixinha as suas preocupações e deixava lá. Confiava que Deus iria cuidar daquilo que ele entregou a Deus. Eu sugiro que todos tenhamos uma caixinha “CDC” – “Coisas para Deus cuidar” e coloquemos nela tudo o que nos preocupa e aflige. Portanto, vamos aprender com o apóstolo Paulo. Ele enfrentou a crise, o isolamento, a prisão de forma brutal, mas não apenas teve uma vitória diante destas circunstâncias de sua vida, como deixou tantos princípios preciosos para nós hoje também, que poderão nos ajudar a termos, também, uma atitude de vitória.

Fred R. Bornschein
Fred R. Bornschein
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14 de agosto de 2020 • 4 min. de leitura

Teologia em tempos de crise: lições de Jeremias na ‘crise das crises’

Parto da relação etimológica entre os termos principais do título: ‘teologia’ e ‘crise’. A palavra ‘teologia’ é composta de ‘theo’ (Deus) e ‘logos’ (‘estudo’), do v. grego ‘legein’ (‘dizer’), que indica ‘dispor’, ‘organizar’ dados de ‘Deus’ de modo inteligível (inte-log[o]-ível). Já a palavra ‘crise’ deriva de ‘krisis’, do v. grego ‘krinô’ (‘julgar’) e indica uma situação ‘crítica’, que pode evoluir tanto para a ‘ordem’, como para o ‘caos’, a depender da seleção, discernimento e disposição lógica dos dados. A partir dessa breve análise, podemos deduzir o seguinte: a krisis desafia o logos, uma vez que desorganiza os dados, causa ‘desconforto’ intelectual e psicológico e demanda a busca de novo sentido. No caso da ‘teologia’, a ‘crise’ obriga o teólogo a transcender em direção ao Theós para reorganizar os dados e elaborar o ‘logos’, o sentido ‘na’ crise. À luz desse desafio, o objetivo desse artigo é propor formas de elaborar teologia em tempos de crise, partindo de uma experiência dramática do Antigo Testamento: ‘a crise das crises’ — a destruição de Jerusalém e o exílio na Babilônia. Para tanto, vamos comparar os erros e acertos e colher lições para o enfrentamento da crise atual. A crise das crises Nos dias de Jeremias (640-570 a.C.), a aliança de Yavé e o povo de Israel entrou em colapso. Os judeus perderam a posse da ‘terra prometida’, a dinastia de Davi foi afastada do poder e o sacerdócio levítico praticamente extinto com a destruição do templo. A nação perdeu autonomia política e todos os referenciais étnicos e religiosos. Esta crise atingiu todos os pilares da aliança — terra, trono e templo — e desorganizou o sentido da nação. Tudo e todos foram colocados sob suspeita: Deus, o rei, os sacerdotes, os profetas, a Torá, os patriarcas. Como interpretar a crise à luz da fé dos patriarcas? Como confiar nos guias da nação? O rei saberá o que fazer? Os sacerdotes poderão garantir a bênção de Yavé? Qual profeta fala por Yavé: Jeremias ou Ananias? Todos os membros da nação tinham acesso à mesma fonte: a memória da fé (passado), os eventos críticos (presente) e as promessas de Yavé (futuro). A partir desses dados, como cada parte reagiu à crise? Como interpretar a situação? Como dar sentido (logos) aos eventos críticos? Vamos analisar a reação do povo e do profeta Jeremias. O povo representa o erro de interpretação dos dados. Eles negaram a gravidade da situação e expressaram confiança nos ritos e no templo: “Deus está conosco”, “o templo não será destruído”. Essa reação pode ser colocada em termos de “é só uma guerrazinha” ou “o exílio vai passar logo e nós vamos voltar para Judá.” Ao errarem a interpretação da crise, o povo negligenciou as advertências e os riscos. A crise ‘julgou’ a teologia do povo. O profeta Jeremias, por outro lado, representa a leitura correta da crise. A partir dos mesmos dados, ele analisou a movimentação dos impérios, a iminência da guerra, a conduta do povo, as reivindicações de Yavé. Ele acusou o povo de pecado, advertindo-os ao arrependimento. Quando percebeu que a situação era irreversível, aconselhou seus conterrâneos a se renderem aos babilônios e enviou mensagens de calma aos exilados. A teologia do profeta também foi julgada pela crise. Note-se ainda que, mesmo acertando na interpretação da crise, Jeremias vivenciou solidariamente todas as consequências dos erros do povo. Ele profetizou a partir de dentro da crise e depois ajudou o povo a superar o caos. Lamentações, atribuído a Jeremias, é expressão franca de um homem que dá livre curso à tristeza, mas também cobra esperança nas promessas de Deus para dar sentido à crise. Assim, a crise produziu teologia. Provocações Respondendo ao desafio de fazer ‘teologia em tempos de crise’, aprendemos com Jeremias que o teólogo deve acolher honestamente suas próprias perguntas, mesmo correndo o risco de não obter respostas. Deve acolher também as interpelações da sociedade, se é que ela nos considera relevantes para o enfrentamento das crises. O teólogo deve submeter sua teologia a julgamento, acolher os dados ‘críticos’ e buscar ‘inte-log[o]-ência’ no Theos que a tudo transcende. A crise interpela a teologia e abre novas oportunidade de revelação. A crise abala as certezas teológicas e expõe o teólogo à agonia da não-resposta. A teologia dialoga com as crises à luz do Theos e experimenta novos caminhos e olhares. A teologia não foge, nem nega a crise, mas avança em meio a ela e a ilumina. Assim, em vez de ‘teologia de crise’, podemos aventar uma ‘teologia da resiliência’. Resiliente como a teologia de Jeremias que, décadas mais tarde, serviu de fundamento de esperança e fé aos judeus que voltaram do exílio e reconstruíram a nação.

Eliseu Pereira
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5 de agosto de 2020 • 4 min. de leitura

Missionários que enfrentaram crises e perdas: comunicando a mensagem bíblica em tempos de crise

“Eu vos tenho dito essas coisas para que tenhais paz em mim. No mundo, tereis tribulações; mas não desanimeis! Eu venci o mundo”. João 16:33. Estas foram as palavras de Jesus aos discípulos antes de sua morte. Foram direcionadas aos primeiros discípulos, pois Jesus sabia o que os esperava após a sua partida. Desde então, muitos seguidores de Cristo e do cristianismo tem passado por tribulações, aflições e até morte. Nosso maior exemplo é o apóstolo Paulo, que em meio a muitas dificuldades não desistiu de sua fé e nem de sua carreira de apóstolo aos gentios. Embora essas palavras tenham sido ditas especificamente aos primeiros discípulos, permanecem relevantes hoje para qualquer pessoa que queira fazer a diferença no mundo por Jesus Cristo. Uma coisa é certa: os problemas estão a caminho. É a experiência normal do povo sofrido de Deus neste mundo pecaminoso. O que Jesus disse aos discípulos tem sido verdade para a sua igreja no decorrer dos séculos: “Neste mundo vocês terão aflições”. Somente em Cristo somos capazes de passar por provações, aflições e tribulações. Nós nunca sabemos quando passaremos por aflições ou quais aflições teremos, mas certamente teremos. Alguns missionários que passaram por tribulações em suas vidas e ministérios: William Carey (1761-1834) Pioneiro do movimento missionário ocidental moderno, buscando alcançar os confins do mundo. Mais especificamente, foi o pioneiro da igreja protestante na Índia e o tradutor e editor da Bíblia em 40 idiomas da Índia. Podemos dizer, em poucas palavras, que Carey foi um evangelista que utilizou todos os meios disponíveis para iluminar cada faceta escura da vida indiana com a luz da verdade, tornando-se também o personagem central da história da modernização da Índia. Passou por grande aflição quando morreu o seu filho, como também sofreu com sua esposa com problemas de saúde seríssimos. Porém Carey jamais desistiu da tarefa que Deus colocara em suas mãos. William Carey é conhecido como O Pai das Missões Modernas. Sua atuação na Índia inspirou muitos cristãos para o serviço missionário. Charles H. Spurgeon (1834-1892) Mais conhecido como C. H. Spurgeon. Foi pastor de uma Igreja Batista na Inglaterra. Escreveu inúmeros sermões. Treinou muitos jovens para o ministério. Fundou um colégio e várias outras obras assistenciais. Até o último dia de pastorado, Spurgeon batizou 14.692 pessoas. Pregou em vários países. Também escreveu e editou 135 livros durante 27 anos. Ainda jovem começou a sofrer vários problemas de saúde, e mais tarde vez por outra, era acometido por profunda depressão. Elisabeth Elliot (1926-2015) Foi missionária no Equador. Seu esposo, Jim Eliot e outros missionários foram mortos a flechadas pelos nativos da tribo Aucas, em 1956 enquanto tentavam fazer contato com este povo. Depois da morte do esposo, ela foi com os filhos viver no meio da tribo. Viveu muitos anos na América do Sul. Retornou aos EUA e se tornou palestrante e escritora, viajando por todo o país dando palestra sobre a vida e o sofrimento. Entre seus livros, escreveu: “Nos portais do seu esplendor”, Edições Vida Nova e “O sofrimento nunca é em vão”, Editora Fiel. Conclusão Em toda a história do cristianismo e de Missões, vários homens e mulheres gastaram suas vidas, mesmo em circunstâncias não favoráveis, enfrentando problemas de saúde, perda de filhos e cônjuges, colocando acima de qualquer interesse pessoal o compromisso para com Deus, seu chamado e a pregação do evangelho. Nos últimos tempos, temos ouvido sobre um evangelho triunfalista, que o crente está acima de qualquer sofrimento, de privações ou dificuldades. É interessante entender que a vida sem aflições, tribulações não será neste mundo, mas no porvir, onde toda a dor será transformada em alegria e toda lágrima em gozo eterno. Referências https://www.projetospurgeon.com.br/quem-foi-spurgeon/quem-foi-charles-haddon-spurgeon/ https://ministeriofiel.com.br/artigos/no-mundo-tereis-aflicoes-mas-tende-bom-animo-eu-venci-o-mundo/. https://en.wikipedia.org/wiki/Elisabeth_Elliot http://perspectivasbrasil.com/william-carey-1761-1834/

Malena Clower
Malena Clower
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31 de julho de 2020 • 7 min. de leitura

Crise e respostas da Teologia

A crise é algo inerente à existência humana. Sempre que algo tira a tranquilidade ou foge à regra daquilo que a humanidade considera cotidiano surge uma crise. Se a origem da crise pode ser bastante diversa, e nem sempre ter a possibilidade de ser evitada pelo ser humano, sua resolução depende da habilidade de lidar com ela e transformar as circunstâncias em novas oportunidades. Neste material teremos como objetivo observar as diversas respostas que teólogos deram em meio a estas crises. As crises estiveram presentes desde os primórdios da humanidade. Os seres humanos não teriam se desenvolvido tecnologicamente sem a existência de crises. Foi a necessidade de caçar que obrigou o homem a desenvolver os primeiros instrumentos de pedra. “De um ponto de vista puramente natural, o homem é o mais inadequado dos seres vivos existentes em nosso planeta” (PINSKY, 2011, p.10). Foi a falta de alimento que fez ele se deslocar pelas planícies da África e Ásia chegando à Europa e Américas. Por este mesmo motivo a crise denota uma “etapa crucial ou ponto de viragem no decurso de qualquer coisa” (RATO, 2008, p. 175). Embora existam vários tipos de crises de âmbito mundial, neste material gostaria de apresentar quatro tipos. Eles auxiliam a compreensão das dimensões que uma crise pode atingir. Será discorrido a respeito de crise bélica, econômica, sanitária e migratória. Para cada uma delas, várias respostas foram dadas por teólogos que viveram neste tempo. Durante o século XX ocorreram duas grandes guerras mundiais. A primeira delas entre 1914 e 1918, intitulada I Guerra Mundial, e a outra entre 1939 e 1945, conhecida como II Guerra Mundial. O palco principal das duas guerras foi a Europa, mas os conflitos atingiram várias regiões do planeta. Soldados de terras muito distantes da Europa foram arrastados para lá com o objetivo de lutar por uma das partes em conflito (HOBSBAWM, 1995). Bailey (1984) indica que os cristão evangélicos tiveram que lidar com algo bastante diverso, uma guerra contra a terra de onde veio a reforma protestante. Em meio à confusão, alguns chegaram a afirmar que a culpa era da própria mensagem de Lutero, mais afeita à agressão do que a arminiana. Outros seguiram para a direção de que se tratava de um castigo divino por conta do desvio da fé dos cristãos locais. Outros ainda perceberam, como na maioria das crises da humanidade, que é um prenúncio da volta de Jesus que se aproximava. Nesta linha não demorou para que figuras fossem identificadas como o anticristo: na primeira guerra eram o Kaiser e Oman Otomano; na segunda guerra cada lado encontraria o anticristo no seu oponente. Poucos líderes viram nestas guerras a oportunidade divina para a construção de uma outra forma de sociedade. Com o término da Primeira Guerra, os Estados Unidos se tornaram o grande credor do mundo. Todas as dívidas contraídas por conta da guerra tinham que ser pagas, com juros, aos cofres americanos. Soma-se a isso a ausência de empresas capazes de suprir as necessidades europeias que haviam sido destruídas pela guerra. Todas estas contingências, somadas à inventividade de homens como Henry Ford, levaram a um crescimento econômico sem precedentes. Tudo parecia perfeito, até que em 24 de outubro de 1929, a bolsa de nova York sofre uma quebra sem precedentes. Rapidamente o enriquecimento é substituído pela falta de empregos, as indústrias quebram juntamente com os bancos. Numa economia em processo de integração transnacional, vários países do mundo acabam por sofrer as consequências. Mesmo o Brasil viu sua produção de café ser queimada por falta de compradores (HOBSBAWM, 1995). Handy (1960) indica que durante a prosperidade, as igrejas americanas começaram a sofrer uma evasão. O suprimento financeiro acabou por diminuir o desejo de investimento em missões. Os cultos começaram a esvaziar no mesmo momento em que novas seitas começaram a aflorar em solo americano. Se de um lado, a lei seca parecia demonstrar uma igreja atuante, na verdade denotava uma religiosidade crescente, destituída de uma espiritualidade marcante. Uma apostasia que só não era sentida pelos primeiros pregadores que usavam o rádio para espalhar sua mensagens, muitas vezes sem o conteúdo adequado. Logo, não é de se espantar que vários líderes indicavam a crise como uma punição divina, resultado da ira divina. Outros olharam para este momento como sendo o fim do mundo. O olhar escatológico era facilmente chancelado pela imagem de imensos batalhões de empobrecidos perambulando nas ruas. Mais uma vez foram poucos os que perceberam nisso a oportunidade de um evangelho mais atuante e atento à necessidade humana. A terceira crise apresentada era a sanitária. Com a gripe espanhola cerca de 50.000.000 de pessoas perderam a vida em todo o planeta. Se ela foi mais letal na Europa e Estados Unidos, não poupou vidas nos demais continentes (HOBSBAWM, 1995). Ao estudar a questão do discurso adotado por teólogos e religiosos na África do Sul, Phillips (1987) chegou a refletir o racismo existente, acusando pessoas más (normalmente negras) como as responsáveis pela difusão da infecção. Esta interpretação acabou por fornecer combustível para o apartheid já praticado nesta nação. Outros grupos negaram a existência de uma pandemia, afirmando que os números estavam sendo superdimensionados e que não passava de uma enfermidade passageira. A negação é uma das formas humanas de lidar com a frustração causada pela impotência diante da dor. A grande novidade das interpretações será a compreensão de que a Igreja deve demandar do Estado o cuidado humanitário com o ser humano. A última forma de crise indicada é resultado, quase sempre, de conflitos armados. Trata-se da crise migratória. Quase a totalidade dos migrantes estão em busca de uma condição melhor de vida em relação à sua origem. As guerras sempre deslocam pessoas. No caso das guerras que varreram a Europa nos séculos XIX e XX acabaram por produzir um contingente de quase 40.000.000 de imigrantes somente para os Estados Unidos, Argentina e Brasil. Este tipo de crise ainda se faz presente hoje com os conflitos que arrasam o Oriente Médio. As interpretações na época carregavam a ideia de oportunidade divina (REINKE, 2010). A oportunidade de ocupar terras onde não existiriam as guerras da sua origem. Muitos letos vieram para o Brasil com esta esperança. Neste momento tudo era visto como sendo a vontade do próprio Deus. Ainda hoje temos que lidar com esta crise, porém hoje muitos teólogos vêm tentando caracterizar estes elementos migratórios como sendo de origem meramente religiosa. Se existe o elemento religioso, devemos compreender que as guerras custam muito dinheiro e, se existem pessoas capazes de gastar é porque alguém está lucrando muito com isso (HOBSBAWN, 1998). Se não podemos evitar que as crises, sistematicamente, possam se aproximar de nossas vidas, podemos nos prevenir e buscar interpretações teológicas capazes de gerar crescimento e fortalecimento com vistas à superação delas. O teólogo precisa interpretar de forma profunda a realidade que o cerca, buscando responder de forma profética e profunda aos problemas. É preciso vermos o todo, logo, além da bíblia, devemos portar o conhecimento da atualidade. Sociologia, história, psicologia, entre outras ciências são essenciais para que o teólogo veja além e enxergue a oportunidade do encontro pessoal entre o Deus criador e a sua criatura numa experiência de fé e comunhão. Referências Bibliográficas BAILEY, C. The brotishprotestant theologians in the first world war: guermophobia unleashed. Harvard Theologycal Review, [s.l.], v. 77, no 2, p. 195–221, 1984. HANDY, R. T. THE AMERICAN RELIGIOUS DEPRESSION , 1925-1935. Church history, [s.l.], v. 29, no 1, p. 3–16, 1960. HOBSBAWM, E. Era dos Extremos: o breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das letras, 1995. HOBSBAWN, E. sobre história. São Paulo: Companhia das letras, 1998. PHILLIPS, H. Why did it happen? Religious and lay explanations of spanish flu epidemic of 1918 in South Africa. Kronos, [s.l.], v. 12, no 1, p. 72–92, 1987. PINSKY, J. As Primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2011. 125 p. RATO, H. Crise e democracia: resolução da crise e aprofundamento da democracia. In: FERREIRA, E.; OLIVEIRA, J. P.; MORTÁGUA, M. joão (Orgs.). Investigação e prática em economia. 1 ed. Parede: Princípia Editora, 2008. p. 175–194. REINKE, A. D. Os pioneiros 1910-2010: 100 anos de história da Covenção Batista Pioneira do sul do Brasil. 1 ed. Curitiba: Convenção Batista Pioneira do sul do Brasil, 2010.

Nilton Torquato
Nilton Torquato
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15 de julho de 2020 • 4 min. de leitura

VOU PESCAR!!

“Vou pescar”. Essas foram as palavras de Pedro, registradas por João em seu Evangelho no capítulo 21. “Disse-lhes Simão Pedro: vou pescar. Disseram-lhe os outros: também nós vamos contigo. Saíram, e entraram no barco, e, naquela noite, nada apanharam”. João 21:3. Pensaram ser uma boa ideia, afinal, não tinham nada para fazer. O contexto nos leva para as narrativas sobre a morte e ressurreição de Jesus. E esta é a terceira vez em que Jesus aparece para os discípulos após sua ressurreição. Nesta ocasião, os discípulos estavam no mar de Tiberíades, tentando esquecer os últimos acontecimentos. Vários deles eram pescadores quando Jesus os convocou anos antes para deixarem suas redes e se tornarem pescadores de homens. Três anos haviam se passado desde este convite. Por três anos andaram com Jesus, que em tudo os instruiu, além de partilharem de uma comunhão íntima com o mestre. Durante este tempo Jesus compartilhou sobre sua missão aqui na terra e de como um dia morreria crucificado para salvar “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Lucas 10:6). Porém, após a morte de Jesus esses mesmos discípulos ficaram perdidos, como que sem rumo, sem o mestre e, como sem saber o que fazer dali em diante, tiveram a ideia de retornarem para o antigo meio de vida, a pescaria. Pedro tomou a iniciativa e todos concordaram com ele. Estavam passando por uma crise. Pescaram a noite inteira e nada conseguiram pegar, nenhum peixinho. Jesus então, já ressuscitado, resolve lhes fazer uma visita ao clarear da madrugada e lhes preparar um café. Café com pão e peixe assado. Que bela surpresa!! Sob a ordem de Jesus lançaram a rede novamente e pegaram muitos peixes. Ao redor da fogueira inicia-se uma longa conversa. O narrador não revela todos os detalhes desse papo, mas posso imaginar o rumo que tomou a conversa. Jesus, conhecendo a natureza humana diante das crises e das dificuldades veio para o meio deles para novamente fazê-los entender qual era a missão de cada um, a razão de terem sido escolhidos para andarem com ele aqueles três longos anos. Jesus também aproveitou a oportunidade para tratar com Pedro. Pedro, que o havia negado na hora crucial, na hora em que ele mais precisava de apoio: “não o conheço!” Palavras que podem ferir profundamente, se pronunciadas por alguém que você ama. Por três vezes Pedro negou a Jesus. Por três vezes nessa conversa Jesus pergunta para Pedro: “tu me amas”? Pedro se irritou, mas Jesus o restaurou, como que dizendo, “está tudo bem Pedro”. Deu a ele uma missão clara e ainda lhe revelou como morreria. Desse café da manhã preparado por Jesus para os seus discípulos podemos aprender como Jesus nos trata quando estamos em crise. Os discípulos estavam enfrentando uma crise, talvez uma das mais difíceis de suas vidas, pois estavam sem direção. Haviam perdido o mestre, estavam sem chão, sem âncora, sem rumo. Jesus não chegou acusando a nenhum deles, não chegou condenando, não chegou criticando, não chegou dando “um sermão”. “Que vergonha hein gente? Parece que não me conhecem? Que não andaram comigo? Não viram os milagres? Não viram a ressurreição? Que vergonha”! Não. Jesus chegou servindo, chegou para restaurar o que havia sido quebrado. Como seres humanos passaremos por crises, as mais diversas no decorrer da vida. Às vezes teremos o sentimento de que fomos abandonados, que falamos e não somos ouvidos, que estamos sozinhos e queremos retroceder. Somos seres dotados de emoções e às vezes são essas emoções que não nos deixa ver a razão, o óbvio, a direção. E como os discípulos somos tentados a voltar atrás, esquecemos de tudo o que já vivemos com o Senhor, de todas as experiências que tivemos com ele. Mas Jesus sempre virá em nosso socorro para nos fazer enxergar sua bondade, seu desejo de continuar andando conosco, de nos pegar no colo, de nos tomar pela mão e continuar nos guiando. Um pouco antes desse encontro na praia, antes de sua morte e ressurreição, Jesus havia ceado com os discípulos e após a ceia tiveram uma conversa, onde ele os advertiu: “no mundo passais por aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” João 16:33. Ou seja, vocês terão aflições, crises, tribulações, pandemias, mas eu estarei com vocês. Creiamos nisso. Ele estará conosco. A solução nunca será retroceder, voltar atrás. A antiga vida. Jamais! Ele estará conosco todos os dias até que tudo se cumpra.

Malena Clower
Malena Clower
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8 de julho de 2020 • 4 min. de leitura

A crise no contexto missionário: um panorama

A partir da análise de eventos relacionados ao cristianismo dos primeiros séculos, em especial as epidemias sucessivas até meados do século terceiro e a chamada conversão do imperador romano Constantino, no início do século quarto, propomos um paralelo com a conjuntura de 2020. Este paralelo tem como objetivo, através da leitura destes eventos, compartilhar oportunidades e alertas para o comportamento da igreja cristã durante a recente crise que se abateu sobre o mundo com o advento da manifestação da COVID-19, que se materializa em múltiplas crises, seja ela sanitária, econômica e, no caso do Brasil, uma crise política sem paralelos na história da república brasileira. O Movimento Missionário na Igreja Antiga Em seus primeiros séculos, o cristianismo apresenta um movimento descentralizado de evangelismo, partindo dos apóstolos e de seus discípulos diretos. Neste “cristianismo embrionário”, o processo de evangelização e transmissão das boas novas de Cristo acontecia a partir do contato pessoal entre o convertido e o “pagão”, compreendido como o fiel das religiões politeístas tradicionais dos limites do império romano, mas não só. Os territórios “bárbaros” (não romanizados), também contavam com a presença de cristãos, na medida em que este processo acompanhava o avanço de soldados, comerciantes e outras funções que demandassem o deslocamento geográfico por parte destes convertidos. Neste sentido, a pessoalidade estava muito presente neste processo, através do contato pessoal com aquele que conhecia o Evangelho. Neste sentido, as mulheres eram uma grande força missionária, no sentido de serem as primeiras em seus núcleos a conhecerem e propagarem a mensagem de Cristo. Até a segunda metade do século três, diversas epidemias se abateram sobre os territórios mediterrânicos e os cristãos cresceram neste ambiente por duas razões principais. Em primeiro lugar, o senso de comunidade gerado desde o período apostólico fez com que os cristãos cuidassem mais de si mesmos, ao mesmo tempo em que cuidavam dos doentes, que eram descartados pela sociedade romana. Este contato direto com os infectados, levou muitos cristãos à morte e isso trouxe simpatia de camadas mais simples da população romana, desprotegidas pela estrutura oficial imperial. Em contrapartida, a declaração de conversão do imperador Constantino no início do século IV trouxe desafios adicionais, até o momento inéditos para a Igreja Cristã. Se por um lado, o fim das perseguições melhorou a produção teológica que floresce após este período, notoriamente marcada pelos escritos de Atanásio, Jerônimo, Agostinho, entre outros, por outro, a institucionalização do cristianismo pelo império trouxe diversos antagonismos, dos quais destacamos dois de maneira especial. Em primeiro lugar, uma divisão interna entre aqueles que viam com bons olhos a chegada da fé cristã à estrutura imperial e aqueles que viam este novo momento como um desvirtuamento dos ensinos de Cristo com esta aproximação da fé com o império. Em segundo lugar, a associação dos cristãos de maneira direta com o governo imperial, trouxe a hostilização para aqueles que estavam em territórios “bárbaros”, por serem considerados simpatizantes dos romanos. Possibilidades Partindo do exposto até o momento, analisando os feitos da igreja em sua gênese, é possível destacar possíveis oportunidades, além de um alerta para a igreja contemporânea. A pandemia da COVID-19 pode oferecer uma grande oportunidade de aproximação com a sociedade pós-moderna, caso ela ofereça empatia e auxílio para aqueles que estão necessitados. Na medida em que a crise sanitária gera uma crise econômica, o papel da igreja como agente ativo de auxílio e instrumento social de integralidade do evangelho que atinja o indivíduo em todas as suas necessidades será cada vez mais necessário. Como alerta, usando o evento da conversão de Constantino como base de análise, é preciso verificar o papel de parte da liderança protestante brasileira, como elemento ativo no quadro político presente. Quando a igreja demonstra publicamente seu apoio a determinado governo, qualquer que ele seja, automaticamente gerará os efeitos apontados neste artigo: a divisão interna entre os que apoiam e os que desaprovam este apoio, e a hostilidade entre o grupo maior da sociedade que não se identifica ao governo vigente. A reflexão é válida, na medida em que a igreja precisa atentar para seu papel fundamental de fazer discípulos de todas as nações. A igreja tem prevalecido diante dos governos ao longo dos últimos dois milênios. Por esta razão, é condição essencial analisar sua longa história e aprender com ela para direcionar suas ações em nosso presente.

Eduardo Medeiros
Eduardo Medeiros
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2 de julho de 2020 • 8 min. de leitura

Saúde Emocional em Tempos de Crise

Nas últimas décadas, as emoções vêm ganhando um destaque cada vez maior sobre sua importância e o quanto podem ser sensivelmente impactadas pelas crises, afetando a saúde mental e física das pessoas. Entendendo o que é crise Entender o que é crise é o primeiro passo para sabermos o quanto ela afeta a vida das pessoas. A palavra “crise” vem da palavra grega “κρίσις”, que significa: decisão, julgamento. Isso significa que toda crise exige uma resposta das pessoas, e estas normalmente respondem, de uma maneira ou de outra. Não há como não responder a uma crise, do ponto de vista da psicologia, mesmo que seja inconscientemente. O termo “crise” também tem uma gama de aplicações, pois é usado no campo da sociologia, da política, da economia, da medicina, da psicopatologia, e em outras áreas do conhecimento humano. Poderíamos, assim, definir a crise como qualquer situação, seja de que ordem for, que cause: alterações (para melhor ou para pior), estranheza, desconforto, e até a sensação de ameaça, de perda para uma pessoa, povo, nação, entidade, etc, e que exija uma resposta da parte afetada. A classificação das crises pode ser feita de várias maneiras. Por exemplo, elas podem ser classificadas por sua natureza, frequência e também por sua gravidade. Quanto à natureza, existem crises oriundas de desastres naturais, de situações econômicas, sanitárias, crises evolutivas do ciclo de vida do ser humano, crises existenciais, crises emocionais, imaginárias, subjetivas de cada indivíduo, etc. Com relação à frequência, as crises podem ser únicas, episódicas, recorrentes, intermitentes, ou mesmo, crônicas. No que diz respeito à gravidade, elas podem chegar a ponto de serem muito graves, como é o caso do surgimento de uma pandemia. Diga-se de passagem que as crises fazem parte da nossa vida, desde que nascemos até a morte. É impossível viver sem crises. Algumas dessas crises não somente são inevitáveis, mas necessárias para o desenvolvimento humano. Um exemplo disso são as crises próprias do ciclo de vida das pessoas (infância, adolescência, vida adulta e velhice). Cada fase tem suas crises, assim como na transição de uma para outra. Algumas crises não resultam necessariamente em maiores prejuízos ao ser humano, mas podem sim significar crescimento e desenvolvimento, dependendo de como reagimos ou agimos diante dessas crises. Outras, no entanto, têm um impacto muito grande na vida emocional das pessoas, as quais podem resultar em danos à sua saúde mental, e também trazer prejuízos imprevisíveis a outras dimensões da vida da pessoa. Como nos diz Collins (2007), com uma certa poesia, ao discorrer sobre o impacto das crises: […] a crise é um ponto de virada que normalmente não pode ser evitado. As crises podem ser esperadas ou inesperadas, reais ou imaginárias, real (como a morte de um ente querido) ou potencial (como o prospecto de que aquele ente querido morrerá logo). Na maioria das vezes, elas chegam rapidamente, e depois vão embora, deixando uma devastação para trás. Às vezes, elas colidem contra nossas vidas como gigantes ondas contra as rochas – de novo e de novo, vagarosamente nos deixando para baixo (p. 746). A crise emocional, normalmente, está associada a outras crises. Ela dificilmente existe por si só, atingindo a pessoa como um todo, e não apenas a dimensão emocional. Ela afeta o corpo, a parte cognitiva, o comportamento, o trabalho, a vida social da pessoa, etc. É por isso que em um acompanhamento psicológico não se trata apenas a dimensão emocional do paciente, mas também o efeito que isso tem no seu organismo, na sua maneira pensar, e também em outros aspectos e áreas da sua vida. Segundo Thase e Lange (2005, p. 32), a saúde emocional de uma pessoa envolve vários elementos, tais como: equilíbrio (sob várias sortes); sensação de bem estar, na maior parte do tempo; bom humor; sensação de controle da própria vida; relacionamentos satisfatórios; ser produtivo; suportar perdas, contratempos e frustrações; autoconfiança; dedicar-se a vários interesses; sentido de vida. Numa crise, seja de que ordem for, esses vários aspectos da saúde emocional de uma pessoa são colocados em cheque. Um exemplo da associação entre as crises, citamos a atual pandemia do coronavírus, a qual tem impactado a vida das pessoas sob vários aspectos. A Revista Veja, de maio deste ano de 2020, publicou uma edição especial sobre saúde. Dentre os artigos, havia um que tratava do impacto da pandemia na vida dos brasileiros (“A pandemia oculta”). Nele, o jornalista André Biernath reporta uma pesquisa feita pela Área de Inteligência de Mercado do Grupo Abril, em parceria com a MindMiners, com 4.693 brasileiros, evidenciando o impacto da pandemia em nosso país. Dentre as consequências para a saúde mental, cita: crises de ansiedade, depressão, aumento de suicídios, violência doméstica (aumento de 30% em março/2020), aumento de divórcios (E.g. China), problemas relacionados ao luto, visto que muitas famílias estão sendo impedidas de enterrarem os seus entes queridos. As estatísticas, veiculadas pela reportagem, retratam o impacto emocional na vida dos brasileiros: 54% se sentem preocupados com a situação da Covid-19; 76% temem a superlotação dos hospitais, de modo que não seja possível atender todos os doentes; 70% estão com medo do desemprego e da segurança de amigos e familiares; 70% estão encucados com a possibilidade de sofrer cortes de salário ou perder direitos trabalhistas; 59% dizem que a palavra “insegurança” é o que mais define seus sentimentos com relação à Covid-19; 47% afirmam que têm dificuldade para relaxar; 23% não conseguem dormir. Propostas para enfrentar as crises As propostas para enfrentar as crises são muitas, felizmente. A psicologia não somente trabalha essencialmente na(s) crises(s) como também faz diversas intervenções para ajudar os seus clientes/pacientes para enfrentar e, se possível, superar as crises. Vários especialistas da área da saúde entrevistados na reportagem anteriormente citada, sobre o que fazer nesse momento de crise pandêmica, recomendam às pessoas: praticar meditação, fazer dieta de notícias, ou seja, não ver reportagens sobre o assunto mais do que duas vezes por dia; usar os meios disponíveis para o contato social; procurar fazer algo para relaxar – jogar, ver TV, ler um livro etc. A pesquisa constatou que 64% acessam a internet para tentar preservar a saúde durante a quarentena; 50% preferem ver TV, enquanto que 48% leem, 31% praticam exercícios e 18% meditam. Além das recomendações acima, o artigo enfatiza aquilo que é a recomendação praxe da área da saúde para todas as pessoas, o que também ajuda na esfera emocional: o descanso noturno, tomar sol todos os dias (para liberação da serotonina, o hormônio do bem-estar), praticar exercícios físicos regularmente, ter uma dieta saudável e praticar a solidariedade. Existem muitas outras intervenções específicas para ajudar as pessoas a enfrentarem as suas crises, dependendo da abordagem do profissional e também do tipo de crise vivida pela pessoa. Apenas para citar duas dessas intervenções, muitas vezes, paradoxais da psicologia, vale até a recomendação para que a pessoa fique na crise, ou mesmo provoque uma crise, para resolver outras questões na sua vida. Conclusão Mesmo numa situação grave de pandemia, pela qual passamos, podemos aproveitar o momento para nos reinventar, aprendermos muitas coisas, aprendizados estes que poderão enriquecer a nossa vida, nos preparando para uma qualidade de vida melhor depois que a crise passar, e para enfrentarmos outras crises que, com certeza, aparecerão. O psicólogo canadense, Steven Taylor, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Columbia, no Canadá, escreveu um livro sobre a pandemia, em dezembro de 2019, um pouco antes do Coronavírus aparecer, antecipando algumas previsões sobre a pandemia seguinte, que assolaria a humanidade. Disse em tom profético: Em pandemias anteriores, as pessoas também foram solicitadas a se isolar […]. Nós temos precedentes. A boa notícia é que os humanos sobreviveram a muitas pandemias no passado. Muitas, muitas outras mais sérias que esta, então vamos sobreviver. As pessoas costumam esquecer, mas é importante saber, perceber ou lembrar que os seres humanos são resilientes. Nenhum de nós gosta de ficar socialmente isolado, não gostamos do fato de não podermos continuar com nossa vida, achamos estressante, mas vamos sobreviver. Nós vamos lidar com isso. Assim como as pessoas no passado lidaram com pragas e outras pandemias. Fonte: https://apublica.org/2020/03/a-historia-nos-ensinou-que-as-pessoas-sao-resilientes-diz-autor-do-livro-a-psicologia-da-pandemia/ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: COLLINS, G. R. Christian counseling : a comprehensive guide. 3ª ed. USA: Thomas Nelson, 2007. GERRIG, R. J.; ZIMBARDO, P. G. A psicologia e a vida. 16ª ed. Porto Alegre : Artmed, 2005. TAYLOR, Steven. The psychology of pandemics : preparing for the next global outbreak of infections disease. 2009. THASE, Michael E. Sair da depressão: novos métodos para superar a distimia e a depressão branda crônica. Rio de Janeiro: Imago, 2005. REVISTA VEJA, No 455, Maio/2020.

José Godoi Filho
José Godoi Filho
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25 de junho de 2020 • 9 min. de leitura

A crise como sistema natural do desenvolvimento do cristianismo

As crises para o cristianismo são mais comuns do que os momentos de normalidade. O próprio Cristo surge em um momento de crise, a anunciação do seu nascimento gera uma crise entre Maria e José, que é superada pela fé. Pouco tempo depois do nascimento esta família se vê emigrante, parte para um país desconhecido fugindo de uma perseguição governamental. Jesus nasce em uma nação dominada por um governo estrangeiro, e aliás, é de longa data que os judeus não tinham um governo autônomo. Jesus viveu na Galileia, governada por um rei marionete de Roma. E foi morto na Judeia, uma província romana, administrada por um governador romano. O cristianismo primitivo se desenvolveu dentro dos domínios do Império romano, assim como todos os documentos que se tornaram o Novo Testamento foram escritos dentro dele. (BORING, 2015, p. 127) Desde o exílio babilônico não souberam mais o que era ser um país independente, os governos ádvenas passavam, mas salvo por um curto espaço de tempo, na revolta dos Macabeus, Israel nunca mais voltou a ser uma nação. Depois da Babilônia, os Persas, depois os Gregos, ptolomeus/selêucidas e por fim Roma. E é na plenitude dos tempos, sob o domínio e o “progresso” romano que o cristianismo surge e se desenvolve. Porém, surge na Palestina o domínio romano, onde os Judeus viviam sob a regência local por um lado, com Herodes Antipas, um “Rei” fantoche colocado por Roma e por outro, do governo direto da própria Roma, representado por Pôncio Pilatos. Obviamente a grande maioria da população judaica não se via representada por nenhuma das duas figuras, pois o próprio Herodes Antipas não tinha uma linhagem pura judaica. Desta forma, o domínio romano apresentava dificuldades tanto na esfera política, quanto na esfera econômica, principalmente para os pobres, isto é, para a grande maioria da população judaica. Estrutura Social /Religiosa A palestina na época de Jesus era pobre, a concentração de renda ficava na mão de uma minoria, a classe média era praticamente inexistente, excluindo aqueles que viviam em Jerusalém e que conseguiam subsistir com um pouco mais de recursos. Este quadro era obviamente agravado pelos tributos a serem recolhidos, para o governo local, para Roma e para o próprio templo. Do ponto de vista socioeconômico, podem-se distinguir na população Palestina três camadas: a classe rica e poderosa, a classe média e os pobres. À classe rica e poderosa pertenciam os príncipes e os membros da família real de Herodes, assim como os altos dignitários da corte, além das famílias da aristocracia sacerdotal e leiga, dos latifundiários, dos grandes comerciantes e dos cobradores de impostos. A classe média, muito reduzida, existia praticamente só em Jerusalém, já que suas fontes de renda procediam do templo e dos peregrinos. Era formada pelos pequenos comerciantes, pelos artesãos proprietários de suas oficinas, pelos donos das hospedarias e pelo baixo clero. À classe pobre, que constituía a imensa maioria da população, pertenciam os assalariados, tanto operários como camponeses, os pescadores, os inúmeros mendigos e, finalmente, os escravos. (MATEOS; CAMACHO, 1992, p. 19) Compunha a tríade da elite administrativa/econômica a religiosa, que também era a responsável “jurídica/religiosa” da sociedade. Esta elite, dividida por algumas interpretações teológicas particulares, gravitava ao redor das sinagogas e do templo. Cabe salientar que a sinagoga era uma representação religiosa mais próxima do povo, servindo inclusive para o fortalecimento de vínculos sociais e de educação já que o templo era mais institucionalizado, distante, quase inacessível, formalíssimo e de estrutura rígida. A rigorosa observância religiosa era quase inacessível ao povo que sucumbindo com a inadiável tarefa de sobreviver tinha grandes dificuldades de cumprir todas as normas e rituais, e desta forma sobrevinha a somar o peso da miséria ao da desobediência a preceitos divinos. Jesus demonstra a brutal inversão de valores na interpretação das Escrituras e a opressão que causava aos mais pobres, na resposta a questão do sábado: “Deus criou o sábado para o homem, ou o homem para o sábado?”, uma pergunta retórica, uma vez que nela própria apresentava-se a resposta que calou seus inquisidores. (Mc. 2.23-28) Desta forma podemos perceber um crescente embate entre o sistema religioso judaico e Jesus, embate esse que fica cada vez mais saliente e tem um dos seus clímax apresentado no relato da chegada de Jesus no templo e o confronto com os negociantes. O templo tinha sua própria moeda, uma vez que as moedas romanas não poderiam entrar no mesmo, e assim o templo tinha o “seu” câmbio. E este dinheiro seria usado para a compra do animal para o sacrifício que todo judeu deveria providenciar, assim, ao redor do templo formava-se um grande comércio religioso que achacava a já pobre bolsa do fiel. Jesus fica claramente escandalizado e age de forma a demonstrar sua revolta com o que estava acontecendo em um local que deveria ser de acolhimento, auxílio e confraternização, principalmente ao mais fragilizado. O templo realizava liturgia esplendorosa, sustentada pelo imposto religioso anual, o dinheiro dos sacrifícios e dos donativos voluntários dos fiéis. Já os profetas denunciaram o culto hipócrita que encobria a injustiça (Is 1,10-17; Jr 7,1-11); Jesus vai além ao denunciar o próprio culto como exploração do povo (Jo 2,16; Mc 11,17 e paralelos). Nunca aparece no evangelho participando das cerimônias do templo; aí vai por ocasião das grandes festas, e para ensinar às multidões que ocorriam da Palestina e do estrangeiro. (MATEOS; CAMACHO, 1992, p. 69) A crítica à estrutura do templo começa com João Batista. Seu ministério era totalmente alternativo, e é possível que se opusesse ao templo, ainda se, se considerar a hipótese de sua origem for do grupo dos essênios. Jesus ao aceitar o batismo de João Batista de certa forma alinha-se com esta posição. E é a partir do escalonamento da crise entre Jesus e o sistema religioso que ocorre a ação derradeira, o planejamento da prisão de Jesus e a sua apresentação frente ao sistema Religioso/Judicial. Qual a acusação formal de Jesus perante o Sinédrio? A primeira vista era a de blasfémia (HAMM, 2020). Claro que o que estava por trás era o medo do confronto e que Jesus de alguma forma representasse a liderança de um movimento que pudesse acabar em alguma agitação ou tumulto que seria um risco para a manutenção da elite religiosa e política, principalmente se este agito resultasse em alguma ação romana. Mas logo percebesse que o julgamento e execução de Jesus pelo Sinédrio poderia apresentar-se como um problema ainda maior, se fosse o estopim de algo maior, então melhor seria “transferir o problema” para a administração romana, mas a acusação de blasfêmia não significaria nada para a legislação romana. A acusação para ser efetiva ao código romano teria que ser de sedição e efetivamente é esta a acusação que leva Jesus a cruz, mais por pressão do que por provas efetivas. É neste ambiente de crise que se cumpre a promessa do Antigo Testamento e os evangelistas conseguem interpretar estes atos e identificar com as profecias e o simbolismo através do sacrifício do cordeiro pascal que tira o pecado do mundo. Na sua morte e ressurreição Jesus também efetiva a desnecessidade do Templo, eis mais uma vitória de Jesus. O cristianismo, pós Jesus – a continuidade da crise. A história com a igreja primitiva não foi diferente, cresce e se fortalece em um ambiente hostil, primeiro dentro do judaísmo, onde precisa romper os laços e ser considerada uma seita judaica, e então a perseguição formal, tanto em Jerusalém quanto nas demais cidades onde houvesse a tentativa da pregação da mensagem cristã em uma sinagoga. (MEEKS, 1996). Com o desenvolvimento da igreja, a conversão de judeus e gentios acaba chamando a atenção da população nas cidades em que o cristianismo se estabelece, e sua mensagem causa em muitos locais estranheza e desconfiança. Percebemos nas Epístolas Gerais que a mensagem cria uma crise na sociedade local, ao ponto de haver acusações falsas aos cristãos. Além disto, também se percebe as crises internas nas igrejas em que as novas exigências éticas confrontam os velhos hábitos. E na evolução da história da igreja nota-se o agravamento da crise, chegando ao ponto de institucionalizar-se com a perseguição do governo romano, levando aqueles que professavam a fé em Cristo a mortes terríveis. Considerações Finais O cristianismo surge em um momento de crise, crise judaica de opressão estrangeira e de opressão interna, em uma sociedade extremamente segmentada. Surge em um ambiente de crise como esperança, como uma fé acessível, como uma mensagem de acolhimento, nasce como voz dos excluídos. Desenvolve-se em um ambiente hostil, em constante perseguição, novamente em locais de morte instituída pelo Estado Romano, mas, é nesta crise que o cristão preso, jogado aos leões coloca toda a sua esperança na transcendência e na persistência dos valores do Reino; é na crise que o cristianismo é relevante; é na crise que se faz a esperança cristã na promessa dos valores eternos. É na crise que o mundo pode compreender quais são os valores eternos, e na valorização da vida humana como criação à imagem e semelhança de Deus que concede a todos indistintamente a dignidade inalienável do ser humano acima de qualquer valor. REFERÊNCIAS BORING, M. E. Introdução ao Novo Testamento – História, Literatura e Teologia. São Paulo: Paulus, 2015. HAMM, M. O Julgamento de Jesus – Ilegalidades Processuais nos Direitos Romano e Hebreu. Jusbrasil. Disponível em: <https://marihamm.jusbrasil.com.br/artigos/196386015/o-julgamento-de-jesus>. Acesso em 03/06/2020. MATEOS, J., ; CAMACHO, F. Jesus e a sociedade de seu tempo. São Paulo: Paulus, 1992. MEEKS, W. A. O Mundo Moral dos Primeiros Cristãos. São Paulo: Paulus, 1996. STAMBAUCH, J. E., ; BALCH, D. L. O Novo Testamento em seu ambiente social. São Paulo: Paulus, 1996.

Roberto Rohregger
Roberto Rohregger
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19 de junho de 2020 • 6 min. de leitura

Retorno a uma Espiritualidade Autêntica

Do grego κρίσεις, a palavra crises é evocada, já há muito tempo, para identificar os desencontros humanos, eventos catastróficos da natureza, ou eventos sociais de descontinuidade do modus operandi em curso, em um dado momento sócio-histórico. A espiritualidade faz parte do mundo da vida, pois está longe de fazer parte do mundo objetivado, onde as suas sessões se realizam em espaços pré-definidos, como se o modus vivendi da espiritualidade fosse programado para responder aos estímulos divinos em uma realidade geometrificada. Para este curto espaço, abordaremos o porquê de as crises impactarem as expressões de espiritualidade, um fragmento de olhar sobre a crise sanitária atual e se podemos esperar um bramido de genuína espiritualidade. As crises Provocam um Retorno ao Pensar na Existência Além de Si Em um de seus melhores livros – Crime e Castigo, Dostoiévski nos apresenta um homem religioso, que ao mudar para a capital Russa (1712-1918), São Petersburgo, para estudar direito na universidade, se distancia da tradição religiosa doméstica e se torna um misto de gente, inclusive com traços de ateísmo. Uma grande crise na sua vida, um duplo assassinato, lhe faz voltar a se importar com as “insignificâncias” da vida, como ajudar uma viúva pobre que perdera seu marido e a resgatar uma jovenzinha da prostituição e o livro termina com este jovem Rodion Românovitch Raskólnikov na prisão, com um ar esperançoso para encontrar um sentido real para a vida, Dostoiévski lhe deixa com um Novo Testamento, velho e amarelado nas mãos. O Antigo Testamento descreve a peregrinação espiritual de um rei chamado Davi. Este homem vive a espiritualidade do mundo da vida, onde ora, faz confissões maravilhosas sobre Deus e seu inabalável caráter, ora está distante de um relacionamento religioso autêntico. Mas, as crises lhes trazem à mente os melhores cânticos, os mais belos poemas. O Novo Testamento nos mostra Paulo vivendo uma vida de prazer cristão exemplar, mas uma crise, talvez do não reconhecimento do seu apostolado (2 Co 9.11), o que lhe faz deixar um legado escriturístico belo (minha graça te basta, o meu poder se aperfeiçoa na tua fraqueza (2 Co 12.9). Isso é muito próximo da realidade de homens e mulheres no modus vivendi da sua jornada de espiritualidade. As grandes crises da história mostram exatamente o mesmo comportamento humano. No estudo da história se diz que “a história não é professora de ninguém”. Segundo algumas pesquisas, depois do 11 de setembro de 2001, aumentou o número de casamentos, de natalidade, de assiduidade nos templos religiosos, na generosidade dos americanos, entre outros dados positivos, para o período. Mas depois de passado um tempo, o que ficou foi o aumento da desconfiança com o estrangeiro de ascendência árabe; o divórcio ofuscou o casamento; o controle de natalidade ofuscou o acostumado viver a dois ou a sós; a agenda do entretenimento tomou o seu lugar de volta e empurrou a frequência dos cultos religiosos no colo da secularização. A generosidade, como um traço humanista permanece, mas por razões religiosas ou culturais. Mas, alguma coisa sempre fica, no campo humano, bem como na relação com a espiritualidade, da trajetória histórica das crises intramundanas. Espiritualidade e a Presente Crise A crise que ora atravessamos tem servido para vermos o quanto a humanidade é frágil na sua individualidade, e empurrado, do mundo de sistemas individualista para o mundo da vida, da partilha, experiências sócio-humanas que refletem como vemos a nós e o outro. Peter L. Berger e Thomas Luckmann afirmam que “a realidade é construída socialmente”. Isso tem implicações para a teologia, mas concordo em grande parte com esta afirmação. No caso do que ora vivemos, não é a pandemia construidora da realidade que se apresenta, mas as ações dos atores sociais em razão dessa realidade extra mundo social. O vírus é apenas uma realidade contingencial, não possuindo sentido social nele mesmo. Não podemos negar, no entanto, que grandes avivamentos foram precedidos por crises e transformações sociais: o impacto da revolução industrial na Inglaterra do século XVIII e XIX; A guerra fratricida entre os Zulus; a própria Reforma Protestante… Apesar do vírus ser uma realidade contingencial, não podemos negar, que em situações como essas, Deus se manifesta, falando mais alto, causando impactos existenciais e despertando homens e mulheres para uma vida mais significativa – mais perto de Deus e mais perto das instâncias intramundanas. A duração disso pode ser questionada, mas o seu acontecimento é real. Acredito que possa haver, neste tempo, maridos se convertendo às suas esposas, esposas se convertendo aos seus maridos, pais se convertendo a seus filhos, filhos se convertendo aos seus pais, irmãos se convertendo a irmãos. Estamos mais sensíveis para enxergar que a religião não cria um grupo de elite, mas todos são frágeis, caminhando na mesma estrada, clamando pelo salvador – “Jesus, filho de Davi tem compaixão de mim”. Apesar de saber que também é tempo de distanciamento familiar, muitos não tem conseguido viver a vida comum do lar. O que esperar? O cerne da piedade cristã é: “Ama o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de todo o teu entendimento e de toda a tua força e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27). Dessas duas sínteses magnas religiosas, emergem a compreensão de uma vida piedosa autêntica, de onde faz surgir respostas autênticas, nutridoras de mentes em constante renovação, para pureza ética, moral e espiritual, como um ato que vai se dando reflexivamente. Pode-se dizer: Pelas Escrituras eu conheço o meu Senhor, seu modus e respondo com a Coram Deo – a vida perante Deus. Por outro lado, a segunda síntese religiosa mencionada aponta para uma espiritualidade que se horizontaliza, se expande além de uma relação verticalizada, egoísta, ascética, mas se materializa na compaixão, na busca dos encontros mais inusitados da experiência humana – é vivendo a realidade mística/espiritual e social de “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14) que resgataremos a espiritualidade de encontros e desencontros, mas sempre gritando ao salvador: tenha misericórdia de mim... pecador. Esperamos que a acontecimento social e espiritual dessa crise nos leve para uma espiritualidade que deseja estar mais perto de gente que Deus criou. Soli Deo Gloria

Nonato Vieira
Nonato Vieira